quinta-feira, 23 de junho de 2022

POEMAS CANTADOS DE CHICO BUARQUE

Chico Buarque

Teresinha

Chico Buarque


O primeiro me chegou

Como quem vem do florista:

Trouxe um bicho de pelúcia,

Trouxe um broche de ametista.

Me contou suas viagens

E as vantagens que ele tinha.

Me mostrou o seu relógio;

Me chamava de rainha.


Me encontrou tão desarmada,

Que tocou meu coração,

Mas não me negava nada

E, assustada, eu disse "não".


O segundo me chegou

Como quem chega do bar:

Trouxe um litro de aguardente

Tão amarga de tragar.

Indagou o meu passado

E cheirou minha comida.

Vasculhou minha gaveta;

Me chamava de perdida.


Me encontrou tão desarmada,

Que arranhou meu coração,

Mas não me entregava nada

E, assustada, eu disse "não".


O terceiro me chegou

Como quem chega do nada:

Ele não me trouxe nada,

Também nada perguntou.

Mal sei como ele se chama,

Mas entendo o que ele quer!

Se deitou na minha cama

E me chama de mulher.


Foi chegando sorrateiro

E antes que eu dissesse não,

Se instalou feito um posseiro

Dentro do meu coração.



Terezinha de Jesus

Chico Buarque


Terezinha de Jesus deu uma queda

Foi ao chão

Acudiram três cavalheiros

Todos de chapéu na mão


O primeiro foi seu pai

O segundo seu irmão

O terceiro foi aquele

Que a Tereza deu a mão


Quanta laranja madura

Quanto limão pelo chão

Quanto sangue derramado

Dentro do meu coração


Terezinha levantou-se

Levantou-se lá do chão

E sorrindo disse ao noivo

Eu te dou meu coração


Da laranja quero um gomo

Do limão quero um pedaço

Da morena mais bonita

Quero um beijo e um abraço



Trocando Em Miúdos

Chico Buarque


Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim

Não me valeu

Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!

O resto é seu


Trocando em miúdos, pode guardar

As sobras de tudo que chamam lar

As sombras de tudo que fomos nós

As marcas de amor nos nossos lençóis

As nossas melhores lembranças


Aquela esperança de tudo se ajeitar

Pode esquecer

Aquela aliança, você pode empenhar

Ou derreter


Mas devo dizer que não vou lhe dar

O enorme prazer de me ver chorar

Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago

Meu peito tão dilacerado


Aliás

Aceite uma ajuda do seu futuro amor

Pro aluguel

Devolva o Neruda que você me tomou

E nunca leu


Eu bato o portão sem fazer alarde

Eu levo a carteira de identidade

Uma saideira, muita saudade

E a leve impressão de que já vou tarde.




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