O "Tangerine Dream" é inquestionavelmente um dos grupos eletrônicos mais influentes de todos os tempos. Sua música teve imenso impacto no Prog-Rock, na Ambient Music, na New Age, no Techno, no Trance, bem como em trilhas sonoras para filmes. Fundado como um grupo de Rock psicodélico em 1967, o grupo foi inicialmente associado com a cena Krautrock com seus primeiros álbuns bem abstratos. Mas eles foram pioneiros no uso de sequenciadores em 1974-75, o que acabou sendo algo bem sucedido artistica e comercialmente. O grupo tornou-se prolífico compositor de trilhas, incorporou instrumentação digital, teve uma fase de orientação mais Pop, outra mais voltada à Dance Music (que o grupo tanto influenciou), enfim, numa longa e rica carreira que continua até os dias atuais. Edgar Froese nasceu em Tilsit, Prússia Oriental, em 1944, e não foi muito influenciado por música no seu crescimento. Ele foi mais atraído pelos movimentos dadaísta e surrealista, assim como por figuras do mundo literário tais como Gertrude Stein, Henry Miller e Walt Whitman. Froese organizou eventos multimídias durante os anos 60 e começou a nutrir a ideia de combinar suas influências artísticas e literárias com a música.
Ele, então, tocou num grupo chamado "The Ones" (que gravou apenas um single antes de se dissolver em 1967). Na sequência, ele montou a primeira formação do Tangerine Dream no final daquele ano: Froese (guitarras), Kurt Herkenberg (baixo), Lanse Hapshash (bateria), Volker Hambach (flauta) e Charlie Prince (vocais). Este quinteto passou a tocar Acid Rock (na linha do Grateful Dead e Jefferson Airplane) ao redor de Berlin em vários eventos de estudantes. O nome escolhido para o grupo veio de uma estrofe da letra de "Lucy In The Sky With Diamonds", dos Beatles ("Picture yourself in a boat on a river / With tangerine trees and marmalade skies / Somebody calls you, you answer quite slowly / A girl with kaleidoscope eyes"). Só para você ter uma ideia, o primeiro concerto aconteceu em jan/68 no refeitório da Universidade de Berlim e o grupo se apresentou no IEST (Internationalen Essener Songtage 1968, em Essen) em set/68, evento estudantil considerado o nascimento do Rock alemão independente e maior festival da época na Alemanha (40 mil pessoas assistiram a mais de 150 artistas - além de artistas alemães como Floh de Cologne e Amon Düül, também tocaram artistas internacionais como The Fugs e Frank Zappa & The Mothers Of Invention). Neste ponto, o Tangerine Dream não tinha nada de música eletrônica. O som era cheio de jams pesadas, com pitadas de Hard Rock e até Free Jazz. Foi o Electronic Beat Studio, criado em 1968, com grana da Berlinförderungsgesetz (lei de incentivo econômico) e sob direção do compositor de vanguarda Thomas Kessler, que apresentou a muitos grupos musicais de Berlim um então novo instrumento, o sintetizador (lembrando que até 1971 ele não era comercializado em lojas e os primeiríssimos foram o MiniMoog e o ARP americanos e o EMS inglês).
A primeira formação do Tangerine Dream só durou cerca de dois anos e, em 1969, Edgar Froese conheceu o baterista Klaus Schulze. A habilidade de Schulze sustentar ritmos incomuns por longos períodos fez Froese propor-lhe se juntar ao Tangerine Dream. A dupla logo conheceu Conrad Schnitzler (na época, aluno do artista performático Joseph Beuys). Schnitzler era engenheiro mecânico e mantinha o (hoje lendário) Zodiac Club (dedicado à cultura underground). Com esta formação em trio, em 1970, surgiu a segunda formação do Tangerine Dream, que gravou o álbum "Electronic Meditation" (de jun/70). Froese tocava guitarras (6 e 12 cordas), órgão Farfisa, piano e efeitos; Schnitzler tocava violoncelo, violino, guitarra e efeitos; Schulze tocava percussões. O material foi fruto de uma sessão num estúdio privado (espécie de ensaio) e nem foi originalmente planejado para ser lançado. Música amplamente experimental, obtusa, com objetos domésticos gravados e filtrados através de processadores de efeitos, o que criava uma atmosfera esparsa e vanguardista. Claro, o álbum tinha muitas falhas, mas era forte em vários aspectos e apresentava muitas promessas. Timbres, passagens e texturas descontrolamente experimentais traziam um esforço R'n'R para um som decididamente vanguardista (pense num Krautrock underground cheio de ótimas guitarras selvagens, efeitos sonoros, barulho e experimentos). Curiosamente, não era algo "difícil", mas bem acessível, com elementos da música do Pink Floyd e Amon Düül da época. Pouco depois, Klaus Schulze e Conrad Schnitzler abandonaram a banda (Schulze fundaria o Ash Ra Tempel e, depois, iniciaria carreira solo, que o tornaria mundialmente conhecido; Schnitzler montou o Kluster, depois o Eruption e seguiu em carreira solo).
Edgar Froese conheceu, então, Christoph Franke (de 17 anos e tocando bateria no Agitation Free). Franke havia feito conservatório e estudo música erudita (sendo influenciado por compositores como John Cage e Karlheinz Stockhausen). Froese completou um novo trio com a adição do organista Steve Schroyder, um construtor de órgãos. Com engenharia de Dieter Dierks, eles lançaram o single "Ultima Thule" e o álbum "Alpha Centauri" (de apenas 3 faixas), ambos em 1971. Instrumentos convencionais, efeitos eletrônicos crepitantes e giratórios, Space Rock viajal, porém tudo bem "raiz" (e bem distante do refinamento e som revolucionário dos lançamentos de 74/75). Froese tocava além das guitarras, baixo, órgão, Mellotron e efeitos; Franke tocava bateria, percussões, flauta, piano-harpa, cítara; Schroyder tocava órgãos Hammond e Farfisa, percussões e efeitos. A música deixava os limites do Rock rumo ao espaço sideral, em movimentos lentos e via teclados vintage. Guitarras e bateria escanteados em favor de um Space Rock exploratório/aventureiro, estranho e cheio de efeitos. O sintetizador aparecia aqui, mas timidamente e eram os instrumentos "normais" que comandavam tudo. O trabalho seguinte, o álbum duplo "Zeit" (tradução: tempo), de 72, inaugurou o uso de um sintetizador (comprado um ano antes e aqui usado de forma intensa, pela primeira vez) e sedimentou a afinidade pelo Space Rock. Chris Franke tocava percussão, flautas, piano-harpa, cítara e o sintetizador VCS3 EMS. Edgar Froese tocava guitarras, baixo, órgão e geradores de som. Steve Schroyder tocava órgão e efeitos de ecos. Havia até a participação de um quarteto de cordas. Efeitos eletrônicos sinistros, manipulações sonoras, tudo amplamente viajante e abstrato, camadas e camadas de teclados meditativos, música evocativa, flutuante, introspectiva, hipnótica. Em 72, Schroyder saiu (após o surgimento de problemas pessoais, ele partiria para trabalhar com o Ash Ra Tempel, depois o Augenstern, lidou com o conceito de "Oitava Cósmica", fundou a Star Sounds Orchestra e estabeleceu contato com a cena Techno, entre tanta coisa numa longa carreira que dura até hoje). Estes dois álbuns, apesar de Space Rock, resultaram em música que ultrapassava o estilo.
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| Franke, Froese e Baumann |
Os álbuns seguintes, "Rubycon" (apenas 2 longas faixas, uma de cada lado do LP) e o ao vivo "Ricochet" (gravado durante a turnê de 1975 pela França e Inglaterra, ambos lançados neste mesmo ano), foram baseados no conceito utilizado em "Phaedra". O trio aprimorou sua arte como pioneiros da música eletrônica (e do uso dos primeiros sintetizadores) tornando-se virtuoso do estilo, mantendo as coisas, ao mesmo tempo, orgânicas, porém imprevisíveis. "Rubycon" mantêm-se até hoje um companheiro sólido e perfeita sequência para "Phaedra". Psicodelia misteriosa, que flui através de ondas tensas de eco e Mellotron, enquanto linhas primitivas de sequenciador borbulham na superfície. Momentos assombrados de escuridão impulsionados por arpejos de sintetizador. Vários graus de tensão, guitarras gravadas ao contrário, atmosferas distantes, cordas e flautas, vapores. Ambient antes da Ambient Music. Pink Floyd sem Rock. Sombrio demais para meditação. Bom demais. Apenas duas faixas épicas, parafernália de teclados (diversos sintetizadores, órgãos, pianos, Mellotron etc.), outro passo na metamorfose, música hipnotizante e derretendo, cerebral, relaxante, puras paisagens sonoras eletrônicas. Um monolito (comparado com os álbuns da fase Ohr), oferecendo uma viagem onírica surreal, ao mesmo tempo calmante e opressora. Arrebatador e essencial (junto com "Phaedra").
"Ricochet" entregava tudo isso ao vivo, com a formação mais memorável, evoluindo continuamente para o próximo patamar de experimentação pulsante, sem se perder ou ser excessivamente indulgente (como tantas outras bandas do estilo). Este disco capturou o trio num momento em que ele sabia exatamente o que estava fazendo. Pura diversão. Energético e atemporal. Uma foto sonora da banda quando ela era jovem, influente e no auge do estilo.
"Stratosfear", de 76, trouxe uso de instrumentos mais orgânicos (como piano de cauda e guitarras de 6 e 12 cordas, cravo e órgão de boca), não tratados, e adicionou vocais, um movimento que gerou críticas. No entanto, ambas inovações não alteraram o som de forma acentuada (os instrumentos orgânicos assumiam um papel mais textural, embelezando os efeitos em vez de trabalharem suas próprias convenções melódicas) e a incorporação cada vez maior do sequenciador continuou a distanciar o Tangerine Dream do mainstream da música instrumental eletrônica. A banda foi se tornando mais rítmica, evocativa, escultural, hipnótica. Uma turnê europeia de 31 shows foi seguida pela primeira turnê (16 shows) pelos EUA, no início de 1977. Ainda em 76, o diretor americano William Friedkin contratou a banda para compor a trilha sonora do filme "Sorcerer". O inusitado foi que Friedkin, emocionado com o resultado, refez o filme com base na música. Seria o início de uma lucrativa carreira pelas trilhas sonoras.
Após outra turnê pelos EUA em ago/77, a banda lançou o álbum duplo "Encore", um dos melhores álbuns ao vivo deles. Cada uma das longas peças tinha seu próprio conjunto de movimentos tal qual como se estivéssemos ouvinto sinfonias eletrônicas. Drones fúnebres, solos de piano e texturas experimentais. Ecos de Rock Progressivo e de música de vanguarda. Infelizmente, seria a última gravação com Baumann (no final de 77, ele deixaria a banda por divergências artísticas e problemas pessoais). Os membros restantes, Froese e Franke, embarcariam numa ousada experiência contratando o multi-instrumentista inglês Steve Jolliffe (ex-Steamhammer, banda de Blues-Rock). Além disso, o baterista Klaus Krüger foi adicionado. Este quarteto gravou o álbum "Cyclone", de 78, um trabalho atípico, com letras e vocais, e com o som centrado mais na mudança de arpejos do que em estruturas rítmicas percussivas (aquele pulso hipnótico pelo qual o grupo ficou tão conhecido). Ainda assim, não foi um experimento fracassado. A turnê subsequente não recebeu a resposta desejada e Steve Jolliffe deixou a banda. Para o álbum seguinte, "Force Majeure", de 79, a dupla Froese/Franke manteve Klaus Krüger, mas trouxe Eduard Meyer (convidado, no violoncelo) e um terceiro pianista treinado, Johannes Schmoelling. "Force Majeure" trouxe a banda exibindo novamente suas raízes Space Rock. Desta vez, no entanto, guitarra e bateria tinha tanto destaque quanto os teclados. Música intensa, hipnótica, sobre um leito constante de sequenciadores pulsantes e bateria processada com vários efeitos sonoros e muitos teclados. Maravilhoso. Seria o fim de uma era. A partir de "Tangram", de 1980, uma nova direção musical surgiria, mais próxima da New Age melódica e direta, mais ligada às trilhas sonoras.










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