terça-feira, 7 de abril de 2026

The Doors – 2024 Live At Konserthuset, Stockholm September 20, 1968 (Rhino Records, R2 726129, 2 CD, Germany)

 


Genre: Classic Rock / Blues Rock
Country of release: Germany
Year of release: 2024
Publisher (label): Rhino Records
Catalog number: R2 726129
Country of artist (band): USA

CD 1: Early Show (47:25)
1 Five To One (The Doors) (4:47)
2 Love Street (The Doors) (3:12)
3 Love Me Two Times (The Doors) (3:30)
4 When The Music’s Over (The Doors) (13:01)
5 A Little Game (The Doors) (1:50)
6 The Hill Dwellers (The Doors) (2:49)
7 Light My Fire (The Doors) (11:37)
8 The Unknown Soldier (The Doors) (6:37)

CD 2: Late Show (01:13:32)
1 Five To One (The Doors) (7:30)
2 Mack The Knife (Bertolt Brecht/Kurt Weill) (1:45)
3 Alabama Song (Whisky Bar) (Bertolt Brecht/Kurt Weill) (1:24)
4 Back Door Man (Willie Dixon) (4:33)
5 You’re Lost Little Girl (The Doors) (3:24)
6 Love Me Two Times (The Doors) (3:45)
7 When The Music’s Over (The Doors) (13:56)
8 Wild Child (The Doors) (2:35)
9 Money (That’s What I Want) (Janie Bradford/Berry Gordy) (3:23)
10 Wake Up! (The Doors) (1:47)
11 Light My Fire (The Doors) (11:58)
12 The End (The Doors) (16:32)

MUSICA&SOM ☝


Agent Steel – No Other Godz Before Me (2021)

 


Artist: Agent Steel  Genre: Speed | Power Metal  

Tracklist:

01. Passage to Afron-V (2:15)
02. Crypts of Galactic Damnation (4:11)
03. No Other Godz Before Me (4:37)
04. Trespassers (4:01)
05. The Devil’s Greatest Trick (4:16)
06. Sonata Cosmica (4:32)
07. Veterans of Disaster (4:48)
08. Carousel of Vagrant Souls (3:26)
09. The Incident (3:06)
10. Outer Space Connection (3:03)
11. Entrance to Afron-V (2:27)

Band:

Bass – Shuichi Oni
Drums – Rasmus Kjær
Guitar – Nikolay Atanasov, Vinicius Carvalho
Vocals – Johnny Cyriis

MUSICA&SOM ☝



Farm Aid, Huntington Bank Stadium, Minneapolis, 9-20-2025, Part 2: Wynonna Judd

 

O segundo álbum do concerto Farm Aid de 2025 é um trabalho de Wynonna Judd.

Judd é uma grande estrela da música country que vendeu milhões de álbuns, primeiro como parte da dupla The Judds com sua mãe, Naomi, e depois em carreira solo. A famosa atriz Ashley Judd também é sua meia-irmã.

Aqui está a entrada dela na Wikipédia:

Este álbum tem 30 minutos de duração. 


MUSICA&SOM ☝





01 talk by Angie Craig (Wynonna Judd)
02 I Saw the Light (Wynonna Judd)
03 Rockin' with the Rhythm of the Rain (Wynonna Judd)
04 Rock Bottom (Wynonna Judd)
05 talk (Wynonna Judd)
06 She Is His Only Need (Wynonna Judd)
07 talk (Wynonna Judd)
08 Why Not Me (Wynonna Judd)
09 talk (Wynonna Judd)
10 No One Else on Earth (Wynonna Judd)



ROCK ART


 

Vivo! - 1976 - Alceu Valença

 

 

1 - O Casamento da Raposa com o Rouxinol 
Alceu Valença
2 - Descida da Ladeira
Alceu Valença
3 - Edipiana Nº 1
Alceu Valença - Geraldo Azevedo
Emboladas
Treme Terra - Beija Flor
4 - Você Pensa
Alceu Valença
5 - Punhal de Prata
Alceu Valença
6 - Pontos Cardeais
Alceu Valença
7. Papagaio do Futuro
Alceu Valença - Geraldo Azevedo
Emboladas
Treme Terra - Beija Flor
8 - Sol e Chuva
Alceu Valença



Músicos
Flauta: Zé da Flauta
Guitarra: Paulo Lampião Rafael Ukulêle, Viola de 10 e 12
Cordas: Zé Ramalho da Paraíba
Bateria e Percussão: Israel
Percussão: Agrício Noya
Baixo: Dicinho
Viola e Violinha: Alceu Valença

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Alceu Valença foi o primeiro artista a fazer a fusão do ritmo nordestino com o rock a ganhar notoriedade nacional.  Raul Seixas até já havia misturado Elvis com Luiz Gonzaga (Let Me Sing, Let Me Sing - 1972) e também gravado com o grupo que acompanhava Jackson do Pandeiro (As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor - 1974), mas isso não se perpetuou como marca da sua música. Alceu juntou uma postura do rock psicodélico do fim de 60 e início dos 70 com as raízes musicais nordestinas. Em 1976 Alceu lançou o disco Vivo! registrando o repertório do show Vou danado pra Catende, cujo repertório ia além do seu primeiro disco solo Molhado de Suor (1974). 

Hoje o repertório desses primeiros discos não causam tanta estranheza entre os "forrozeiros" e "roqueiros", depois de desdobramentos como o Manguebeat, era de se esperar.  Tive a oportunidade de testemunhar o Show Vivo! no Festival Psicodália (em Santa Catarina na passagem de 2012 para 2013) e vi muitos jovens cabeludos chacoalhando a cabeleiras ao ouvir versos como "eu desconfio do cabelo longo de sua cabeça se você deixou crescer de um ano pra cá"!




Da lama ao caos - 1994 - Chico Sciense e Nação Zumbi

 

  
 
1 - Monólogo ao pé do ouvido / Banditismo por uma questão de classe
Chico Science
2 - Rios, Pontes & Overdrives
Chico Science - Fred Zero Quatro
3 - A cidade / Boa noite do Velho Faceta (Amor De Criança) (Música Incidental)
Chico Science
4 - A Praieira
Chico Science
5 - Samba Makossa
Chico Science
6 - Da lama ao caos
Chico Science
7 - Maracatu de tiro certeiro
Chico Science - Jorge Du Peixe
8 - Salustiano Song
Chico Science - Lúcio Maia
9 - Antene-se
Chico Science
10 - Risoflora
Chico Science
11 - Lixo do mangue
Lúcio Maia
 
Edição em CD
12 - Computadores fazem Arte
Fred Zero Quatro
13 -  Côco Dub (Afrociberdelia)
Chico Science

Músicos
Chico Science – Lúcio Maia – Alexandre Dengue - Toca Ogan - Canhoto - Gira - Gilmar Bola 8 - Jorge du Peixe
 
Convidados
André Jung - Chico Neves - Liminha
 
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Um álbum colossal, o primeiro de vários que, unindo a tradição à modernidade tecnológica e musical, marcariam a história do movimento Manguebeat. Puristas de tribos diversas torceram o nariz. O tempo tratou de certificar a força do som da Nação Zumbi (e já se foram mais de 30 anos), trovejando tambores e riffs de guitarra como molduras para a crítica social à ordem destrutiva que insiste em perdurar.




Faith No More – Sol Invictus (2015)


Ah, os gloriosos anos 90.

A 7 de Abril de 1998 estive no Coliseu dos Recreios, naquele que viria a ser o último concerto dos Faith No More (FNM) durante dez anos. Era a terceira vez que os via ao vivo, depois da primeira parte de Guns n Roses no Estádio de Alvalade e num espectáculo em nome próprio no Campo Pequeno. 13 dias depois do Coliseu, era oficial, a banda acabara “amigavelmente”.

Foi aí que terminou a última parte da primeira vida da banda, que mesmo até então foi marcada por conflitos, saída e entrada de membros (é um cemitério de guitarristas), êxitos, fãs leais, hardcore e romance. Depois, nos 11 anos seguintes, só houve nostalgia e silêncio da banda que influenciou gente desde os Nirvana, os Alice in Chains, os Metallica ou os próprios Guns.

Em 2009, surge uma reunião para tocar ao vivo, coisa que foi sendo feita, de forma intermitente (mas com passagem bem sucedida por Portugal) até 2014. Até que surge uma mensagem no site da banda: “A ‘Reunion Tour’ acabou. Em 2015 as coisas vão ser diferentes”. E o resultado chegou, com o primeiro disco de Faith No More em 18 anos: Sol Invictus.

Para situar este disco é preciso, mais uma vez, ir atrás. Angel Dust, de 1992, marcou o pico da carreira destes rapazes. O facto de o disco  (já o seu quarto) ter surgido em plena enxurrada grunge levou muita gente ao engano e a coloca-los no mesmo saco. Nada a ver. Até 1992, os FNM faziam uma espécie de hip-hop rock, com algum funk à mistura, uma espécie de Red Hot Chili Peppers com heavy metal nas veias. Com Angel Dust, foram metidos na gaveta grunge, da qual nunca comungaram nada a não ser espaço nobre na saudosa MTV de então. Mas, já nessa altura, os FNM eram inqualificáveis. O seu som, fruto da forte e ampla raiz do “rock”, era uma misturada de tudo: metal, pop, funk, hip-hop, e até calypso e música de casino. As imagens de marca eram três: o registo épico com base em sintetizadores tudo menos saltitões; as guitarras a roçar o metal; e uma inesgotável capacidade de, absorvendo e devolvendo todas as influências, conseguirem envolver sempre tudo em melodias pop de primeira água.

Isto era verdade em 1992, continuou a sê-lo nos dois desvalorizados discos seguintes, e é verdade em 2015.

Com Sol Invictus, temos os Faith no More de volta. Isto quer dizer, muito simplesmente que aos primeiros segundos de cada tema é inegável que banda estamos a ouvir. Ninguém faz aquele som, ninguém agrega tamanha agressividade e tamanho sentido da melodia, ninguém compõe desta forma, ninguém oscila – entre o canto perfeito e o grito raivoso – como Mike Patton.

O disco começa com o tema “Sol Invictus”, um dos primeiros avanços do álbum. É uma melodia simples, lenta, ameaçadora, com um refrão bonito mas com nuvens por cima, parecendo sempre prestes a ser palco de uma típica explosão à la Faith no More, mas que nunca chega.

A explosão está guardada logo para o tema seguinte, “Superhero”. Aqui sim, um tema vintage da banda, movido a baixo pulsante, a guitarra e a bateria, com Patton vestindo o seu fato de psicopata, enquanto canta sobre o perigo dos que se acham “leaders of men”. Um dos pontos altos, logo a abrir.

Segue-se “Sunny Side Up”, mais uma vez com o baixo de Billy Gould a mover as coisas, num tema pop e desiludido, que prometeria fazer história na tabela dos singles, se tal coisa existisse neste universo de boys-band e ringtones.

“Separation Anxiety” é um dos temas mais negros da carreira da banda. Patton canta impaciente, como um lobo que ronda nervosa e ansiosamente a cabana do capuchinho vermelho. Quem temia que os FNM tivessem amaciado com a idade, aqui fica a prova de que tal não aconteceu.

“Cone of shame” vai pelo mesmo caminho. Um começo incómodo e de mansinho, até descambar numa clareira de gritaria a roçar o hardcore dos velhos tempos.

Segue-se “Rise of the fall”, assente num estranho arranjo rítmico quase de cha-cha-cha, mas que se desenvolve em crescendo até redundar num tema clássico Faith no More, com os sintetizadores a forçarem a nota épica.

“Black Friday” traz-nos uma rara guitarra acústica. Mas calma, isto não são os Extreme, e as seis cordas servem apenas para conduzir a primeira parte do tema até Patton começar a gritar “Buy It!”, dando a deixa à guitarra eléctrica para começar a fazer estragos. Um dos temas mais ligeiros e mais descontraídos do disco, trazendo de volta o estilo cool de Patton de entregar a letra quando não está virado para a gritaria. Mais um compêndio de músicas dentro de uma música, desta feita dedicada ao alegre consumismo que nos aliena.

A temperatura volta a subir, e de que maneira, com “Motherfucker”. Um dos primeiro temas do disco a ser avançado em concerto, a agressividade vem, aqui, da letra, uma diatribe zangada e crítica contra as mentiras do modelo actual de sociedade.

“Matador” é uma canção movida a piano, instrumento que Patton assumiu ter desempenhado um papel importante na composição da estrutural de muitos dos temas. É talvez a música menos memorável do disco, embora tenha potencial pop. É salva sobretudo na parte final, uma aceleração típica dos Faith no More dos anos 90, que faz tudo valer a pena.

A despedida faz-se, ironicamente, com “From the dead”, que ilustra bem o regresso do além destes norte-americanos a rondar os 50 anos. Aqui temos novamente a guitarra acústica, desta feita como estrutura do princípio ao fim da canção, num tema pop e positivo que é o joker do disco, parecendo relativamente deslocado e não fazendo nele grande falta.

Em suma, Sol Invictus é um belo cozinhado do típico guisado Faith no More. Influências, estilos, músicas dentro de músicas, agressividade, crítica social, irreverência. No plano alargado da carreira desta banda, fica talvez aquém da energia quase adolescente de The Real Thing, ou da magnificência opulenta de Angel Dust, o disco no qual todos os astros se alinharam para deixar para a história um registo perfeito. Para nós, é um regresso de uma banda que tem uma voz e que, tanto tempo depois, não a perdeu nem a diluiu. Para os fãs, será um regalo. Para os outros, um disco que ignorarão, para mal dos seus pecados.

O mundo, em 2015, precisa de mais discos, e de mais bandas, assim.


The Weather Station – Loyalty (2015)


Para mim a beleza vale cada vez mais por si mesma. Essa é uma das coisas que mais tenho sentido: que há coisas às quais há muito pouco a acrescentar, a apreender (o que implica inevitavelmente um processo de apropriação) ou a explicar: como o último disco de Tamara Linderman, com o curioso nome artístico The Weather Station. Deu-me pouca vontade de o desconstruir, passando-o para o papel – o que já trai a minha afeição por ele, tanto porque lhe transforma a natureza (foi feito para ser ouvido), como pelo facto desse processo ser indirecto (e eu sei incomparavelmente menos sobre ele que a sua autora: o que, sendo a minha opinião muito pouco relevante para os fãs da canadiana, valerá enfim, como a beleza, apenas por si mesmo).

De qualquer forma, se servir para que alguém oiça pela primeira vez não deixará de ser interessante (se não servir, oiço-o eu com prazer). Loyalty é um disco de folk, só que não (para utilizar a expressão que Tamara utiliza quando se refere à sua descoberta de que, afinal, as canções country não falam apenas de viagens); é um disco de uma subtileza e de um classicismo que evoca naturalmente a música folk, mas isso é dizer muito menos sobre ele do que falar dele simplesmente como um grande disco; o que conta é, afinal, muito mais o facto de Tamara ser uma belíssima compositora, independentemente do género de que se serve (ou melhor, em que a enquadramos), do que propriamente as comparações com nomes passados – o que não significa que seja possível alguém não se recordar de Joni Mitchell, se já a tiver ouvido com alguma atenção, enquanto ouve este disco (e o primeiro momento em que tal ideia passa a certeza é o início da segunda canção). Mas se recorda é pelos motivos certos: subtileza, um sentido melódico fantasticamente desenvolvido e uma recusa absoluta de um estilo histriónico, adolescente ou encoberto: Tamara conhece bem cada palavra que canta e sabe esse segredo fantástico que é conhecer a forma de as cantar e de as enquadrar na melodia com inteligência, com delicadeza e sem adornos desnecessários, tirando partido de uma voz que tudo sabe. É, sobretudo, uma compositora inteligente.

Tamara, diga-se, já foi actriz, e diz que foi na música que encontrou um caminho para se expressar verdadeiramente. Efectivamente, o disco é quase um discurso directo, dirigido a vários destinatários. Mas não tenhamos ilusões: se nem por um momento duvido que é absolutamente sincera quando diz que utiliza a música como forma de expressão sem acting, tem também a inteligência de o saber fazer: é música confessional, eventualmente, mas não cotidiana, naturalista ou banalmente auto-biográfica; é isso sim uma expressão própria da forma como vê a passagem do tempo em si e nos outros, como vê hoje as pessoas que foi conhecendo e o que a vida fez de si – ou, talvez, o que foi fazendo da vida e de si mesma. Em suma, Tamara não nos conta a sua vida, no sentido mais superficial e rotineiro do mesmo (se o quisesse fazer não a elogiaria; recomendar-lhe-ia isso sim uma monografia), mas decidindo comunicar-nos os monólogos e os diálogos (possivelmente alguns reais, a maioria imaginados) que crê poderem por um lado servir a melodia, e por outro interessar esteticamente aos outros. Tem portanto essa compreensão de que há coisas da sua vida que não interessam a ninguém (ou que não deviam interessar), passando-nos apenas o que sente ter relevância. 

É o primeiro disco de The Weather Station na editora Paradise of Bachelors (editora bastante ligada à renovação da música americana em géneros como a folk, o country e bluegrass), o que lhe terá permitido “chegar” a mais gente; e é também o primeiro ano em que a oiço. Há uma tendência, provavelmente infantil, de acharmos que o agora é ou um novo começo ou pelo menos o pico de algo. Ela própria assumiu isso recentemente, referindo que provavelmente este vai ser conhecido como “o seu primeiro disco”, da mesma forma que o anterior já o foi (e é o segundo LP que diz conseguir cantar no Presente). A verdade é que All of it was mine (2011), e o EP lançado no ano passado, e What am I going to do with everything I know (2014) – fabuloso título! -, eram já discos imaculados na sua imperfeição natural: discos muito bonitos, sobretudo, sendo que Loyalty é a continuação desse percurso. É um album de sussurros, suspiros, e de uma voz cativante como poucas. Há nele “The way it is and the way it could be”, uma canção sobre estradas, rios e janelas (lá está: “só que não”), de ritmo mais acelerado que as que se seguirão (mas onde Tamara sabe desacelerar e dosear a velocidade, trabalhando-a com a orquestração), onde nessa espécie de diálogo atira acidamente “You always tell me the truth – even when it hurts me or it hurts you. / Could you go a little easy, would it kill you?” para de seguida atirar com um belíssimo “I’m gonna count on / I’m gonna hold out for – nothing much. / A little kindness, a little praise some days / I get so close but I don’t really touch / – what I get, or what I need – / the way it is the way it could be”. Há a seguríssima “Flood Plan” – onde, com maturidade, Tamara canta “I don’t expect your love to be like mine / I trust you to know your own mind / As I know mine” -, para mais tarde nos contar a confusão dos seus sentidos – “I feel like I’m seeing double / all joy and all trouble”. Ouve-se a belíssima (e lentíssima, quase falada, como se estivéssemos a ouvir um conto musicado) “Personal Eclipse”, onde há um olhar saudoso para o Passado (“Lately, I find myself lonely / I wouldn’t have called that before / I always took it as a comfort”) e uma dura lição aprendida (“If you can’t leave, you get yourself taken – like a personal eclipse”) – como se nos quisesse dizer que no meio do isolamento e das experiências individuais nos vamos afastando dos outros, sem moralismo na constatação. Há também arrependimentos sobre o Passado (“Sometimes you have to decide / what is wrong and what could be right / But I was too “kind” / I was on every side”) e há também “I Mined”, canção dura, que começa com Tamara cantando “It started small / a simple thought / That there was something wrong”, para mais tarde atirar “My slow heart wanted only what was endless / – to be helpless”.

E há, mais que tudo isto, uma canção ímpar, que poderia valer por um disco inteiro se colocada em loop por tempo suficiente: “Loyalty”, canção-título, é daqueles temas para todas as horas: triste de tão bonita que é, ou vice-versa (e quem disse que são coisas incompatíveis não percebe nada de arte, embora saiba, possivelmente, mais qualquer coisa da vida), impossível de não atingir quem a ouve, de fazer o ouvinte ouvir e voltar a ouvir, e adorar o disco mas ficar sempre preso na canção. Porque falamos de música torna-se impossível não referir a entoação dos versos “And I stood, so surprised / Trying to hold on, to my pride / So close, I could hear your low sigh”, a voz que se sabe já fazer esperar para regressar, de uma forma frágil e assumida, com os versos “There’s a loneliness / – I don’t loose sight of it. / Like a high distant satellite / one side in shadow, one side in light” para nos cantar depois, destruindo quaisquer ilusões que ainda ousassem restar sobre o Passado: “Drift of sentiment and memory / That I could not have / I could not keep / no it never did belong to me / it was only ever / another thing I would carry. Still it held me / loyalty to a feeling, to some glimpse / of a love that was only ever / a kind of distance”. A lealdade, portanto, posta ao serviço das ilusões.

É um disco feito de obsessão com o Passado, de relações falhadas e amizade singulares, de diálogos que servem de resolução estética para momentos de outros dias, de memórias que se vão construindo à luz dos olhos que se tem no Presente, de papagaios de papel que parecem andar soltos ao sabor do vento mas são sempre conduzidos a algum lado. É um disco atormentado no seu interior, que começa a desistir de resolver o que, pela indefinição, está já finalizado e em que se pode apenas revolver sem reverter. É um soçobrar elegante, desapiedado, quase distanciado de si mesmo – e se afinal Tamara diz que não gosta de personagens, não há como não elogiar o “eu” que aqui (re)cria, com seriedade, subtileza e uma coerência admirável. Mas tudo isto é dizer pouco, porque a música é música, e é feita para ser ouvida: o resto serve apenas de complemento, e se formos optimistas de optimização: porque há dois discos em Loyalty, o disco folk descarnado, absolutamente preciso e bem tocado se ouvido ao longe, e a obra-prima viva que foi criada por esta musa canadiana, candidata a um dos melhores discos dos últimos anos: num tempo de tanta música bem feita, e de tanta música preguiçosa, Loyalty pertence a um grupo restrito, clássico no bom sentido.




Lenine – O Dia Em Que Faremos Contato (1997)

 


Oswaldo Lenine Macedo Pimentel (conhecido artisticamente por Lenine) é um nome incontornável da mais segura e recente formação de astros da música popular feita no Brasil. Ao lado dos grandes Chico César e Zeca Baleiro, entre outros, surgiu a solo nos anos 90 para mudar um pouco o rumo musical do final do século XX brasileiro. Depois de dois discos feitos em parceria (Baque Solto, de 1983, com Lula Queiroga e Olho de Peixe, de 1993, com Marcos Suzano), Lenine apareceu com o seu primeiro álbum em nome próprio, intitulado O Dia Em Que Faremos Contato (1997), e desde logo se percebeu que era portador de uma linguagem particular, misturando todos os ritmos possíveis e imaginários do imenso caldeirão sonoro brasileiro. Se hoje não me poupo a atribuir-lhe as melhores e maiores adjetivações, a verdade é que, quando o comprei, não o compreendi convenientemente. Lembro-me de ter lido um texto sobre O Dia Em Que Faremos Contato, redigido por Caetano Veloso, em que os elogios eram mais que muitos, e esse facto aguçou-me o apetite. Se o meu Caetano venerou o disco, o que mais poderia eu fazer a não ser comprá-lo? Mas, como dei a entender há pouco, os meus ouvidos tardaram em encontrar o caminho certo para o seu melhor entendimento. Demorou anos, confesso. Nada de novo nesta circunstância, uma vez que todos sabemos que a música nos oferece milagres assim, amiudadas vezes. Por isso, de um momento para o outro, sem dar bem pelas razões apensas a essa aproximação súbita, dei comigo a adorar tudo nesse disco: a belíssima capa, o conceito, a novidade da linguagem, a poesia, até mesmo a voz e o particular sotaque de Lenine, não esquecendo, obviamente e sobretudo, as suas catorze canções.

Na abertura do disco, logo nos segundos iniciais de “A Ponte”, ouvimos a voz de um rapaz a referir-se ao seu percurso de músico de rua, e que por via dela (da música), mostra grande satisfação por nunca ter passado fome. Essa primeira faixa impressiona (sempre me impressionou desde o primeiro momento) pela forte fusão de maracatu e rock. Resulta lindamente. A ponte mencionada no título da canção, e que surge bastantes vezes cantada no seu interior, é a metáfora perfeita para a ideia e o conceito de todo este álbum, que me parece ser o das ligações entre os mais variados universos geográficos e musicais do Brasil e do Mundo. A ideia de fusão, em si mesma tão tropicalista, vinga em todo o álbum. O mangue beat surge de mãos dadas com a embolada (espécie de rap, mas para melhor), com o folclore nordestino, com a pop, a electrónica, o rock e o samba. Essa miscigenação sonora e rítmica resulta de forma perfeita, embora me pareça importante reforçar o sublinhado de há pouco: não foi fácil aceitar a ideia (lida e ouvida em muitos lados) de estar perante uma obra prima. Mas o tempo encarregou-se de fazer as devidas correções em mim, e o disco foi, aos poucos, sujeito a delicadas transformações. Depois, deu-se a redenção! Canções como a já referida “A Ponte”, ou “Hoje Eu Quero Sair Só” (presente na ótima coletânea Beleza Tropical 2, da editora Luaka Bop, fundada por David Byrne), “Candeeiro Encantado”, “Distantes Demais” (lindíssima balada), “O Dia Em Que Faremos Contato” com o fortíssimo pandeiro de Marcos Suzano, e tantas outras (quase todas, na verdade), fazem deste álbum um dos mais importantes primeiros trabalhos de que me lembro  ter escutado no universo sonoro do país irmão. Muito bom, sem dúvida, se soubermos, como eu por sorte soube, dar-lhe o espaço e o tempo necessários para a maturação. É “Pernambuco falando para o mundo”, e isso pode não ser imediatamente acessível a todos.

Ouvir Lenine, depois de me ter encontrado definitivamente com este O Dia Em Que Faremos Contato, passou a revelar-se uma experiência cada vez mais gratificante. Os seus álbuns seguintes, todos eles muito bons, foram muito mais facilmente entendidos por mim. Tudo por culpa do disco que hoje vos trago. Pode ser que o mesmo venha a acontecer convosco.



Earl Sweatshirt – I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside (2015)

 


A maioria dos artistas fica incomodado com o rótulo de “obra autobiográfica”, e muitas vezes com razão, porque o termo é usado para caracterizar uma obra que espelhe fielmente a vida do artista – o que é, como sabemos, uma impossibilidade. Mas Earl Sweatshirt desafia-a até onde pode – não acreditamos que tudo o que nos diz se passe exactamente assim, ou que seja um retrato fiel da sua vida, mas não temos dúvidas que há uma honestidade absoluta neste disco: uma autobiografia construída com seriedade. Ele próprio o corrobora:

If “I Don’t Like …” wasn’t tight — like, actually wasn’t tight, not debatable, not good — then I would have to go, like, kill myself. Because I put my whole life into it. When you put your whole life into something, and it’s not good, that’s a reflection of you. (Los Angeles Times)

O novo disco de Earl Sweatshirt – e o que o rapper americano considera ser, na verdade, o seu primeiro, o que nos diz muito mais da juventude e imaturidade de Earl Sweatshirt entre 2011 e 2013, altura em que saiu Doris, que de I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside -, tem alguns dos temas correntes da maior parte do hip-hop americano: a auto-confiança, o dinheiro, as mulheres, as festas, o álcool e a droga.

Mas essa é uma parcela menor do disco – como se Earl nos quisesse dizer que é pouco importante, ou que a quer até em dados momentos destruir (como o próprio afirmou recentemente, o que o salvou foi ter visto o seu ego ser destruído com a ida para Samoa – onde foi enviado pela mãe, ainda menor, rumo a uma escola de miúdos em risco). Há um Earl Sweatshirt que emerge, maduro mas frustrado pela pressão de crescer, contando-nos os demónios com que vive – algo visível nas palavras mas também nos beats, densos, repetidos, feitos de claustrofobia e pesadelos, descarnados e enegrecidos, que servem de base a uma voz forte e segura.

Em “Faucet”, por exemplo, a sua amargura é clara, expressa sem subterfúgios ou auto-comiseração. A dado momento, canta-nos “My days numbered / I’m focused heavy on making the most of ‘em”, para mais tarde nos cantar “I don’t know who house to call home lately / I hope my phone break, let it ring”, com uma alusão posterior ao “tempo naquela ilha”. E não seria expectável que a distancia física e o exílio momentâneo criasse um exílio interior, que tem de “trabalhar” (não fosse a dificuldade de comunicação com os outros aqui e ali abordada por Sweatshirt neste álbum)? Que surgisse neste álbum amargura, frustração, altos e baixos,  alucinações?

“Off top” é outro dos temas com mais qualidade de um disco praticamente sem pontos fracos, onde encontramos versos tão bons como “Raised up where every mouth that speak the truth get taped shut”, para de seguida nos atirar (a nós e, acrescente-se, a si mesmo) com “What a bastard that baby was / Little mad nigga missing dad, never praying much / Right around the same time his grandma drank a bunch / take the bus, take a nigger’s seat like it was made for me”

Mas o grande momento é “Grief”, seguramente um dos temas do ano (e um dos melhores dos últimos anos). É impossível seleccionar um excerto, ou um verso: toda a canção é Earl Sweatshirt com voz narcótica a apontar o dedo aos outros, a discorrer sobre “as cobras” que a mãe o ensinou a “ler pelo olhar” e a não se vir a tornar. Todos os que quiserem fazer hip-hop a sério, sendo diferentes da maioria (para melhor), têm de ouvir “Grief” e aprender alguma coisa. Quando Earl canta “I’m a target so it’s hard to even eye me in ‘em / If he ain’t dying for me, then I ain’t riding with him / There’s no time for that”, não há como não ficar rendido ao que ele tem para dizer, num meio que luta constantemente – como a maioria dos outros – contra a homogeneização.

I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside é desafiador e é crítico, mas olha para si como olha para os outros: sem complacência nem floreados, sem preconceitos e com clareza. Enquanto dura, pelo menos, há que aproveitar tudo o que possa servir as canções; e como Earl nos avisa, “I just want my time and my mind intact / when they both gone, you can’t buy ‘em back”.

O disco é um manual de auto-conhecimento e de sobrevivência, lírica, métrica e melodicamente coerente. Se este é o primeiro disco que Sweatshirt presume poder assumir na totalidade quando olhar para trás, o futuro parece claro: continuar a limpar as impurezas e trazer o essencial à tona, cuspi-lo aos nossos ouvidos. Não façam dele um poser nem uma estrela: é, hoje, um adulto que usa os seus conflitos e o seu Passado para nos atirar com aquilo que quer que saibamos: o que ele é no contexto em que vive, e que papel temos nós nisso (a dada altura canta “Disdain for the law since a fucking child”; e que responsabilidade temos também nós nisso?). Fá-lo já com uma sinceridade, com uma originalidade e com uma uma falta de vergonha que convence.



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  XIT foi originalmente sediada em  Albuquerque, Novo México  . Entre seus membros está o fundador e vencedor do Native American Music Award...