terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: El Reloj - "El Reloj II (ou "Al Borde del Abismo)" (1976)

Muita gente considera que a banda argentina mais pura em termos de Rock Progressivo foi o "El Reloj" e que foram eles os que abriram as portas para o movimento musical no país. Entretanto, a banda nunca teve estilo estritamente sinfônico e manteve clara influência do Deep Purple. Vamos contar este história. Eduardo Frezza tinha uma banda chamada "Lagrima", em Rosário (maior cidade da província de Santa Fé, região central da Argentina, a 300Km de Buenos Aires). O trio "Galleta", da capital, convidou o Lagrima para fazer alguns shows juntos, tocaram em vários lugares e deu certo. Então, Frezza e companhia decidiram ficar e seguir crescendo junto com os demais músicos de Buenos Aires. Em 1967, através de pessoas próximas, conseguiram gravar um single para o selo Odeon, edição muito limitada e sem importância. Rolou muita coisa (inclusive a morte de um dos integrantes, a volta de vários para Rosário etc.) até que em 1971, Frezza conheceu Willy Gardi e juntos resolveram montar o "El Reloj".
Frezza, Gardi, Zabala, Valenti e Espósito
Na formação inicial, além de Eduardo Frezza (baixo e vocais) e Willy Gardi (guitarras), havia Luis Valenti (teclados), Osvaldo Zabala (guitarras) e Juan Espósito (bateria). A estreia aconteceu num cinema chamado "El Monumental", lotado (1,1mil assentos) e muita gente do lado de fora sem conseguir ingresso. Tinham um equipamento que fazia inveja em todos, com um som muito bom. A nova banda soava muito bem e os produtores locais passaram a fazer contatos e oferecer propostas. Acabaram fechando com a RCA argentina e começaram a gravar singles em 1973/74 ("El Mandato / Vuelve El Día A Reinar", "Alguien Más En Quien Confiar / Blues Del Atardecer". "El Reloj" é lembrada hoje como a primeira banda de "Rock Pauleira" da Argentina (espécie de avôs do Metal local), fruto da influência direta do Deep Purple. Com o Lagrima, já havia um pouco de Hard Rock, mas com o El Reloj, as coisas se incorparam. Desde o início, o baterista tocava com dois bumbos, soando poderoso. O estilo de Rock pesado e contundente chamava atenção, principalmente ao vivo (algo avançado para a época). Curiosamente, isto não se refletiu no primeiro álbum, em parte pela falta de experiência quando o gravaram, em parte pelo equipamento utilizado (já que, pouco antes, sofreram um acidente de carro durante viagem para um show em Rosário e perderam grande parte de seu elogiado equipamento).
Conseguiram lançar o primeiro álbum em 1975 (reedições posteriores incluíram os singles anteriores). Hard Prog bastante agradável, embora algo ingênuo e simplista. A todo momento, elementos de Deep Purple e de Wishbone Ash. Introduções sombrias, baixos selvagens, tudo bastante cru, áspero, direto e sem refinamento. Riffs de guitarra rápidos e ardentes, uma faixa blueseira de 9 minutos, outras faixas curtas e porrada, muita energia, solos de guitarras duplas escaldantes, solo de bateria, enfim, comparado ao que viria, acho que podemos classificar esta estreia como um rascunho (não tão interessante para fãs de Prog), mas com seus encantos (inclusive elementos místicos e puxados para o Uriah Heep). O apoio da gravadora foi fraco, mas a aceitação de público foi excelente. Eles tocaram em vários festivais argentinos e o interesse pelo Rock sinfônico foi crescendo (na época, outras bandas como o Espíritu e o Crucis estavam se destacando nesta seara também). Por isso, o estilo no segundo álbum veio tão diferente (mudança drástica). "El Reloj II" (lançado em 1976) aumentou a popularidade da banda incrivelmente. 
Foram mantidas a credenciais da estreia (que tantos fãs conquistaram), mas buscando um som mais desafiador, com uma abordagem de algo dos primeiros do King Crimson e um pouco da escola Prog italiana. Para não correr o risco de assustar os fãs anteriores, houve manutenção daquela atmosfera rústica. O resultado foi excepcional e o El Reloj se tornou mais popular ainda. Na colisão de estilos (gerando um Hard Prog de primeira), os destaques eram as faixas "Al Borde Del Abismo" (single lançado antes do álbum e que o levaria também a ser chamado por este nome, mantendo as influências do Deep Purple, mas acrescentando as referências do King Crimson), "La Ciudad Desconocida" (power ballad sinfônica e melódica na linha italiana), "Harto Y Confundido" e "Camino Al Estucofen"/"El Hombre Y El Perro" (faixas originalmente lançadas somente em single, excelentes, mas hoje incluídas nas reedições). Bastante poder, vocais esporádicos, muito espaço para o instrumental, faixas equilibradas entre a energia e o lado mais sinfônico. Hard Rock fumegante repleto de tendências progressivas (na verdade, uma gigantesca onda Prog). Bateria intrincada, guitarras fluentes e virtuosísticas, reviravoltas melódicas, canções contundentes e totalmente propensas às melodias, enfim, um álbum magnífico e muito querido pelos argentinos. Entretanto, conflitos internos por diferenças pessoais e musicais foram surgindo (Gardi teve muitos desentendimentos com Valenti e resolveu sair e ficou inviável continuar), mas por questões contratuais a banda só se separou em fev/77. 



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