segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Tesouros perdidos: Brad Sinsel, o TKO e o War Babies

 

Brad Sinsel com o TKO em 1979
Desde já, peço licença ao nobre brother Marcão por adentrar numa seara em que ele é soberano: tesouros perdidos. Vou hoje relembrar um deles e, quem sabe, estimular o brow a ressuscitar a tão estimada coluna dele. Vamos lá. Brad Sinsel liderou alguns dos discos de Hard Rock capazes de maior conexão com o público roqueiro e, então, por que ele não é mais conhecido? Uma das características mais duradouras e cativantes da música é a conexão cósmica entre cantor e fã. Existe algo mais gratificante do que ouvir seu ídolo do Rock dizer exatamente o que você estava pensando o tempo todo, através de uma estrofe rimada acompanhada por uma guitarra esporrenta? Não há como negar os poderes curativos/restauradores da música e eu imagino que milhares de vidas já foram salvas por ela. Cantores de Rock não são deuses, mas podem ser um canal para algo maior que a soma de suas partes. Passando na rua, Ian Astbury (do The Cult) é apenas um cara de meia-idade (hoje, ele está com 62 anos) que usa óculos escuros. Mas ele já foi conselheiro sobre drogas/álcool, na segunda metade dos anos 90, de muita gente. Mas essa capacidade de "alcançar e levantar a multidão" não é fácil e não surge sem consequências. Não está entendendo onde quero chegar? Calma que já explico. Você já ouviu falar nas bandas TKO e War Babies? O TKO foi uma banda de Seattle/WA ativa principalmente entre 1977-86. O vocalista principal, seu líder e único membro constante foi Brad Sinsel. O War Babies foi outra banda de Seattle/WA ativa entre 1988-1993 formada por Brad Sinsel. Enquanto o TKO tinha uma imagem Glam Rock, porém um som bem The Who, fase Hard Rock, o War Babies era puro Hard Rock, mas incorporando elementos do Grunge. E é preciso dizer: Brad Sinsel é um dos maiores (e mais desconhecidos) cantores do Hard Rock e suas duas bandas foram responsáveis por álbuns muito bons (e amplamente subestimados). O que te atinge imediatamente quando você ouve TKO ou o War Babies é a dor surda no som bluesy de Sinsel. Eddie Vedder e Chris Cornell não inventaram aquele toque de tristeza do chamado "Seattle Sound", quem o fez foi Sinsel. Mesmo em suas canções mais triunfantes, ele soa como se ainda estivesse relembrando um amor há muito perdido ou uma nebulosa memória de infância. Mais para o final, em meados dos anos 80, o TKO escreveu músicas sobre foder e brigar como todo mundo, mas a voz de Sinsel ainda assim tornava tudo humano, menor e mais íntimo. Como se ele estivesse contando uma história pessoal e expondo todas as partes dolorosas.
Sinsel formou o TKO em Yakima/WA, em 1977, após a implosão de sua banda Glam anterior, "Ze Whiz Kidz". Eles gravaram seu primeiro álbum, "Let It Roll", com o produtor do Heart, Mike Flicker, e o lançaram pela subdivisão da MCAInfinity Records, em 1979. Na verdade, esta estreia não soa nada parecido com os outros discos do TKO. Enquanto os dois seguintes trouxeram um Pop-Metal glamouroso, "Let It Roll" é, em grande parte, um álbum AOR pré-Metal, notável não apenas pela excelência das músicas (sério, são sucessos cativantes de ponta a ponta, prontos para o rádio, como deveriam ter sido), exceto pela poderosa melancolia na voz de Sinsel. Antes de conhecermos Seattle como o berço do Grunge, sabíamos que a região era chuvosa e cinzenta. E é exatamente assim que "Let It Roll" soa. A banda estava junta há apenas dois anos, mas Sinsel já parecia cansado do mundo, como evidenciado pela letra da faixa de abertura "Rock N' Roll Again": "And I know, we’re falling under, and you know it’s true, that you’re falling too" (tradução: E eu sei, estamos caindo, e você sabe que é verdade, que você está caindo também). A história do TKO é muito longa, conturbada e espinhosa para ser abordada aqui, mas vou resumir o que aconteceu depois. A banda trabalhou duro nos clubes e em turnê com bandas como Cheap Trick e Van Halen e sem nenhum sucesso real, os membros iam e vinham. No início dos anos 80, Adam Brenner se juntou e ele e Sinsel escreveram o segundo álbum do TKO, "In Your Face", em 1981. "In Your Face" foi um álbum proto-Metal cheio de cuspe, arrogância e guitarras acrobáticas/voadoras que teria derretido cérebros se tivesse sido lançado quando gravados. Mas não foi. A banda não conseguiu encontrar uma gravadora para lançá-lo e Brenner saiu. Demorou mais três anos para o TKO conseguir um contrato de gravação. Eles escolheram a Combat, lar de bandas de Crossover Metal como Nuclear AssaultAgnostic Front e Crumbsuckers, que naturalmente não tinham ideia de como comercializar uma banda de Pop Metal.
E assim, o longo e doloroso trabalho continuou até o terceiro álbum do TKO, "Below the Belt", de 1986, e seu inevitável desaparecimento no final daquele ano. Sinsel se recuperou com o álbum "War Babies", no estilo TKO, em 1991, único lançamento nesta nova empreitada. Bem, naturalmente o destino não é culpa de Sinsel e a sua música não perdeu seu brilho ao longo dos anos. Claro, o modelo era todo enraizado nos anos 70 e os dois últimos álbuns do TKO soam como o trabalho de um speedfreak destruidor de guitarras, mas as canções são fantásticas e os vocais de Sinsel são tão cativantes e autênticos que continuam a me intrigar como ele não ainda não é reconhecido como um dos heróis perdidos do verdadeiro som de Seattle.



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