terça-feira, 7 de março de 2023

Arlo Parks – Collapsed In Sunbeams (2021)


 

Arlo Parks dá voz à sua geração, por meio de ritmos suaves e uma forma peculiarmente positiva de olhar para a vida.

Arlo Parks tem 20 anos e uma sensibilidade invejável para temas atuais e assuntos que um jovem tende a gerir mal. Em vez de hiperventilar como a maioria dos seus pares, Parks escolhe cuidadosamente as suas palavras e escreve canções calmas e boas para pôr as coisas em perspetiva. Acabada de sair da adolescência, lançou em janeiro deste ano o seu álbum de estreia, Collapsed In Sunbeams, com a Transgressive Records, editora responsável por trabalhos de SOPHIEJulia Jacklin e Alvvays.

Arlo sai de casa de manhã, ostentando toda a sua coolness e confiança, e observa o mundo em seu redor sem deixar nada escapar. Sentada num banco de jardim, pega numa caneta e num caderno e escreve poemas sobre as trivialidades da vida a que costumamos escolher não prestar atenção. As suas letras têm tanto de amor e intimidade como de autodescoberta adolescente. Pára para ver a vida a acontecer e foca-se nos pormenores, transcrevendo-os para a sua arte de forma subtil. Admira as coisas banais e guarda-lhes um lugar de destaque nas suas músicas.

Para os mais distraídos, Collapsed In Sunbeams pode parecer mais um disco indie chill sem grande substância além de beats simples e experiências divertidas com sintetizadores; mas depois de uma primeira audição, entramos nos olhos de Parks e vemos o mundo que disseca discretamente com palavras cruas e diretas. Não há romanticismos, ou idealizações ingénuas. É real, as coisas passam-se mesmo assim. Arlo conhece o mundo em que vive e desafia-o a confrontá-la. Além dos spoken words recorrentes, não raras vezes surgem descrições escolhidas a dedo, detalhando frames saídos de curtas metragens onde as suas músicas são banda sonora, quase como que um convite a que, na nossa cabeça, passem imagens de episódios semelhantes nossos. Abre-nos espaço no seu banco de jardim quando dá nomes às pessoas de quem e com quem fala, oferecendo-nos a proximidade que os poemas exigem.

Arlo Parks
Arlo Parks

Por entre referências que parecem deslocadas quando consideramos a sua mocidade – vão de Twin Peaks a Thom Yorke, passando pelos poemas de Sylvia Plath, e não esquecendo o eyeliner de Robert Smith -, fala-se de sexualidade, saúde mental, pressão social e problemas da vida moderna. O álbum composto por doze faixas começa com acordes leves por detrás da declamação de um dos muitos e belos poemas de Arlo Parks (que intitula o próprio disco) e acaba com uma melodia feliz sobre estar triste. Destacam-se “Caroline”, com a sua descrição de um people watching acidental, “Too Good”, que ilustra tão bem a mensagem do álbum quando Arlo se pergunta “Why do we make the simplest things so hard?”, “Portra 400”, que, como o filme analógico predileto para retratos, retrata alguém e “Black Dog”, pela sua proximidade à realidade.

Todo o álbum é constituído por temas profundos, cantados tendo em vista o que de bom podemos encontrar neles. Não se trata de coragem, mas talvez de audácia da parte de Arlo, quando fala por todos nós e dos nossos infortúnios de forma tão leve. Se tratarmos os problemas com naturalidade e frontalidade, eles deixam de ser grandes e feios. São só extras incluídos nisto que é viver. Enquanto nós perderíamos horas de sono a pensar sobre como o planeta Terra não está um sítio muito agradável para se viver, Arlo dá-nos ritmos para dançarmos e trata os assuntos como se não a assustassem. É impossível ficar indiferente à esperança que as canções emanam. As letras despretensiosas confortam os inquietos (não só, mas também) porque são cantadas por uma voz quase familiar e um doce sotaque londrino. Vamos ficar bem, diz a Arlo – e se a Arlo diz, acreditamos.

Parks é poetisa antes de ser cantora e as suas músicas com descrições detalhadas, quase cinematográficas, disfarçam a ira que às vezes é cantada. Entramos na sua maneira despreocupada (o que não significa menorizante) de ver a vida e deixamo-nos levar pela sua crença num futuro mais luminoso. Não só nele crê, como para ele trabalha – porque se há coisa que Collapsed In Sunbeams deixa bem claro é que o mundo tem uma geração inteira à espera da sua vez para falar.

O mundo que se prepare, porque Arlo Parks veio para ficar.


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