quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

CRONICA - PESCADO RABIOSO | Desatormentándonos (1972)

 

Mal livre de suas obrigações contratuais, o guitarrista e cantor Luis Alberto Spinetta optou pela ruptura em vez da continuidade. Enquanto seu primeiro álbum solo ainda insinuava o legado de AlmendraDesator-mentándonos marcou uma mudança radical, tanto estética quanto sonoramente. Ao fundar o Pescado Rabioso no início de 1972, o músico argentino rejeitou todas as formas de nostalgia e adotou uma abordagem mais abrasiva e visceral.

Pescado Rabioso não é apenas um novo projeto, mas um manifesto. Acompanhado por Black Amaya na bateria e Osvaldo “Bocón” Frascino no baixo, Luis Alberto Spinetta embarca em um som de rock visceral, imerso em blues e psicodelia sombria, um universo à parte da sensibilidade pop e poética que consagrou Almendra. O nome da banda, deliberadamente agressivo, já reflete esse desejo de confronto.

Com a participação ocasional de Carlos Cutaia no órgão, o trio argentino gravou em 1972 um LP fascinante, porém difícil de definir, para a Microfón, imerso no blues. Um blues melódico, contudo, que não ficou imune aos primeiros sinais do nascente rock progressivo.

Começando com uma melancolia pungente, a grandiosa “Blues de Cris” subverte as convenções do folk blues pesado, despedaçando suas estruturas sem jamais sacrificar a elegância. Sempre impulsionado por uma profunda emoção, o álbum então se transforma em um frenesi mais assertivo e refinado. A teatral “El Jardinero (Temprano Amaneció)”, com mais de nove minutos de duração, dá a impressão de que Jimi Hendrix e Syd Barrett se trancaram em um disco voador. Assim que a fumaça ácida se dissipa, no entanto, Luis Alberto Spinetta conduz o ouvinte de volta a um final melódico, épico e etéreo, elevando-o em direção a um jardim luminoso.

Mais pacífica e etérea, “Dulce 3 Nocturno” revela um exotismo à la Pink Floyd. Em contrapartida, o boogie metal de “El Monstruo de la Laguna” dá a ilusão de que Tony Iommi saiu do Black Sabbath para se juntar ao Canned Heat em um celeiro alucinatório e explosivo.

Concluímos com a peça de oito minutos “Serpiente (Viaja por la Sal)”, onde o órgão confere um toque jazzístico. Uma peça inquietante, melancólica, estratosférica e nostálgica, que evoca a música de Pink Floyd e Genesis, mas revisitada num contexto mais urbano.

Com Desatormentándonos , Luis Alberto Spinetta entrega um álbum ousado e intransigente, onde o blues e a psicodelia se entrelaçam com uma poesia visceral e torturada. Pescado Rabioso se estabelece aqui como o veículo para uma criatividade desenfreada, já prenunciando os futuros patamares do artista.

Títulos:
1. Blues De Cris        
2. El Jardinero (Temprano Amanecio)         
3. Dulce 3 Nocturno  
4. El Monstruo De La Laguna          
5. Serpiente (Viaja Por La Sal)

Músicos:
Luis Alberto Spinetta: Vocal, Guitarra;
Osvaldo Frascino: Baixo, Guitarra;
Black Amaya: Bateria
;
Carlos Cutaia: Órgão

Produzido por: Luis Alberto Spinetta




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