terça-feira, 21 de abril de 2026

A capoeira do Besouro Mangangá em dois clássicos da MPB: “Fita Amarela” e “Lapinha”

 

Jogo de Capoeira. Gravura de Johann Moritz Rugendas

Nascido em 1895 na cidade de Santo Amaro, terra de Caetano Veloso e Maria Bethânia, o baiano Manoel Henrique Pereira ficou conhecido pela alcunha de Besouro Mangangá, por sua extrema habilidade na arte da capoeira.

Sua destreza e inteligência ajudaram a alimentar a crença popular de que o Besouro tinha poderes mágicos e o corpo fechado. Um desses poderes seria aquele que lhe deu o apelido: ele poderia se transformar em besouro e sair voando quando estivesse numa contenda com muitos adversários e não pudesse vencer a todos. Conta-se que não era criminoso, mas não gostava da polícia, o que lhe angariou antipatia das forças de segurança.

Besouro Mangangá (Aílton Carmo) no filme “Besouro”

Um dos pilares da capoeira é a música, e principalmente o ritmo. Expressão genuína da cultura afro-brasileira, a capoeira agrega arte marcial e dança, que seguem o ritmo ditado pela música instrumental e vocal. A capoeira entrelaçada ao samba de roda, outra expressão cultural do Recôncavo Baiano, influenciou muitos compositores da música brasileira, destaque para Baden Powell.

Dentre canções inspiradas pela capoeira, quero me deter aqui em duas delas: “Fita Amarela” de Noel Rosa e “Lapinha” de Baden Powell e Paulo César Pinheiro.

Quando eu era criança, eu pensava que essas duas músicas eram uma só, pois minha mãe cantava regularmente as duas em nossa casa. A do Noel, ela cantava inteira, e começa assim:

“Quando eu morrer
Não quero choro nem vela,
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela”

Já “Lapinha”, ela cantava só o refrão:

“Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, paletó almofadinha
Calça, culote, paletó almofadinha”

Além do ritmo puxado para o samba de roda, mal sabia eu, ao perceber intuitivamente a similaridade, que ambas as canções teriam bebido na mesma fonte: um tema supostamente composto pelo Besouro Mangangá para suas rodas de capoeira.

Noel Rosa

A genialidade de Noel Rosa quase não nos deixa perceber as citações à capoeira e ao candomblé na música e na letra de seu samba urbano, apesar dele ter reproduzido frases inteiras da original atribuída ao Besouro. “Não quero choro nem vela” é uma rejeição aos rituais católicos tão arraigados na época de Noel. Há também citações à reencarnação e a comemorar a passagem da alma com samba, sapateado e choro de flauta.

Já na música de Baden Powell e na letra de Paulo César Pinheiro, a presença do Besouro, que também era conhecido por Cordão de Ouro, é explícita:

“Adeus Bahia, zum zum zum, Cordão de Ouro
Eu vou partir porque mataram o meu Besouro
Adeus Bahia, zum zum zum, Cordão de Ouro
Eu vou partir porque mataram o meu Besouro”

Baden Powell e Paulo César Pinheiro

“Lapinha” foi lançada em 1968, ano agitado na cultura e na política do país. O endurecimento da ditadura militar levaria à edição do AI-5 no final daquele ano.  Veladamente a música exaltava um personagem da nossa história que lutava, e não se entregava, contra a opressão.

Para finalizar, aqui estão os versos originais que teriam sido escritos pelo Besouro Mangangá:

“Quando eu morrer
Não quero choro nem vela,
Também não quero barulho
Na porta do cemitério
Eu quero meu berimbau
Eu quero meu berimbau
Com uma fita amarela
Gravada com o nome dela”

A vida, romantizada, do Besouro Mangangá foi retratada no filme “Besouro”, 2009, dirigido por João Daniel Thikomiroff, do qual peguei a imagem do ator Aílton Carmo, que interpretou o capoeirista.

MÚSICAS


“Fita Amarela” – Martinho da Vila e Aline Calixto

“Lapinha” – Elis Regina

“E se Deus fosse um de nós?” Memórias, Momentos e Músicas: Joan Osborne – “One of Us”

 


Uma canção arrebatadora! A primeira vez que a ouvi foi no clipe que passava na MTV, em meados da década de 1990. A música se chama One of Us e é interpretada pela cantora estadunidense Joan Osborne, faz parte de seu segundo álbum solo, “Relish” de 1995.

É um pop rock delicioso com um refrão poderoso. Composta pelo guitarrista Eric Bazillian, que participava das gravações do álbum de Joan, ela entrou quase por acaso no disco, uma vez que o repertório da cantora é mais voltado para o country rock.

Apesar de ter gostado muito da música, eu só fui me interessar mais profundamente por ela depois de assistir ao filme “Vanilla Sky”, 2001, de Cameron Crowe. O personagem principal do filme, David Aames (Tom Cruise) canta o refrão enquanto está numa maca de hospital, a caminho de uma cirurgia. Aliás, a trilha sonora de “Vanilla Sky” é um espetáculo, mas não tem “One of Us”, por isso eu acabei comprando o álbum “Relish” por causa de dela, mas o disco é muito bom.

Capas de “Relish” e “Vanilla Sky”

Na introdução da música aparece um trecho de uma antiga canção folclórica, The Airplane Ride, cantada a capella por Alan e Elizabeth Lomax.

E eu, que já gostava da música, fiquei apaixonado depois que entendi a sua letra. “E se Deus fosse um de nós?” é o tema da música. Ela aborda de maneira simples e honesta a questão da fé. “Se você estivesse cara a cara com Deus, o que perguntaria a ele?” e “Se Deus fosse apenas um estranho no ônibus, tentando ir para casa?”

A canção é um exemplo de perfeição: melodia bonita, letra tocante, refrão pungente e um belo riff de guitarra. Destaca-se o esforço de Joan Osborne em cantar um tipo de música que não era o qual ela estava acostumada a cantar até então.

VÍDEOS


Videoclipe

Trecho de “Vanilla Sky” com “One of Us”



Diálogos Musicais: “Sanfona Branca” de Benito di Paula e “Chapéu de Couro e Gratidão” de Luiz Gonzaga

 


Em 1975, o cantor, pianista e compositor Uday Vellozo, mais conhecido como Benito di Paula, lançou seu quinto álbum e solidificou o que preconizava em seu terceiro disco: “Um Novo Samba”. Suas músicas tinham base no piano que ele “batucava” com maestria. O sucesso incomodou os mais puristas e gerou críticas até de Paulinho da Viola, nos versos do samba Argumento lançado naquele mesmo ano:

“Tá legal
Tá legal
Eu aceito o argumento
Mas não me altere o samba tanto assim
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
De um cavaco, de um pandeiro
Ou de um tamborim”

Benito di Paula e Luiz Gonzaga. Fonte: Facebook de Benito di Paula

O álbum, chamado apenas “Benito di Paula”, cujo maior sucesso foi a música Vai Ficar na Saudade, traz entre suas faixas a canção Sanfona Branca. A música é uma homenagem ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga, que Benito afirma ser uma de suas maiores influências.  Luiz Gonzaga inspirou também Raul Seixas e até o grego Demis Roussos. Este último gravou White Wings, versão em inglês para a obra-prima do Rei do Baião: Asa Branca, em seu álbum de 1975.

Sanfona Branca já começa exaltando Gonzaga:

“Aquela sanfona branca
Aquele chapéu de couro
É quem meu povo proclama
Luiz Gonzaga de ouro”

A resposta de Lua, apelido de Luiz Gonzaga dado por Dino 7 Cordas – devido ao rosto arredondado e um largo sorriso – veio dois anos depois em uma faixa do álbum “Chá Cutuba”, a canção Chapéu de Couro e Gratidão, na qual agradece a Benito di Paula:

“Aquela sanfona branca
Aquele chapéu de couro…
Como é bonito Benito
Quem é poeta e que ver
Como é bonito Benito
Poetas como você”

Vale notar que na introdução de Sanfona Branca, de Benito, há uma citação à música Asa Branca ao piano. Já na resposta de Lua, Chapéu de Couro e Gratidão, temos uma citação dos dois primeiros versos de Sanfona Branca, também em sua introdução.

MÚSICAS


Benito di Paula – Sanfona Branca

Paulinho da Viola – Argumento

Luiz Gonzaga – Chapéu de Couro e Gratidão

Demis Roussos – White Wings


Tom Slatter - Escape

 

 

Faz muito tempo que não resenho nada da gravadora Bad Elephant Music. Em 2013, ouvi um dos artistas mais impressionantes que surgiram por ela, chamado Tom Slatter. Seu terceiro álbum de estúdio, Three Rows of Teeth, era uma mistura do Genesis do início da carreira, Caravan e William D. Drake. E fiz uma resenha muito positiva, assim como de seus outros dois álbuns: Through These Veins e Black Water. Depois disso, me esqueci completamente dele. Até agora.

Seu lançamento mais recente deste ano , Escape, aborda o escapismo. Slatter se inspirou em histórias em quadrinhos, romances de ficção científica, jogos de computador e em sua infância confinada em casa. Slatter está trazendo mais histórias à vida, como um filme imaginativo que ganha vida. Então, já faz um tempo? Ah, sim. Então, vamos direto ao seu novo álbum.

Desde o momento em que "Time Stands Still" abre o álbum, você ouve esses sons estáticos vindos da TV enquanto riffs de guitarra intensos canalizam um ataque frenético em um arranjo de andamento médio. Isso remete ao único álbum homônimo do Diagonal, que Tom escolheu como inspiração para suas histórias misteriosas, com a adição de Mellotrons que surgem no momento certo.

A música percorre uma valsa à la Ayn Rand, canalizando tanto " A Nascente" quanto "A Revolta de Atlas", com uma seção intermediária folk-distópica, enquanto as máquinas dominam o planeta. Em seguida, retorna ao primeiro plano metálico com uma vibração orquestral, enquanto Tom presta sua homenagem ao início do Black Sabbath e aos dois primeiros álbuns do Iron Maiden, com texturas arpejadas que ganham vida.

Too Many Secrets apresenta efeitos eletrônicos caóticos e descontrolados enquanto narra a história de um grupo de soldados em uma nave espacial rumo a outro planeta, lutando em uma das guerras mais sangrentas da atualidade. E a pergunta que permanece é: vale a pena lutar nessa guerra estúpida? Sem mencionar a atmosfera sombria e opressiva que ele traz para a mesa de jantar.

Let's All Pretend evoca uma mistura de William D. Drake, Present e Palepoli de Osanna . É o Rock Progressivo Italiano encontrando o movimento Rock In Opposition, com uma homenagem à seção de guitarra do saudoso e genial Roger Trigaux, enquanto Rats assume uma atitude Punk-Folk.

Bateria acelerada seguida por melodia de guitarra, as mudanças inesperadas de ritmo percorrem toda a sala de estar. É possível ouvir Tom canalizando a era "Outside " de Bowie enquanto retoma a história de onde o detetive Nathan Adler parou. "Collateral" é uma dança psicodélica de garage rock. Ela se transforma em uma dança mortal entre as sessões de "Futurama " do Be-Bop Deluxe , enquanto embarca no trem do Gentle Giant a 800 km/h.

"Going Nowhere" é uma ópera de ficção científica de 19 minutos que ganha vida. É possível ouvir uma introdução ao estilo de Eric Beefheart que transforma o trem de Tom em uma abertura em alta velocidade. Há algumas estruturas poéticas que remetem a Edgar Allan Poe para a morte do personagem principal, com sons de guitarra e órgão que são completamente inesperados, mas funcionam muito bem.

Não só há uma guitarra dos anos 60 em uma corda bamba, como ele continua de onde Rush parou durante uma extensão de Cygnus X-1 Livro Um: A Viagem. E então, ele transforma isso em uma caminhada alegre antes de ficar ainda mais pesado, conforme Tom dispara mais mísseis, causando mais caos do que nunca.

Tom retorna então para mais um jantar de música prog italiana, desde o período Darwin de Banco del Mutuo Soccorso até Terra in Bocca, de I Giganti. É possível ouvir o som de um órgão de carrossel ganhar vida enquanto Tom paralisa a plateia steampunk à medida que a história se torna ainda mais perigosa.

Escape é o pesadelo de Tom Slatter que ganha vida. Ele continua sendo o nosso contador de histórias, renascido, seguindo os passos de Alan Moore, Neil Gaiman, Rod Serling e Vincent Price. E espero ouvir falar mais dele nos próximos anos, durante estes tempos difíceis que estamos vivendo.



Thought Bubble - 'Around'

 

Desde o momento em que a voz feminina descreve a frase inicial, " As ondas e os padrões estão se fundindo ", a faixa de abertura do álbum, " The Waves ", dá início a um pesadelo perturbador criado por Chris Cordwell e Nick Raybould. A estrutura lembra os videogames dos anos 80, como Super Mario Bros. 2, com diferentes paralelos das pirâmides, em meio a uma atmosfera noir e ao ritmo acelerado do tempo.

Então, o barril de pólvora se transforma em um calor incandescente para aumentar a intensidade da próxima faixa, "Rat Race". Com referências a "The Bogus Man" do Roxy Music e à era " Earthling" de Bowie , é uma viagem alucinante como nenhuma outra. Cordwell e Raybould se enfrentariam em um ringue de boxe, trocando socos entre seus instrumentos. Um caos alucinante em sua melhor forma, é uma composição insana que te manterá em suspense até o fim.

Fluctuate é uma jornada para o desconhecido. Um cenário futurista e relaxante, com uma seção de cordas que você nunca viu antes, enquanto o Beatwave canaliza a era " Oh No! It's Devo" do Devo , com sua energia contagiante, para te fazer vibrar ao som de Nick e Chris, que prestam uma homenagem ao Spud Patrol com um crossover à la Vivaldi.

Mobius Trip se transforma em uma composição de escalada para a dupla. Eles sobem cada uma das escadas que se transformam em vários padrões, alcançando o topo da montanha em um ritmo desafiador, alternando entre andamentos médios e rápidos para que as guitarras deslizem de uma seção para outra.

Devoider encerra o álbum deixando os níveis de temperatura altíssimos dentro da selva. Pesadelos alucinatórios ganham vida para Thought Bubble como se eles tivessem se juntado ao Ozric Tentacles e à era Irrlicht de Klaus Schulze. É um rearranjo insano que nos leva a uma alameda repleta de cogumelos gigantes à espera de serem devorados pelo resto do mês!

'Around' , do Thought Bubble, é uma das estreias mais surpreendentes que te manterá intrigado até o fim. 'Around' será assunto nos próximos anos, nos vibrantes anos 20. E espero ouvir mais do Thought Bubble na próxima aventura que os aguarda.




Beledo - Seriously Deep

 

Hunter S. Thompson disse certa vez: “ A música sempre foi uma questão de energia para mim, uma questão de combustível. Pessoas sentimentais chamam isso de inspiração, mas o que elas realmente querem dizer é combustível. Eu sempre precisei de combustível. Sou um consumidor voraz. Em algumas noites, acredito que um carro com o ponteiro da gasolina na reserva pode rodar mais uns oitenta quilômetros se você estiver ouvindo a música certa bem alto no rádio.”

A música sempre fará parte da sua vida, não importa por quanto tempo ela ressoe em você. Para Beledo, o retorno ao ritmo é constante, como demonstra seu mais recente lançamento pela gravadora MoonJune, Seriously Deep. A gênese por trás de seu trabalho, sucessor de Dreamland Mechanism, começou há 11 anos, quando ele e Leonardo Pavkovic se conheceram e passaram a admirar a música que compartilhavam.

O título veio do artista da gravadora ECM, Eberhard Weber, de seu lançamento de 1978 com a banda Colours, intitulado Silent Feet. Ambos admiravam a música de Weber. Mas o impacto foi enorme para Beledo quando Jorge tocou o álbum inteiro para ele, do começo ao fim, 43 anos atrás. E foi aí que a preciosidade se revelou.

Com Tony Levin, Kenny Grohowski e convidados especiais, incluindo os vocalistas Boris Salvodelli e Kearoma Rantao e o vibrafonista Jorge Camiruaga, que apresentou a música de Eberhard a Beledo há muitos anos, o projeto fecha um ciclo de amizade para o seu mais recente lançamento, que se torna uma flor pronta para desabrochar a qualquer momento.

Desde o momento em que a faixa de abertura, que dá título ao álbum, começa, você se sente como se estivesse dentro de um sonho. O piano acústico de Beledo cria paisagens oceânicas que preenchem toda a estratosfera entre Levin e as peças do quebra-cabeça de Grohowski, preenchendo o espaço vazio. Mas é a guitarra dele que, por vezes, se transforma em um pincel.

Beledo pinta nos estilos de Bob Ross e Jackson Pollock. Ele cria tanto o misticismo quanto as imagens visuais que dão vida ao seu retrato. A cada cor que ele aplica na tela, Levin e Grohowski estão lá para ajudá-lo sempre que possível, preenchendo mais das árvores gigantescas ou um pôr do sol para completar o espaço em branco.

Kenny toca sua bateria com muita precisão. Ele cria a selvageria do rio em sua bateria, enquanto Beledo expressa cada nota com maestria, dobrando as cordas de forma primorosa antes de embarcar nessa mudança inesperada na composição de Weber.

O baixo de Levin acompanha os dois numa perseguição acirrada, como se ele estivesse preparando ovos mexidos para o café da manhã, temperando-os com uma quantidade enorme de molho Tabasco em seu contrabaixo para adicionar aquele sabor picante extra. Uma introdução e tanto para começar com tudo.

Mama D é uma viagem ao universo do King Crimson com uma pitada de National Health, onde os vocais de Rantao criam texturas românticas e a seção rítmica prepara as mudanças de tempo para Grohowski, que acompanha seus vocais em um solo melódico vibrante. Coasting Zone é um passeio por uma pista de dança da Broadway, criada pelo trio no estilo de um barril de pólvora prestes a explodir.

Entre Grohowski e Beledo acendendo o pavio, o resultado é inacreditável, com linhas ainda mais intensas criadas por Levin para acalmar o clima. "Maggie's Sunrise" dá ao trio a chance de relaxar enquanto assistem ao pôr do sol, como se estivessem brindando uns aos outros com daiquiris por um trabalho bem feito.

Sabendo que eles têm algo maravilhoso reservado, é uma experiência reveladora presenciar um momento caloroso e relaxante, vendo a bola de luz seguindo para o oeste com o vibrafone de Camiruaga adornando as texturas à la Gershwin, culminando em uma festa no final. Knocking Waves é uma composição futurista criada por Beledo.

Ele dá a Tony a oportunidade de brilhar na composição, adicionando um ritmo duplo em seu contrabaixo para preparar a seção intermediária, onde Beledo canaliza os arranjos de Steve Howe em " Close to the Edge" do Yes. Ele evoca a visão de Steve ao contemplar as cachoeiras que despencam rapidamente pelas montanhas vulcânicas idealizadas pelo ilustrador do Yes, Roger Dean.

Mas é Levin quem adiciona mais paisagens aquáticas, subindo e descendo uma escada em espiral que aguarda seus ouvintes para ver onde a próxima porta paralela nos levará. Beledo martela tudo com um arranjo brutal de wah-wah enquanto alterna entre os grooves de caixa de Grohowski, que se assemelham a uma serpente rastejando para devorar sua próxima presa.

Em "A Temple in the Valley" , Boris improvisa vocalmente, mergulhando numa visão serena do mundo. Beledo cria esses tempos melódicos para ele, enquanto transita de arranjos vocais agudos a médios, escalando as montanhas mais altas e improvisando como ninguém! Há algo muito à la Zappa nesta faixa.

Na parte central, Beldeo e Boris adentram o território dos Hot Rats , dando continuidade à extensão de Peaches En Regalia, em homenagem ao Grand Wazoo lá no céu. É uma façanha e tanto Beldeo canalizar a genialidade do músico ao entrar nesse mistério blues, permitindo que Kenny acelere na bateria antes de Levin impor sua autoridade mais uma vez.

Quem sabe o que o trio vai inventar em seguida? Um efeito de tsunami? Erupções vulcânicas? Cabe a você decidir o que o trio vai criar neste final cheio de suspense. O final com pegada funk de " Into the Spirals" traz Levin canalizando Bootsy Collins ao embarcar na nave-mãe enquanto eles incorporam o estilo de " Give Up The Funk (Tear The Roof Off The Sucker)" do Parliament.

Beledo presta uma homenagem incrível não só a Bootsy, mas também a George Clinton. Seriously Deep é um lançamento espetacular da gravadora MoonJune este ano. Beledo transmite muita força e esperança em toda a estrutura do álbum. E espero ouvir mais dele nos próximos anos.


Destaque

CRONICA - REDDY TEDDY | Reddy Teddy (1976)

Embora os anos 70 tenham visto o surgimento de uma infinidade de grupos e artistas que alcançaram fama duradoura, outros não tiveram a mesma...