domingo, 5 de fevereiro de 2023

Existe Pink Floyd sem Roger Waters?

 

Pink Floyd sem Roger Waters… Esse tema gera inúmeras discussões, com fãs apaixonados defendendo o baixista, e outros, não menos apaixonados, apoiando o guitarrista David Gilmour.

Assisti há algum tempo parte de um documentário a respeito do Pink Floyd no canal Multishow, do qual não me lembro o nome. Em um certo momento, Roger Waters falava de seus sentimentos em relação à continuidade da banda e citou como exemplo alguns shows feitos por ele na França dois ou três anos depois de sua saída do grupo. Dizia ele que tinha um show em um fim de semana e cerca de 3 mil ingressos haviam sido vendidos. O problema foi que, um dia antes, por coincidência, o Pink Floyd havia realizado um show na mesma cidade para mais de 40 mil pessoas, e Roger se perguntava se isso era justo. Afinal, mais da metade das músicas executadas no concerto eram de autoria dele.
Citei essa passagem porque os defensores de Roger Waters relacionam sua criatividade musical a uma possível perda de força que a banda teria apresentado após sua saída. Considero Roger Waters o integrante mais importante da história do Pink Floyd. A partir da saída do guitarrista e vocalista Syd Barret em 1968, o baixista se tornou o mentor da banda e a elevou à categoria dos grupos mais inesquecíveis da história do rock. Ninguém pode negar sua importância.

Em outro documentário que adquiri recentemente, Pink Floyd: Behind the Wall, Inside the Mind of Pink Floyd, Waters comenta que todos tinham sim suas opiniões na banda, mas nos momentos em que elas eram contraditórias, “coincidentemente” era a dele que predominava. Em uma passagem, o baterista Nick Mason declara que uma pessoa que se acha tão importante só precisa de uma coisa: terapia. Mas será mesmo que Waters era um compositor tão fenomenal assim? Será que os outros componentes não tinham influência na sonoridade da banda? Pensando nisso, e por sempre ter a idéia de que Roger Waters era mesmo a força motriz do quarteto, fiz uma pequena pesquisa digna de um bolha. Compilei todas as faixas presentes nos álbuns em que Roger Waters e David Gilmour trabalharam juntos no Pink Floyd e enumerei as músicas da seguinte forma: composições em conjunto, composições de Waters sozinho ou com outra pessoa que não fosse Gilmour, e, para esse último, fiz o mesmo. O resultado foi o seguinte:
105 músicas
60 composições de Waters (sozinho ou com outros compositores – exceto Gilmour)
29 composições de Waters e Gilmour em conjunto
6 composições de Gilmour (sozinho ou com outros compositores – exceto Waters)
Como nessa compilação estão computadas as faixas presentes nos álbuns The Wall e The Final Cut, obras feitas essencialmente por Waters resolvi considerar então apenas os discos mais aclamados do grupo, aqueles que cimentaram a idolatria à banda: Atom Heart MotherMeddleThe Dark Side of the MoonWish You Were Here e Animals:
31 músicas
12 composições de Waters (sozinho ou com outros compositores – exceto Gilmour)
14 composições de Waters e Gilmour em conjunto
2 composições de Gilmour (sozinho ou com outros compositores – exceto Waters)
Como vocês podem constatar, existe uma ampla vantagem para o lado de Roger Waters. Obviamente, apenas números não são suficientes para explicar uma arte como a música, e mesmo quando uma faixa é creditada a apenas um compositor, é sabido que outros integrantes da banda pod
em ter contribuído com arranjos que acabam por modificar o resultado final.



Por outro lado, se compararmos o material produzido por Waters depois de sua saída do quarteto ao material criado pelo Pink Floyd e até mesmo à carreira solo de David Gilmour, é possível constatar que o baixista não conseguiu se manter no mesmo nível. Possuo discos de ambas carreiras solo, e os mais ouvidos são os de Gilmour. Acredito que Waters acabou se perdendo na insistente necessidade de criar álbuns que transmitissem seus valores pessoais, seus traumas, sua insatisfação com o status quo. Os valores transmitidos por ele até podem ser corretos, contudo, as músicas criadas com essa finalidade revelaram-se irregulares.

Além disso tudo, David Gilmour conseguiu manter uma carreira mais sólida, gravando álbuns mais constantemente e realizando muitos shows. Vários deles se tornaram DVDs imperdíveis, como David Gilmour in Concert e Remember that Night: Live at Royal Albert Hall. A partir disso e dos dados apresentados mais acima, posso concluir que Roger Waters é sim um ótimo compositor, mas que trabalha melhor quando rodeado por companheiros à sua altura, que tenham afinidade e saibam executar o que o baixista estiver tentando passar. No fim das contas, a conclusão é um tanto óbvia: Waters e Gilmour trabalham melhor juntos do que separados.
Os dois álbuns editados pelo Pink Floyd sem Roger Waters, A Momentary Lapse of Reason e The Division Bell, além de ótimos, são carregados pelas influências musicais de Gilmour. Escutando seus discos lançados em carreira solo, podemos identificar todos os elementos presentes nesses dois discos: a estrutura das músicas, o tipo de melodias, os solos de guitarra… “One Slip”, “Learning to Fly”, “On the Turning Away”, “What Do You Want From Me”, “A Great Day for Freedom”, “Keep Talking” e “High Hopes” são canções fantásticas, impossíveis de não serem apreciadas por aqueles que as conhecem e gostam de boa música.
Podemos terminar este artigo respondendo a pergunta lá de cima: existe Pink Floyd sem Waters? Sim, existe, mas entendo que a única discussão que deveria existir é se foi uma boa ideia continuar a banda com o nome “Pink Floyd”, já que a qualidade das músicas produzidas nos dois álbuns capitaneados por David Gilmour é indiscutível.

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