terça-feira, 20 de janeiro de 2026

CRONICA - LOS JAIVAS | Los Jaivas (1971)

 

Uma das principais instituições musicais da cena chilena, Los Jaivas conseguiu combinar rock e folclore andino.

A banda surgiu em 1963 em Viña del Mar, uma cidade costeira a 120 km de Santiago. Era formada pelos irmãos Parra: Gabriel (bateria), Claudio (piano, percussão) e Eduardo (órgão). Após diversas mudanças na formação, juntaram-se a eles Gato Alquinta (vocal, guitarra) e Mario Mutis (baixo). Inicialmente, o quinteto se chamava The High & Bass, um trocadilho com a diferença de altura entre os irmãos Parra, mas acabou adotando o nome Los Jaivas.

Após concertos duramente criticados pelo público, as performances dos músicos evoluíram, no final da década de 60, para criações originais, baseadas na improvisação e na experimentação, com a particularidade de integrar instrumentos do folclore chileno e latino, como flauta doce, ocarina, kultrún, bongô, congas, tarka, pandeiro… Em 1971, numa época em que o Chile vivenciava uma transição política repleta de esperança tanto no âmbito social quanto cultural, Los Jaivas autoproduziram seu primeiro álbum, homônimo, em edição limitada, pelo selo Grabación Particular.

Apelidado de El Volatín, este primeiro rascunho captura a essência crua de Jaivas. A improvisação é levada ao ponto da experimentação mais livre, atmosferas que se expandem e se transformam, e uma visão singular de uma América Latina que é ao mesmo tempo selvagem, urbana e estranhamente hipnótica.

Introduzida por um piano leve, quase sinfônico, “Cacho” nos transporta para um ritual no coração da Cordilheira dos Andes. Gemidos estranhos, quase angustiados, ressoam como os de um ser meio homem, meio condor, vindo para nos enfeitiçar. Essa abertura delirante é logo despedaçada por harmonias de flauta e ocarina, enquanto o órgão cósmico perturba nossos sentidos.

Essa cerimônia continua em “Por Veinticinco Empaná”, onde a flauta avança ao ritmo de uma marcha quase militar, antes de nos conduzir a “Tamborcito de Milagro”, uma verdadeira selva urbana alucinante onde a percussão e os teclados se entregam a uma agitação cosmopolita.

Com "La Vaquita", Los Jaivas dão sequência a essa produção com um turbilhão de percussão à la Santana, pontuado por uma flauta lúdica e ritmos que remetem ao transe africano. O resultado evoca um carnaval vibrante em algum lugar entre Santiago e Dakar, com uma parada em Woodstock.

Mas o destaque deste LP é, sem dúvida, “Último Día”, uma epopeia de oito minutos que proporciona um choque sonoro a qualquer fã de krautrock intenso. Um verdadeiro laboratório sonoro no estilo da salsa pebre, o quinteto nos impulsiona para uma zona industrial psicodélica, perturbadora e paranoica, povoada por criaturas estranhas. Grita! Discursa! O teclado é corrosivo, o violão dissonante, a percussão nos mantém na ponta da cadeira e o piano espirala em uma cueca free jazz. Felizmente, o breve “Bolerito” nos tira desse pesadelo cacofônico. Cantado por Geraldo Vandré, este final é acompanhado por um violão de seis cordas no estilo do folk latino-americano.

No entanto, no meio do álbum, duas canções mais acessíveis revelam estruturas melódicas bem mais elaboradas. Cantada com uma variação do hino nacional chileno, “Que o la Tumba Serás” exala um exotismo noturno, como um convite para degustar pisco na praia de Valparaíso. Mais desencantada e nostálgica, “Foto de Primera Comunión” oferece uma bela fusão de lamentos chilenos e acid-rock latino, terminando com sinos que ressoam como o fim da inocência e da infância.

Um álbum complexo, tortuoso e de difícil acesso, cuja riqueza se revela após múltiplas audições.

Títulos:
1. Cacho        
2. La Vaquita 
3. Por Veinticinco Empaná   
4. Tamborcito De Milagro    
5. Que O La Tumba Serás    
6. Foto De Primera Comunión         
7. Último Dia
8. Bolerito

Músicos:
Gato Alquinta: Voz, Guitarra, Flauta, Ocarina
Mario Mutis: Baixo, Voz, Tarka, Flauta
Gabriel Parra: Bateria, Cultrun Piano
Claudio Parra: Piano, Maracas
Eduardo Parra: Órgão, Xilofone

Produção: Los Jaivas




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