quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Tom Zé - Estudando o Samba & Correio da Estação do Brás (1976 - 1978)

 

Rock psicodélico, tropicalia e bossa nova em uma combinação tipicamente brasileira — dois álbuns em um, perfeitos para curtir nos fins de semana, enquanto continuamos descobrindo grandes músicos brasileiros. Reza a lenda que "Estudanto o Samba" foi o álbum que apresentou David Byrne à música de Tom Zé e, compreensivelmente, era diferente de tudo que ele já tinha ouvido. Não se trata apenas de Tom desconstruir as tradições da composição e da performance do samba, mas de uni-las de forma coesa em seu próprio universo. O álbum foi feito no espírito de um projeto de pesquisa, baseado principalmente em instrumentação acústica, mas incorporando ocasionalmente sons de ruído ambiente, ou até mesmo o barulho de uma máquina de escrever. Aqui você encontrará um gênio inconformista criando música cativante, uma espécie de desconstrução maluca e lisérgica da história da bossa nova e da tropicalia. 

Artista: Tom Zé
Álbum: Estudando o Samba & Correio Da Estação Do Brás
Ano: 1976 / 1978
Duração: 70:23
Gênero: Rock Psicodélico / Tropicália / Bossa Nova
Nacionalidade: Brasil



Tom Zé
 é um cantor brasileiro, formado pelo conservatório de música da Universidade da Bahia, e apesar de inúmeros elogios da crítica, ainda não havia recebido o reconhecimento que merecia (por exemplo, nunca ganhou em nenhum dos seus inúmeros festivais de música). E as vendas de seu brilhante "Todos os Olhos", considerado uma obra-prima, foram decepcionantes. Outro dia, resolvi conferir seu trabalho, principalmente porque estava falando sobre o mágico albino de Hermeto Pascoal, e ele surgiu por algum motivo. E descobri um álbum muito bom, muito brasileiro, especialmente "Estudando o Samba", já que é uma coletânea de dois discos. As faixas levam você de ritmos tropicais com um toque de experimentação ao samba com uma pitada de música folclórica brasileira, bossa nova com composições que brincam com a métrica rítmica e as harmonias.

Lançado em 1976, o LP passou despercebido pela crítica nacional. A mesma inventividade apresentada em "All of You Olhos", seu álbum anterior, "Estudando o Samba", revisitou o principal gênero musical brasileiro, o samba. Tom Zé convidou o sambista Elton Medeiros para algumas colaborações. Este trabalho experimental do cantor baiano acabou sendo um sucesso de público. O álbum foi redescoberto no final da década de 1980 pelo ex-Talking Head David Byrne. Relançado internacionalmente em 1990 em uma coletânea¹, o álbum foi aclamado pela imprensa internacional – como os jornais norte-americanos The New York Times e o francês Le Monde – e pela revista especializada norte-americana Rolling Stone².
O LP foi escolhido na lista da versão brasileira da revista Rolling Stone como o 35º melhor álbum brasileiro de todos os tempos³.
O documentário Manda Bala utilizou algumas músicas do álbum em sua trilha sonora.
Wikipédia


Mas seu voo lisérgico também reserva espaço para uma heterodoxia reverente, e como prova disso são as composições que ele coescreveu com o respeitado músico de samba Elton Medeiros.  
Neste álbum, ele buscou reunir uma variedade de estilos e formas de samba, tanto rurais quanto urbanas, dando a cada música a apresentação que considerava mais apropriada. É incrivelmente divertido, repleto de ideias inusitadas, mas o álbum apresenta altíssima qualidade e consistência. As letras, a composição e os arranjos são de primeira linha, e a produção é um pouco mais refinada e profissional do que em seus outros trabalhos dos anos 70, mas está longe da esterilidade que começava a afetar tantos artistas da MPB da época.
Outro destaque é a reinterpretação de melodias tradicionais.
Compositor, cantor, compositor e ator nascido em Irará (BA), Tom Zé é uma das figuras mais originais e controversas da MPB. Aprendeu a apreciar música ouvindo rádio em sua cidade natal antes de decidir estudar música na Universidade da Bahia, em Salvador. Teve aulas com Koellreuter, Smetak e Ernst Widmer, e aprendeu harmonia, contraponto, composição, piano e violoncelo. No início dos anos 60, formou o grupo Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso e Maria Bethânia, que se apresentaram nos programas "Nós, Por Exemplo" e "Velha Bossa Nova e Nova Bossa Velha". Com esse grupo, foi para São Paulo, onde participou do programa "Arena Canta Bahia" e do disco-chave do movimento tropicalista, "Tropicália ou Panis et Circensis", lançado pela Philips em 1968, e que inclui sua composição "Parque Industrial". Naquele mesmo ano, conquistou o primeiro lugar no Festival MPB com "São São Paulo, Meu Amor" e lançou seu primeiro single em LP, "Tom Zé", seguido por outros álbuns na década de 70. Seu álbum "Todos os Olhos", de 1973, também foi considerado inovador e, apesar do enorme sucesso de outros artistas brasileiros, Tom Zé ganhou destaque na mídia. Gravou outros álbuns menos bem-sucedidos, como "Correio da Estação do Brás" (1978) e "Nave Maria" (1984). No final da década de 80, sua carreira deu uma guinada positiva quando o músico David Byrne descobriu o inovador "Estudando o Samba", um LP no qual Tom Zé (com parceiros como Elton Medeiros) misturava elementos do principal gênero musical do país. Fascinado, Byrne lançou o compositor no mercado internacional através de seu selo recém-criado, Luaka Bop. O álbum "The Best of Tom Zé", lançado por Byrne em 1990, foi aclamado pela crítica, figurando entre os melhores da década em todo o mundo e sendo endossado pela revista Rolling Stone. As turnês pela Europa e pelos Estados Unidos durante os anos 90 foram bastante bem-sucedidas, o que só se refletiu no Brasil em 1999, com o lançamento do seu CD "Com Defeito de Fabricação".
Cliquemusic



Este poderia ser chamado de álbum conceitual sobre um bairro paulista povoado principalmente por imigrantes do Nordeste, que, segundo as notas do encarte, se assemelha a qualquer cidadezinha nordestina em dias de feira. Pura experimentação baseada na Tropicália. Para quem se sente confortável com o português, vale a pena ler o texto a seguir, pois ele também conecta o contexto sociopolítico de toda a obra do músico na década de 1970.
Com uma produção musical peculiar e inovadora, Tom Zé é uma das figuras importantes da música popular brasileira experimental dos anos 1970. Sua obra musical caracteriza-se por experimentalismos oriundos do tropicalismo, do qual participou na gravação do álbum-manifesto Tropicália e Panis et Circensis, e por sua postura influenciada pela contracultura. Como pano de fundo, destaca-se o cenário político conflituoso da época, marcado pela repressão militar do governo brasileiro. Apesar de seu trabalho realizado nos anos 1970, tanto criativamente quanto como porta-voz, Tom Zé não obteve grande sucesso de público e suas experimentações musicais não foram facilmente compreendidas. Portanto, este trabalho busca analisar a obra de Tom Zé nos anos 1970, a fim de demonstrar a importância de seu trabalho para a música popular brasileira da época.
Em meio ao regime militar brasileiro e ao movimento internacional da contracultura, Antônio José Santana Martins, mais conhecido como Tom Zé, experimentou com elementos rítmicos e expandiu as possibilidades musicais da canção popular. Tom Zé nasceu em Irará, Bahia, em 11 de outubro de 1936. É cantor, compositor, intérprete e escritor.
No início da década de 1970, o Brasil atravessava momentos delicados em relação à censura e à repressão militar. O Ato Institucional nº 5 (pacote de leis de exceção de dezembro de
1968) foi instaurado no país e reforçou o caráter repressivo do governo militar. Alguns artistas em ascensão na época foram censurados e muitos foram exilados. Esses bloqueios acabariam por interferir decisivamente na obra de dois artistas brasileiros. Os festivais de televisão, que na segunda metade da década de 1960 representavam um importante espaço de manifestação artística para músicos, perderam força no início da década de 1970. O tropicalismo, movimento que iniciou experimentalismos e apresentou novas possibilidades na estrutura da linguagem da canção, foi fundamental para uma criação realizada na década seguinte por artistas como Walter Franco, Novos Baianos, Tom Zé,
Secos & Molhados, Jards Macalé, Jorge Mautner, entre outros.
A década de 1970 também foi marcada por um grande crescimento da indústria fonográfica no país. Esse evento se deveu ao aumento da produção de bens de consumo, gerado na época em que o governo militar a promovia como um “milagre econômico”. Segundo Enor Paiano (1994, p. 195), entre 1968 e 1971, a “indústria de materiais elétricos (que inclui rádios, toca-discos e fonógrafos) cresceu 13,9% no período, (...) além das indústrias têxtil (7,7%), alimentícia (7,5%) e de vestuário e calçados (6,8%)”. A indústria fonográfica acompanhou esse crescimento e, segundo Paiano (1994, p. 195-6), “devemos atentar imediatamente para a análise dos números do mercado fonográfico nacional, de 1966 a 1976, com um crescimento acumulado de 444,6% no período, em que o crescimento acumulado do PIB foi de 152%”. O autor apresenta dois aspectos para explicar esse crescimento no consumo de discos. O primeiro ponto de vista mostra como o sucesso de dois festivais de TV e a explosão da moda jovem refletem o crescimento da produção ligada à cultura musical popular. Por outro lado, o autor relaciona a tendência crescente ao consumo musical na época, devido ao maior acesso ao consumo de bens por alguns setores da sociedade que antes eram reprimidos pela IA-5. Esses produtos mais consumidos estavam relacionados a produtos musicais de sucesso mais imediato, de baixo custo para a indústria fonográfica e de fácil consumo popular. LPs com trilhas sonoras de romances e shows de artistas que cantavam em inglês.
Mas esse não era o caso de Tom Zé. Segundo artista, um de seus álbuns lançados em 1973, Todos os Olhos (que já demonstrava ousadia epresentava características experimentais que causavam estranheza ao primeiro contato com a obra), distancia-se de dois meios de comunicação, mas também foi analisado pelos mais ouvidos do país. Aqui discutimos duas formas interessantes de comportamento dos gravadores daquela época. Para atingir objetivos lucrativos, as empresas optam por produções musicais mais populares, com sucesso mais imediato. Já não se limita ao nicho de consumo ligado a um público de “bom gosto”, uma vez que as empresas fonográficas abrem espaço para artistas diferenciados em sua produção musical. No caso do coletor de impostos Continental, Eduardo Vicente (2002, p. 76) destaca que
(...) buscando alternativas para conquistar um público em um mercado afetado e disputado por grandes empresas, a Continental, uma das maiores arrecadadoras de impostos da capital nacional, diversificou seu catálogo dando espaço a novos grupos e compositores, assim como surgiram, em um curto período, alguns prejuízos.
(...) buscando alternativas para conquistar um público em um mercado afetado e disputado por grandes empresas, a Continental, uma das maiores arrecadadoras de impostos da capital nacional, diversificou seu catálogo, dando espaço a novos grupos e compositores, assim como, em curto período, apagou alguns prejuízos.
Nos anos de 1960 e 1970, duas posições estiveram muito presentes na época: a esquerda de caráter político militante e a contracultura. Partindo desse ponto de vista, à esquerda não restava nada da ditadura militar no Brasil. Em segundo lugar, os grupos de esquerda se colocaram à disposição para confrontar, com mais armamento, o governo militar. Esses grupos possuíam uma disciplina quase militar. Já a contracultura estabeleceu uma ruptura com dois padrões burgueses de comportamento, tanto de direita quanto de esquerda. A libertação sexual, o movimento feminista, o pacifismo e a preocupação ambiental, tema pouco discutido na época, distanciam-nos da luta armada, mas não da luta pelos direitos de cidadania. Antônio Risério (2005, p. 26) comenta: “gostaríamos de acentuar as diferenças ao extremo, basta ler Carlos Marighella sobre o som do primeiro álbum dos Novos Baianos”.
É importante destacar que, diferentemente do movimento de esquerda, a contracultura não se manifestou a partir da ditadura militar no Brasil. Foi um movimento internacional que teve sua origem no país. Dessa forma, é possível compreender a discrepância comportamental entre os dois segmentos da juventude urbana brasileira. Tom Zé apresenta, em sua produção artística dos anos 1970, características relacionadas à contracultura. Ao compor canções para dois ícones tradicionais de gêneros musicais como o samba e, a partir desses gêneros, experimentar com ritmos diferentes e utilizar uma construção poética peculiar, provoca estranhamento, mas, ao mesmo tempo, apresenta um caráter inovador. Os cinco discos lançados na década (Tom Zé, RGE - 1970; Se ocaso é chorar, Continental - 1972; Todos os Olhos, Continental - 1973; Estudando o Samba, Continental - 1976; e Correio da Estação do Brás, Continental - 1978) misturam elementos musicais de vários estilos e apresentam pontos de vista de diversas regiões do país, como a música Augusta, Angélica e Consolação em que o autor se refere a três ruas famosas da cidade de São Paulo. Outro exemplo é a música Abacaxi de Irará, referente à sua terra natal, Irará (BA).
Na década de 1960, a produção musical brasileira foi intensa, desde a bossa nova, reconhecida internacionalmente, até o tropicalismo. A música brasileira se transforma em um campo de inovação e mudança. O linguista Luiz Tatit (2005, p. 119) destaca que “no domínio da música brasileira, os anos 60 começaram sob a égide da monumental explosão sonora proporcionada pela bossa nova e fundaram-se na espetacular desordem desencadeada pelo tropicalismo”.
No entanto, um ponto interessante é o surgimento do termo Música Popular Brasileira – MPB – que na década seguinte, em 1970, começou a integrar um público amplo que passou a consumi-la. Para o historiador Marcos Napolitano (2005, p. 125),
A música popular brasileira, MPB, consagrou-se na década de 70 como uma espécie de instituição sociocultural (processo que vinha ocorrendo desde a "era dos festivais", nos anos 60). Portanto, mais do que um gênero musical específico, a MPB é vista, a partir desse período, como o centro do sistema musical brasileiro.
A MPB, além de promover o mercado na década de 70, teve grande participação na expansão das indústrias fonográficas, também marcadas por seu caráter político de esquerda. Napolitano (2005, p. 126) acrescenta que
(...) o filme desta década, na corrente principal da MPB, representado por "monstros sagrados", triunfará no mercado fonográfico, formando artistas mais identificados com outros gêneros (...) uma espécie de ampla frente musical contra a dittura, valorizada e respeitada pela maior parte da crítica musical.
Assim, num contexto de impasse político e social, marcado pelo crescimento da indústria fonográfica e suas estratégias de mercado, influenciado pela contracultura no país, Tom Zé experimenta com a música de forma inovadora, sem se preocupar em atender às expectativas comerciais e desafiando os paradigmas musicais do senso comum do público.
Este trabalho busca analisar como o experimentalismo de Tom Zé se manifestou nos cinco álbuns lançados na década de 1970, em meio a tantos eventos em sua produção musical e, ao mesmo tempo, cruciais para a realização de sua obra dessa maneira.
Caio Araújo Silva
 


Como curiosidade, "Estudando o Samba" foi um dos centenas de álbuns que David Byrne encontrou em bancas e mercados por todo o Brasil enquanto pesquisava para sua coletânea de samba para sua gravadora. Claro, não tem nenhuma semelhança com um álbum de samba tradicional, e Byrne acabou contratando Tom – que a essa altura já estava praticamente esquecido e fora da ativa na indústria musical – para sua gravadora, o que acabou revitalizando sua carreira, principalmente fora do Brasil. 

Um álbum surpreendentemente melódico e experimental, uma combinação verdadeiramente rara, a ponto de existirem poucas obras com essas características.  É um álbum que eu quase descreveria como "doce", e outros seis anos se passariam antes de Zé lançar outro álbum. 

E teremos mais dele na próxima semana!

Você pode ouvi-lo aqui:

Estudar ou samba:
https://open.spotify.com/intl-es/album/2jOgajtpXNsinBpwg2dUjH

Correio da Estação do Brás:
https://open.spotify.com/intl-es/album/6cy5qWPjy31IRUnENoZhzx


Lista de Temas:
Estudando ou Samba:
1 Mã
2 A Felicidade
3 Toc
4 Tô
5 Vai (Menina Amenhâ De Manhâ)
6 Ui! (Você Inventa)
7 Doi 3:33
8 Mâe (Mâe Solteira)
9 Hein?
10 Só (Solidâo)
11 Se
12 Index
Correio Da Estação Do Brás:
13 Menina Jesus
14 Morena
15 Correio Da Estação Do Brás
16 Carta
17 Pecado Original
18 Lavagem Da Igreja De Irará
19 Pecado, Rifa E Revista
20 A Volta Da Xanduzinha
21 Amor De Estrada
22 Lá Vem Cuíca
23 Na Event Stop


Escalação:
- Tom Zé / Vocais
- Heraldo / Violão, etc
- Edson / Violão, Viola
- Dirceu /
Bateria - Cláudio / Contrabaixo
- Natal, Osvaldinho / Percussão
- Vicente Barreto / Violão e palpites
- Rosário / Arregimentação e discursos
- Eloa, Vera, Sidney, Roberto, Santana, Osório, Vilma, Carlos, Celso, Vagner, Puruca (ou Pituca) / Vocais
- Téo da Cuica / Tambor D'água e outros instrumentos de sua criação






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