Quando o eco vem de longe: Brainbox e The Secret Offering of 69
Há álbuns que não procuramos... álbuns que simplesmente aparecem através de uma fresta casual e acabam construindo um pequeno altar na sua história pessoal. Este é um deles. Na verdade, não conheci o Brainbox pelo Brainbox , mas por uma abençoada interferência: um cover de “Dark Rose” feito pelo Pax, uma banda da nossa terra. Era como se alguém tivesse deixado uma porta dimensional aberta acidentalmente, e eu — uma pessoa curiosa incorrigível — não pude deixar de espiar lá dentro. Do outro lado, esta jóia holandesa me esperava e, sem que eu soubesse, ela já me pertencia. E assim tudo começou.
O álbum de estreia autointitulado do Brainbox não é apenas uma deliciosa raridade de 69, é também uma cápsula de transição, um momento capturado entre a fumaça psicodélica dos anos 60 e as novas ares que anunciaram a era progressiva. É um álbum com alma mutante, desses que não precisa gritar para ser ouvido, que não busca ser monumental mas acaba deixando sua marca. Como bons amigos, que não fazem barulho quando chegam, mas ficam para sempre. A voz de Kaz Lux é um enigma por si só. Não canta, vaza. E sobre essa base vocal líquida deslizam toques de blues, estruturas progressivas ainda trêmulas e uma energia que, sem buscar virtuosismo, consegue comover. Não é um álbum perfeito, mas é profundamente humano. Uma daquelas músicas que você ouve de olhos fechados, enquanto a memória penetra nas rachaduras do seu coração.
Sempre gostei da ideia de que o Brainbox foi a semente do Focus. Este álbum guarda, como uma semente, as primeiras intuições do que mais tarde se tornaria uma das grandes bandas progressivas europeias. Mas além da genealogia musical, o que realmente importa para mim é o que este álbum me ensinou: que às vezes os caminhos da adoração não são lineares, e que é possível encontrar tesouros até mesmo nas sombras de uma capa. Eu amo esse álbum não porque ele seja o mais complexo ou revolucionário, mas porque ele está comigo há anos. Porque ele foi um dos primeiros a me fazer entender que a música também é uma forma de pertencimento. Que se pode construir parte da própria identidade ao ritmo de um riff, de uma mudança de compasso, de uma voz que parece vir de longe para dizer: ei, isso também é seu.
Então aqui estou eu, compartilhando esta pequena epifania com vocês. Não para pontificar, mas para lembrar. Porque às vezes lembrar também é uma forma de agradecer. Brainbox, para mim, é isso: gratidão em forma de registro. Até mais.
01. Dark Rose
02. Reason to believe
03. Baby, what do you want me to do?
04. Scarborough fair
05. Summertime (From "Porgy and Bess")
06. Sinner’s prayer
07. Sea of delight
CODIGO: G-3

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