Realmente era volumoso, pesado e feio (especialmente os primeiros modelos), mas o Mellotron conquistou seu próprio nicho na cena do Rock Progressivo no final dos anos 60 e início dos anos 70, a ponto de se tornar o som característico do gênero, amplamente utilizado e popularizado por nomes como Genesis, Yes, King Crimson, Barclay James Harvest, Pink Floyd, Moody Blues, Focus, Tangerine Dream e inúmeras outras bandas de Prog. Mas o que era o Mellotron? Bem, era um instrumento musical eletromecânico e foi criado em Birmingham, Inglaterra, em 1963, pelo fabricante Bradmatic/Mellotronics. Até hoje, já existiram cinco modelos: o MK1 (1963), o MK2 (1964), o M300 (1968), o M400 (1970) e o M4000 (2007).
Funcionava como um teclado. Cada tecla, um vez pressionada, fazia com que um pedaço de fita magnética entrasse em contato com um mecanismo de transporte (partes que moviam a fita incluindo guias, pinos, rolos de pressão) para ser lido por uma cabeça de reprodução (cabeçote de fitas magnéticas). Conforme a tecla fosse liberada, o mecanismo fazia a fita voltar à sua posição inicial. Os pedaços de fita magnética continham sons pré-gravados tornando o Mellotron um "banco de fitas magnéticas" em que o botão Play de cada uma ficava ligada individualmente às teclas do equipamento. Efetivamente, o Mellotron foi o primeiro "sampler". Assim, como em um gravador, qualquer som podia ser pré-gravado nas fitas do Mellotron e "tocado", mas foram os sons orquestrais carregados de fábrica que tornaram o instrumento conhecido e que o definiram. Pressionar apenas uma tecla no Mellotron não soava nem impressionante, nem particularmente orquestral, mas se um acorde forte fosse executado um som enorme, encorpado, texturizado e único era produzido tal qual uma música celestial do universo (pense na "Harmonia das Esferas" e toda sua teoria física). Era algo diferene de tudo e perfeito para bandas de Prog-Rock, que buscavam um som sobrenatural para envolver suas ideias musicais, muitas vezes igualmente elevadas, bombásticas e épicas.
O Mellotron, na verdade, evoluiu do similar Chamberlin (desenvolvido e patenteado pelo inventor americano Harry Chamberlin entre 1949-56, quando o primeiro modelo foi introduzido), mas poderia ser produzido em massa de forma mais eficiente. Os primeiros modelos de Mellotron foram projetados para o lar e continham uma variedade de sons, incluindo acompanhamentos automáticos (a ideia era o instrumento como um dispositivo de entretenimento doméstico para cantar junto com a família e tocar padrões musicais das Big Bands e orquestras, tão populares nos anos 40). Eric Robinson (maestro e apresentador de música da BBC) e David Nixon (um mágico e personalidade da TV inglesa) ajudaram a promover os primeiros instrumentos. Celebridades como a princesa Margaret (irmã mais nova e única da rainha Elizabeth II) foram as primeiras a adotá-los. O Mellotron foi adotado por grupos de Rock e Pop em meados do final da década de 1960. Uma das primeiras canções Pop com o Mellotron foi "Semi-Detached, Suburban Mr. James" (1966) do Manfred Mann. Os Beatles o usaram em faixas, incluindo o single de sucesso "Strawberry Fields Forever" (1967). Mike Pinder, tecladista do Moody Blues, o usou amplamente no álbum "Days Of Future Passed" (1967), bem como nos seis álbuns seguintes do grupo. O Mellotron foi se tornando comum no Rock Progressivo usado por King Crimson, Yes e Genesis (e a partir daí, por quase todo mundo no gênero).
O Chamberlin era totalmente similar ao Mellotron, com teclado estilo piano e debaixo de cada tecla um mecanismo de reprodução de fita, porém mais mais rudimentar, feitos para serem estacionários (não transportáveis), sem chassis interno e propensos a sair do ajuste em movimentações. À medida que Harry Chamberlin tentou refinar sua invenção e apresentou-a em feiras, concorrentes muito mais estruturados (como a Hammond e a Lowrey) se interessaram pela novidade, mas a Federação Americana de Músicos tentou limitar o uso do novo teclado temendo que seus membros ficassem sem trabalho (afinal, tratava-se de um instrumento que simulava os sons de outros instrumentos). Apesar da controvérsia, músicos foram abraçando o Chamberlin. Elvis Presley, por exemplo, foi um dos primeiros proprietários, ocasionalmente usando-o para entretenimento doméstico. A empresa de Harry Chamberlin era familiar (empregando sua esposa, seus filhos e até seu limpador de janelas, Bill Franson, que era seu vendedor). Chamberlin não gostava de propaganda e evitou contratos de distribuição. Ele preferia fazer negócios diretamente com bares, casas noturnas e músicos (que abraçavam a música das Big Bands). Em 1962, Franson partiu para a Inglaterra levando dois modelos Chamberlin 600 consigo. Buscou um fabricante de cabeçotes (a Bradmatic), tirou o nome "Chamberlin" e colocou "Franson". A Bradmatic, que se tornou Streetly Electronics, eventualmente passou a fabricar o Mellotron em 1963, aperfeiçoando o instrumento. Em 65, Harry Chamberlin tomou conhecimento da fraude após descobrir uma unidade sendo comercializada numa feira de instrumentos musicais americana. Ele forçou um acordo legal com a Streetly Electronics. Depois de visitar os proprietários Frank, Norman e Les Bradley pessoalmente (e ter uma discussão intensa com Bill Franson), foi feito um acordo de que os Mellotrons seriam vendidos apenas no Reino Unido e os Chamberlins seriam vendidos nos EUA. Chamberlin receberia pagamentos de royalties da Streetly Electronics, embora isso aparentemente tenha terminado no final dos anos 1960. Por meio desse mesmo sistema de royalties, ele licenciou o som de "3 violinos" dos Chamberlins para ser usado como o som de violinos na biblioteca dos Mellotrons.
Os instrumentos Chamberlin nunca foram distribuídos para venda fora dos EUA e Canadá. A Chamberlin Co. continuou a refinar/vender seus produtos e investiu mais esforço em confiabilidade para competir com o Mellotron. As vendas para grandes estúdios dos EUA resultaram em Chamberlins sendo ouvidos em muitos discos Pop da década de 1960, incluindo gravações de Marvin Gaye, The Beach Boys, Leon Russell, Stevie Wonder, Ethos, David Bowie, Iron Butterfly, Edgar Winter etc. Enquanto isso, o som do Mellotron se tornou uma grande parte do Prog-Rock inglês e europeu, embora também tenha sido usado (embora em doses muito menores) por bandas de todo o espectro musical (incluindo The Rolling Stones, Led Zeppelin etc.). A popularidade do instrumento declinou na década de 1980 após a introdução de sintetizadores polifônicos e "samplers". A produção do Mellotron cessou em 1986, mas ele recuperou popularidade na década de 1990 e foi usado por bandas como Oasis, The Smashing Pumpkins, Muse e Radiohead. Isso levou à ressurreição do fabricante original, Streetly Electronics. Em 2007, a Streetly produziu o M4000, que combinava o layout do M400 com a seleção de banco de modelos anteriores. Vou fechar este post com algumas canções que demonstram alguns dos melhores usos do Mellotron:
Focus - Le Clochard (Moving Waves, 1971)
Uso suntuoso do Mellotron em uma sequência de acordes igualmente suntuosa, criando um enorme e altamente evocativo cenário orquestral/coro sobre o qual Jan Akkerman executa um trabalho de guitarra impressionante.
Genesis - Watcher Of The Skies (Genesis Live, 1973)
Qualquer uma das várias faixas do Genesis demonstra o uso clássico do Mellotron pela banda: junte seu som grande e encorpado, uma ótima canção, acordes exuberantes e uma melodia evocativa e você terá o som do Prog personificado.
Gracious! - The Dream (Gracious!, 1970)
Uma banda e faixa relativamente desconhecidas em comparação às outras aqui, de uma banda de Prog dos anos 70 surpreendentemente pouco reconhecida que usou o Mellotron de forma excelente para pontuar esse épico de 16 minutos em particular com alguns sons majestosos.
King Crimson - The Court Of The Crimson King (In The Court Of The Crimson King, 1969)
Cheio de Mellotron, mas com um som mais agressivo e "sujo" do que o normal, esta é uma das faixas clássicas de todos os tempos do Mellotron, de um dos usuários pioneiros do instrumento e mostrou aos demais como tirar o melhor proveito dele.
The Moody Blues - Nights In White Satin (Days of Future Passed, 1967)
Uma das primeiras faixas a apresentar uso intenso do Mellotron e ainda uma demonstração impressionante do poder evocativo do instrumento quando aplicado a uma ótima sequência de acordes clássicos e uma melodia crescente.
Radiohead - Exit Music (For A Film) (OK Computer, 1997)
Uso sutil do Mellotron em vez de exagerado, mas o instrumento é um elemento-chave no som maravilhosamente espaçoso e panorâmico desta faixa.
Para fechar com chave de ouro, assista a este vídeo (do YouTube, onde mais?) descrevendo como o Mellotron funciona e o mostrando por dentro:




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