terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Hard Rock escocês do Nazareth

 

Depois de preencher a lacuna entre o Hard Rock e o AOR em "Malice In Wonderland", o Nazareth inclinou-se novamente na direção errada em "The Fool Circle", de fev/81, um sequência totalmente equivocada. Voltando ao formato de quarteto, o maior problema estava na aspereza autoritária da produção, que sugava grande parte da energia e colocava foco nos elementos Pop de cada canção. Pianos tilintantes sobrepujavam as guitarras no principal single do álbum, "Dressed To Kill", as letras sofriam para fazer comentários políticos (vide "Pop The Silo" falava sobre guerra nuclear de maneira tão exagerada que se tornava engraçada), sem Zal Cleminson a entrega era menos muscular e menos excitante, as canções ficavam sem vida e soavam pálidas. Para piorar, um groove Reggae sinuoso em algumas faixas ajudava a tornar o álbum um dos mais confusos e decepcionantes do catálogo do grupo. Então, a banda tentou estabilizar o que estava começava a parecer um navio afundando. Aumentar a formação para um sexteto com a adição do jovem guitarrista de Glasgow Billy Rankin e do tecladista John Locke (ex-Spirit, que apareceu como convidado em "The Fool Circle") podia até não parecer a melhor ideia para se conseguir isso, mas fato é que o álbum duplo ao vivo "'Snaz", de set/81, confirmou que a banda ainda tinha fogo para queimar. "'Snaz" é uma das melhores e menos reconhecidas gravações do Hard Rock ao vivo dos anos 70. Ao contrário de ícones mais reconhecidos (como Black SabbathDeep PurpleThin Lizzy etc.), o Nazareth, mesmo em seu apogeu em "Hair Of The Dog", nunca foi capaz de colocar muito peso em seu ataque Hard Rock quando gravava nos estúdios. Tanto guitarras, como bateria e baixo não tinham todo aquele impacto de arrepiar e o efeito geral era de um som menos poderoso do que o que poderia ser (e que realmente acontecia nos palcos). Por isso, este "'Snaz", gravado ao vivo em Vancouver, Canadá, em mai/81, é um destaque na carreira da banda. A energia e o impacto do repertório do Nazareth aqui são palpáveis nessas versões ao vivo e, embora as coisas se tornem meio desleixadas às vezes, nunca gera distração. O resultado era uma pedrada atômica obrigatória para todos os fãs da banda. Essencial. O álbum original ainda trazia duas faixas bônus gravadas em estúdio: "Juicy Lucy" e uma regravação de "Morning Dew". Juntas com "Crazy (A Suitable Case For Treatment)", da trilha sonora do filme "Heavy Metal", representavam as primeiras gravações de estúdio da nova formação em sexteto (a reedição remasterizada de 30 anos em 2 CD's foi a primeira neste formato que trouxe toda a íntegra do álbum).
A nova formação debutou oficialmente no álbum "2XS", de jun/82, outro álbum mais leve do que o esperado. Apesar de ter passado boa parte de 81 numa turnê de grande sucesso e era de se esperar que este novo senso de vigor se refletisse no novo trabalho, isto não aconteceu. O som buscava a suavidade sonora do AOR, embora ainda existissem os elementos de Hard Rock. "Love Leads To Madness" ostentava uma melodia suntuosa de Power Ballad totalmente voltada às rádios, mas havia "Boys In The Band", um dos Rocks mais furiosos da banda desde os dias de "Expect No Mercy" e "No Mean City". "Gatecrash" era outro Rock de festa estridente que surpreendia, mas no restante havia muito New Wave, sintetizadores, às vezes lembrando "The Cars", linhas de baixo agitadas e sons eletrônicos típicos da época. O resultado fundia todos esses elementos e agradou a alguns, porém desagradou a muitos. Vendeu bem nos EUA, mas mal no Reino Unido. Pressentindo tempos difíceis pela frente, Locke retornou à Costa Oeste para se juntar a Randy California numa reunião do Spirit. Agora um quinteto, o Nazareth continuou a trabalhar de forma constante. Numa turnê pela Austrália, eles tiveram como banda de abertura a então novata "Rose Tattoo" (no futuro, uma lendária banda australiana). No camarim, um skinhead de aparência feroz apertou com entusiasmo a mão de Dan McCafferty e proclamou: "Hi, Dan, I’m Angry". Não reconhecendo o australiano, McCafferty respondeu casualmente: "What about, son?". Ele não sabia que o nome do cara era Angry Anderson, o vocalista do Rose Tattoo. "Mas eles foram uma ótima banda", contou depois. O Nazareth também ganhou as manchetes após um programa de televisão no Chile. "Na primeira noite, John Denver foi a atração principal e terminamos nosso show fazendo o público cantar junto em 'Son Of A Bitch'", explicou Agnew. "No dia seguinte, estávamos na primeira página de todos os jornais: 'Nazareth, vá embora'. Disseram que estávamos corrompendo a juventude do país com palavrões. Na noite seguinte, que fomos a atração principal, a primeira dama entrou no camarim, olhou bem nas nossas caras e nos disse: 'Vocês não vão fechar com essa canção'. Darrell Sweet, o baterista, acenou com a cabeça: ‘Sim, ok’. Ao contrário, abrimos com ela". Após uma associação de 12 anos com a A&M Records, o Nazareth mudou para a MCA Records em "Sound Elixir", de jun/83, que seria seu último álbum por uma grande gravadora. Aqui, a banda estava claramente em declínio comercial e artístico. Entretanto, como em toda gravação deles, há sempre pontos positivos que fãs irão aproveitar. Os destaques aqui iam para a poderosa faixa de abertura, "Why Don't You Read The Book" e "Rain On The Window". Embora não fosse um trabalho ruim, estava muito distante do melhor do Nazareth nos anos 70, tanto em termos de intenções musicais, quanto de execução técnica e artística. As constantes turnês e os rendimentos em queda foram demais para Rankin, que saiu.
Com a banda novamente de volta a um quarteto, "The Catch", de set/84, continuou a trajetória descendente de popularidade. Tentando se manter atuais, infelizmente agindo como tantos e recorrendo a sintetizadores e composições sem brilho, o álbum era, em sua maior parte, fraco. "Cinema", de fev/86, capturou o Nazareth numa situação cada vez mais difícil. O Heavy Metal era a bola da vez e bandas como o Nazareth, consideradas "dinosauros", passaram a ter muita dificuldade para manter seu público. "Cinema" nem era ruim (faixas como "Just Another Heartache", "Other Side Of You", "One From The Heart" e "A Veteran's Song" tinham qualidade, realçadas pela rouquidão característica de Dan McCafferty), mas sem dúvida não chegava aos pés dos melhores discos dos anos 70. "Pela primeira vez, pareceu tudo aquilo como um trabalho, porque nós estávamos tentanto fazer canções que se adequassem". McCafferty: "Também estávamos começando a perceber que havia um problema com Manny". A banda passava nove meses por ano excursionando e, em 84, eles se tornaram a primeira banda ocidental a realizar um show completo na Cortina de Ferro tocando para 150 mil pessoas na Polônia. Na Rússia, fizeram doze shows com ingressos esgotados. No Reino Unido, entretanto, a banda seguia solenemente ignorada.
Quando em 86, surgiu o segundo álbum solo de Dan McCafferty, "Into The Ring", a lista de músicos que dele participou (principalmente alemães) confirmava a mudança de mercado da banda. "Snakes 'N' Ladders", de jun/89, foi o décimo sétimo álbum de estúdio do Nazareth, lançado pelo selo Vertigo Records. Foi o último com o guitarrista Manny Charlton, cansado de tudo. O álbum era um pedaço de lixo pútrido, troço horroroso cheio de sintetizadores e composições embaraçosas, covers estranhos e tudo parecendo forçado.  Talvez, o pior álbum da banda. Depois de mais de 20 anos com a banda, a saída de Manny foi um choque e uma enorme tristeza.




Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

Budgie: The Last Stage (2004) {1979-1985 Previously Unreleased Studio Tracks}

  Artist:   Budgie Album:   The Last Stage Genre:   Hard Rock , NWOTBM Year:  2004 Country:   Wales A década de 80 parecia promissora para o...