quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

A estreita relação entre o músico e seu público

 

A música atrai seu próprio público. O público entrega seu gosto musical. Há uma relação intrínseca entre eles, porém existem exceções, como tudo na vida. Quanto mais avançamos no conhecimento teórico musical, na aquisição de técnica, habilidade com os instrumentos e exploração da sua veia artística, mais você deixa de ligar para pirotecnia visual. Com o tempo deixa de ser importante, você busca mais o que te satisfaz na sua concepção, aquela conversa entre os instrumentos, a resposta, a catarse praticamente individual do público que se identifica, ouve e percebe as nuances e dinâmicas da apresentação.  Não precisa de luz, ela emana do som. Do outro lado do gráfico (ou do ovo, da bola, do círculo, como queiram), quanto mais você gosta da música como passatempo, quanto mais ela é entregue a você de forma massiva, quanto mais se alia ao contemporâneo, moderno, ao coletivo, mais você gosta “independentemente de todos os estilos”, se encontra no meio de holofotes loucos e piscantes, caixas de som imensas e público disperso ao seu redor. Trazendo para a nossa realidade, tivemos em nosso passado o belíssimo festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras/RJ (que está se dissolvendo aos poucos) e, no outro extremo, o atual Rock in Rio (guarda chuva aberto para as pedras).

Sandro Haick e Michael Pipoquinha, dois gênios absolutos da música. Execuções impecáveis, público garantido e certeza de que conseguiremos ver o show do início ao fim, sem uma estroboscópica pra atrapalhar.

OK, agora que as pedras pararam um pouco, exemplifico: mas você não tem um músico amigo sequer que foi ao Rock in Rio? Sim… mas todos foram porque a companheira quis ir, ganharam ingresso ou precisavam levar o filho para “acostumá-los a alguma coisa de rock”. Se fosse por eles, não iriam. Esta é a realidade, let’s face the truth. E, vou explicar de forma gráfica e em blocos, citando alguns exemplos.

Show do David Guetta. Acho que ficou claro o que quero dizer. Ah, e DJ não é músico, só pra lembrar.

A música nos enriquece com sua beleza e nos inspira em sua excelência, coerência, mas atualmente tudo foi substituído pelo novo, feio, moderno. Músicas eram feitas de movimentos, arranjos, melodias, harmonias; hoje, um só dos quesitos já basta. As obras de décadas passadas ainda nos mostram disciplina, evolução e expressão pessoal. Como a música deixou de ter seu padrão de qualidade de séculos e atualmente passou a ser ridícula? Músicas sem sentido, letras idem, patéticas até. Se você jogar uma simulação de Pro Tools (programa usado em gravação de estúdio) com o primeiro ritmo de bateria programado e tocar 3 notas randômicas no teclado em loop, provavelmente criou um hit instantâneo, só falta pegar um produtor para insistir que aquilo é bom e massificar nas mídias. A qualidade musical tem sido reduzida a algo descendente, com incentivo de produtores que acabaram virando os mandachuvas no cenário musical por arrebatarem quantias assustadoras de dinheiro que vem fácil. Mas quem vai fácil depois é o artista descartável.

A “música breve de massa” flerta com a ausência de realidade, de técnica e, por mais que tenha característica contemporânea, acaba não passando conteúdo construtivo para o público e ainda por cima é nociva a imberbes. No momento que vivemos, onde todos opinam de forma pesada (escondidos atrás da tela do computador), facilita a polarização de opiniões. Não posso tornar lei que uma dance music descartável seja melhor que um clássico do rock, mas se uma delas ficará para a história, nem preciso dizer qual será. A música deve conter arte, beleza, deve ser admirada, situação que fica difícil em meio a mensagens de indignação, ideologia ou política. Para fazer música atemporal, é necessária uma técnica ou conhecimento apurado para isso, senão sempre soará datada. Tocar um pen drive no computador eu também consigo, agora… execute Supper’s Ready do Genesis e veja a incomensurável diferença do trabalho artístico. Quem consome os atuais shows pirotécnicos, é sim um público com uma capacidade de gostar de tudo, de achar tudo legal, maneiro, mas… no fundo não consegue explicar porque é maneiro ou legal. Falta embasamento e a resposta sempre fica evasiva. Se não concorda, não precisa demonstrar seu desprezo raivoso no comentário abaixo, apenas se manifeste.

Sim, existem muitas músicas modernas excelentes, mas porque (meu Deus?) existe tanta coisa vazia sendo patrocinada, empurrada, forçada por produtores que visivelmente usam um método descartável de música para as massas? Não há como achar bonito uma bateção de estaca ou um funk berrado com luzes piscando na praia, ver uma multidão pulando e… ok, talvez se você tiver 20 anos, com os hormônios em polvorosa e solteiro, mas… isso passa! Já tentei perguntar para conhecidos intelectuais da música o que há de legal, cultural, positivo ou relevante em um evento de luzes piscantes, público desconexo, som embolado e absurdamente alto, sem segurança e que sinceramente zombam do meu cérebro. Geralmente ouço respostas que soam arrogantes, superiores, com grande eloquência de nada e não vejo muito fundamento para que eu possa entender.

A interpretação é longa. Conhecimento pode ser traduzido como eloquência, habilidade, execução, afinidade…

Quanto mais conheço músicos habilidosos, virtuosos, que fazem lindas e majestosas composições, mais vejo que seus shows são intimistas, precisam apenas de contato, de entendimento, de inspiração deles e do público, que todos estejam sintonizados, em uma só língua. Até quem não entende e cai de paraquedas, percebe a catarse do ambiente. Já em um mega evento de luz e som, é só você pisar no ambiente que vê pessoas que pouco olham para o palco, não entendem o que a música significa, estão ali por estar, porque (disseram que) é legal, porque “todo mundo vai”. Usando um termo do filme Tropa de Elite “cada cachorro que lamba a sua caceta…”, só para exemplificar que cada público tem a música que merece. Parece que as luzes se agitam mais quando precisam esconder os acordes em desarmonia que geralmente soam com vozes e gritos randômicos, por muitas vezes desafinados. Parece que as luzes vem para diminuir a dor da falta de capacidade em transmitir a música. Já me disseram que a música contemporânea reflete a sociedade, cultura e pensamento, mas… por que isso logo agora? Por que durante séculos, décadas, a música era tão boa e agora carece do mínimo de arte? É difícil acreditar que algo mereça crédito se é tão subjetivo e frio. OK, eu não vou elogiar o que não considero musical, apenas argumentarei objetivamente que bateção de estaca e acordes eletrônicos quantizados não são música concebida para seres humanos porque é tosco, sem construção, forçadamente pretensiosa. Ao mesmo tempo que a procura pela música clássica, tradicional (como manda a cartilha) tem aumentado graças à internet, a explosão de músicas vazias também tem sido cada vez maior, porém caem em desgraça na mesma velocidade que subiram. Um abraço caloroso ao “Gangnam Style”. A música ruim degrada a sociedade, sendo espalhada por pessoas que não respeitam a arte, justamente por massificarem algo que é ruim para a evolução coletiva.

Quanto mais pirotecnia nos shows, maior a distração sobre o que realmente deveria ser importante no evento: a música, a letra, o leque de ideias e harmonias. O que se vê são repetições, temas cada vez mais parecidos e letras que qualquer criança entende. As músicas estão ficando iguais, cada vez mais altas, sem dinâmica, super comprimidas e com tempo limitado. Dr. Ricardo Figueiredo, um brilhante músico e otorrinolaringologista, publicou com sua equipe um excelente artigo sobre os efeitos nocivos do som alto diretamente no ouvido, característico na atual juventude. Não é crítica preconceituosa, é realidade! Ande de ônibus, vá ao shopping e verás uma horda de adolescentes e jovens com fones de ouvido totalmente alheios à realidade! Produtores já fazem música especificamente para a geração mp3, que tem uma atenção de peixinho de aquário (a capacidade de atenção caiu de 12 segundos em 2003 para 8 segundos em 2013, um segundo a menos que o “attention spam” de um peixe de aquário). Ou seja, esses produtores, já sabendo disso, fazem músicas com ganchos a cada 7 ou 8 segundos, com uma qualidade sonora ribombante, para soar grandiosa em fones de ouvido (daí o uso excessivo de compressão), e não pode perder tempo até chegar o refrão. Dr. Luke, produtor que se diz fã de Duran Duran e Tears for Fears, acha que essas bandas tinham um defeito grave: demoravam muito a chegar ao refrão. Antigamente, as músicas pop tinham introduções mais longas para que os DJs das rádios pudessem falar por cima e fazer os anúncios. Hoje já acabou. Uma matéria do The Wall Street Journal mostra que, de 25 canções do topo da parada, apenas 4 tinham introdução maior que 10 segundos, e 8 nem introdução tinham, já começavam com vocal (informação imputada pelo grande professor de música Erick Leal).

Chick Corea Elektric Band. O máximo de luz que precisa é o que você está vendo. O que importa vem da música que eles emanam.

O artista de massa perdeu a identidade com o estilo. Hoje se “ouve” uma música na rádio e você só saberá quem é o “artista” se o locutor falar, porque a identidade está cada vez mais apagada, com adaptações toscas e originalidade minguada. Os mesmos produtores comandam variados artistas, estrangulam sua originalidade, monopolizam o mercado da música para empurrar seus temas pegajosos e descartáveis. No início das multidões em shows, anos 60, era preciso ter algumas habilidades práticas para entreter o público (leia-se capacidade musical), enquanto hoje o público parece estar num liquidificador. Enquanto alguém estiver pulando em frente a luzes brilhosas, cantando frases de adestrar macaco, mais a humanidade perderá a sua essência. E que venham os meteoros!

Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

As 10 melhores músicas de Born Of Osiris de todos os tempos

  A banda de metal progressivo Diminished foi formada originalmente em 2003 em Palatine, Illinois . Em 2004, mudaram seu nome para Your Hea...