quinta-feira, 16 de junho de 2022

Poemas cantados de Chico Buarque

Chico Buarque

 Meu Namorado

Chico Buarque


Ele vai me possuindo

Não me possuindo

Num canto qualquer

É como as águas fluindo

Fluindo até o fim

É bem assim que ele me quer

Meu namorado

Meu namorado

Minha morada

É onde for morar você


Ele vai me iluminando

Não me iluminando

Um atalho sequer

Sei que ele vai me guiando

Guiando de mansinho

Pro caminho que eu quiser

Meu namorado

Meu namorado

Minha morada é onde for morar você


Vejo meu bem com seus olhos

E é com meus olhos

Que o meu bem me vê



Morena Dos Olhos D'água

Chico Buarque

Morena, dos olhos d'água

Tira os seus olhos do mar

Vem ver que a vida ainda vale

O sorriso que eu tenho

Pra lhe dar


Descansa em meu pobre peito

Que jamais enfrenta o mar

Mas que tem abraço estreito, morena

Com jeito de lhe agradar

Vem ouvir lindas histórias

Que por seu amor sonhei

Vem saber quantas vitórias, morena

Por mares que só eu sei


Morena, dos olhos d'água

Tira os seus olhos do mar

Vem ver que a vida ainda vale

O sorriso que eu tenho

Pra lhe dar


Seu homem foi-se embora

Prometendo voltar já

Mas as ondas não tem hora, morena

De partir ou de voltar

Passa a vela e vai-se embora

Passa o tempo e vai também

Mas meu canto 'inda lhe implora, morena

Agora, morena, vem


Morena, dos olhos d'água

Tira os seus olhos do mar

Vem ver que a vida ainda vale

O sorriso que eu tenho

Pra lhe dar


Vem ver que a vida ainda vale

O sorriso que eu tenho

Pra lhe dar




Não Existe Pecado ao Sul do Equador
Chico Buarque

Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me usa, me abusa, lambuza
Que a tua cafuza
Não pode esperar
Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me esgota, me bota na mesa
Que a tua holandesa
Não pode esperar

Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado, rasgado, suado a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, diacho
Um riacho de amor
Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
Eu sou embaixador


Não Sonho Mais
Chico Buarque

Hoje eu sonhei contigo,
Tanta desdita! Amor, nem te digo
Tanto castigo que eu tava aflita de te contar.

Foi um sonho medonho
Desses que, às vezes, a gente sonha
E baba na fronha e se urina toda e quer sufocar.

Meu amor, vi chegando
Um trêm de candango
Formando um bando,
Mas que era um bando
De orangotango pra te pegar.

Vinha nego humilhado,
Vinha morto-vivo, vinha flagelado.
De tudo que é lado
Vinha um bom motivo pra te esfolar.

Quanto mais tu corria
Mais tu ficava, mais atolava,
Mais te sujava. Amor, tu fedia,
Empesteava o ar.

Tu que foi tão valente
Chorou pra gente. Pediu piedade
E, olha que maldade,
Me deu vontade de gargalhar.

Ao pé da ribanceira acabou-se a liça
E escarrei-te inteira a tua carniça
E tinha justiça nesse escarrar.

Te "rasgamo" a carcaça
Descendo a ripa. "Viramo" as tripas,
Comendo os "ovo", ai!,
E aquele povo pôs-se a cantar.

Foi um sonho medonho,
Desses que, às vezes,
A gente sonha e baba na fronha
E se urina toda e já não tem paz.

Pois eu sonhei contigo e caí da cama.
Ai, amor, não briga! Ai, não me castiga!
Ai, diz que me ama e eu não sonho mais!



Novo Amor
Chico Buarque

Eu sei, ai eu sei
Que brilha um novo amor nos olhos seus
O olhar de uma mulher faz pouco até de Deus
Mas não engana uma outra mulher

Eu sei, ai eu sei
Que esse seu novo amor lhe quer também tão bem
Que até comove aquele olhar que um homem tem
Quando ele pensa que sabe o que quer

Porém, ai porém
Visto que a vida gosta de uns ardis
No dia em que ao seu lado ele sonhar feliz, feliz assim
Feche então você seus olhos por favor
E pode estar certa que o seu novo amor
Resolveu voltar pra mim
Ai de mim
Ai de mim




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