"O Terço" originou-se basicamente de dois grupos, o "Joint Stock Co." (que contava com Jorge Amiden, Vinícius Cantuária, Cezar de Mercês e Sérgio Magrão) e o "Hot Dogs" (que contava com Sérgio Hinds). Todos eles viriam a fazer parte da banda, em diversas ocasiões. A banda surgiu em 1969 e a primeira formação foi: Sérgio Hinds (baixo, vocais), Jorge Amiden (guitarra) e Vinícius Cantuária (bateria).
Esta formação gravou o seu primeiro álbum em 1970 (ainda com a grafia acentuada: "O Têrço"), com uma mistura de Rock psicodélico, Folk-Rock e MPB. Desde 1967, havia muitos artistas tentando novos sons e melodias (pense Tropicalismo, Clube da Esquina etc.), empurrando as fronteiras da MPB e adicionando tendências. Algumas bandas passaram a seguir o Rock Progressivo. Segundo Sérgio Hinds, o nome "O Terço" foi escolhido por representar uma fração, a terça parte e a banda era um trio (portanto, nada a ver com religião). Canções curtas, legais, belas harmonias vocais (um destaque), aromas psicodélicos, uma espécie de Proto-Prog, com passagens bucólicas e climas Folk pastorais. Este disco tornou-se obscuro com o passar dos anos, porém trata-se de uma estreia promissora, misturando letras em português e inglês, com uma tendência para o experimental, afinal aqui eles ainda procuravam seu próprio som. A banda, nesta época, tocou em vários festivais levando-a a se tornar revelação pela mídia especializada. A primeira mudança aconteceu quando Sérgio Hinds se afastou momentaneamente para tocar na banda de Ivan Lins. Jorge Amiden, então, chamou César de Mercês para ser o novo baixista. Porém, Hinds voltou logo e o grupo tornou-se um quarteto. Em parceria com Guarabyra, o grupo criou um violoncelo elétrico (tocado por Hinds) e uma guitarra de três braços (apelidada "tritarra", tocada por Amiden).
Assim, "O Têrço" lançou "O Visitante", um EP (chamado "compacto duplo", na época, 1971) com 5 faixas, entre elas um tema de Bach, que mostrava a influência erudita na banda. Entretanto, Amiden, até então, a principal mente criadora do grupo, se desentendeu entre eles e abandonou o barco. Em acordo entre os três integrantes remanescentes, Hinds registrou o nome "O Terço" para que Jorge Amiden não o fizesse (após a saída em 72, Amiden criou um novo grupo chamado "Karma", gravou um belo álbum naquele ano, mas tal projeto não durou muito e se desfez. Ele participaria do álbum "Sonhos e Memórias", um dos melhores de Erasmo Carlos, de 72, e integrou a banda de Milton Nascimento. Após isso, Amiden teve problemas sérios de saúde por causa das drogas e se recolheu, no início dos anos 70, para nunca mais voltar à música profissional. Tornou-se uma espécie de Syd Barrett tupiniquim. Triste, afinal Amiden era o grande compositor até aqui e o principal arquiteto dos vocais harmoniosos da banda. Com o cérebro danificado, se afastou e seguiu um longo ostracismo - vale um "Que fim levou?"). O Terço (agora Hinds nas guitarras, Mercês no baixo e Cantuária na bateria) participou de gravações e turnês de outros artistas (Marcos Valle, entre eles). Foi nesse período, influenciados pela ascenção total do Prog inglês, o Terço mudou sua sonoridade (e também o nome, que perdeu o acento) e lançou um compacto com as faixas "Ilusão de Ótica" e 'Tempo é Vento" (já pela Philips, 1972) e, neste mesmo ano, o segundo álbum (autointitulado), provando que eles queriam mesmo era tocar Rock Progressivo. Uma grande produção, já contando com alguns outros músicos gravitando ao redor da banda (algo que Hinds faria mais à frente postando-se como o núcleo do Terço) como, por exemplo, Luiz Paulo Simas (teclados), Chico Batera (percussões) e Paulo Moura (sax alto), entre outros. Este álbum continha a longa suíte "Amanhecer Total" (com seis partes), de mais de 19 minutos, ocupando todo o lado B. Não creditados, também participaram (como faziam nos shows) músicos amigos como Sérgio Magrão e Sérgio Moreno (que se juntariam ao Terço em breve). Esse "Terço II" (como ficou conhecido) trouxe uma batida muito mais sólida, uma produção bem profissional (melhor do que todas as gravações anteriores) e uma mistura de Prog sinfônico com Rock psicodélico, com belas passagens pastorais e clara influência dos Mutantes, do Moody Blues e do início do Pink Floyd, mas também com espaço para um som mais pesado e voltado para a guitarra (pense King Crimson ou mesmo Uriah Heep). A marca registrada das três vozes cantando harmonicamente está presente, ótimas guitarras, ótima bateria, a adição de sopros, ritmos e climas variados, momentos mais bucólicos, outros mais psicodélicos cheios de efeitos e muitos riffs dominantes de guitarra e o grande destaque para "Amanhecer Total". Comparado com o que viria, tratava-se de uma abordagem mais Rock, com guitarras mais distorcidas liderando e o apoio dos sintetizadores/órgãos de Simas (ex-Módulo 1000, certamente um dos grandes tecladistas do Rock brasileiro).
Após as gravações de "Terço II", Vinícius Cantuária resolveu sair para tocar junto com Caetano Veloso. Entraram, então, Sérgio Magrão (baixo) e Luiz Moreno (bateria) para tocar junto com Sérgio Hinds (guitarras) e Cézar de Mercês (guitarra-base). A aproximação do grupo com a dupla "Sá e Guarabyra" daria uma guinada na carreira do Terço. Convidados para gravar um álbum com a dupla ("Nunca", de 74), esta proximidade com o chamado "Rock Rural" influenciou muito a sonoridade da banda na sequência. Sérgio Hinds pediu a indicação de um tecladista a Milton Nascimento, que indicou Flávio Venturini. Com o novo tecladista, o Terço começou já em 74 a gravar o terceiro álbum. Cézar de Mercês deixou o grupo, mas continuou como compositor e colaborador. Em 75, Hinds, Magrão, Moreno e Venturini concluíram este disco, o "Criaturas da Noite".
Na capa, uma ilustração de Antônio e André Peticov, "A Compreensão". O anterior Rock psicodélico mesclado por elementos de Rock Progressivo agora havia evoluído e o Terço apresentou um clássico álbum Prog, inclusive para padrões internacionais. Havia uma sensação de leveza e despreocupação, típicos anos 70, e um jeito bem próprio na incorporação do Rock Rural e da MBP, vocais mantidos em português, "Hey Amigo" (abrindo o álbum, um verdadeiro hino da banda, composição de Cézar de Mercês), violões, belas melodias, música cheia de vida, cativante e ensolarada (apesar do título "criaturas da noite"). Nada aqui era temperamental, profundo ou complexo. Pelo contrário, o Terço criou um Prog cantarolável, aberto, super agradável e cheio de alegria. Tudo muito original, vocais impecáveis e majestosos, melodias hipnotizantes, faixas realmente Prog e todo o lado "Rock Rural". A faixa-título era uma composição de Venturini com Sá e contava com orquestrações do maestro Rogério Duprat. As instrumentais "Ponto Final" e a suíte "1974" (absolutamente matadora) eram outros destaques. Considerado uma obra-prima (sem dúvida, o melhor do Terço), o álbum é visto como um dos mais importantes do Prog brasileiro. Visando o mercado internacional, a banda gravou os vocais deste álbum também em inglês e lançou o "Creatures Of The Night". O Terço, até então, era considerado como uma boa banda de Rock pela imprensa e pelo público, mas não algo excepcional. Com "Criaturas da Noite", tudo mudou. Venturini e Magrão deram um equilíbrio e uma categoria inéditos (a banda desfilava talento e habilidade, todos compunham, cantavam e tocavam). Um álbum de muitas facetas de talentos: puro Rock, Folk Rock, Prog sinfônico, erudito, instrumental, Rock Rural (introduzindo a viola brasileira). Sem "fillers" e de grande beleza, o disco foi um grande sucesso









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