segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Hard Rock escocês do Nazareth

 


Dan McCafferty e Pete Agnew foram despachados para os escritórios do semanário Melody Maker na Fleet Street, em Londres, então o centro do jornalismo musical, para angariar alguma publicidade muito necessária. Enquanto esperavam em um pub pelo jornalista que os entrevistaria, eles começaram uma conversa com outros dois cabeludos. Agnew: "Eles nos perguntaram se estávamos em uma banda, e quando dissemos que sim, eles realmente tinham ouvido falar do Nazareth. Fizemos a mesma pergunta a eles, e ficamos envergonhados ao descobrir que eles eram do Led Zeppelin. Estávamos comendo salsicha e feijão com Robert Plant e Jimmy Page! Mas nunca tínhamos visto uma foto deles". McCafferty: "Na verdade, já tínhamos conhecido Robert Plant antes. Nós emprestamos £15 para gasolina quando ele estava na Band Of Joy e eles tocaram no YMCA, em Kirkcaldy. Nós éramos a banda da casa, e eles apareceram do nada e perguntaram se podiam tocar por meia hora. Nós dissemos: 'Sim, estamos prestes a fazer uma pausa'. Sabe de uma coisa? Nunca recebemos essas £15 de volta". A própria falta de uma imagem forte do Nazareth complicou as coisas. Eles usavam de calças boca-de-sino, cabelos desgrenhados, bigodes e barbas, e, em meio a essa falta de identidade a banda recebeu £100 de seu empresário para irem ao Kensington Market, em Londres, para comprarem algumas roupas de palco glamourosas. Mas ainda assim, se sentiam incapazes de abraçar totalmente a explosão do Glam Rock que estava acontecendo ao redor deles. "Dan e eu gastamos cerca de £90 em cerveja e voltávamos para casa com algumas camisetas cada um", Agnew ri. "Era difícil andar com saltos plataforma de sete polegadas. Nós gostávamos mesmo era de futebol naquela época. Assim que podíamos nos livrar daqueles sapatos-plataforma, era o que fazíamos". O quarteto excursionou com Rory Gallagher e depois com o Atomic Rooster, ambas as experiências provando ser memoráveis. Em um show do Atomic Rooster, onde os headliners não apareceram, poucos reembolsos foram exigidos quando o Nazareth fechou a noite. No entanto, uma abertura de show para Gallagher em Nuremberg foi menos bem recebida. "Comparados com Rory, nós estávamos vestidos como árvores de Natal chocantes", Agnew ri. "A multidão começou a nos vaiar antes mesmo de começarmos. Eles nos odiaram completamente. Um ano depois, quando voltamos, eles ainda se lembraram de nós e até ficaram jogando bingas em nós. Ainda terminamos o show. Na verdade, fizemos até algumas canções extras só para irritá-los!". Embora o número de fãs ao vivo do Nazareth estivesse crescendo, sua administração empresarial passou a ficar cada vez mais tensa. Além de pagar salários regulares, o dinheiro havia sido gasto em equipamentos, despesas de moradia e turnês, uma van e na gravação de dois álbuns. O baterista Darrell Sweet admitiria mais tarde: "O poço tinha secado; [a administração] estava desligando o plugue e saindo do negócio da música. Precisávamos de um milagre". O Nazareth já estava tocando a maioria das canções que apareceriam em seu próximo álbum e estava considerando abordar Pete Townshend (do The Who) ou Jimmy Page (do Led Zeppelin) para produzi-lo. O dilema deles foi resolvido quando Roger Glover ofereceu seus serviços (o Nazareth havia aberto para o Deep Purple uma turnê em 72). O baixista estava prestes a deixar o Deep Purple (o que aconteceria no verão de 73), mas sua fama foi o suficiente para acalmar as preocupações do empresário Bill Fehilly. Agnew: "Roger disse, 'Eu realmente adoraria fazer isso. Esse material poderia fazer um álbum realmente ótimo'. E fez todo o sentido, porque éramos uma versão mais Pop do Deep Purple na época. Éramos como eles, só que com refrões. Foi obviamente a decisão certa, porque Roger ficou conosco por mais dois álbuns. Ele é um burro de carga, que era exatamente o que precisávamos. Você terminava de gravar, mas antes que ele te deixasse ir, ele te fazia ensaiar a canção na qual você trabalharia no dia seguinte. Às vezes nos opusemos, mas foi uma lição que valeu a pena aprender". Para testar as coisas, Nazareth e Glover trabalharam em "Broken Down Angel", uma canção escrita inicialmente em um estilo Country'n'Western. Eles deram a ela o tratamento Hard Rock completo e Fehilly deu sinal verde para um álbum.
Lançado no final de 1973, "Razamanaz" foi tudo o que seus antecessores não foram: era focado, ardente e cheio de melodias cativantes e poderosas. Além de "Broken Down Angel", que deu à banda seu primeiro hit no Top 10 do Reino Unido, seus melhores momentos eram a estridente faixa-título e o Boogie de slide-guitar de "Bad Bad Boy". "Na verdade, roubamos o riff da faixa-título de Speed ​​King [do Deep Purple]", Agnew hoje admite livremente. "Quando Broken Down Angel decolou, foi algo que aconteceu muito rápido. Era o início de nossa primeira turnê como atração principal, com Robin Trower abrindo, tocamos para cerca de 300 pessoas. Paramos o carro no acostamento, quando ouvimos no rádio tocando Broken Down Angel pela primeira vez. Fizemos o Top Of The Pops e, uma semana depois, um show no Leas Cliff Hill, em Folkestone. Estava tão lotado que os fãs ficaram pendurados no teto". Com sua letra "Eu gosto de carros velozes, não quero me fixar/A boa vida certamente vem fácil, com todos os otários ao redor/As mulheres simplesmente vêm até mim, não preciso olhar em volta/Eu me mudo para as casas delas com elas, então sigo em frente", "Bad Bad Boy" viu o Nazareth interpretando o estereótipo de escoceses brigões, beberrões e mulherengos. "Costumávamos receber £15 para tocar no Town Hall em Govan", diz McCafferty, referindo-se ao subúrbio notoriamente barra pesada de Glasgow. "O promotor avisava: 'Quando a briga começar — não se, mas quando — não pare de tocar, porque isso só vai piorar as coisas'. Em lugares como o Burntisland Palais [em Fife], às vezes você tinha que interromper o show, então eles tentavam te dar apenas metade do cachê, porque você não tinha tocado a noite toda". "Razamanaz" (de mai/73) realmente foi o disco da virada para o estrelato. Depois de buscar uma mistura de elementos de Rock e Blues no estilo dos Rolling Stones em seus dois primeiros álbuns, o Nazareth aqui seguiu para um estilo de Rock bem mais pesado. O álbum tinha muita energia/motivação e muito disso pode ser creditado à produção de Roger Glover, que modulou a tendência do grupo de experimentar diferentes estilos musicais ao impor um 'som geral' que era basicamente o Hard Rock do grupo. O resultado final foi um álbum que arrasava consistentemente, mas que também trabalhava com elementos musicais intrigantes para manter as coisas interessantes. Por exemplo, "Alcatraz" e "Night Woman" trabalhavam um ritmo tribal de bateria no estilo Glam e "Vigilante Man" começava como uma melodia blueseira, mas logo se transformava numa pancada forte de Hard. Os experimentos mais bem-sucedidos aconteceram quando o grupo trabalhou um elemento Country de seu ataque Rock: "Broken Down Angel" soava como uma faixa dos Rolling Stones do início dos anos 1970, porém com guitarras mais pesadas, e "Bad Bad Boy" soava como uma velha canção de Rockabilly tocada por uma banda de Hard Rock dos anos 1970. Ambas as canções misturavam habilmente alguns ganchos Pop eficazes em seu ensopado de elementos e se tornaram singles de sucesso na Inglaterra. Outros destaques de "Razamanaz" incluíram a faixa-título, um Rock furioso que se tornou parte permanente do repertório ao vivo da banda, e "Woke Up This Morning", um Blues pesado com letras sombriamente cômicas sobre um homem com azar terminal. Para resumir, "Razamanaz" foi/é um dos melhores álbuns do catálogo do Nazareth e uma joia do Hard Rock dos anos 1970.



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