"Músicos Independientes Asociados" (M.I.A.) foi uma cooperativa de músicos, que surgiu em 1975, em Buenos Aires. O embrião básico da organização nasceu através de um trio formado por Alberto Muñoz, Liliana Vitale e Lito Vitale (que, na época, tinha apenas doze anos), aos quais foram se juntando outros membros. A ideia era formar uma cooperativa independente para impulsionar o aparecimento de novos músicos. Chegou a contar com cerca de 60 pessoas, entre artistas, técnicos e engenheiros de som, iluminadores, desenhistas e designers gráficos etc., com os músicos produzindo suas próprias apresentações e gravações num processo que os tornou precursores do Rock independente na Argentina.
Lançaram seus próprios álbuns gravados nos Estudios Tubal (ligado à cooperativa) através da pequena gravadora "Ciclo 3". A cooperativa existiu entre 1975-82 e, neste período, foram lançados quatro álbuns com o nome "M.I.A.", começando por "Transparencias", de 76.
Neste álbum, os músicos participantes foram Nono Belvis (baixo), Daniel Curto (violão clássico), Juan Del Barrio (teclados), Liliana Vitale (flauta, percussão e vocais) e Lito Vitale (bateria, teclados, flauta e vocais). Rock Progressivo inspirado com muitos toques eruditos, arranjos complexos, num disco essencialmente instrumental (pense ELP). Foi uma novidade e tanto, na época. Uma banda com um agir totalmente independente buscando público potencialmente ávido por ouvir/desfrutar Rock Progressivo. Apesar do formato de produto bem caseiro, "Transparencias" foi a primeira afirmação e o único com dois tecladistas. Claro, não era algo perfeito, mas conseguia transmitir uma mistura bem inventiva e incrivelmente colorida de fontes do Art-Rock: sinfônico, Jazz-Prog, Canterbury, pastoral, puro erudito, barroco, Fusion e psicodelia. A combinação dos talentos de Vitale e Del Barrio era uma atração e a força-motriz do álbum. Em "El Casamiento de Alicia" (mais de 7 minutos), Vitale tocava um sintetizador ARP Odyssey, uma novidade para a época, com resultado sensacional (incrível como ele conseguiu extrair um som tão mágico de um instrumento tão recente). Apesar das influências evidentes, o disco foi um acerto em cheio. Interlúdios, pausas pastorais, momentos mais movimentados, instrumentais rebuscados super eruditos e a épica faixas-título ocupando todo o lado B do vinil (construída nos moldes do Space Rock do Pink Floyd, fase "Meddle"). Excelente estreia, reunião de músicos verdadeiramente talentosos, Prog erudito sinfônico de primeira. O modelo independente de negócios da cooperativa demandou soluções inovadoras de financiamento. Por exemplo, os integrantes da M.I.A. também ensinavam música para o público em geral, o que lhes garantia algum dinheiro extra. Nos recitais/apresentações, circulavam fichas de inscrição que alimentavam um "mailing list" com novidades do grupo e também vendia álbuns por assinatura com vantagens. Para o segundo álbum, "Magicos Juegos Del Tiempo", de 77, participaram Lito Vitale (teclados), Liliana Vitale (bateria, vocais e flauta), Alberto Muñoz (violões, guitarras e baixo) e Nono Belvis (violões, guitarras e baixo). Um trabalho baseado numa trama da vida de uma personagem imaginária chamada Juliana Gabina, desde a infância até a adolescência. Com vocais comandando as canções (letras de Alberto Muñoz), foi um esforço diferente, embora mantendo o Prog sinfônico. O combo explorava os reinos do Folk acústico e da música pastoral de inspiração renascentista, ainda que isto não representasse totalmente o álbum. Pianos barrocos, violões clássicos, partes cantadas narrando a história e também representando as personagens, criando um perfeito ambiente bucólico antigo dos trovadores. Há, claro, o Prog sinfônico (com o uso de múltiplos teclados), órgãos solenes, corais, ar de mistério, partes mais jazzísticas e o grande destaque que é a faixa "Archipielagos De Guernaclara", com seus onze minutos com seções delicadas, relaxantes, jams, solos, clímax e o escambau. Sem Juan Del Barrio, Lito Vitale tornou-se o responsável-mor pelos teclados e a formação com dois guitarristas/baixistas trouxe outra dinâmica. Prog Folk Rock pastoral e sinfônico (pense Premiata Forneria Marconi), de inspiração erudita. Para o terceiro álbum, "Cornonstipicum", o grupo idealizou uma forma de produção inédita na época. O público financiou a obra pagando "vouchers de produção", que equivaliam ao pagamento antecipado do álbum, que foi entregue num show especial realizado depois. Musicalmente, representou um retorno ao Rock Progressivo sinfônico e mais instrumental com partes elaboradas. Na formação, Lito Vitale (múltiplos teclados), Liliana Vitale (bateria, baixo, gravadores, percussão, vocais), Daniel Curto (violões e guitarras, baixo, flauta, teclados, percussão), Alberto Muñoz (violões e guitarras, baixo e vocais), Nono Belvis (baixo e guitarra, percussão), Emílio Rivoira (sax tenor) e Kike Sanzol (bateria). Considerado hoje um dos melhores álbum já feitos na Argentina (e altamente recomendado para fãs de um Prog mais erudito), seria o último de estúdio deles e um verdadeiro deleite para os ouvidos. Basicamente, música instrumental (havia breves passagens de vocalizações tipo coral), muitas referências à música erudita e às grandes bandas do Prog (pense Camel, Yes e PFM). Lindas e delicadas flautas, guitarras e teclados, toques jazzísticos, temas Prog magníficos, arranjos complexos, experimentação, progressões eruditas, momentos suavemente belos, material excepcional mesmo. Aliás, tudo soando muito próximo do jeito italiano de fazer Prog. Este "Cornonstipicum" é considerado uma obra-prima principalmente pela energia criativa impressionante, ainda que se mantenha parte do sabor bucólico anterior. Aqui, entretanto, o grupo partiu para muitos outros lugares, fontes sonoras multicoloridas majestosamente combinadas ganhando intensidade extra graças ao aumento da sensação orquestral. Material sinfônico mais grandioso do que nunca, seções jazzísticas mais exuberantes, partes estranhas com um ar de extravagância mágica, enfim, uma joia perdida brotada da Argentina. A faixa-título com quase 18 minutos deve ser uma das suítes Prog mais brilhantes já feitas fora da área anglo-saxônica com sua explêndida procissão de ideias musicais incrivelmente diversas, habilmente articuladas numa sequência desafiadora. Intenso, calmo, denso, tranquilo, louco, introspectivo, unindo Canterbury Sound e Prog sinfônico e criando algo bem próprio. Toda a qualidade é surpreendente e, não é raro, encontrar argentinos apontando "Cornostipicum" como seu álbum favorito na história (em qualquer gênero).
Em out/79, o grupo fez sua primeira turnê pelo interior da Argentina, a qual gerou "Conciertos", um álbum triplo gravado ao vivo. A partir daí, eles pararam de produzir álbuns e desapareceram em 82.








Sem comentários:
Enviar um comentário