sábado, 10 de janeiro de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Som Imaginário - "Matança do Porco" (1973)

 

Vamos voltar no tempo, lá no final dos anos 60, quando surgiu a MPB em seu veio principal, mas também outro marginal, que ora se misturava ao mainstream e ora dele se afastava em direção ao experimentalismo, ou por vezes se encostava em aspectos do tropicalismo e até com a Beatlemania. E um representante desta vertente alternativa foi um grupo que chegou no eixo Rio-São Paulo através da voz alienígena de Milton Nascimento. Poucos repararam, na época, na banda de palco (era um tempo em que a execução instrumental não era mais do que acompanhamento para o cantor). Porém, ali, por trás da notável voz de Milton, estava um grupo de músicos de grande talento, até então escondidos nos bares e pequenos espaços de apresentação. Era o "Som Imaginário" e o show se chamava ""Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário". A banda durou meros três e heterogêneos álbuns, mas que se mantiveram, ao longo das décadas, como uma experiência indelével na música brasileira e, se falarmos mais livremente, no Rock nacional. O Som Imaginário foi cultivado no ancestral "W's Boys", de onde procediam tanto Milton, quanto Wagner Tiso (mineiro de Três Pontas e amigo de infância), uma das forças criativas iniciais da banda. Depois de algum tempo (entre 1968-69) de luta na noite carioca, atraíram o baterista Robertinho Silva e o baixista Luiz Alves (ambos cariocas), que formariam o núcleo da banda que acompanharia Milton. A união do grupo com Milton neste show (em 1970) indicou uma mudança sem precedentes no som do próprio Milton, que foi mal qualificada pela imprensa da época (como "adesão do cantor mineiro ao tropicalismo"). De fato, no espetáculo, exibido no Teatro Opinião e, depois, no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro, seguindo depois para São Paulo, sobravam eletricidade, decibéis e virtuosismo.
Sem se descolar de Milton, o Som Imaginário assinou com a Odeon (representante da EMI no BR) e alçou carreira própria. Viriam três álbuns bem diferentes um do outro, mas que caracterizariam o alcance da sonoridade do grupo. Ainda em 1970, surgiu "Som Imaginário", um verdadeiro ET no mercado nacional e que, como tal, vendeu pouco para os padrões das gravadoras, mas virou objeto de culto de roqueiros e antenados. Nele, a formação era Wagner Tiso (piano e órgão), Tavito (violão, guitarra-base), Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria), Frederyko (guitarra solo) e Zé Rodrix (órgão, percussão, voz e flauta). Havia a participação especial de Naná Vasconcelos (percussões) e Milton em vários vocais. Experimentalismo, psicodelia e tropicalismo. Sim, influências dos Beatles, vocais em português e em inglês, mas a abordagem Psych-Prog era algo muito inovador naquela época. De fato, esta estreia do Som Imaginario é única, mostrando bom humor, total criatividade, guitarras hendrixianas, órgão roqueiro (como em "Morse"), percussões geniais e os vocais de Zé Rodrix na maioria das faixas. O poderoso grupo funcionava como uma verdadeira academia de imaginação sonora. Latinidade, lisergia (como em "Nepal"), voos Prog (como em "Tema dos Deuses"), climão paz-e-amor, anarquismo "como em "Feira Moderna") e aura hippie. Apesar de ter se tornado obscuro, deixava clara toda a competência dessa turma de cabeludos e é visto hoje como obra importante no Rock nacional.
A banda toca no álbum "Milton" (de 1970), um dos mais importantes do cantor (com a icônica faixa "Para Lennon e McCartney"), no qual tem contribuição destacada. E ainda acompanha Gal Costa no programa "Ensaio", de Fernando Faro. O segundo e auto-intitulado trabalho do grupo foi lançado em 71 e também é conhecido pelo título "A Nova Estrela" (nome da última faixa). Aqui a trupe já não contava com a participação do irreverente Zé Rodrix (que havia saído para formar o trio Sá, Rodrix & Guarabyra, definindo aquilo que viria a ser chamado de Rock Rural). Ainda sob a discreta liderança de Wagner Tiso, quem ganhava espaço para desenvolver suas idéias anárquicas era Frederyko, que compunha vários temas, cantava na maioria das faixas e fazia, mais uma vez, um ótimo trabalho nos solos de guitarra. Além de "Fredera" e Wagner Tiso, completavam a formação os músicos Tavito (violão e guitarra), Luiz Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria). Mantendo as diretrizes sonoras do álbum anterior, o grupo passeava por estilos que iam do Rock psicodélico ao Prog, flertando com a MPB, o Folk e a música latina. O resultado era uma nova leva de belas vocalizações e melodias bem agradáveis, com destaque para as bem-humoradas "Cenouras" (com suas referências às drogas), "Gogó (O Alivio Rococó)" (um Free Rock cheio de efeitos/experimentações e letras típicas do psicodelismo da época - ingênua, porém cativante) e "Salvação pela Macrobiótica" (bem virtuosística e brincando com a mania riponga de naturalismo). Um álbum mais calmo, suave, relaxante, com belas melodias e ótimos vocais. Muita psicodelia com sabor "flower power" em canções memoráveis, embora não tão marcante e poderoso quanto o eletrizante álbum inicial. "Você Tem Que Saber" era uma toada eletrificada, bem mineira, movida à guitarra elétrica e pedais. "Ascenso" destacava o clima Prog (com melodia bem ao gosto de certas coisas de Milton), "Uê", com letras de Márcio Borges, marcava o Pop mineiro setentista, "Xmas Blues" era para escrachar as festas natalinas e "A Nova Estrela" fechava o disco com bela empreitada Prog com intenso brilho instrumental e várias partes. 
Consolidado como superbanda, chamado para mil e uma gravações, programas de TV e vários festivais que se multiplicavam na época, o Som Imaginário preparou seu terceiro e último álbum, "Matança do Porco", já sob a direção total de Wagner Tiso, que compôs todos os temas e arranjos. O disco totalmente instrumental investiu tanto na sonoridade Prog, quanto no instrumental brasileiro baseado no Choro e na Valsa. Com efeito, o álbum foi uma peça inteiriça com variações em torno de um único tema, "Armina" (a exceção é exatamente a faixa título), um Choro que, ao longo do disco, evoluía em diferentes direções, da delicadeza pianística ao peso Prog, com solos de guitarra rascantes, tudo por cima da condução do genial Robertinho Silva à bateria e do baixo sólido de Luís Alves. Ouvir "Matança do Porco" é uma experiência delirante e minuciosa, onde cada solução melódica, harmônica ou rítmica conduz a novas paisagens musicais, sempre refeitas a cada audição. Com uma formação enxuta (Wagner Tiso, Luís Alves, Tavito e Robertinho), sob total liderança de Tiso (que atuou como tecladista, arranjador e maestro), "Matança do Porco" era um trabalho conceitual de instrumental fascinante fundindo JazzRock Progressivo, música erudita e MPB. Lançado em 73, o álbum contava ainda com as participações especiais de Milton Nascimento, Danilo Caymmi e dos Golden Boys. Frederyko, o grande "Fredera", já havia saído da banda quando o LP foi lançado, mas os vestígios de que participou das gravações do "abate suíno" ficavam evidentes ao se escutar os brilhantes solos de guitarra espalhados pelo álbum. Arranjos sinfônicos muito bem elaborados abriam terreno para a banda simplesmente fazer misérias. Faixas como "Armina" (tema indutor, que combinava guitarra Fuzz e piano erudito de forma esplêndida),"A 3" (com Tiso criando frases no melhor estilo Kerry Minnear, do Gentle Giant), "A (Nova Estrela) nº. 2" (Prog ao extremo, com um timbre de órgão sensacional e uma construção harmônica de arrepiar) ou "Mar Azul" (que agregava elementos do Samba-Jazz e trazia Danilo Caymmi nos arpejos de flauta) mostravam uma banda bem entrosada e com músicos no auge de suas habilidades. Mas o maior destaque do disco estava na faixa-título: um tema de 11 minutos que dividia-se em três movimentos, onde se sobressaíam as vocalizações deslumbrantes de Milton Nascimento, os agudos da guitarra de Fredera e os fraseados bem bolados de Tiso. Divinamente sublime, esta faixa foi composta por Wagner Tiso para o filme "Os Deuses e os Mortos" (rearranjada aqui), de Ruy Guerra, que concorreu às premiações do Festival de Berlim, em 1971. O Som Imaginário detonava o que talvez seja o melhor disco brasileiro (certamente um dos melhores) catalogável como Prog. Em vez de psicodélico como nos anteriores, aqui havia uma música Fusion, toda instrumental (algumas vozes apenas fazendo vocalizações), Prog-Rock sinfônico cheio de elementos eruditos e com infusões de JazzBossa Nova e inclusive participação de uma orquestra. 
O grupo prosseguiu em sua jornada e novas alterações na formação. Robertinho Silva saiu para a entrada do baterista Paulinho Braga. Luís Alves foi substituído pelo baixista Noveli. Tavito preferiu trabalhar sua carreira solo e cedeu lugar para Toninho Horta. O saxofonista Nivaldo Ornelas, que já havia participado em 1970, também foi reagrupado. Em 1974, saiu "Milagre dos Peixes – ao vivo", creditado a "Milton Nascimento e Som Imaginário". Disco excepcional, chamava a atenção pela abertura com a suíte "Matança do Porco" que se ligava a um tema orquestral similar intitulado "Xá Mate". Antes de Milton abrir a boca em "Bodas", a segunda faixa, o disco já era inesquecível por esta introdução. Frederyko ainda retornaria à banda, antes de seu fim em meados de 76. O intercâmbio e as colaborações entre os músicos do Som Imaginário continuou nos anos seguintes. Não é difícil encontrá-los participando de álbuns de Wagner Tiso ou Milton Nascimento. Vários gravaram trabalhos individuais. Em 2012, ocorreu uma reunião (com Tiso, Alves, Robertinho Silva, Tavito e Ornelas). Com apoio do SESC, o grupo fez algumas apresentações e, em 2013, Victor Biglione tornou-se o sexto integrante.


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