
Electric Trim é um album incongruente em que não se percebe bem ao que vem Lee Ranaldo. Ligeiro e desinspirado, parece no entanto ter surgido de grandes ambições.
Entendi o Between the Tides and the Times de Lee Ranaldo, em 2012, o primeiro pós-sonic youth, como um ok-tou-a-ber-mas-não-está-do-caralho. Ranaldo é um músico prismático, grandemente responsável pelo carácter experimental e texturado dos Sonic Youth. Não há como não o colocar, de resto, juntamente com Thurston Moore, como um dos guitarristas mais influentes de sempre. Habituei-me a ouvi-lo em projectos radicais como os do Glenn Branca e em colaborações muito mais próximas do mundo da arte que do rock. Ultimamente no entanto parece que o seu interesse está mais orientado para o “songwriting” ligeiro.
Jim O’Rourke também andou por aí. No entanto o trabalho mais melódico deste último é, penso eu, extraordinário e de ligeiro não tem nada. Em grande contraste com o universo do noise e da música electrónica abstracta, onde o músico de Chicago parece estar mais confortável, álbuns como Bad Timing, Eureka, Insignificance e The Visitor tangenciam a genialidade e definiram-no como também um songwriter prodigioso, conjugando melodia pop com originalidade, experimentalismo e audacidade. Curiosamente, trabalhos esses não se encontram facilmente disponíveis para o streaming do costume, e se não o conhecem procurem no youtube ou comprem os vinis.
Já esta pele pop de Ranaldo não soa ao mesmo. Electric Trim, o seu último disco, parece-me desinspirado do princípio ao fim e questionei-me por algumas vezes se Lee teria perdido a cabeça, nomeadamente quando vi o horripilante videoclip do single “The New Thing”.
É preciso voltar atrás e não esquecer que “Karen Revisited” (Murray Street), “Skip Tracer” (Washing Machine), “Eric’s Trip and Hey Joni” (Daydream Nation), “Mote” (Goo), “Pipeline/Kill Time” (Sister), compostas por Ranaldo, são das melhores que os Sonic Youth fizeram. Ao revisitá-las confirmo a absoluta genialidade da sua contribuição naquela que para mim é a mais importante banda rock de sempre. E acentua-se-me a confusão em relação ao seu trabalho mais recente.
Apesar de produzido com grande esforço nos detalhes, os mesmos parecem não ligar e chega a ser exasperante escutar este disco. “Moroccan Mountains”, primeira faixa, rapidamente anuncia o estado clínico do álbum, iniciando-se com tons acústicos psicadélicos e spoken word (sua imagem de marca), passando inesperadamente (a palavra é mais incompreensivelmente) para um aviso vago e melancólico “It’s time to tell you what to do/ It’s time to tell you what I’m looking for”) subindo a dada altura o tempo no que parece ser fase de exaltação/libertação “but you will, and then you won’t / you said you do, but then you don’t”, com uns gritinhos (“Yep!”) de desajustada catarse, para então cair em novo marasmo e “don’t you try to tell me what to do / I fade into a dream I’ve made of you”. Fosga-se. A dada altura parece um esforço juvenil tentando encontrar frases que rimam. As faixas seguintes contêm incongruências do mesmo nível e só “Purloined” me parece semi decente (chega, no entanto, a soar a Oasis). “Last Looks” por exemplo inicia-se com uma languidez tal que se assemelha inicialmente a um daqueles “slows” que dançávamos na adolescência dos 90’s, agarrados a um/uma virgem qualquer. OK, não é a minha cena, mas digamos que o dueto com a Sharon Van Etten chega a ser, talvez, agradável. Infelizmente depois a coisa parte-se subitamente ao meio, muda o tempo e o Lee regressa ao spoken word, para depois vir então com um pedaço de melodia que, bizarria, se aproxima de U2, além de totalmente não relacionado com a balada inicial. Até me parece insultuoso para Van Etten.
É, pois, este um trabalho que se ergue como um muro intransponível entre mim e Ranaldo. Claramente feito sem a esperanças ou pressão de ter êxito comercial e de captar novos ouvintes. Por outro lado duvido muito que suscite a simpatia dos fãs de Sonic Youth. Resta-me apenas crer que Ranaldo fez o álbum que lhe apeteceu fazer.
Sem comentários:
Enviar um comentário