sábado, 11 de outubro de 2025

Há quarenta anos, a 8 de outubro de 1985, Zeca Afonso lançava 'Galinhas do Mato', o seu último álbum de originais

Há quarenta anos, a 8 de outubro de 1985, Zeca Afonso lançava 'Galinhas do Mato', o seu último álbum de originais — e o derradeiro da sua vida. Gravado numa fase já profundamente debilitada pela doença, o disco revela um artista que, mesmo impossibilitado de cantar, manteve intacta a lucidez criativa e a vontade de continuar a fazer da música um gesto de resistência.
Impedido de usar a voz que marcou gerações, José Afonso reuniu um vasto grupo de amigos e companheiros musicais que o ajudaram a dar corpo a este trabalho. Dos dez temas que compõem o álbum, apenas dois — Escandinávia Bar e Década de Salomé — são interpretados por ele. As restantes canções ganharam vida através das vozes de Helena Vieira (Tu Gitana), Né Ladeiras (Benditos), Luís Represas (Agora), Janita Salomé (Moda do Entrudo, Tarkovsky, Alegria da Criação), Catarina e Marta Salomé (Galinhas do Mato) e José Mário Branco (Década de Salomé, em dueto com Zeca).
A produção de Galinhas do Mato foi uma verdadeira comunhão artística: José Mário Branco e Júlio Pereira assinaram a direção musical e a produção, com o apoio de João Luís Oliva na coprodução, enquanto Alberto Lopes concebeu a capa e o design gráfico. Gravado entre o Angel Studio 1 e 2, o disco contou ainda com a colaboração técnica de José Manuel Fortes e Rui Novais, e a fotografia de Roberto Santandreu.
Mais do que uma despedida, 'Galinhas do Mato' é um testamento artístico e humano. Nele coexistem as raízes do cancioneiro tradicional português e os ecos de África que sempre acompanharam o percurso de Zeca, numa fusão entre memória, poesia e resistência. É um disco de comunhão e continuidade — prova viva de que a sua obra, mesmo perante o silêncio forçado, permaneceu fiel à verdade e à esperança que sempre lhe deram voz.



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