
Muita gente considera 1976 o ano zero do punk rock. E, claro, o último suspiro do rock progressivo. Em 26 de novembro daquele ano, um meteoro chamado Sex Pistols caiu na superfície de Londres e varreu da face da Terra todos os pomposos dinossauros de calça boca de sino e capa de lantejoulas. Para algumas bíblias do catecismo roqueiro, foi o maior serviço prestado ao bom e velho e rock’n’roll.Bom, passados dez anos do efeito “Anarchy in the UK” e aproveitando que a poeira radioativa levantada por tal meteoro já foi absorvida pela atmosfera da mídia, embora muitas matérias no mundo inteiro estejam comemorando com fogos excessivos a primeira década desta importante revolução musical, fica a pergunta: o punk realmente matou o rock progressivo? Considerando a Inglaterra como a cena do crime e examinando todas as evidências posteriores, eu diria, enfaticamente, que não. Não só o punk não matou o progressivo (como exploraram de forma sensacionalista as revistas NME, Melody Maker, Sounds e outros representantes menores da imprensa musical marrom de sua majestade), como o prog passou por um de seus períodos mais dourados justamente nos anos em que imperou o punk rock.
Senão vejamos: em 1977, o ano imediatamente após o lançamento de “Anarchy in the UK”, que viu o Sex Pistols arrebatar o primeiro lugar nas paradas com o LP Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols e o Clash assinar um contrato milionário com a CBS e ver seu álbum de estreia emplacar um 12° lugar (só para citar duas bandas), vários grupos progressivos fizeram grandes turnês pela Inglaterra promovendo o lançamento de seus álbuns, todos Top 10 nas paradas britânicas: Pink Floyd com Animals, Yes com Going For The One e Genesis com Wind & Wuthering. Ainda nesse ano o Van der Graaf Generator lançou The Quiet Zone/The Pleasure Dome, o Gentle Giant lançou The Missing Piece, o Jethro Tull lançou Songs From the Wood (13° lugar na Inglaterra) e o ELP lançou os dois volumes de Works (o primeiro alcançou o 9° lugar).
Só que isso não estava nas páginas da imprensa musical londrina. Para ela, essas bandas jurássicas simplesmente não existiam mais, pois a vitória do proletariado punk sobre a burguesia progressiva foi esmagadora. O que os arautos da imprensa roqueira não previam é que antes mesmo do final da década o punk não mais se sustentasse nas suas propostas originais, passando a misturar seus três acordes com os mais variados ritmos (aquela coisa que os músicos progressivos chamavam de fusion, hehe…), e o Pink Floyd cometesse um dos álbuns de maior sucesso de todos os tempos: The Wall (1979).
Os anos 80 também começaram de pernas para o ar. Caso contrário, como explicar o som do chamado pós-punk inglês: Siouxie & The Banshees cada vez mais parecida com o Curved Air, o Ultravox ressuscitando os primeiros anos do Roxy Music, o Cabaret Voltaire sampleando o Hawkwind, o Simple Minds sendo produzido por Steve Hillage, o Wire tocando uma música de 15 minutos em uma sessão do programa do radialista John Peel, e John Lydon, veja só, não escondendo mais sua admiração juvenil pelo Van der Graaf Generator e as bandas de krautrock. O rock progressivo, por outro lado, dava o ar de sua graça em todos os níveis: o Rock in Opposition do Henry Cow (depois Art Bears) influenciava várias bandas do underground inglês, o King Crimson voltava com tudo, lançando o primeiro álbum de sua trilogia colorida, e as paradas oficiais começaram a recepcionar as bandas de neo-prog como o Marillion, UK, IQ, Pendragon, Twelfth Night, After the Fire e Pallas. Havia espaço até mesmo para o surgimento de um supergrupo progressivo, o Asia, que juntou John Wetton, Geoffrey Downes, Steve Howe e Carl Palmer, todos eles Lázaros redivivos do progressivo setentista.

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