quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Deafheaven: crítica de Sunbather (2013)

 



No dia 11 de junho de 2013, um certo disco com uma inusitada capa de tons róseos e apenas o nome do trabalho escrito com fonte que parecia tirada de uma revista de moda fisgou a atenção de praticamente todo o mundo musical. Sunbather, o segundo  álbum do Deafheaven, formado pela dupla americana George Clarke e Kerry McCoy, imediatamente teve todos os holofotes apontados para ele, extrapolando qualquer barreira que ainda pudesse existir entre a restrita música extrema e o absurdo sucesso mainstream (ora essa, eles apareceram até no anúncio do iPhone 5C).

E não apenas isso, o álbum figurou como um dos principais destaques do ano nas mais diversas publicações, superando inclusive os trabalhos quase unanimes do Black Sabbath e do Carcass, por exemplo, e considerada uma das maiores obras-primas recentes em diversas críticas mundo afora. Então, uma questão permanece martelando na mente de muitos: é realmente tudo isso?

As primeiras notas de “Dream House”, que percorrem de forma desenfreada os minutos iniciais do álbum, apresentam de forma clara a sujeira resultante do híbrido entre o black metal e o post-rock. Apesar de a tendência puxar mais para o lado do primeiro, por conta da predominância da velocidade e da crueza dos timbres dos instrumentos, os incessantes blastbeats e as terríveis linhas vocais cuspidas de forma atônica, é inegável que há a criação de uma atmosfera riquíssima, com notável quebra de ritmo e interessante mudança de direcionamento em seu final, para algo mais contemplativo e perigosamente próximo ao shoegaze.

Na estrutura de Sunbather, as faixas mais longas são intercaladas por outras menores, como uma transição de pensamentos controversos na mente de uma pessoa com sérios distúrbios de personalidade. Mal cessa o caos de “Dream House”, a tranquilidade quase pastoral nos dedilhados de “Irresistible” remete a tempos mais simples e despreocupados, que são obliterados com a gélida introdução da faixa título, e talvez exatamente por isso, comecem a transparecer alguns pontos estranhos.

A música que dá nome ao álbum traz a mesma fórmula, alternando entre os momentos mais vomitados com outros de pura catatonia épica, de margens nebulosas, praticamente impossíveis de serem definidas. Os poucos descansos sonoros, quase esbarrando no rock progressivo também funcionam como minúsculos interlúdios em uma faixa que parece correr em volta do seu próprio eixo de forma cansativa (ok, talvez isso faça parte da proposta da banda – mas ainda assim determinadas passagens parecem estar ali sem nenhum propósito).

“Please Remember”, com seu crescendo de ruídos e interferências tipicamente utilizadas no post-rock atinge o seu ápice cacofônico até descambar para uma belíssima passagem acústica que precede “Vertigo”, a composição mais completa em Sunbather, aonde a dupla atinge o perfeito equilíbrio entre as suas diversas influências, com 14 minutos de mudanças de andamento devidamente encaixadas e em coerente desenvolvimento. Do hipnótico início árcade, que aos poucos recebe inserções de elementos mais desconexos até os mais agressivos momentos, “Vertigo” realmente cria uma experiência muito além da musical e finalmente torna-se possível visualizar um ambiente alvorar próximo às inusitadas cores da arte do trabalho.

Em seguida, chega a ser intrigante imaginar se as pregações em “Windows” não fazem referência ao Pink Floyd, unindo a transmissão com um incessante loop de sintetizador e piano, como se Waters e Wright, em uma realidade alternativa, fossem entusiastas de um som mais extremo. Devaneios a parte, “The Pecan Tree” mergulha de forma ainda mais profunda no black metal, de certo sentimento épico que flutua entre o Burzum e o Bathory em certos momentos, contando com um instrumental ainda mais saturado e estourado, irreconhecível quando as passagens etéreas aparecem de forma brusca e assustadora, criando mais uma vez o contraste entre as identidades conflitantes da banda, encerrando o álbum praticamente da mesma forma que começou.

Há qualidade em Sunbather. Principalmente pela inversão da equação que o Deafheaven faz, ao basear as músicas não em faixas extremas com toques atmosféricos, mas sim de ser uma banda de post-rock/shoegaze que utiliza elementos extremos para acentuar a sonoridade apocalíptica de sua criação e o conflito transparecido também nas letras. Analisando isoladamente, é um bom trabalho, de produção excessivamente suja em certos momentos e um vocal apático que tenta vociferar de forma agonizante algo que o estraçalha por dentro, mas acaba passando a mensagem apenas de forma monótona, apesar das inteligentes estruturas instrumentais e pela combinação já comentada.

Qual o motivo então de todo o hype em cima do  álbum? Bandas como Fen e Alcest (e até mesmo o Burzum) já fizeram algo próximo em sua discografia, da mesma forma que outros ótimos lançamentos de 2013, dos grupos Capa, Altar of Plagues, Castevet, Gris e Vattnet Viskar (para citarmos alguns) podem não ter proposta exatamente igual, mas apresentam direcionamentos parecidos e não tiveram nem uma porcentagem do reconhecimento do Deafheaven. Não estamos falando que é injusto, apenas que soa um tanto quanto descabido.

O black metal manifestado em meio a outros estilos não é grande novidade, e tampouco aparece aqui em sua forma mais completa e coerente durante todo o trabalho. Então, quais seriam os motivos de toda a comoção causada? Teria atingido um público diferente, ainda ignorante em relação a tudo o que vem sendo lançado nos últimos anos? O trabalho visual e o conteúdo lírico confundiram as pessoas em um primeiro instante? Há necessidade de ter uma obra prima e enfiarmos esse veredito goela abaixo de todos, em uma tentativa de unir grupos inicialmente antagônicos? E quanto ao próximo álbum, daqui a alguns anos, terá recepção tão calorosa por aqueles que facilmente se cansam e descartam o novo de ontem como se fosse arcaico hoje? Muitas questões permanecem, e assim provavelmente continuarão durante algum tempo.

Em todo caso, como já dito: há qualidade em Sunbather. Também há beleza e elegância deitada ao lado da desordem e do desespero em um gramado ao nascer do sol. É um bom disco, e deve ser encarado musicalmente como tal. O reconhecimento pelo trabalho da banda é excelente, de fato, mas devemos ter em mente que não é a única bolacha no pacote.

Nota 7,5

Faixas:
1 Dream House
2 Irresistible
3 Sunbather
4 Please Remember
5 Vertigo
6 Windows
7 The Pecan Tree 




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