quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Invisible - "El Jardín de los Presentes" (1976)

 

Invisible foi originalmente formado, em Buenos Aires, por Luis Alberto Spinetta (guitarras e vocais; um dos músicos de Rock mais influentes da América do Sul e, junto com Charly García, um dos pais do Rock argentino), após o fim de sua banda anterior, "Pescado Rabioso", no final de 1973. Para o baixo e bateria, ele buscou dois ex-Pappo's Blues, Carlos "Machi" Rufino e Hector "Pomo" Lorenzo, respectivamente (ambos tocaram no álbum "Vol. 3"). A estreia do novo trio aconteceu no Teatro Astral, em 23/nov/73, com boa aceitação de público. A música era Rock direto, pauleira, com influências de Jimi HendrixLed Zeppelin e Black Sabbath. A base feita por Machi e Pomo era excelente e somada às letras "delicadas" de Spinetta, logo chamaram atenção da gravadora Talent (selo argentino fundado como uma divisão "Rock" da Microfon, de Jorge Álvarez, e especializado em bandas locais de Prog e Hard Rock).
Pomo Lorenzo, Machi Rufino e Spinetta
Foram três singles, "Elementales Leches"/"Estado de Coma" (de 73), "La Llave Del Mandala"/"Lo que nos ocupa es esa abuela. La conciencia que regula el mundo" (de 74) e "Oso Del Sueño"/"Viejos Ratones Del Tiempo" (de 74), antes do álbum de estreia simplesmente intitulado "Invisible".
O trio oferecia nesses lançamentos um Hard Rock psicodélico misturado com Blues Jazz, com solos de guitarra incríveis e trabalho de baixo/bateria sensacional. A foto com estrada de terra e as marcas de pneus, pegadas e uma poça d´água com reflexo do céu e das árvores tornou-se icônica na música argentina. Nada aqui tinha Prog, mas foi um início marcante (e um disco amado por muitos fãs de Rock argentino) refletindo as influências deles. No ano seguinte, surgiu "Durazno Sangrando", estreia por uma grande gravadora (a CBS) e um álbum totalmente Prog (e que muitos consideram o melhor trabalho deles). A música agora era bem menos Hard e amplamente apoiada nas letras poéticas muito bem escritas por Spinetta (baseadas no livro "Segredo da flor de ouro", de Carl Gustav Jung e Richard Wilhelm).
Originalmente, o LP vinha com um poster, que sofreria censura do governo da época por "lembrar o sexo feminino" (é mole?). Apenas 5 faixas, duas no lado 1 ("Encadenado al ánima" com quase 16 minutos e "Durazno Sangrando" com quase 4 minutos) e três no lado 2 ("Pleamar de águilas" com mais de 4 minutos, "En una lejana playa del animus" com mais de dez minutos e "Dios de la adolescencia" com menos de 3 minutos). O foco não estava no virtuosismo, mas na música em si, majestosa, inspirada, centrada no gênio de Spinetta. Misturando música erudita, o Rock sinfônico, o R'n'R, o Blues, a psicodelia, entre outros elementos, dali brotava um todo extremamente coerente (música descontraída e suave, lembrando algumas das grandes bandas italianas da época). Rock Progressivo de verdade, temas musicais memoráveis, excelentes performances, imprevisibilidade, num dos melhores trabalhos do grande Spinetta. O trio não costumava dar entrevistas e isso acabou criando uma aura mística em torno deles e rumores constantes.
Gubitsch, Machi Rufino e Luis Alberto Spinetta; Embaixo, Pomo Lorenzo
Em ago/76, o virtuoso/talentoso guitarrista Tomás Gubitsch (de 17 anos) entrou para a banda (ele foi apresentando num show na famosa casa de eventos Luna Park) transformando-a num quarteto da mais alta qualidade: Spinetta nas guitarras, violões e sintetizador; Gubitsch nas guitarras e violão de 12 cordas; Machi no baixo e Pomo na bateria. Os concertos agora atraíam doze mil pessoas e eles se tornaram Rock Stars. Esta formação estelar gravou o terceiro e último álbum do Invisible, "El Jardín de los Presentes", que se tornaria o mais popular deles com sua sonoridade marcadamente urbana e a faixa clássica "El anillo del Capitán Beto". O álbum também conta com dois especialistas no bandoneón (espécie de acordeon e principal instrumento numa orquestra de Tango), Juán José Mosalini e Rodolfo Mederos (este último atrairia Gubitsch para o mundo do Tango, na sequência). Em "El Jardín de los Presentes" era mantido o Rock Progressivo anterior, acrescido do uso mais frequente de teclados e do bandoneón gerando uma música muito envolvente, forte, muitas vezes emocional (pense Prog italiano da época). Belíssimos vocais de Spinetta e trabalhos de guitarras encantadores, muito poderosos e com solos excelentes. As letras sempre foram um aspecto muito importante (ideal é conhecer um pouco de espanhol) e, especialmente aqui, a sensação de ambientação portenha era total. Os bandoneonistas convidados transformaram a música numa espécie de Prog Rock + Jazz + Tango. "El anillo del Capitán Beto", um dos destaques do álbum, falava sobre a solidão de um homem comum, motorista de ônibus, colocado numa viagem espacial, lembrando de seus parentes e de pequenas coisas do dia-a-dia. Spinetta mantinha-se como o líder com todo seu talento incrível, mas acrescido do virtuoso Gubitsch, o Invisible dava um salto gigante. Sim, a música ainda era descontraída e tal, mas que banda talentosa e que disco lindo, lindo, lindo! Trabalho instrumental de cair o queixo e capaz de emocionar pedras, vocais comoventes, faixas maravilhosas, melodias suaves, um bom gosto danado. Um álbum encantador, habilmente equilibrado, de atmosfera incrivelmente descontraída e com momentos de esplendor emocional de arrepiar. Um disco obrigatório de uma das melhores bandas argentinas em seus dias de glória. 
P.S.: a banda se separou no final de 76 (o show de despedida aconteceu em 12/dez/76) por divergências internas. Spinetta seguiu em carreira solo.



Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

Grandes canções: David Bowie - "Changes" (1971)

  "Changes", canção de David Bowie , apareceu em seu álbum " Hunky Dory ", de dez/71. Um single foi lançado em jan/72 co...