quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

CRONICA - GAL COSTA | Gal (1969)

 

Antes de 1969, Gal Costa era conhecida principalmente como uma elegante cantora de bossa nova e música popular brasileira (MPB), com alguns toques experimentais. Sua voz suave e calorosa combinava perfeitamente com os arranjos sutis e intimistas do gênero, que remetiam aos primeiros trabalhos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com quem iniciou sua discografia.

Mas 1969 marcou uma virada decisiva. Influenciada pela onda psicodélica de Os Mutantes, que reinventaram o rock brasileiro com ousadia e imaginação, Gal Costa, em seu segundo álbum solo, mergulhou nessa vertente estranha e fascinante. Ela abandonou em parte os contornos suaves da bossa nova para explorar texturas elétricas, arranjos experimentais e mudanças inesperadas de tom, criando um álbum que era ao mesmo tempo provocativo, sensual e fundamentalmente moderno.

Intitulado Gal for Phillips e com uma arte gráfica colorida, este álbum não é apenas um manifesto pessoal. Ele coloca Gal Costa no centro da revolução musical brasileira, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e, claro, Os Mutantes, trazendo uma abordagem vocal e emocional única que permanece fascinante mais de cinquenta anos após seu lançamento.

Para esta jornada alucinante, o cantor salvadorenho junta-se ao baixista Rodolpho Grani Júnior, aos bateristas Diogenes Burani Filho e Eduardo Portes De Souza, aos guitarristas Alexander Gordin e Jards Anet Da Silva, e aos arranjos de Rogério Duprat. Este coletivo de malucos produzirá um LP selvagem, indomável, por vezes perturbador, mas acima de tudo radical, que mistura rock psicodélico, garage rock, jazz, soul, samba, tropicalia e música concreta. 

O que impressiona imediatamente ao ouvir Gal é a voz de Gal Costa. Uma voz como nunca se ouviu antes: selvagem, animalesca, furiosa, sensual, capaz de transitar de um sussurro a um rugido em uma fração de segundo. Enquanto Janis Joplin impressiona com seu poder bruto, Tina Turner com sua energia eletrizante e Grace Slick com sua audácia psicodélica, Gal Costa supera todas essas referências com seu instinto ilimitado, sua liberdade e sua capacidade de fazer de sua voz um instrumento completo, imprevisível e incandescente. Cada nota parece brotar de sua essência, e cada respiração exala a revolução tropical. Nem mesmo as orquestrações lânguidas e contemplativas de "Meu Nome É Gal" mudam isso. Gal Costa permanece fiel a essa imagem em meio a uma transformação brutal e funky, determinada a cantar com fúria, especialmente porque essa faixa é pontuada por um solo de guitarra afiado como uma navalha.

O álbum abre com uma explosão de distorção que poderia ter saído diretamente de uma coletânea da Nuggets. "Cinema Olympia" é um verdadeiro choque elétrico, rapidamente atenuado pela voz suave de Gal Costa, que nos leva a uma bossa nova garageira multicolorida e caleidoscópica, quase cinematográfica, onde a exuberância tropical se mistura com a energia bruta do rock.

Um início estrondoso que atinge os picos mais altos da psicodelia, embora Gal Costa pareça rapidamente dominada por seus demônios interiores, adicionando uma tensão quase palpável a essa abertura.

À beira da histeria, encontramos essa guitarra corrosiva, ácida e híbrida em "Cultura E Civilização", "Com Mêdo, Com Pedro" e "The Empty Boat". Como um encontro de todos os continentes, um verdadeiro choque cultural onde cada som parece desafiar fronteiras e convenções.

Porque Gal Costa adora mudar de continente. Com a mala cheia de influências de bossa nova e samba, ela nos leva ao coração do Saara. "Tuareg" nos imerge num cenário arabesco, onde uma caravana passa sob o pôr do sol, acompanhada por um órgão que perturba nossos sentidos. Realidade ou miragem? Aí reside a sutileza deste LP, oscilando entre uma jornada sensorial e uma alucinação tropical.

De volta às favelas do Rio, fervilhando com urbanismo desenfreado e vida transbordante. "País Tropical" se desenrola como uma festa folclórica sensual e vibrante, onde o calor e a energia da cidade se misturam com a exuberância de Gal Costa.

Mas o fascínio inegável deste vinil completamente excêntrico permanece em "Objeto Sim, Objeto Não", uma verdadeira viagem só de ida para Marte. Gal Costa canta um soul-samba mutante, imerso em um fervilhante laboratório sonoro. Uma faixa arrepiante, feita de experimentações eletrônicas, fitas invertidas, gritos de animais, brincadeiras bestiais, bombardeios bombásticos de metais cósmicos e efeitos de eco que perfuram o cérebro.

A viagem ruim continua com "Pulsars E Quasars" como conclusão. Um blues interestelar rastejante com um toque brasileiro, como se Gal Costa estivesse improvisando de uma nave espacial perdida entre duas galáxias.

Considerado subversivo pela ditadura militar no poder, Gal foi um verdadeiro ponto de virada na carreira de Gal Costa, uma atitude radical que ela jamais repetiria. O álbum mais extremo, roqueiro e destrutivo de toda a sua discografia, este disco único condensa o espírito da Tropicália em seu ponto mais incandescente e explode todas as fronteiras entre bossa nova, pop e psicodelia. Um momento de total liberdade, tão breve quanto deslumbrante, que continua a arder com uma intensidade singular até hoje.

Títulos:
1. Cinema Olympia   
2. Tuareg       
3. Cultura E Civilização       
4. País Tropical         
5. Meu Nome É Gal  
6. Com Mêdo, Com Pedro    
7. O Barco Vazio    
8. Objeto Sim, Objeto Não   
9. Pulsares E Quasares

Músicos:
Gal Costa: Vocais
Rogério Duprat: Arranjos
Diogenes Burani Filho, Dudu Portes: Bateria
Alexander Gordin, Jards Macalé: Guitarra
Rodolpho Grani Júnior: Baixo

Produção: Manoel Barenbein




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