domingo, 19 de outubro de 2025

1969 Pink Floyd


Em 14 de abril de 1969, no Royal Festival Hall, em Londres, o Pink Floyd deu início a uma turnê que se estendeu até o final de setembro. A turnê foi intitulada "The Man and The Journey", e o primeiro show foi anunciado como "The Massed Gadgets of Auximenes – More Furious Madness from Pink Floyd". Foi uma das apresentações favoritas do baterista Nick Mason, que relembrou: "Possivelmente menos para David Gilmour, que, devido a um aterramento ruim, recebeu um raio de eletricidade suficiente para arremessá-lo através do palco e deixá-lo vibrando levemente pelo resto do show".

O repertório do show foi dividido entre músicas que apareceram nos álbuns anteriores do Pink Floyd, "The Piper at The Gates of Dawn" e "Saucerful of Secrets", e material que seria lançado posteriormente nos dois álbuns da banda de 1969. Esses álbuns são o tema deste artigo.

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Barbet Schroeder passou o início de sua carreira em Paris, trabalhando como assistente de direção de Jean-Luc Godard e como parte da equipe de produção dos dois primeiros filmes "Moral Tales", de Eric Rohmer. No final de 1968, ele assumiu a direção e seu projeto de estreia foi um filme sobre a contracultura dos anos 1960, retratando a decadência do vício em heroína na ilha de Ibiza. Em vez de buscar uma trilha sonora típica para acompanhar o filme, ele buscava música diegética – música que se originasse nas cenas, com os personagens cientes disso. Como um seguidor ativo da música underground, ele queria utilizar a música desse gênero como o estilo natural em que seus personagens de filmes estavam imersos. Mais tarde, ele disse: “Eu era um grande fã dos dois primeiros discos do Floyd. Achei que eram as coisas mais extraordinárias que já tinha ouvido e só queria trabalhar com eles. Fui a Londres, levei uma cópia do filme More e mostrei a eles. Eu não queria a típica música de filme – feita minuto a minuto e gravada com a imagem na tela grande. Eu não acreditava em música de filme. Eu queria que essa fosse a música que os personagens estivessem ouvindo. Em uma festa, a música saiu do alto-falante de uma sala, então a gravamos para soar como se estivesse tocando na sala.”

Roger Waters, David Gilmour, Barbet Schroeder

A oferta veio na hora certa. O Pink Floyd estava ansioso para se envolver com filmes como um meio em que sua música pudesse fornecer um complemento significativo aos visuais. Rick Wright disse na época: "Os filmes parecem ser a resposta para nós no momento. Seria legal fazer um filme de ficção científica — nossa música parece ser voltada para esse lado." A banda aceitou de bom grado a oferta de Schroeder para fornecer a trilha sonora para o filme More. Como David Gilmour explicou: "Teríamos feito quase qualquer coisa em termos de filmes. Queríamos entrar para trilhas sonoras de filmes de sucesso e concordamos, ele nos deu 600 libras cada, e lá fomos nós e conseguimos." O Pink Floyd já havia se aventurado levemente na música para filmes em algumas ocasiões. Em 1967, eles apareceram no filme psicodélico Tonite Let's All Make Love in London, de Peter Whitehead. Um ano depois, eles forneceram uma trilha sonora para um filme chamado The Committee, de Peter Sykes, no que Nick Mason descreveu como "mais uma coleção de efeitos sonoros do que música". Eles agora tinham a primeira chance de criar uma trilha sonora de filme genuína.

Roger Waters, que começava a se afirmar como a principal força criativa da banda após a saída de Syd Barrett, lembra que a opinião de Barbet Schroeder sobre a música de cinema era, naquela época: "Ele não queria uma trilha sonora para acompanhar o filme. Tudo o que ele queria era, literalmente, que se o rádio do carro estivesse ligado, por exemplo, ele queria que algo saísse do carro. Ou que alguém ligasse a TV, ou algo assim. Ele queria que a trilha sonora se relacionasse exatamente com o que estava acontecendo no filme, em vez de uma trilha sonora para complementar o visual."

Waters compôs a maioria das músicas para a trilha sonora, com faixas instrumentais adicionais escritas e executadas pela banda. Ele lembra: "Eu estava sentado na lateral do estúdio escrevendo letras enquanto gravávamos as faixas de apoio. Era só uma questão de compor oito ou nove músicas com instrumentais." Trabalhando no Pye Studios, o Pink Floyd passou duas semanas intensas compondo, improvisando e gravando a trilha sonora completa do filme. Schroeder lembra: "Roger era a grande força criativa. Lembro-me dessas duas semanas incrivelmente agitadas. O engenheiro de som não conseguia acreditar na velocidade e na criatividade da empreitada."

Uma das maiores conquistas de Roger Water no filme é a música que abre o álbum da trilha sonora, Cirrus Minor. Barbet Schroeder disse sobre a música do Pink Floyd para o filme: "Eles estavam fazendo a música que melhor se adaptava ao filme naquela época – espacial e muito em sintonia com a natureza." De fato, o primeiro minuto completo de Cirrus Minor consiste em sons de canto de pássaros, cortesia da biblioteca de efeitos sonoros da EMI. A canção meditativa é uma peça de destaque para David Gilmour, que canta e toca violão, e Richard Wright, que toca órgãos Farfisa e Hammond. A qualidade etérea do Hammond em Cirrus Minor é semelhante à seção Celestial Voices de A Saucerful of Secrets, do álbum anterior.

A preferência de Schroeder por músicas que saíssem das cenas, em vez de serem tocadas junto com elas, deu ao Floyd liberdade para criar trilhas sonoras para filmes sem as complexidades de uma cronometragem precisa para se adequar ao ritmo do filme. Nick Mason: "Não havia orçamento para um estúdio de dublagem com um sistema de contagem de quadros, então fomos a uma sala de exibição, cronometramos as sequências cuidadosamente (é incrível como um cronômetro pode ser preciso) e depois fomos para o Pye Studios em Marble Arch, onde trabalhamos com o experiente engenheiro de som interno Brian Humphries." Em essência, a banda estava gravando uma coleção de músicas e instrumentais que combinavam com o clima das cenas do filme. Como disse Barbet Schroeder, ele "estava usando trechos do álbum para esta ou aquela cena".

Outro destaque da trilha sonora também foi escrito por Roger Waters. Cymbaline, originalmente intitulada "Nightmare" quando tocada ao vivo, faz referência ao personagem Doutor Estranho, um super-herói popular da Marvel Comics dos anos 1960, que também apareceu na capa do álbum A Saucerful of Secrets.

A trilha sonora do filme foi lançada em junho de 1969, dois meses antes da estreia, e se tornou um álbum de sucesso do Pink Floyd. Foi o primeiro álbum completo da banda sem Syd Barrett e, como David Glimour resumiu: "Fazer música para filmes era um caminho que achávamos que poderíamos seguir no futuro. Não que quiséssemos deixar de ser um grupo de rock 'n' roll, era mais um exercício." O Floyd gravaria mais uma trilha sonora para um filme de Barbet Schroeder, La Vallée, lançado como Obscured by Clouds em 1972.

More chegou ao top 10 de diversas paradas europeias de álbuns, com maior sucesso na França, onde alcançou o segundo lugar e recebeu críticas entusiasmadas em publicações musicais locais. A revista francesa Rock & Folk escreveu: “More é um disco de qualidade impressionante, e o Pink Floyd é, sem dúvida, um dos grupos mais maduros da atualidade. More reflete perfeitamente o espírito com que o Pink Floyd sempre concebeu sua música: técnica de rigor inabalável a serviço de uma imaginação tumultuada. O casamento impossível entre loucura e razão.”

Ummagumma

Voltamos à turnê The Man and The Journey. Os shows daquela turnê desempenharam um papel fundamental no próximo álbum do Pink Floyd, a ser lançado em novembro de 1969. Ummagumma é um álbum duplo, composto por um álbum gravado ao vivo durante a turnê e um álbum de estúdio com músicas que estrearam nos mesmos shows. Dois shows ao vivo foram gravados, um no Mother's em Birmingham em 27 de abril, o outro no Manchester College of Commerce em 2 de maio. Cada um deles contribuiu com duas faixas para o álbum ao vivo. Richard Wright disse sobre esses shows: "Na primeira vez, sentimos que tínhamos tocado muito bem, mas o equipamento não funcionou, então não pudemos usar quase tudo. A segunda vez foi um show muito ruim, mas como o equipamento de gravação estava funcionando bem, tivemos que usá-lo. O material do álbum não é nem metade do que podemos tocar."

A gravação de 2 de maio captura o Pink Floyd tocando uma de suas melhores músicas daquele período. Originalmente presente em A Saucerful of Secrets, Set The Controls For The Heart Of The Sun é uma das primeiras composições de Roger Waters, cujo título é retirado do livro de 1965, The Fireclown, do escritor de ficção científica Michael Moorcock. A maioria das letras é influenciada pela poesia chinesa, principalmente por obras de Li Shangyin, um poeta da dinastia Tang do século IX. Falando sobre o tema, Waters disse que se trata de "uma pessoa desconhecida que, enquanto pilotava um poderoso disco voador, é tomada por tendências suicidas solares e define os controles para o coração do sol". Uma parte fundamental dessa música é a bateria de Nick Mason, que toca um padrão rítmico nos tons. Ele foi influenciado por um tipo completamente diferente de baterista, como revelou mais tarde: "Isso me deu a chance de emular uma das minhas peças favoritas, 'Blue Sands', a faixa do baterista de jazz Chico Hamilton no filme Jazz on a Summer's Day". Mais tarde, ele admitiu que não tinha a capacidade de imitar verdadeiramente o padrão de bateria de Hamilton: "Foi só quando assisti novamente àquele filme, muitos anos depois, que percebi que o que eu estava tocando não tinha absolutamente nada a ver com o que eu achava ter ouvido! Mas muito do que tocávamos naquela época tinha aquele toque jazzístico, o que o torna perfeito para reinterpretação."


O álbum de estúdio é uma história completamente diferente. A partir de setembro de 1968, o Pink Floyd iniciou um novo projeto, destinando a cada um dos membros da banda metade da duração de um LP para um projeto solo. A ideia surgiu do interesse de Ricard Wright em criar música séria que, estilisticamente, se situasse fora das atividades normais da banda. Ele ouvia compositores clássicos como Aaron Copland e Henryk Górecki e precisava de uma válvula de escape para expressar esse lado de sua paleta musical. Os outros membros da banda acompanharam e criaram cada um peças solo, explorando sua zona de conforto.

Em abril de 1969, a revista Zig Zag, antecipando o lançamento de Ummagumma, elogiou o Pink Floyd por expor a música experimental aos ouvintes de música popular: “Em certa época, seu tipo de experimentação e exploração era prerrogativa de um pequeno grupo de entusiastas de vanguarda que deixavam para trás pessoas de fora de sua pequena esfera. Mas agora essa música experimental não é mais puramente experimental e, graças a grupos como o Floyd, ela alcança um público amplo que pensa da mesma forma e aprecia o que está acontecendo. Acho que o Floyd é um dos poucos grupos que não só conseguiu preencher um álbum duplo com sucesso, como também precisa de um álbum duplo para ter espaço suficiente para se expandir.”

Embora cada uma das peças solo do álbum de estúdio seja interessante e tenha seu mérito, musicalmente elas ficam aquém da música que fizeram como um coletivo. Nick Mason comentou: "Foi divertido de fazer, e um exercício útil, com as seções individuais provando, na minha opinião, que as partes não eram tão boas quanto a soma." Falando sobre sua contribuição, The Grand Vizier's Garden Party, ele acrescentou: "Para criar minha seção, utilizei os recursos disponíveis, recrutando minha esposa Lindy, uma flautista talentosa, para adicionar alguns instrumentos de sopro. De minha parte, tentei fazer uma variação do solo de bateria obrigatório – nunca fui fã de exercícios de ginástica na bateria, sozinho ou com qualquer outra pessoa."

Richard Wright defendeu o álbum de estúdio em entrevista à revista Beat Instrumental em janeiro de 1970: “Não compusemos juntos, apenas entramos no estúdio sozinhos para gravar e depois nos reunimos para ouvi-los. Todos tocamos sozinhos em nossas peças. Achei que foi um experimento muito válido e me ajudou. O resultado é que quero continuar e fazer isso de novo, em um álbum solo. Mas acho que talvez Roger ache que, se tivéssemos trabalhado todos juntos, teria sido melhor. Isso é algo que você simplesmente não sabe, se seria ou não. Acho que foi uma boa ideia.”

Roger Waters contribuiu com duas peças musicais bem distintas para o álbum. Grantchester Meadows é uma balada pastoral rica em sons da natureza e violão, sua ode ao interior britânico. A outra, com o curioso título "Várias Espécies de Pequenos Animais Peludos Reunidos em uma Caverna e Dançando com um Picto", é uma colagem sonora anterior à colaboração de Waters com Ron Gissin em Music from The Body, lançado um ano depois. Ele disse sobre esse experimento: "Esses foram sons que eu produzi, a voz e o bater de mãos foram todos gerados por humanos – sem instrumentos musicais."

Resumindo a experiência com o álbum de estúdio, Waters foi crítico e elogioso: “Acho que a ideia do estúdio, de fazer uma faixa para cada, foi basicamente boa. Pessoalmente, acho que teria sido melhor se tivéssemos feito as faixas individualmente e, depois, ouvido a opinião dos outros, colocado quatro cabeças em cada faixa em vez de apenas uma. Acho que cada faixa teria se beneficiado disso, mas, quando ficaram prontas, já tínhamos esgotado nosso tempo de estúdio. Fiquei bastante satisfeito com o resultado, no entanto. Vendeu bastante, o que já é alguma coisa.”

Um trabalho melhor de Roger Waters como compositor e da banda completa como intérpretes foi gravado no final de 1968 durante as sessões que renderam as peças solo para Ummagumma, mas não foi incluído no álbum. A música, intitulada Embryo, é contada do ponto de vista de, bem, um embrião. É uma melodia lenta e atmosférica com Richard Wright acompanhando lindamente no mellotron e piano. Depois de algumas sessões de gravação, a banda misteriosamente abandonou a faixa. Levou mais de um ano para ver a luz do dia quando o produtor Norman Smith foi encarregado de criar uma mixagem estéreo para incluir a música na compilação Picnic: A Breath of Fresh Air da Harvest Records. Esse álbum também contou com alguns dos artistas básicos da gravadora, incluindo Deep Purple, Barclay James Harvest, The Pretty Things e Kevin Ayers.



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