
Poucos meses após o lançamento do primeiro álbum do Los Blops, em agosto de 1970, ocorreu uma grande mudança política no Chile. Em novembro do mesmo ano, Salvador Allende, impulsionado pela esquerda, chegou ao poder, um feito inédito na América Latina desde a ascensão de Fidel Castro em Cuba. Essa virada gerou grande esperança entre os chilenos, tanto social quanto culturalmente. Curiosamente, o Los Blops, que havia antecipado essa nova liberdade com seu audacioso primeiro álbum, não pareceu aproveitar totalmente esse momento com seu segundo álbum, também homônimo, lançado em 1971.
O segundo disco representa uma ruptura radical com o primeiro. Enquanto o álbum de 1970 era imerso na luminosa música folclórica andina, alternando instrumentais pastorais e canções, o novo LP adota um tom diferente. A flauta, menos proeminente, é por vezes substituída pelo violino, e as longas peças contemplativas dão lugar a canções mais acústicas e despojadas. A emoção simples e orgânica do primeiro álbum cede espaço a uma intimidade mais contida, por vezes introspectiva, o que surpreende após a energia desinibida de Los Blops.
Essa mudança de direção pode ser explicada pela mudança de gravadora. De fato, Eduardo Gatti (vocal, guitarra), Julio Villalobos (piano, guitarra, vocal), Juan Pablo Orrego (baixo, xilofone, vocal), Juan Contreras (flauta, órgão) e Sergio Bezard (bateria) deixaram a DICAP para se juntarem à Peña de los Parra, uma gravadora mais especializada em música folclórica. Essa mudança provavelmente influenciou o tom mais acústico e intimista do segundo álbum, que tem uma proposta conceitual. Na verdade, ele retrata o dia de um homem comum, dividido em duas partes: "Mañana" (a manhã) e "La Tarde" (a noite).
Em algumas faixas, Los Blops contam com a participação de Eduardo Salgado, Patricio Barría e María Saavedra nos instrumentos de corda, Ángel Parra na guitarra e voz, e Alberto Zapicán no kultrún, um instrumento de percussão tradicional do povo Mapuche, presente no centro do Chile, mas também na fronteira com a Argentina.
Com títulos poéticos como "Pintando Azul el Mar", "Manchufela", "El Río donde Va", "La Rodandera", "Tarde", "Del Volar de las Palomas" e "Campos Verdes", a música rapidamente transporta você para um cenário bucólico de fazenda. O quinteto e seus convidados contam com delicados violões, uma flauta sonhadora, violinos outonais e harmonias suntuosas.
Contudo, o grupo por vezes desvia-se da sua trajetória sem nunca abandonar esta atmosfera nostálgica. "Esencialmente Así no Más", com uma guitarra elétrica bluesy, flerta com o country e o jazz, intercalando com gravações invertidas. A instrumental "El Proclive Necesario" adiciona efeitos estratosféricos e inclina-se para o prog com o seu órgão luminoso. "Que Lindas son las Mañanas" abre com um acordeão que se eleva ao longe antes de mudar abruptamente para um folk-blues onírico. O álbum termina com a faixa de seis minutos "Pisándose la Cola", pontuada por uma guitarra elétrica que se lança em coros de hard blues, desafiando uma flauta esquiva.
Um disco de 33 rpm que, à primeira audição, pode parecer banal e estéril, mas cuja riqueza se revela após várias passagens pelo toca-discos, desvendando verdadeiros tesouros musicais.
Títulos:
1. Que Lindas Son Las Mañanas
2. Pintando Azul El Mar
3. Manchufela
4. El Rio Donde Va
5. Esencialmente Asi No Mas
6. La Rodandera
7. Tarde
8. Del Volar De Las Palomas
9. Campos Verdes
10. Pisandose La Cola
Músicos:
Eduardo Gatti: Guitarra, Voz;
Julio Villalobos: Guitarra, Piano, Voz;
Juan Pablo Orrego: Baixo, Xilofone, Vocais;
Juan Contreras: Flauta, Órgão;
Sergio Bezard: Bateria, Percussão
Produção: Los Blops
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