O "Ange" (tradução: "anjo") é hoje uma lenda viva do Rock francês (o grupo mais antigo ainda em atividade). Surgiu em Belfort, na região de Franche-Comté, nordeste da França (fronteira com a Suíça). O grupo foi formado no final de 1969 a partir da fusão da banda de bailes de Christian Décamps, "Les Anges", e do grupo de seu irmão, Francis Décamps, o "Évolution". Os irmãos Décamps eram filhos do casal Gisèle Laheurte (figura importante na resistência aliada durante a segunda guerra mundial, ela atuou como agente, foi presa pela Gestapo) e Jacques Décamps (outra figura importante na luta contra os nazistas, membro da cavalaria francesa). O casal teve esses dois filhos, Christian nasceu em 1946 e Francis nasceu em 1952. Em 1969, Christian já tinha vários anos de prática tocando em bailes (música Pop) enquanto a banda de Francis era mais para o Rock. No início de 1970, em janeiro, eles conseguiram se apresentar no centro cultural "La Pépinière" e na ocasião apresentaram uma peça sofisticada, espécie de Ópera-Rock, chamada "La Fantastique Épopée du général Machin". A formação contava com Christian Décamps (vocais, violão, acordeon, principal compositor e teclados adicionais), Francis Décamps (vocais e teclados), Jean-Michel Brézovar (guitarra e flautas), Jean-Claude Rio (guitarra-base), Patrick Kachanian (baixo e flauta) e Gérard Jelsch (bateria e percussões). A música era toda composta por Christian em seu então novíssimo órgão Hammond. O grupo passou a visitar Paris, por iniciativa do empresário Jean-Claude Pognant (um Rock promoter e também fundador de selos), e a tocar no Golf-Drouot (já transformado em night club por onde passaram Free, David Bowie e The Who) e isto lhes deu visibilidade e a possibilidade da construção de uma reputação.
Pelo selo Caepe Records (de Pognant, que logo viraria Arcane), a banda lançou, ainda em 1970, o single "Israel / Cauchemar". Foi um trampolim para o grupo conseguir assinar com a Philips Records e gravar outro single, "Tout Feu Tout Flamme / Docteur Man", no final de 1971, já com Daniel Haas no baixo. Apoiados pela revista "Best" (espécie de Bizz da França), principalmente pelo jornalista Hervé Picart, e também por Jean-Bernard Hebey (apresentador de rádio e TV) na RTL (rádio famosa, criada em 1925 como "Radio Luxembourg"), o Ange conseguiu gravar e lançar o álbum de estreia, "Caricatures", em 1972.
A magia aconteceu imediatamente. Um complexo Rock Progressivo (devedor tanto do Genesis, quanto do King Crimson) com todo um lado teatral no canto de Christian, fizeram o álbum vender muito bem e o grupo ser convidado para a primeira parte da turnê "Johnny Circus", do astro Johnny Hallyday (talvez, o maior nome do Rock francês na história e o primeiro a popularizar o gênero por lá), durante o verão de 1972. Esta lendária turnê foi inovadora, pois Hallyday criou um conceito totalmente novo na França combinando Rock e números circenses (inspirado no "Rock'n'Roll Circus" dos Rolling Stones, que entretanto era circo apenas no cenário). Hallyday contratou 60 caminhões, 114 pessoas e atravessou o país em dezenas de etapas, toda noite se apresentando sob uma grande tenda circense (emprestado do circo Bouglione) capaz de acomodar 4 mil pessoas. Patrocinado pela RTL e pela Canada Dry (uma marca de refrigerantes norte-americana), o show tinha atrações de abertura (entre elas, o Ange), mestre de cerimônias, dançarinos, números de circo e Hallyday, então em promoção de seu décimo quinto álbum, "Country, Folk, Rock" (apesar da originalidade e ambição, esta turnê foi um relativo fracasso financeiro para Hallyday por conta dos altos custos). Aliás, o Ange se encaixou bem no conceito da turnê com seu Rock teatral e poético no qual o cantor Christian Décamps utilizava palavras e frases raras no cenário Rock, conferindo ao grupo um diferencial em relação aos demais grupos franceses da época. Música única e cativante. A comparação com o Genesis era óbvia, mas havia os climas torturados, por vezes grotescos, as letras rudes, sexualmente orientadas (com certas vulgaridades), influências do King Crimson, estruturas musicais complexas, contrastes, algo da fantasia medieval, tudo muito inventivo e cheio de personalidade. Teatralidade, surpresas, exuberância melódica, asperezas e climas sombrios/taciturnos, enfim, uma perfeita introdução ao Ange. Na capa, dois fantoches e entre eles, os membros da banda. Christian não apenas cantava de uma forma dramática e teatral, mas ele recitava, ria, chorava, se comportando mais como um ator do que um vocalista, algo bem original. Isto deve ter sido realmente surpreendente para os ouvintes franceses na época.
O primeiro real sucesso veio com a canção "Ces Gens-Là" (um cover de Jacques Brel, dos maiores cantores/compositores da chamada "Chanson Française"), faixa de abertura do segundo álbum, "Le Cimetière Des Arlequins", lançado em 1973. Apesar da produção que poderia ter sido melhor, o disco foi outra amostra perfeita daquele tipo de Rock Progressivo francês entregue no nível máximo de energia e expressividade. Christian mantinha seu canto teatral (incluindo declamações, sussurros, exclamações etc.) e toda a banda (embora não fosse virtuosa) funcionando muito bem com composições fortes, cheias de convicção e ótimo instrumental. Órgão e Mellotron (tocados por Francis), passagens climáticas, paisagens sombrias/sinistras/perturbadoras, bateria firme, flautas, crescendos, um álbum que anunciava coisas ainda melhores no horizonte. Novamente, as letras eram absolutamente estranhas e insanas. Difíceis de entender para não franceses, mas geniais para os compatriotas de Christian. Textos demolidores, anti religiosos, rudes/virulentos, irreverentes e com forte conotação sexual. As heranças musicais da estreia se mantêm, mas o clima geral neste segundo álbum é menos sinfônico, com passagens menos instrumentais. Neste mesmo ano (em 26/ago/73), o Ange se apresentou no Reading Festival, na Inglaterra, diante de 30 mil pessoas, que aplaudiu a banda calorosamente no final do show de quarenta minutos.
Em 1974, o grupo lançou sua obra-prima, "Au-delà du Délire" (tradução: além do delírio), que venderá mais de 200 mil cópias só neste ano. Com canções memoráveis/emblemáticas (que terão impacto duradouro no Rock Progressivo francês), o álbum era um arraso absoluto, do início ao fim. Atmosferas do King Crimson e do Genesis do início, letras totalmente em francês, ótimas guitarras fluídas, excelentes teclados, canções muito bem construídas, toda aquela abordagem "teatro francês", clima universitário, espécie de resposta francesa ao Prog inglês/italiano, um trabalho de maturidade. O Ange já não era preso às influências (sempre teve sua personalidade bem própria), mas aqui a fantasia e a teatralidade alcançaram um ápice. Letras literárias inteligentes (a demandar bom domínio da língua e da cultura francesa para conseguir capturar detalhes, delicadezas e tudo que está sendo objeto), que foram incluídas no encarte do LP original, elementos medievais, melodias emocionantes, sinfônicas e triunfantes, o quinteto clássico em plena forma entregando aquele que é considerado o melhor álbum deles. Auge artístico mantendo o mesmo padrão de unir emoção teatral e ambientações sombrias. "Au-delà du Délire" vê a banda expandindo sua paleta sonora: mais teclados e maiores interações instrumentais, as guitarras de Brézovar estão mais fortes e exultantes do que nunca, grande criatividade, combinando o melhor do lado mais sinistro com o especto multicolorido da música da banda. Narrativas excêntricas, fatalismo, exuberância, Mellotron onipresente.
Saca este pequeno trecho da faixa "Si J'étais Le Messie" (tradução: Se eu fosse o Messias): "Se eu fosse o Messias, seria homossexual / faria sexo com qualquer pessoa, não importa como / e as pessoas me seguiriam, cheirando minha bunda / Se eu fosse o Messias, seria um ladrão / com qualquer pessoa, a qualquer hora / calariam a boca, não tendo mais nada para fazer / Se eu fosse o Messias, seria um bêbado / beberia qualquer coisa de qualquer maneira / as pessoas me imitariam, pensando que estariam bem / Se eu fosse o Messias, seria crucificado / não por qualquer pessoa, mas de propósito / e as pessoas chorariam, sem saber realmente o que fazer / Mas eu não sou o Messias, felizmente para a minha mãe / que não podia mais vender a sua virgindade porque as pessoas iriam comprá-la / sempre acreditando que estaria certo / Há muito tempo atrás, existiu um Messias / ele veio de outro lugar, de outra galáxia e as pessoas o mataram / Eles pensaram que estavam fazendo certo". Christian canta tudo isso ora imitando um bêbado, ora um pedófilo, oscilando entre a fúria e a blasfêmia. Outra faixa, "Ballade Pour Une Orgie", era também de ataque irreverente ao poder e traçava um retrato da anarquia que se estabelecia num castelo, após a morte do rei: "Venham gente, vamos beber, vamos cantar, o rei morreu esta manhã". Noutras faixas, as letras eram mais herméticas e estranhas, mas a música nunca era entediante e sempre com momentos sinfônicos, mudanças de rítmo, vocais apaixonados, atmosferas perturbadoras, tudo bem Ange. Um trabalho mágico, de furiosa criatividade (repleto de insinuações, sarcasmo, ironia e raiva), musicalmente alternando delicadezas e explosões ásperas, de charme único e corajoso, tipicamente francês, sob a liderança da brilhante exibição vocal de Christian (e toda sua personalidade eruptiva, maníaca e histérica expressando sem restrições a turbulência interna de sua alma), um monumento artístico definidor, que mesmo com tantas outras grandes bandas que a França produziu ao longo dos anos, até hoje permanece no topo (ou muito perto do topo) das melhores.










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