L’Homme à Tête de Chou é uma estátua de Claude Lalanne, que é igualmente um disco de Serge Gainsbourg, um bailado de Jean-Claude Gallotta, um disco de Alain Bashung, mas que poderia ser também um filme de Jean-Pierre Jeunet ou de Pedro Almodóvar, um conto light de Bukowski, ou até mesmo um espetáculo musical de Emmanuel Daumas. Para além daquilo que verdadeiramente é (a estátua, os discos e o bailado), L’Homme à Tête de Chou revela um universo que há muito me encanta e fascina, e que poderia, de facto, ser inúmeras outras coisas para além daquilo que referi. A riqueza do imaginário que surge do enredo por onde vagueiam as personagens Marilou e o seu amante (o narrador sem nome que acaba por matá-la) é de tal maneira grande, que todas as divagações são possíveis. Sempre que ouço o disco de Gainsbourg, ou a reprise póstuma feita por Alain Bashung, fico com mais algumas ideias em carteira. São inesgotáveis os sentidos dramático, trágico e cómico da obra em questão. No fundo, tudo isto acontece porque em cada um de nós tenderá a haver um “homem com cabeça de repolho” a despontar, mais tarde ou mais cedo. Parece uma inevitabilidade masculina. A causa é só uma: a crise existencial da meia idade. Ou talvez ainda mais outra, que muitas vezes reside como base da primeira, que é a erotização do amor por mulheres bem mais novas. Mas vamos lá ao disco, antes que o eventual interesse suscitado por estas primeiras linhas venha a perder-se…
O enredo do disco (a história que nele se ouve) conta-se em três penadas, e representa uma descida aos infernos por causa de um súbito amor de um quadragenário por uma empregada do Chez Max, um cabeleireiro de homens. O narrador convida-a para jantar no dia em que a conhece (“Chez Max Coiffeur Pour Homme”), e fica ainda mais perdido de amores por Marilou quando a vê dançar reggae (“Marilou Reggae”). Marilou domina totalmente a relação (“Transit à Marilou”), e numa certa noite, ao entrar, de surpresa, em sua casa, o narrador surpreende-a com dois homens nus (“Flash Forward”). Em estado de choque, o narrador remete toda a situação presenciada para o universo de Tarzan e Jane (sendo que a figura feminina é, neste caso, Marilou), que salta de pénis em pénis como de liana em liana (“Aéroplanes”). Humilhado, o narrador sente as suas orelhas transformadas em folhas de repolho, ficando assim com a “tête de chou” que o título indica (“Premiers Symptômes”). Por fim, a tragédia adensa-se e o crime acontece. O narrador, fulminado pelos ciúmes e num estado de alguma demência mental, esmaga o crânio de Marilou com um extintor, tentando esconder o corpo inerte da amante morta debaixo da neve carbónica expelida pelo aparelho (“Meurtre à L’Extincteur” e “Marilou Sous La Neige”). Completamente louco, o narrador acaba por dar entrada num asilo psiquiátrico (“Lunatic Asylum”). Para além das canções citadas que documentam a ação contada, o disco conta ainda com a inicial “L’Homme à Tête de Chou”, “Ma Lou Marilou” e “Variations Sur Marilou”. No total, o álbum tem a duração de 31 minutos e 24 segundos, todos de inegável beleza musical. É, na minha opinião, o segundo melhor disco de Gainsbourg, apenas ultrapassado pelo inultrapassável Histoire de Melodie Nelson (1971), de que já aqui demos conta há algum tempo atrás, num texto que merece a vossa atenção.
L’Homme à Tête de Chou é um disco conceptual, e nele podemos encontrar um pouco de pop barroco, mas também aproximações ao jazz, ao funk, ao rock, ao reggae, tudo com a mestria particular da chanson française de Serge Gainsbourg. Com Gainsbourg nunca corremos o risco de nos darmos mal. Antes pelo contrário. Tente ouvir este L’Homme à Tête de Chou e verá que vai dar-me razão.
Lançado em 14 de janeiro de 1980 nos Estados Unidos (e quatro dias depois na Europa), Permanent Waves, sétimo disco de estúdio dos canadenses do Rush, é o ponto de inflexão na carreira do grupo. O álbum traz os elementos progressivos que haviam aparecido a partir de 2112 (1976) e ampliados com longas faixas em A Farewell To Kings (1977) e Hemispheres (1978), mas já faz a incursão do trio Geddy Lee (baixo, violão de doze cordas, mini-mooh, badd pedal synthesizer, vocais), Alex Lifeson (guitarras, guitarra de doze cordas, violões, violão de 12 cordas, violão clássico, bass pedal sinthesizer) e Neil Peart (bateria, sinos, tímpano, tubular bells, Wind Chimes, triângulo, Bell Tree, Vibraslap) por sons mais “populares”, como a new wave, o reggae e até o punk rock.
Faixas como “The Spirit of Radio” e “Freewill” levaram o grupo para outro patamar, conquistando uma nova geração de fãs sedentas por audições radiofônicas, nas quais ambas as canções se faziam presentes diariamente. Ao mesmo tempo, “Jacob’s Ladder” e “Natural Science”, as duas longas faixas do disco, mantinham os canadenses com seus pés ainda fincados no progressivo. Fechando o álbum, duas canções mais curtas, mas com uma complexidade gigantesca, que são “Entre Nous” e “Different Strings”. O álbum atingiu a terceira posição em vendas no Reino Unido e a quarta nos Estados Unidos, um grande marco para o trio.
Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson. Rush em 1980
A série de lançamentos em comemoração aos 40 anos de lançamentos dos canadenses, já apresentadas aqui com 2112, A Farewell To Kingse Hemispheres, traz hoje a edição que foi lançada em 2020. A versão resenhada é a Deluxe Edition, com dois CDs, salientando que a edição box Super Deluxe, com três LPs e dois CDs, não possui nada musicalmente diferente, apenas a parte de memorabilia, como tratarei mais adiante.
O CD 1 segue o track list original de Permanent Waves, cujas canções já comentei acima. Assim, vamos ao CD bônus, o qual faz uma mescla de diferentes apresentações do Rush durante a Permanent Waves World Tour 1980, onde onze faixas totalmente inéditas chegam até os fãs, e claro, surpreendem em cada segundo. Tudo começa com “Beneath, Between & Behind” registrada em Manchester, e numa versão bem mais rápida que a que acabou entrando em Exit … Stage Left (1981). Seguimos para Londres com uma “By-Tor & The Snow Dog” destruidora, com um show a parte de Neil Peart, demolindo sua bateria exatamente enquanto vivia o auge (e que auge) de sua carreira, intercalada com uma viajante “Xanadu”, lindíssima, e que fica muito bem encaixada e diferente do que nos acostumamos a ouvir sempre como sequência de “The Trees”, como já havia aparecido na edição de A Farewell To Kings, mas ressaltando que aqui é de outra apresentação. Claro que Lee tocando baixo, teclados e cantando é uma atração a parte, mas como Lifeson também estraçalha em “Xanadu”. Solo lindo, faixa linda, e mesmo sendo bem fiel ao estúdio, dá mais pontos para o CD.
Rush ao vivo na Permanet Waves Tour
Vamos para Manchester com as primeiras faixas de Permanent Waves, o mega-clássico “The Spirit of Radio” (cuja parte da letra ilustra a capa interna three-fold digipack do CD) e “Natural Science”. Aos que nunca tinham ouvido “Natural Science” registrada ao vivo na época, deliciem-se. Complexidade extrema para uma mente entender como apenas três seres humanos somente estão fazendo tudo o que saem das caixas de som. Ok que a versão apresentada no Rush In Rio (2002) é fantástica, mas o que o trio estava fazendo em 1980 é inexplicável! Ainda em Manchester, “The Trees” traz toda a habilidade de Lifeson ao violão na sua introdução, com uma breve passagem que não é em nada similar a “Broon’s Bane” por exemplo, e destruindo em uma das melhores letras que Neil Peart registrou. Vale ressaltar que a versão em vinil ainda tem “A Passage To Bangkok”, na mesma versão gravada em Manchester que aparece no box de 2112.
Daí então voltamos para Londres, com aquelas que particularmente são as maiores atrações deste CD, as duas partes de “Cygnus X-1” (a saber “Cygnus X-1” e “Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres”). Essas faixas para mim estão fácil no top 5 das minhas favoritas dos canadenses (as outras três são – hoje – “La Villa Strangiatto”, “YYZ” e “2112”), e cara, ter o prazer de ouvir uma obra-prima dessas ao vivo, impecável, é muito bom. A plateia reagindo as notas do baixo em “Cygnus X-1”, o vocal agudíssimo de Lee em ambas as músicas, Peart e Lifeson se engolindo um ao outro em performances arrasadoras, puta que pariu, me arrepia só de lembrar. O Rush pecou em ter cortado parte da história de “Cygnus X-1”, o trecho onde o viajante se apresenta voando pelo espaço com a sua nave Rocinante, bem como a “tragédia” na entrada do buraco-negro, onde ele é sugado pelo mesmo, também foi resumida, mas mesmo assim, que baita música, e os efeitos da “entrada” no buraco negro aqui são muito legais. Já em “Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres”, a faixa também foi podadinha, tendo apenas as Partes I, IV, V e VI (eliminando portanto as partes II e III), mas sendo essas quatro partes um total de 14 minutos, ou seja, apenas 4 minutos da versão de estúdio ficaram de fora! E que performance, tendo várias partes instrumentais adicionadas!! Demais!!
O trio canadense no Le Studio
Desbundados com as “Cygnus X-1”, somos apresentados para “Closer to the Heart” (Manchester), pegando a partezinha final do acorde de “Cygnus X-1 Book Two”, mas destacando a ótima qualidade de som aqui (que é outro pequeno problema nas “Cygnus X-1”, suas masterizações não ficaram tão boas), e concluindo o CD bônus, mais duas faixas de Permanent Waves, a belíssima “Jacob’s Ladder” (Missouri) e o outro mega-clássico “Freewill” (Londres), mostrando como o Rush novamente soube criar obras fáceis e complexas ao mesmo tempo, trazendo uma equipartição auditiva rara para aquela época, e por que não, ainda hoje.
Acompanha ainda um livreto de 20 páginas, com as letras de Permanent Waves, diversas fotos do trio e belas ilustrações a cargo do sempre genial Hugh Syme, além de uma bela homenagem para Peart, que havia falecido meses antes deste lançamento ter chegado às lojas, em 7 de janeiro de 2020.
A edição SUPERDELUXE, com diversas memorabilias, mas sem novidades musicais
O box Super Deluxe, com 2 CDs e 3 LPs, contém as mesmas canções deste box, adicionando a citada “A Passage to Bangkok”, além de um livro capa dura com 40 páginas contando histórias sobre as gravações no Le Studio, bem como detalhes das faixas do disco, e mais uma série de mimos (Tourbook da Permanent Waves World Tour 1980, Revista com algumas letras e fotos batizada The Words & Pictures Volume II, três réplicas laminadas dos acessos individuais dos membros da banda durante a turnê, três réplicas de manuscritos de Neil Peart para as letras de “Enter Nous”, “The Spirit of Radio” e “Natural Science”, um pôster de ambos os lados no tamanho 24″ x 36″ com a famosa menina da capa em um lado e os membros do Rush no outro, e mais um livreto de 20 páginas com imagens feitas durante a gravação do disco, chamado “Le Studio 20-Page Notepad”.
Daqui uns meses trarei o que está na versão de 40 anos de Moving Pictures e Signals, ao mesmo tempo que convido o leitor para daqui umas semanas acompanhar minhas 10 Favoritas dos canadenses. Veremos também se Grace Under Pressure terá a honra de ter um lançamento especial de 40 anos com seu nome. Como fã, espero que sim!
Contra-capa da edição aqui resenhada
Track list
Album – 2015 Abbey Road Remaster
1-1 The Spirit Of Radio 5:00
1-2 Freewill 5:24
1-3 Jacob’s Ladder 7:29
1-4 Entre Nous 4:38
1-5 Different Strings 3:50
1-6 Natural Science 9:21
Permanent Waves World Tour 1980
2-1 Beneath, Between & Behind (Live In Manchester) 2:30
50 anos de um delírio sonoro na história do rock brasileiro
Há obras que desafiam a ferrugem do tempo. Não porque resistem a ele, mas porque se tornam parte dele. São bússolas e espelhos: apontam direções e, ao mesmo tempo, nos devolvem o que fomos. Quando revisitadas, não nos oferecem apenas lembranças; oferecem perguntas novas, como se tivessem esperado que o mundo amadurecesse para entendê-las melhor. Lançado em 10 de julho 1975, o álbum Lar de Maravilhas, da banda paulista Casa das Máquinas, representa um dos momentos mais sofisticados e audaciosos tanto do hard rock quanto, principalmente, do rock progressivo brasileiros. Meio século após sua estreia, o disco permanece como uma obra de referência para a compreensão das possibilidades estéticas do gênero no Brasil dos anos 1970, época marcada por efervescência artística, repressão política no auge da Ditadura Militar e uma juventude ávida por experimentações e liberdades. Cinquenta anos depois, essa obra ainda pulsa. Sua forma, sua essência, seu gesto inaugural permanecem. Ela já não é só do tempo em que nasceu — pertence agora ao que virá. Ao longo desta resenha, chamarei bastante a atenção para as mensagens “cifradas” nas letras do álbum. Ao unir arranjos complexos, influências internacionais absorvidas de modo original e um lirismo que oscila entre o onírico e o contestatório, Lar de Maravilhas se consolida como um artefato cultural de sua época — e um marco técnico na discografia nacional.
A vergonhosa tentativa da burra ditadura militar em forjar o “suicídio” de Vladimir Herzog
O Brasil vivia em 1975 o auge do chamado “Milagre econômico”, ao mesmo tempo em que a repressão do regime militar atingia patamares brutais com o assassinato de opositores como Vladimir Herzog em 25 de outubro do mesmo ano. A juventude, especialmente a classe média urbana, buscava refúgios estéticos e filosóficos em expressões contraculturais, nos quais o rock se tornava espaço de fuga, metáfora e denúncia. A banda Casa das Máquinas, formada por músicos experientes e oriundos de diferentes vertentes do cenário musical, absorveu esse clima de inquietação e entregou um álbum que dialogava diretamente com as tendências internacionais do rock progressivo, psicodélico e sinfônico, sem abrir mão de uma identidade própria e brasileira.
A solidez de Lar de Maravilhas está diretamente ligada à formação do grupo naquele momento. Figura central do Casa das Máquinas, Netinho começou sua carreira como baterista do grupo Os Incríveis, e sempre se destacou pela precisão técnica e criatividade rítmica. Netinho foi o grande articulador da virada sonora da banda em direção ao rock progressivo, além de ter sido o produtor do álbum. Outro destaque do disco é a presença de Mário Testoni Júnior nos teclados. Contratado para tocar no Lar de Maravilhas, Testoni trouxe o universo progressivo à banda, com Hammond, Moog, Mellotron, piano e clavinete, tornando-se referência no rock nacional ao inserir texturas sinfônicas e psicodélicas. Mesmo sem participar de nenhuma das composições, seus arranjos para os teclados foram fundamentais para a sonoridade do álbum. Por fim, Luís Carlos Catalau de Souza, o Catalau, foi convidado por Netinho para ser letrista da banda. Responsável por parte significativa das letras do álbum, Catalau — à época com 16 anos —, foi também conhecido por sua carreira como vocalista da própria Casa das Máquinas em anos posteriores, em seguida assume os vocais da banda Golpe de Estado e, atualmente, é pastor. Em Lar de Maravilhas, atuou tanto como letrista quanto como parceiro criativo. Suas letras equilibram crítica existencial, imaginação cósmica e lirismo místico, com forte influência da contracultura, da ficção científica e de simbolismos ligados à liberdade e transcendência. Em canções como “Liberdade Espacial”, “Vou Morar no Ar” e “Astralização”, Catalau dá voz a uma juventude que sonhava escapar da gravidade repressora do regime, apostando em metáforas de voo, espaço e dissolução dos limites terrenos. No entanto, é graças à produção de Netinho, que estabelece um timbre pesado para os instrumentos, que o disco soa ótimo de se ouvir até os dias de hoje — aliás, Netinho compra todos os equipamentos do espólio da banda Os Incríveis, que eram de alto nível para nossas paragens.
Netinho (centro) e seu grupo Os Incríveis, que fizeram um sucesso estrondoso na década de 60 e início dos anos 70.
Do ponto de vista técnico, Lar de Maravilhas impressiona, portanto, por sua produção refinada e pela coesão instrumental que rivaliza com gravações contemporâneas de bandas como Genesis, Gentle Giant e especialmente o Yes, cuja influência é particularmente perceptível nos arranjos em compasso alternado, nos vocais polifônicos e na articulação de seções instrumentais extensas. Faixas como “Lar das Maravilhas” e “Vale Verde” demonstram essa herança ao alternar climas suaves e introspectivos com explosões de virtuosismo, característica típica do Yes em discos como Close to the Edge (1972) e Relayer (1974). A fluidez entre as partes, os diálogos entre baixo e guitarra e os solos intrincados reforçam essa aproximação com a escola sinfônica britânica. A gravação, realizada nos estúdios Vice-Versa, em São Paulo, e lançada pela gravadora Som Livre, também merece destaque. Para os padrões brasileiros da década de 1970, a qualidade sonora do disco é notável. A mixagem evidencia o cuidado com a espacialização dos instrumentos, especialmente nos momentos instrumentais mais densos, criando atmosferas imersivas que são parte fundamental da experiência progressiva.
A faixa de abertura, “Vou morar no ar”, já antecipa o clima etéreo e escapista do disco. A letra, que fala “Abra que eu quero ver / Esse céu azul / Abra que eu quero olhar / Esse mar do sul // Abra que eu quero voar / O mais alto que eu puder / Um dia eu vou sair / Vou morar no ar”, sugere tanto um desejo de transcendência quanto uma crítica à dureza do cotidiano materialista no qual o eu-lírico está preso – daí ele pedir que “abra”. A levada rítmica remete ao Pink Floyd de Dark Side of the Moon, e o uso de delay e reverberação na guitarra contribuem para o efeito de suspensão e devaneio. No álbum seguinte, Casa de Rock, lançado em dezembro de 1976, há uma música irmã, “Casa de Rock”, que é uma afirmação de pertencimento, um manifesto da própria banda em favor de um modo de vida alternativo e libertário. Musicalmente, flerta com o hard rock de Deep Purple e Uriah Heep, em especial no uso de riffs pesados e órgãos distorcidos. A letra, que celebra a “casa de rock” como refúgio, pode ser lida também como alegoria de resistência cultural: “Esta é a casa do tal rock’n’roll / É o rock que casa com a casa / Este é o ninho do passarinho / Que já nasce voando sem asa / Este é o santo remédio pro seu cansaço / É o alimento do nosso pedaço”.
Netinho, com a camisa do Casa das Máquinas (bateria). No centro, em primeiro plano: Aroldo Santarosa (vocal, guitarra e violão). Ao fundo, Testoni (teclados)Atrás de Aroldo, da esquerda para a direita: Cargê (vocal e baixo). Piska (vocal, guitarra e violão). Pique Riverte (piano, órgão, saxofone e flauta).
“Vale Verde”, lírica e bucólica, retoma o ideal hippie da comunhão com a natureza. A melodia remete ao folk psicodélico dos Moody Blues e ao lado mais contemplativo do Som Imaginário. A letra propõe um retorno à simplicidade, sugerindo que “lá no vale tudo é mais azul” — metáfora para um lugar utópico de harmonia, paz e autenticidade. A faixa contrasta com a rigidez da cidade moderna e da opressão política pois, mais uma vez, o desejo é de sair, de voar, de libertar-se: “Não quero que reflita em meu rosto / Sombras, cinzas, impurezas desse ar / Olho o céu e o vejo mais escuro / Quero vê-lo brilhar / Como os raios coloridos deste Sol // Essa liberdade que nunca chega / De portas trancadas, preciso sair / Eu quero sentar num banco de um jardim / Pensando em poder achar um mundo assim / Com flores astrais ao redor de mim / Quero um vale verde pra que eu possa respirar enfim”. Compare-a com “Vou morar no ar” — e atente aos versos que são dois lados da mesma moeda: “Essa liberdade que nunca chega / De portas trancadas, preciso sair” e “Abra que eu quero voar / O mais alto que eu puder / Um dia eu vou sair”. Em tempos de repressão política e censura, a mensagem aqui está dada…
“Astralização” se destaca tanto pela inventividade da letra quanto pela psicodelia na construção musical. Trata-se de uma ode ao universo interior, uma espécie de viagem mística: “Tento respirar andando em busca de terra / Mais que a terra quero a serra / Que com mais terra berra / Pra que tornemos a ela / Misturando tudo / Me envolvendo com estrelas / Viajando, descolando uma transação”. Mais uma vez, temos na letra a busca, o desconforto de onde se está e a tentativa de ir além do que se vive. De alienados, não tinham nada, pelo contrário. Ouvi-la é ver como seria o som do Yes se os britânicos fossem do litoral paulista. Os solos de teclado nessa faixa também evidenciam a influência do jazz-rock e do krautrock, especialmente de bandas como Nektar e Eloy. A ambientação sonora cria uma sensação de descolamento temporal e espacial, muito próxima das experiências sensoriais buscadas pela juventude alternativa da época.
Reportagem da Revista POP sobre a mudança de Os Incríveis para Casa das Máquinas; ao fundo, o famoso ônibus da banda.
“Liberdade Espacial” é, sem dúvida, a joia mais brilhante do álbum — uma síntese quase perfeita entre a estética psicodélica, o lirismo progressivo e a crítica velada ao confinamento ideológico da época. A canção evoca a ideia de uma libertação cósmica, onde o espaço não é apenas geográfico ou astronômico, mas simbólico: o lugar onde se pode existir sem amarras. A linha melódica flutua sobre um arranjo denso de teclados e guitarras, com passagens que alternam tensão e alívio, criando uma narrativa musical que acompanha a jornada da letra. Ao cantar “Sinta a liberdade espacial” e “Faça o que você sentir / Porque nossa missão é viver / Não entre numa em só desistir, deixar de ser apenas você”, a banda se apropria de uma metáfora poderosa para o desejo de liberdade individual e coletiva — algo especialmente significativo no contexto de censura e repressão em que o disco foi concebido. As metáforas de “lua astral”, “força espiritual” e o convite existencial para viver de modo sensível e intuitivo, lidas 50 anos depois, nos fazem refletir sobre o quão pesados eram aqueles anos de chumbo. A influência do Yes volta a se fazer notar nos vocais, no baixo e na bateria e em camadas e na estrutura em espiral da faixa, que não se contenta com o formato tradicional da canção, mas explora suas possibilidades até o limite.
Gatefold interna de Lar de Maravilhas
Embora parte da crítica à época tenha acusado a banda de “alienada”, por investir em letras fantasiosas e de teor escapista, uma leitura mais atenta, como a que proponho, revela camadas de ambiguidades. Como proponho no início do texto, precisamos do distanciamento para relermos esse disco e entende-lo no seu potencial. O lar do título é um espaço idealizado, de liberdade, sonhos e introspecção, mas sua construção também denuncia a ausência dessas condições na realidade opressora da ditadura. Assim, Lar de maravilhas se inscreve no rol das obras que, ao optar pela metáfora e pelo delírio poético, articulam resistência de modo indireto (até porque de modo indireto era inviável diante da censura e repressão impostas pelos militares) — uma característica também presente em discos contemporâneos de Mutantes, Secos & Molhados e do Clube da Esquina. A recorrência de imagens como o voo, o ar, o espaço, os vales e os corpos flutuantes não é mero devaneio lírico, mas uma tentativa simbólica de construir territórios outros, alternativos à normatividade do mundo concreto e pesado que viviam em 1975. É nessa dimensão simbólica que o disco se afirma como crítica poética da realidade. Deixarei a faixa “Cilindro cônico” guardada para uma resenha especial na seção “Maravilhas do mundo prog”, portanto não a mencionarei aqui conforme a linha que adotei para o estudo do álbum, já que, ao término deste texto, percebi que somente ela consumiu 2 das 6 laudas totais (sim, sou do tempo da lauda…)!
Lar de maravilhas permanece, sem sombra de dúvidas, atual e necessário. Seja pelo seu valor musical, técnico e artístico, seja por sua capacidade de condensar um espírito de época em forma de som e palavras, o disco da Casa das Máquinas é um testemunho do potencial do rock brasileiro em articular sofisticação estética, crítica social, contracultura e inovação sonora. Muito além de um exercício de virtuosismo, é uma obra coletiva de imaginação política, de fuga e de sonho — sobretudo fuga, pois não dá para dissociar a obra de arte de seu momento de produção e recepção: a banda Casa das Máquinas foi formada em 1973 por Netinho como uma forma de escapar de tudo o que estava acontecendo, já que o fim de Os Incríveis, em 1972, mesmo com todo o sucesso que tinham, se deu devido às pressões de imprensa, empresários e gravadora resultante do sucesso da canção “Eu te amo, meu Brasil”, considerada como uma apologia ao regime militar. A partir daí, o baterista comprou toda a estrutura de ensaio e apresentações de sua antiga banda e juntou uma nova para realizar uma turnê pelo país tocando clássicos do rock and roll.
Dos três álbuns essenciais e históricos que a banda gravou, somente em Lar de Maravilhas eles exploraram todas essas possibilidades e desejos ao máximo. No primeiro álbum, Casa das Máquinas (1974), a banda seguia tentando encontrar o seu som e se desvencilhar do que foram com Os Incríveis, portanto o álbum alterna entre canções mais pesadas, outras com pegada mais MPB e alguns momentos mais suaves — só a música de abertura, “A Natureza”, já vale o álbum, pois possui um dos melhores riffs de guitarra da história do rock nacional. Outros momentos rock and roll, a cargo da direção criativa de Netinho (sempre ele) estão em “Trem da verdade”, “Cantem este som com a gente” e “Sanduíche de queijo”, que fecha o trabalho. A banda está entre Rolling Stones e a inocência da Jovem Guarda, com um tempero da psicodelia de Os Mutantes em alguns momentos do disco, no qual as composições são, em sua maioria, da dupla Aroldo Santarosa e Carlos Geraldo, o Cargê, ainda que Netinho fosse o líder da banda. Já no terceiro álbum, Casa de Rock, gravado no ano seguinte, 1976, o grupo consegue a melhor qualidade de gravação, graças ao entrosamento dos membros restantes (Aroldo e Cargê saem da banda) e, sobretudo, graças a Don Lewis, que era o técnico de gravação que veio ao Brasil com Alice Cooper em 1974, num dos primeiros shows internacionais de grande porte que tivemos no Brasil, e por aqui ficou. Lewis incentivou a banda a gravar como tocavam ao vivo: com todos os instrumentos tocados juntos, ao mesmo tempo. O disco tem a sonoridade mais próxima do rock e do hard rock, deixando de lado o progressivo por conta da pressão da gravadora, e também as letras sofrem com isso, deixando de lado a religiosidade e espiritualidade dos primeiros discos, porém mantendo a cultura hippie presente.
O relançamento de 2018 feito pela Polysom
Em 1977, Marinho Testoni também sai da banda, e passa a integrar o grupo Pholhas, e logo após, em abril de 1978, a banda põe fim, de modo triste e sombrio, às suas atividades, após um incidente envolvendo dois integrantes, Piska e Simbas, e a morte do cinegrafista Lucínio de Faria, da Rede Record. O processo decorrente deste incidente foi um fator determinante para o fim da banda, pois na imprensa da época noticiava-se a culpa e o julgamento da banda, e não dos integrantes. Dessa forma, Lar de maravilhas é uma obra sem precedentes e sem subsequência e que, longe de envelhecer, amadureceu — hoje, 50 anos após o seu lançamento, vivemos outros momentos e ela está pronta para ser redescoberta por novas gerações como um tesouro da música nacional e um dos maiores discos do rock brasileiro — mas isso é papo para outro momento, talvez daqui a 50 anos, quem sabe?
O Queen é aquela banda que... não me pega, sabe? É irreparável, não tem nada de errado, de ruim, tem músicas imortais, hinos, clássicos. Tem um time certinho, um grande guitarrista e um vocalista incontestável que possivelmente seja o melhor cantor do universo pop-rock. Mas não adianta: tem meu respeito, meu reconhecimento, mas aquele hard-rock muitas vezes cheio de uma pompa pretensiosa não me bate. No entanto, um disco, em particular, me chamou atenção e, de certa forma, me conquistou. Conheci o "Sheer Heart Attack" por causa da versão do Metallica para "Stone Cold Crazy". Irada! Devastadora! Aí resolvi conhecer também a original e não me decepcionei em nada. A original é igualmente arrebatadora e justifica plenamente que uma banda caracteristicamente de metal tenha o desejo de tocá-la.
Mas o disco, elétrico, vibrante e dinâmico em sua estrutura, para minha felicidade, não se limitava a essa faixa e músicas como a impetuosa "Brighton Rock", que abre o disco, "Now I'm Here" com seu rock básico e pesado, "Bring Back That Leroy Brown", cujo refrão me lembra uma música que minha banda costumava tocar, e o folk meio glam de “She Makes Me (Stormtrooper in Stilettos)”, me fizeram, finalmente querer ter um disco do Queen em casa.
Se o Queen ainda não me faz morrer de amores, este álbum, o terceiro da banda, lá do iniciozinho da carreira, ao menos, se não me fez idolatrá-los, me fez ser justo e reverenciar Sua Majestade. "Sheer Heart Attack" está oficialmente elevado ao trono dos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.
mas ela não faria qualquer sentido', não faz muito sentido agora e teria ainda menos sentido naquele momento; você iria perder todos os humores diferentes da canção.
Por isso, dissemos que não."
Roger Taylor,
baterista,
sobre "Bohemian Rhapsody"
"Ele [Freddie Mercury] sabia exatamente
o que estava fazendo…
nós só ajudamos ele dar vida a ela."
Brian May,
guitarrista,
também sobre "Bohemian Rhapsody"
Em 1976, ouvia eu a Rádio Continental quando meu querido amigo Beto Roncaferro rodou no seu programa "Death on Two Legs" do disco "A Night At The Opera", do Queen, uma banda da qual eu já andava ouvindo uma fita-cassete do disco "Queen II", que me fora emprestada pelo meu colega de aula João Eduardo Costa. Me apaixonei na hora
Um ano depois, o Queen estourava com "Somebody to Love", do disco "A Day At The Races", que eu e minha irmã Cristina de Andrade Moreira ouvíamos sem parar. Na dúvida sobre qual comprar, acabamos com os dois em altíssima rotação em casa. Daí, pra "You're my Best Friend", "Seaside Randezvous" e, é claro, "Bohemian Rhapsody" foi um passo. Chamava a atenção a variedade de estilos e o uso dos clichês de cada gênero dentro do som da banda. E Freddie Mercury era Freddie Mercury!!! Faz muito tempo que não ouço mas tenho certeza de que, se colocar a rodar, cantarei de cor TODAS as músicas.
"A Night at the Opera" é o quarto álbum de estúdio da banda britânica de hard rock Queen, lançado em 21 de novembro de 1975 na Europa e em 2 de dezembro de 1975 nos Estados Unidos. Assim que foi lançado, o álbum estreou direto no topo da UK Albums Chart, do Reino Unido, e chegou ao quarto lugar na Billboard 200 dos Estados Unidos, sendo o disco que levou definitivamente o Queen à consagração mundial. O disco também foi um sucesso de crítica, frequentemente apontado como um dos melhores discos da música de todoso os tempos, tendo vendido mais de cinco milhões de cópias nos anos 70, uma número impressionante para os mercados da época.
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FAIXAS:
01 Death On Two Legs (Dedicated To....) 02 Lazing On A Sunday Afternoon 03 I'm In Love With My Car 04 You're My Best Friend 06 Sweet Lady 07 Seaside Rendezvous 08 The Prophet's Song 09 Love Of My Life 10 Good Company 11 Bohemian Rhapsody 12 God Save The Queen
O Public Enemy poderia ser considerado apenas mais um grupo de rap/hip-hop não fossem alguns pequenos diferenciais: o primeiro deles é um vocal poderoso, quase troante do imponente Chuck D, um rapper com recursos vocais, inteligência e consciência política e social como poucas vezes se viu até então no meio; o segundo, um MC carismático, Flavor Flav, altamente original, dono de interpretações singulares e um bordão extremamente marcante, aquele seu "yeeeaaaaahhh, boy!!!", cheio de veneno e malicia; o terceiro, um time de produção, o Bomb Squad, extremamente criativo a antenado, sempre em busca dos samples e colagens mais criativos e improváveis, complementados é claro, por outra das grandes razões, a quarta delas, que é a mão de um DJ altamente técnico e criativo, diferenciado no seu âmbito, o lendário Terminator X. Tem ainda o impacto, as letras, a politização, a contundência, as sonoridades, e aliado a isso ainda, um certo gosto pelo peso e pelo barulho, que particularmente muito me agrada. Junte tudo isso e temos o Public Enemy. Provavelmente o melhor grupo do gênero que já visitou este planeta. Todas essas características, marcas e virtudes podem ser encontrados no seu excelente segundo álbum "It Takes a Nation of Million to Hold Us Back", de 1988, que fez definitivamente o mundo da música cair de joelhos por eles ali pelo finalzinho dos anos 80. Artistas dos mais diversas, dos mais variados gêneros como Sepultura, Slayer, declaravam sua admiração pela banda, sua música era tema de abertura de filme ("Fight the Power" em "Faça a Coisa Certa"), até o garoto do "Exterminador do Futuro 2" exibia durante todo o filme uma a camiseta com o logo da banda. O mundo enfim se derretia pelos "Inimigos" e a influência deles foi igualmente arrebatadora, quase imediata, estabelecendo uma linha para grupos como Beastie Boys, House of Pain e Cypress Hill e revolucionando a maneira de se fazer hip-hop. A sirene de "Countdwon to Armaggedon", vinheta ao vivo que abre o disco, anuncia que algo de realmente sério está para acontecer e efetivamente isso se confirma já a partir da primeira música, a porrada "Bring the Noise" que se não é barulhenta em si, é tão potencialmente pesada que veio a inspirar uma nova versão posterior com a participação da banda Anthrax, aí sim, mais suja e guitarrada. Mas a versão do disco não fica devendo nada, sendo também extremamente pesada à sua maneira, com batida marcante, vocal agressivo e letra contundente como de costume. A embalada "Don't Believe the Hype", apesar do tom descontraído, vem na sequência destilando veneno contra aqueles que, segundoa banda, se esforçam em criar uma imagem negativa dos negros; "Mind Terrorist", de base repetida sem ser chata, soando como uma guitarra swingada, é um show à parte do excepcional Flavor; e a arrebatadora "Louder than a Bomb" é, verdadeiramente, tão poderosa quanto uma bomba, tanto sonoramente quanto em conteúdo. "Show'Em Watcha Got" vem com um sample de sax, muito jazz-funk, da Lafayette Afro Rock Band, num outra performance vocal espetacular dos dois com a ajudinha sagrada do mestre Terminator X nas picapes; a alucinante "She Watch Channel Zero?!" que a segue é uma pancada sonora, evidenciando bem o tal gosto pelo peso que eu referi anteriormente, com uma guitarra enfurecida, sampleada da banda Slayer, sobre uma programação de bateria perfeita e que garante o peso, e um vocal destruidor de Chuck D. Abrindo com uma gravação de um discurso do ativista negro, americano covertido ao islamismo, Abdul Muhammad, e apoiada basicamente num recorte repetido de um sample de sax, "Night of the Living Baseheads", traz um vocal agressivo e uma posição firme sobre os usuários de drogas, especialmente o crack. "Black Steel in the Hour of Chaos" tem uma notável base construída sobre um recorte de piano; "Security of the First World" foi um achado da banda, numa mixagem feita a partir de uma música de James Brown ("Funky Drummer"), que de tal forma foi feliz e perfeita a ponto de inspirar os mais variados artistas, como Lenny Kravitz em "Justify my Love" (gravada por Madonna), My Bloody Valentine em sua "Instrumental nº 2", e tantos outros, a reproduzi-la. "Rebel Without a Pause", traz a justa e merecida reverência e invocação do nome do DJ no refrão, quando ele responde à altura com scratches matadores; a impetuosa "Prophets of the Rage" traz outra daquelas espetaculaes dobradinhas entre Flavor e Chuck, numa integração vocal impressionante; e "Party for Your Right to Fight", outro clássico do grupo, uma variação do título "(You Gotta) Fight for Your Right (to Party!)" dos Beastie Boys, fecha o disco com embalo, ritmo, atitude e grande estilo. Não fosse por alguns 'pequenos detalhezinhos' podia ser mais um álbum de rap, podia ser só mais um grupo de hip-hop qualquer, só mais um trecho de outra música emprestado, mais uma mixagem, mais um DJ, mais um vocalista... Podia ser. A não ser pelo fato de que todos esses detalhes fazem toda a diferença. *******************************************
FAIXAS: 1. "Countdown to Armageddon" 1:42 2. "Bring the Noise" 3:45 3. "Don't Believe the Hype" 5:19 4. "Cold Lampin' with Flavor" 4:17 5. "Terminator X to the Edge of Panic" 4:31 6. "Mind Terrorist" 1:21 7. "Louder Than a Bomb" 3:38 8. "Caught, Can We Get a Witness?" 4:53 9. "Show 'Em Whatcha Got" 1:56 10. "She Watch Channel Zero?!" 3:49 11. "Night of the Living Baseheads" 3:14 12. "Black Steel in the Hour of Chaos" 6:23 13. "Security of the First World" 1:20 14. "Rebel Without a Pause" 5:02 15. "Prophets of Rage" 3:18 16. "Party for Your Right to Fight"