terça-feira, 31 de março de 2026

Django Django – Born Under Saturn (2015)


Algures em 2012, já não sei precisar bem quando, tive o primeiro vislumbre de quem seriam uns tais de Django Django. Foi-me passada a informação de uma banda realmente interessante. Vou ser sincero. Não lhes liguei patavina. Erro. Estaria, provavelmente, ocupado em festejar (mais) um título roubado ao Benfica de Jesus. Coisa pouca mas esta minha indiferença em relação à banda escocesa teria um fim abrupto perto do fim de 2012. Mais precisamente em Novembro desse mesmo ano.

Durante um périplo pela Ásia, numa qualquer loja meio hipster da cosmopolita Hong Kong, deparei-me com a qualidade musical da playlist dessa mesma loja. Eles, que tanto vendiam cerveja importada, como roupa e parafernália vintage, tinham um gosto acima da média, musicalmente falando. E foi precisamente nessa mesma loja que passou uma certa música que me entrou directamente pelo ouvido, passando pelo tálamo, enviando estímulos nervosos para o centro das emoções, para o córtex pré-frontal e para o hipotálamo. Deu uma certa coceira gostosa. Felizmente há aplicações que ajudam a que não nos esqueçamos de certas coisas e o Shazam é uma delas. Poucos segundos ganharia uma nova banda favorita. Django Django de seu nome. Ah. A música em questão era a “Storm”.

“Storm”, lançada em 2009, foi o primeiro lançamento da banda de Edimburgo (baseada em Londres). Um portento de som, com batidas, compassos matreiros, vozes e coros fortes com mudanças entre verso e refrão constantes, o suficiente para vos manter agarrados como uma droga das boas. Ora este som misterioso, um misto entre luz e escuridão, antigo e novo, clássico e futurista, guitarras, sintetizadores, baterias não utilizadas de modo convencional fizeram do primeiro disco da banda, o homónimo Django Django, uma pérola dos discos da última geração de músicos.

Agarrei-me a Django Django tanto quanto podia, penitenciando-me gravemente por os ter deixado tanto tempo esquecidos na gaveta da letra D do meu velhinho iPod. Curiosa é imagem mental que criei com o disco e o próprio som da banda. Estava (e ainda estou, raios!) a ler as Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, vulgo Guerra dos Tronos, em plenas praias do Vietname e músicas como “Hail Bop”, “Firewater”, “Waveforms”, ou quase qualquer uma do resto disco, casaram tão bem – pelos menos aos meus ouvidos – como um Danúbio Azul a musicar 2001 – Odisséia no Espaço. Chamem-me louco mas atentem às letras que falam de céus, estrelas, escuridão, fogo, luar, sombras e se a isso juntarmos sons exóticos e etéreos teremos uma bela banda sonora. Pensem nisso, pensem…

Apesar de tudo, um disco pode não chegar para fazer uma banda. Esta pujança toda poderia tornar-se pífia num concerto ao vivo. Perder-se esse tal misticismo que a banda ostenta. Nada mais errado. Em 2013, aquando da sua passagem por solo nacional, no ainda Optimus Alive, os Django Django mostraram que, além de grandes canções pop, são mestres em levantar uma plateia. Confesso que o show que nos deram em Algés foi dos melhores que este que vos escreve visionou. Uma ligação quase cósmica entre a banda e o público, na mesma toada que é possível sentir nos concertos de Arcade Fire. Uma hora inesquecível.

2015 chegou e a notícia que surgia era de uma sequela por parte dos Django Django. Born Under Saturn era o nome escolhido para mais uma viagem oferecida pelos escoceses David Maclean (baterista e produtor), Vincent Neff (vocalista e guitarrista), Jimmy Dixon (baixista), and Tommy Grace (teclas). David Maclean é o irmão mais novo de John Maclean, ex-membro dos Beta Band, o que terá, certamente, influenciado o som dos Django Django.

Vamos ser honestos. Born Under Saturn é inferior a Django Django. Não tem a frescura e emergência que o disco de 2012 teve. Não tem tantas canções âncora que prendam e sufoquem à primeira audição. Falta-lhe uma “Default”, uma “WOR”, uma “Storm”. Mas verdade seja dita, Born Under Saturn é bom. Cresce a cada vez que metemos o disco em repeat, e, embora não tenha as tais canções que nos encostem a uma parede de tão boas que são, acabamos por descobrir outras que começamos a sentir empatia e a desejar ouvi-las lado a lado com as músicas do primeiro disco. “Giant”, faixa que abre o disco é exemplo disso mesmo. Ao início não damos muito por ela, parece que se encontra dormente mas agarra-nos na parte final e dá uma grande abertura para a segunda canção, “Shake and Tremble”, criada a partir das cinzas de “WOR” e que nos mete logo a gingar a anca e o pulso.

Tal como no primeiro disco de Django Django, a adrenalina vai alternando com sons mais místicos e etéreos, que podíamos encontrar em qualquer palácio de Yunkai, Meereen ou Velha Ghis ou então transportados para a luz de R’hllor como em “First Light”, primeiro tomo a sair deste Born Under Saturn, que decepcionou alguns que estavam bem expectantes do segundo longa duração da banda escocesa. Pode não ter sido o melhor “single” para agarrar as pessoas mas exemplifica bem o som do disco. Primeiro desilude, depois agarra. E agarra mesmo bem em “Reflections”. Exímios nos coros e sons pastosos e meio tropicais, os Django Django vão voltando a ganhar a nossa confiança durante os cerca de 60 minutos que dura Born Under Saturn e que desaguam em “Break The Glass” e “Life We Knew”.

Sim, Born Under Saturn é inferior a Django Django, mas dada a qualidade destas 13 músicas, digo-vos que ninguém sairá defraudado. O seu som veio para perdurar e será, certamente, um dos concertos do ano, no agora, NOS Alive 2015. A não perder, já dia 9 de Julho.

 

Zephyr – Zephyr [1969]

 

Zephyr – Zephyr [1969]

Zephyr é o autointitulado álbum de estreia da banda estadunidense de mesmo nome, lançado oficialmente em 1969. Candy Ramey nasceu em 1946 em uma família descrita como “jogadores e bandidos mesquinhos”, que vivia em uma casa de madeira com vista para o lago perto de Evergreen, a oeste de Denver, no Colorado. Quando ela tinha onze anos, a família se mudou das montanhas para Applewood, perto de Golden.

O amor de Candy pela música e sua voz poderosa a fizeram ser eleita a “cantora com maior probabilidade de se tornar famosa” em seu último ano na Golden High School. Ela estudou na Northern Colorado University, em Greeley, com a intenção de se tornar professora. Mas a música era seu foco, e ela e seu amigo do ensino médio, Doug Lubahn, pegaram carona até a Califórnia. Lubahn procurou emprego como baixista e acabou tocando nos dois primeiros álbuns do Doors. Candy se mudou para São Francisco para se juntar à amiga Connie Kay; ela fez sua estreia no rádio tocando violão e cantando “Greensleeves” em uma estação de língua chinesa.

Depois de um ano no litoral, ela retornou ao Colorado e se mudou para Aspen, juntando-se a outro amigo do ensino médio, Doug Whitney, na Piltdown Philharmonic Jug Band. Foi lá que ela conheceu David Givens, compositor, guitarrista e baixista; eles se mudaram para Boulder e se casaram em outubro de 1968. A banda deles, Brown Sugar, tocou de Denver a Salt Lake City, também na Califórnia, e de volta a Boulder naquele outono. A Brown Sugar acabaria se transformando no Zephyr. Na época, a cidade de Boulder era um ponto de encontro de grandes músicos e tinha uma cena musical incrivelmente diversa. Rick Roberts, do The Flying Burrito Brothers e Firefall; Jock Bartley, do Graham Parsons e Firefall; Poco; Freddi Henchie & the Soulsetters; Flash Cadillac; Joe Walsh & Barnstorm e Steve Stills foram todos atraídos pelas montanhas e pelos estúdios de gravação Caribou Ranch.

Robbie Chamberlin, John Faris, David Givens, Candy Givens e Tommy Bolin. Zephyr em 69

Após uma jam monumental com o mago da guitarra Tommy Bolin no The Buff Room, na colina, Candy e David Givens se juntaram ao tecladista e flautista John Faris e a Bolin, os líderes da banda Ethereal Zephyr. Com a adição de Robbie Chamberlin na bateria, os membros do conjunto começaram a compor e a arranjar músicas, aproveitando sua experiência tocando pop, blues, jazz, country e folk. Eles estouraram na cena musical do Colorado com vários shows explosivos começando no The Sink em Boulder, onde trabalharam com Chuck Morris para promover um burburinho sobre a banda, e depois no Glenn Miller Ballroom da Universidade do Colorado, abrindo para John Mayall, entre outras apresentações, incluindo vários shows gratuitos no Boulder Band Shell.

Depois de tocarem em Phoenix, onde conheceram músicos como Steve Miller, Vanilla Fudge e a banda de David Lindley, Kaleidoscope, eles foram para Nova York, São Francisco e Los Angeles, onde tocaram no Avalon Ballroom, no The Whisky A-Go-Go e no The Boston Tea Party. Por onde passavam, seus shows sem restrições conquistavam novos fãs, especialmente no Denver Pop Festival, onde tocaram em duas noites memoráveis. Eles também passaram um tempo em Boulder, preparando-se para gravar seu primeiro álbum no outono de 1969. Seu álbum de estreia autointitulado foi lançado pela ABC Probe, uma divisão da ABC Records. As gravações se deram no Wally Heider Studios, em Los Angeles, Estados Unidos. A produção ficou a cargo de Bill Halverson.

Compacto francês de “Sail On”, com “Cross the River” no lado B

“Sail On” traz ótimos vocais de Candy e a guitarra de Bolin incendiária, em um blues rock, com toques sutis de prog em seus mais de 7 minutos. A deliciosa pegada bluesy continua na viciante “Sun’s a Risin’”. “Raindrops”, uma versão para a faixa de Dee Clark, tem uma pegada que lembra o CCR, com vocais de Candy que trazem à mente Janis Joplin. “Boom-Ba-Boom” é uma pequena canção instrumental com destaque para a guitarra de Bolin. Os “duelos” entre a guitarra de Bolin, a harmônica de Candy e os teclados de Faris são notáveis em “Somebody Listen”, um blues rock de categoria excepcional.

“Cross the River” traz Faris afiado no órgão, em um rock um pouco mais direto. Nesta versão para “St. James Infirmary”, de Joe Primrose, a musicalidade é mais contida e o destaque vai para a impressionante atuação vocal de Candy Givens. “Huna Buna” é mais curtinha, com órgão, gaita e guitarras em solos pontuais. “Hard Chargin’ Woman” tem mais de 9 minutos e encerra o álbum em um clima de improvisação.

O grupo apostou em Zephyr numa sonoridade mais baseada no Blues Rock, com toques de psicodelia e um peso considerável para sua época, muitas vezes um Hard Rock vigoroso. A banda é bem consistente com sua sólida seção rítmica permitindo boas intervenções de John Faris nos teclados ou da vocalista Candy Givens na gaita. Falando nela, seus vocais poderosos e “exagerados”, por vezes remetem à Janis Joplin. Porém, é inegável que o maior destaque é para o incrível guitarrista Tommy Bolin, com solos notáveis, já mostrando o talento que o levaria ao Deep Purple anos mais tarde. Canções como “Sail On”, “Raindrops” e “Somebody Listen” são soberbas e estão entre minhas preferidas, embora no disco não há faixas descartáveis.

Raríssima edição australiana de Zephyr

A estreia do Zephyr conseguiu repercutir em termos de paradas de sucesso, atingindo a 48ª colocação da principal parada norte-americana. Com a presença de palco, as composições, os vocais e a harpa de Candy; os solos mágicos da guitarra de Bolin e o poder da seção rítmica do Zephyr, além das performances de blues/jazz/rock da banda em shows com Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Leslie West’s Mountain, Mad Dogs and Englishmen, Spirit, Fleetwood Mac e praticamente todos os grandes grupos da época, o Zephyr estabeleceu uma base de fãs nos EUA, no Canadá e internacionalmente na Europa, no Japão e na Austrália.

O cenário estava pronto para que o Zephyr ,com a vocalista Candy Givens, tornasse-se o herdeiro lógico da dinastia de Janis Joplin e Grace Slick, ou seja, de bandas poderosas lideradas por mulheres no final dos anos 1960. O Zephyr fez uma aparição no American Bandstand em 31 de janeiro de 1970, dublando “Cross the River”. Embora as performances carismáticas de Candy Givens fossem o ponto focal da banda, o trabalho de guitarra chamativo de Bolin é o motivo pelo qual a banda é mais lembrada. Em 1970, o grupo lançaria seu segundo disco, agora pela Warner Bros., Going to Colorado.

Contra-capa da edição estadunidense

Faixas:

1. Sail On
2. Sun's a Risin'
3. Raindrops
4. Boom-Ba-Boom
5. Somebody Listen
6. Cross the River"
7. St. James Infirmary
8. Huna Buna
9. Hard Chargin' Woman


Propellerheads - "Decksdrumsandrockandroll" (1998)

 

“Uma união sinérgica que resulta em
paisagens sonoras eletrônicas 
ricamente cinematográficas, 
impregnadas de hip-hop e um funk encorpado
- com um sadio senso de humor. ”
Larry Flick, 
revista Billboard


Eles têm um gosto todo especial por trilhas de filmes, e a capa explosiva, uma clara alusão a filmes de ação, já dá uma boa pista disso. Mas a coisa toda só comeca aí: a versão para "On her majesty's secret service", uma releitura dançante e alucinante de um dos temas clássicos de James Bond, com quase dez minutos e repleta de improvisos e samples empolgantes, só comprova ainda mais esse gosto e essa atmosfera cinematográfica que está espalhada ao longo do álbum em outras faixas e em vários outros momentos. Mas ainda que o titulo do disco indique um conteúdo altamente roqueiro, outra das predileções dos Propellerheads é o jazz e, a unindo ao cinema como as duas influências que figuram praticamente o tempo todo no álbum, a participação luxuosa de Miss Shirley Bassey, uma das intérpretes mais marcantes de temas de 007, em "History Repeating", um electronic-jazz retrô embalado e inspiradíssimo, serve como catalisador da ideia e da estética sonora da dupla Alex Gifford, o homem do maquinário e dos samples, e Will White, o responsável pelas batidas no criativo, estimulante e dançante "Decksdrumsandrockandroll".

Mas nem o jazz nem o cinema se limitam a essas duas faixas: "Take California", que faz as honras de abertura do álbum vai na mesma linha com uma batida extremamente dançante, tempos musicais muito jazzísticos e uma levada bem característica de filmes de espionagem. Não à toa, "Spybreak", semelhante na pegada, serviu de trilha para o filme "Matrix" na antológica cena da entrada de Neo e Trinity no saguão do prédio para resgatar Morpheus. Bem como "Cominagetcha!", de percussão um pouco mais carregada para o afro, que também poderia servir perfeitamente para um filme de ação blaxpliotation dos anos 70, isso tudo sem falar nos diversos fragmentos de diálogos de filmes espalhados ao longo do álbum.

Embora muito significativa no contexto todo do trabalho, não é apenas a bagagem cinematográfica o que sustenta o álbum. Como eu já mencionei, o jazz é outra das influências bem presentes no disco e ela pode ser notada de diversas formas ao longo do disco, em várias faixas, seja na fluência, seja nas linhas de base, seja nos improvisos, ou na subversão dos tempos, ao melhor estilo de um Herbie Hancock ou do quarteto de Dave Brubeck. Mas, tudo isso, é claro, muito bem sustentado pelas picapes, mesas e samples da dupla, que garantem, em meio a uma enxurrada de tendências e possibilidades musicais, muito ritmo e uma experiência dançante rica e excitante. Mas já falamos dos decks, da bateria mas onde, afinal, fica o rock'n roll sugerido no título do álbum? Embora apareça de forma mais explícita na frenética "Bang On!", o rock'n roll está em toda parte! A própria proposta em si é extremamente rock. A pegada, a mistura de influências, a concepção de álbum, é tudo muito próprio do rock e, certamente, o duo britânico tinha isso em mente ao planejar seu ótimo "Decksdrumsandrockandroll".

O disco teve edições diferentes da original britânica em outros lugares, sendo que a versão japonesa tem até mesmo um disco extra que traz, assim como a norte-americana, participações muito legais do DeLa Soul com a soul suave e sensual "360º (Oh Yeah)", e dos Jungle Brothers, em "You Want It Back", um hip-hop crescente que vai de uma batida quase ambient a um trip-hop acelerado e frenético. Curiosamente, o álbum foi o único da dupla que, num primeiro momento por questões de saúde de White e depois por motivos de agenda e de desencontros profissionais entre os dois intergrantes, encerrou suas atividades não muito tempo depois. Mas ambos continuam na ativa com trabalhos de produção, especialmente Gifford que, como não podia deixar de ser, não raro, aparece em colaborações para trilhas para TV e cinema.

Uma pena que juntos tenham ficado só nisso mas, certamente, "Decksdrumsandrocandroll" com sua qualidade, criatividade e diversidade, representa um dos melhores trabalhos do gênero em sua época e, por isso mesmo, um importante legado para tudo o que o sucedeu. Um único trabalho mas acima de tudo, um trabalho único. 

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FAIXAS:

  • edição original (GB)

1."Take California" 7:23
2."Echo and Bounce" 5:29
3."Velvet Pants" 5:49
4."Better?" 2:05
5."Oh Yeah?" 5:28
6."History Repeating" (com Shirley Bassey) 4:05
7."Winning Style" 6:00
8."Bang On!" 5:57
9."A Number of Microphones" 0:48
10."On Her Majesty's Secret Service" 9:23
11."Bigger?" 2:22
12."Cominagetcha" 7:07
13."Spybreak!" 7:00

  • disco bonus da edição japonesa
1."You Want It Back" (featuring Jungle Brothers) 6:01
2."360° (Oh Yeah)" (featuring De La Soul) 4:29
3."Go Faster" 6:12
4."Ron's Theory" 6:38
5."Dive!" 7:04

  • edição norte-maericana


1."Take California" 7:21
2."Velvet Pants" 5:46
3."Better?" 2:03
4."360° (Oh Yeah?)" (com La Soul) 4:27
5."History Repeating" (com Shirley Bassey) 4:02
6."Winning Style" 5:58
7."Bang On!" 5:44
8."A Number of Microphones" 0:45
9."On Her Majesty's Secret Service"John Barry 9:20
10."Bigger?" 2:20
11."Cominagetcha" 7:02
12."Spybreak!" 6:58
13."You Want It Back" (com Jungle Brothers) 5:5





The Prodigy - "Music For Jilted Generation" (1994)

 


 “Fodam-se eles e suas leis”
“Their Law”

“The Fat of the Land”, álbum de 1997 cheio de hits e responsável pelo estouro definitivo dos ingleses do The Prodigy é constantemente saudado e festejado como sendo seu grande trabalho. É um grande álbum, é verdade, e no seu devido tempo merecerá a atenção aqui nesta seção, mas na minha opinião o verdadeiro crescimento e consolidação de uma linguagem e um estilo aconteceu em seu disco anterior o ótimo “Music for Jilted Generation” de 1994, onde aquele punkismo que ficaria mais explícito, não só na agressividade do disco seguinte, em músicas como “Breathe” por exemplo, ou mesmo no visual dos integrantes, especialmente do performer Keith Flint, começava a tomar forma e se justificava não apenas sonoramente mas também enquanto atitude, uma vez que a banda batia de frente com as autoridades inglesas que na época criavam todas as dificuldades possíveis para relizações de raves e festas do gênero. Com “Their Law”, uma paulada metal-eletrônica feita em parceria com os industriais do Pop Will Eat Itself, desafiavam a polícia, botavam o dedo na cara da Ordem Pública e mandavam todos ‘se foder’, literalmente, num petardo sonoro pesado e agressivo. Uma verdadeira bomba hardcore eletrônica como poucas vezes havia-se ouvido até então.

“Voodoo People” é outra matadora! Com sua guitarra cortante, suja, entrecruzada, entrecortada, e uma batida atropeladora é simplesmente violenta e selvagem. “Break and Enter’, que a rigor abre o disco após uma breve vinheta, é igualmente acelerada e pegada sem contudo ser tão feroz quanto às outras já citadas, apresentando por sua vez uma base genial extremamente bem trabalhada totalmente quebrada e inconstante complementada por um sample vibrante de um vocal feminino, numa das melhores faixas do álbum. A envenenada “Poison” é psicodélica, psicótica, caótica, ousada em sua composição aparentemente desencontrada, e com o vocal brilhantemente fazendo partes de percussão; “Speedway” é extremamente criativa ao incorporar samples de carros de corrida ao seu andamento já bem acelerado; e a boa "No Good" é um convite irrecusável para uma pista de dança com seu ritmo frenático e empolgante. “3 Kilos”, que abre o ‘pacote de narcóticos’, como é descrito na capa o conjunto das três últimas faixas, é estilosa com seu andamento cool e seu charmoso solo de flauta; a mutável “Skylined” vai ganhando corpo e peso, capricha nas repetições e explode num ritmo galopante forte e intenso; e a perturbadora “Claustrophobic Sting”, com seu sample de saco-de-risadas fecha o disco em grande estilo numa faixa longa, forte e alucinante.

Músicas como a acelerada “Full Throttle”, “One Love” com seus toques árabes;  e a elétrica “The Heat (The Energy)”, são boas faixas, dançantes, vibrantes mas na minha opinião momentos menores no álbum, o que não tira em nada o brilho do trabalho como um todo. Se depois de um álbum interessante porém quase primário, e que soava até meio ‘infantilóide’, como seu “Experience” de 1992, em “Music for Jilted Genaration”, Liam Howlett a cabeça pensante por trás do projeto, corrigia o rumo, aparava as arestas, caprichava nos samples achava o meio termo entre o eletrônico e o peso e mandava ver num álbum que pode ser considerado um dos pioneiros na introdução de elementos de peso e guitarras na música eletrônica. O que veio depois foi só conseqüência.


 FAIXAS:
1. Intro
2. Break and Enter
3. Their Law
4. Full Throttle
5. Voodoo People
6. Speedway (theme from “Fastlane’)
7. The Heat (The Energy)
8. Poison
9. No Good (Start The Dance)
10. One Love (Edit)

  • The Narcotic Suite
11. 3 Kilos
12. Skylined
13. The Claustrophobic Sting




Prodigy - "The Fat Of The Land" (1997)


“A nossa atitude é:
estamos aqui,
amem-nos ou odeiem-nos.
Se isso é ser punk,
 então somos punk”
Liam Howlett




Sem dúvida pioneiros como o Suicide colocaram a cara a tapa apresentando seu som eletrônico em pleno movimento punk naquele contexto pouco recomendável pra que alguém viesse com "maquininhas" fazendo música. É certo que grupos como o Front 242 já uniam minimalismo e agressividade ao eletrônico ali pela metade dos anos 80, e que músicos talentosos como Trent Raznor já punham o maquinário a serviço do peso para produzir seu intenso e barulhento som industrial. Mas mesmo com todos estes precedentes creio ser justo afirmar que nunca a música eletrônica foi tão suja, tão pesada, aproximou-se tanto do punk quanto em "The Fat of The Land" do Prodigy, lançado em 1997.
O grupo encabeçado pelo prodígio Liam Howlett já havia dado mostras de sua inclinação para o peso em seu disco anterior, o ótimo "Music For Jilted Generation" (1994) com o "metalzão" "Their Law" e a eletrizante "Voodoo People", mas "The Fat Of The Land" catalisava aquelas tendências de uma maneira mais efetiva materializando assim um produto final simplesmente bombástico.
O visual que o grupo assumia naquele momento, em especial seu MC Keith Flint, uma espécie de Bozo do inferno, levava muitos a pensar que estavam se "fantasiando" de punks de modo a estabelecer uma coerência visual com a proposta musical que então apresentavam aproveitando assim para entrar na onda roqueira que ainda predominava naquele final de anos 90. É evidente que o mundo pop tem todo seu show-business e o grupo aproveitou a rebarba do grunge para encarnar um tipo mais rocker, mas que o lado rebelde, transgressor e punk não era meramente uma encenação, definitivamente não era. Suas rusgas com autoridades por conta de restrições a raves e festas afins já vinha de longa data e a já mencionada "Their Law" do disco anterior não somente era uma pedrada sonora como na letra, em poucas palavras como é característico do gênero, metia o dedo na cara dos legisladores e da polícia: "Fodam-se vocês e suas leis".
Agora eles atacavam de novo e vinham com mais munição: sexo, drogas, assassinatos, incêndios, caos... O carro-chefe de "The Fat of The Land" era nada mais nada menos que uma música de título ambíguo que sugeria estupro, agressão mas que na verdade tratava-se de uma expressão popular para o consumo de heroína. "Smack My Bitch Up", uma pancada eletrônica de ritmo fenético e uma certa  levada árabe, como se não bastasse sua sonoridade alucinante, trazia a tiracolo um videoclipe alucinante de câmera na mão, em primeira pessoa, repleto de putaria, consumo de drogas, álcool, violência e todo tipo de comportamento inadequado, tão hardcore, tão inapropriado, que chegou a ser banido da MTV americana e de televisões de vários outros países. Quer mais punk que isso?
"Breathe", que a segue no álbum, não deixa por menos num petardo sonoro que flerta com o grunge e chega a lembrar "Anarchy in the U.K." dos Sex Pistols no refrão pela voz rasgada e pela entonação. "Diesel Power" dava uma aliviada na violência  e carregava no funk com uma letra bem interessante sobre a tecnologia e a loucura do mundo moderno; e a frenética "Funky Shit" cheia de gritinhos de torcida de colégio e  com seu sampler do tema da S.W.A.T. mantinha o nível lá em cima.
Aí chega "Serial Thrilla" entrando de voadora com os dois pés nos peitos! Uma mistura explosiva do funk de "Diesel Power" com a potência de "Smack My Bitch Up" que levaria até um aleijado pra pista de dança. "Mindfields" é mais climática, lembra algo como uma trilha de filme de espionagem ruim, e "Narayan" que a segue, extensa, cheia de variações, parece não corresponder ao tamanho de suas pretensões. Já a incendiária "Firestarter", é outro daqueles exemplos do punk aplicado a música eletrônica de maneira perfeita. Uma bomba, um coquetel molotov de samples sinuosos e ziguezagueantes, uma batida drum'n'bass aceleradíssima e perturbadora, e um vocal nervoso e ameaçador. A boa "Climbatize", crescente e bem elaborada, é uma boa ponte para o final do disco e "Fuel My Fire" que põe a tampa no caixão, ao contrário das demais que tinham doses de peso em músicas predominantemente eletrônicas, tem nos efeitos, samples e programações meros coadjuvantes para uma tijolada sonora conduzida por guitarras, baixo e bateria de verdade, além de vários convidados, numa espécie de festa punk de encerramento do álbum.
Que KraftwerkSilver Apples, Throbbing Gristle, Suicide, tiveram papéis mais importantes na história da música eletrônica, não existe discussão, que outros contemporâneos do Prodigy  como Chemical Brothers e Orbital tenham mais recursos e alternativas creio que não seja um absurdo afirmar, mas que "The Fat Of The Land" à sua maneira inaugurava naquele momento um novo capítulo na história do gênero, me parece que seja algo que não esteja muito longe da verdade.

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FAIXAS:
  1. Smack My Bitch Up (5:430
  2. Breathe (5:35)
  3. Diesel Power (4:18)
  4. Funky Shit (5:16)
  5. Serial Thrilla (5:11)
  6. Mindfields (5:40)
  7. Narayan (7:07)
  8. Firestarter (6:43)
  9. Climbatize (6:38)
  10. Fuel My Fire (4:19)




Prince - "Sign O' the Times" (1987)

 


"Sinal dos Tempos"



Sou assumidamente do time dos que preferem Prince a Michael Jackson . Já ouvi de alguns que a comparação é sem fundamento e que são coisas diferentes, mas só não enxerga quem não quer que trata-se absolutamente da mesma matéria só que com roupagens diferentes. Ao passo que Michael aproximou muito seu trabalho do grande público, criou uma imagem pública forte e coreografias impressionantes a ponto de ser coroado o Rei do Pop, Prince, muito mais MÚSICO que o ele mas que não dança lá tão bem assim, explorava a cada disco todas as possibilidades que a música negra lhe concedia e fazia isso sozinho (literalmente), enquanto, Michael, admitamos, provavelmente nunca teria deixado de ser apenas o caçula dos Jackson 5 se não fosse o verdadeiro gênio Quincy Jones lhe mostrar os caminhos.
Prince já que aparecera como uma das grandes promessas da música pop no final dos anos 70 vinha evoluindo com seu trabalho e a cada disco mostrava-se mais competente. Já havia nos apresentado o ótimo "1999", o bom "Parade",a consagrada trilha de "Purple Rain" e agora, com "Sign O' the Times" de 1987, parecia que chegava a uma espécie de auge profissional com um disco que explorava a black-music praticamente de cabo a rabo e com todas as possibilidades e técnicas possíveis até então. Prince então concebia o disco, compunha-o todo, arranjava-o, produzia e tocava todos os instrumentos de uma obra que levava sua assinatura integralmente.
A genial faixa-título que abre o disco construída (ou descontruída) a partir de uma base eletrônica e vocal rap é absolutamente moderna e minimalista em sua composição com uma letra inteligente e irônica.
"Housequake", com sua bateria alta e pesada, é um funkão daqueles dignos dos mestres do gênero; e em "The Ballad of Dorothy Parker" Prince desfila um vocal primoroso sobre uma base de percussão eletrônica extremamente bem composta.
A ótima "It", também minimalista, com sua batida invariável e contínua, com teclados e efeitos pontuais, é sexy, luxuriante e... fora de série. "Starfish and Cofee", um gospel simplezinho, é bem música negra americana de rua, daquelas de cantar em grupo na esquina ao lado de um tonel com fogo, sabe? Já "Slow Love" uma balada apaixonante, e uma das minhas preferidas, faz bem o estilo soul-man romântico dos anos 50 com um vocal 'derretido' do baixinho e um recheio muito legal de metais.
Até nas aparentemente simples como "Hot Thing", outro funkão foda, com sua estrutura básica porém cheia de variações e inserções de elementos ou na interessante "Forever in My Life" que é só vocal (e que vocal) sobre uma base rigorosamente repetida, sempre aparece nitidamente a qualidade superior do trabalho.
Pra não dizer que tudo é assim espetacular, músicas como "Play in the Sunshine", "U Got the Look", "Strange Realtionship", "I Could Nevet Take..." não passm de boas canções pop, mas ainda assim cheias de soul, de funk, de rythm'n blues e muito melhores do que a maioria das 'canções pop' que rolam por aí.
Ainda deve-se destacar a crescente "The Cross", talvez a mais rock do disco, com o melhor da guitarra de Prince; a verdadeira 'festa' que é "It's Gonna Be a Beautifull Night", um funk longo carregado e cheio de embalo, tirado de uma gravação ao vivo; e a lentinha adorável "Adore" que faz as honras de despedida do álbum.
Disco pra se ficar boquiaberto da primeira à última. Impecável em cada detalhe. Prince chegara possivelmente a um álbum perfeito. Ele amadurecera, progredira, evoluíra. Era o sinal dos tempos! E eles anunciavam Prince como o verdadeiro gênio da música pop negra americana.

FAIXAS:
01. Sign O’ The Times
02. Play In The Sunshine
03. Housequake
04. The Ballad Of Dorothy Parker
05. It
06. Starfish And Coffee
07. Slow Love
08. Hot Thing
09. Forever In My Life
10. U Got The Look
11. If I Was Your Girlfriend
12. Strange Relationship
13. I Could Never Take The Place Of Your Man
14. The Cross
15. It’s Gonna Be A Beautiful Night
16. Adore





Suzi Quatro - Freedom (2026) USA

 

Aos 75 anos, Suzi Quatro continua a ser a prova viva de que o Rock 'n' Roll não é um género musical, mas um estado de espírito. Em Freedom (2026), o seu terceiro trabalho em parceria com o filho LR Tuckey, a "Rainha do Baixo" não está apenas a lançar mais um disco; está a redigir o seu próprio mito e a carimbar a sua sobrevivência num clube que ela própria ajudou a fundar.

Aqui está a nossa análise sobre este manifesto de liberdade:

A Autobiografia em Forma de Riff

Freedom é, acima de tudo, um álbum sobre identidade. Suzi não pede licença para narrar a sua história. Em "Choose Yourself", que abre com uma cadência que pisca o olho a Sympathy For The Devil, ela deixa o aviso: "a vida é curta, escolhe-te a ti mesma". O fio condutor continua em "Nobody Held My Hand", onde a independência feroz que a levou a arrombar as portas do rock aos 14 anos é celebrada sem ponta de timidez.

Sonoridade: Do Glam ao Blues de Detroit

Musicalmente, o álbum é uma viagem pela vasta bagagem de Suzi, com a produção de LR Tuckey a garantir que o som soe atual sem perder a "sujidade" necessária:

  • "Hanging Over Me": Um mergulho nostálgico em 1974, com aquele brilho glam que a tornou um ícone.

  • "Here's Ya Boots": Rock direto, seco e com uma intenção que faz muitos novatos parecerem amadores.

  • "Going Down" & "Can't Let It Go": Aqui Suzi explora o Blues vibrante, com uma aura que lembra as sessões mais orgânicas de Dr. John.

O Encontro de Gigantes: Quatro & Cooper

Um dos momentos mais aguardados é o cover de "Kick Out The Jams" (MC5), onde Suzi se junta a outro nativo de Detroit: Alice Cooper. É uma celebração de dois veteranos a divertirem-se com um clássico que outrora aterrorizou a classe média. Embora a produção seja talvez um pouco "limpa" demais para uma canção que deveria soar a caos, a alegria de ouvir estas duas lendas a trocar versos é impagável.

O Veredito Final

Freedom pode não ter o impacto sísmico dos singles que dominaram os tops nos anos 70, mas oferece algo muito mais valioso em 2026: continuidade. É o som de uma artista que se recusa a baixar o volume ou a aceitar o silêncio. Suzi Quatro continua com o queixo erguido e o baixo pesado, provando que enquanto ela tiver algo a dizer, o mundo terá de ouvir.

Nota: 8.2/10

"Suzi não está a tentar ser a 'versão jovem' de si mesma; ela está a ser a versão definitiva. Freedom é o rugido de uma leoa que sabe exatamente onde estão as dobradiças da porta que ela própria arrancou."

Destaques: "Choose Yourself", "Hanging Over Me", "Kick Out The Jams" (feat. Alice Cooper)

Recomendado para: Fãs de The Runaways, Joan Jett, Alice Cooper e qualquer pessoa que aprecie Rock clássico com uma alma autobiográfica.


Temas:

01. Freedom (Single Version) (03:14)
02. Little Miss Lovely (03:12)
03. Choose Yourself (04:43)
04. Going Down (04:14)
05. Hanging Over Me (02:22)
06. Here's Ya Boots (03:11)
07. Can't Let It Go (03:03)
08. Nobody Held My Hand (04:49)
09. Shakedown (03:36)
10. Take It Or Leave It (03:21)
11. Woman's Song (03:00)
12. Kick Out The Jams (feat. Alice Cooper) (03:40)



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