Em 1977, os Cramps procurava um novo baterista. Com a guitarrista Poison Ivy operando como uma dominatrix sob demanda, a tarefa de entrevistar possíveis candidatos - não que a banda estivesse sobrecarregada de interesse em cobrir a vaga - coube ao vocalista Lux Interior e ao guitarrista Bryan Gregory. Eles se encontraram com um colega transplantado de Ohio, Nick Knox (nome real: Nick Stephanoff) em um restaurante de NYC por recomendação de um amigo. Knox mal falou uma palavra durante a entrevista, concentrando-se em degustar, fatia após fatia, uma torta de sobremesa coberta com bolas de sorvete. Estranhados e sem obter liga com o entrevistado, os dois membros do Cramps decidiram que a oportunidade não seria boa para Knox, mas concordaram em dizer ao baterista que ele só não conseguira o teste porque seu cabelo era muito longo. Mais tarde naquele mesmo dia, Lux reencontrou o baterista na lendária casa noturna nova-iorquina Max's Kansas City e percebeu que Knox havia cortado o cabelo. "Agora você vai me dar um teste?", ele perguntou. Impressionado com a dedicação à causa, o cantor disse a Knox que ele poderia fazer um teste para a banda. "Bom", respondeu o baterista, "porque se você dissesse: Não, eu iria dar um soco na sua cara". É mole? Estou incluindo aqui esta história para ilustrar o fato de que os Cramps nunca foram como as outras bandas. "Nós nos considerávamos muito perigosos", disse Poison Ivy à revista MOJO, em 2003. "E ali estava aquele cara, que não era realmente como nós, mas era desajustado o suficiente para se encaixar totalmente no nosso bando de desajustados". Em 1978, depois que a nova formação completou a gravação de seu primeiro EP, "Gravest Hits", ela teve oportunidade de se apresentar no California State Mental Hospital, um centro psiquiátrico em Napa/CA, e ela aproveitou a oportunidade. A apresentação, em 13 de junho, foi capturada em uma câmera Sony Portapak preto e branco e um único microfone, pelo coletivo de arte Target Video, de San Francisco/CA. Continua sendo uma das gravações ao vivo mais incomuns do cânone Punk. É justo dizer que uma certa mitologia se apegou ao show nas últimas quatro décadas. Em uma resenha realizada para a revista New York Rocker pelo escritor Howie Klein, há menção de dois pacientes do hospital que fugiram das instalações durante o show: "Nós não vamos mais atrás deles", um membro da equipe teria dito. "Eles não têm dinheiro e estarão de volta em alguns dias". Quando Lux Interior foi questionado sobre o show pelo jornalista da revista Sounds, Peter Silverton, em mar/1980, o número de presidiários fugitivos naquele dia havia subido para onze (ré-ré-re. Poison Ivy, em várias ocasiões, contou à entrevistadores de olhos arregalados que 50 pacientes fugiram). E isto durante um set de apenas 20 minutos. Ah, esta história toda é demais!
Na verdade, este antológico show não precisa de fake news, nem exageros, pois está tudo lá, em preto e branco. Após um set da banda de San Francisco, The Mutants (olha só o nome!), os Cramps deram início ao seu set com "Mystery Plane", após a qual Lux Interior informou ao público que a banda era da cidade de NYC e havia dirigido 3.000 milhas "para tocar para vocês". E completou maravilhosamente: "Alguém me disse que vocês são loucos, mas não tenho tanta certeza disso”, continuou ele. "Vocês parecem estar bem para mim". Kkkkkkk. É óbvio que aquele não era um público típico de Punk Rock. Havia homens de terno dançando ao lado da banda, vários usando chapéus de cowboy, algumas mulheres de meia-idade bem vestidas segurando bolsas e vários amigos da banda (alguns dos quais claramente haviam se entregue a alguns narcóticos antes do show). Durante a apresentação do segundo single da banda, "Human Fly", uma jovem começa a gritar atonalmente no microfone de Interior e durante a canção seguinte, o lado B do single, "Domino", ela já está no palco brincando com o cantor. Foi um show tão caótico quanto você pode imaginar. "Foi como ir a Marte, em termos de interação com o público", disse o guitarrista dos Mutants, Brendan Early, à revista Vice, em 2015. "Esse é o show do Cramps que deveria ter sido interrompido", disse Lux Interior à Sounds, em 1980. "O público estavam fazendo tudo que você pode imaginar. Imaginem alguma coisa e eles estavam fazendo isso. Eles eram bizarros, dançarinos como você nunca viu antes na vida. Pessoas deitadas umas sobre as outras no chão. Oh, Deus, Nós não queríamos parar com aquilo". "Eles estavam gritando, 'Ward T, Ward T', assim para nós. Descobrimos mais tarde que Ward T é o bairro de onde ninguém volta...". "Ambas as bandas concordaram que foi o melhor show que já haviam feito", observou Howie Klein em sua resenha. "O entusiasmo e o nível de energia foram altíssimos e um público mais agradecido, entusiasmado e de mente aberta nunca será reunido novamente". "The Cramps - Live At Napa State Mental Hospital" hoje existe em DVD ou simplesmente você pode vê-lo abaixo. Histórico total!


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