
Com Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, lançado em 1972 pela Polydor, Os Mutantes alcançaram um novo marco e se distanciaram definitivamente do período tropicalista de seus primeiros trabalhos. O grupo continuou sua exploração psicodélica, direcionando-a para um som de rock mais elaborado, por vezes mais pesado, flertando abertamente com o rock progressivo e o nascente movimento do hard rock.
Ainda composto por Sérgio Dias (guitarra, voz), Arnaldo Baptista (baixo, teclados, voz), Rita Lee (voz), Dinho Leme (bateria) e Liminha (baixo), o quinteto entrega um álbum rico, denso e deliberadamente excessivo, onde experimentação sonora, surrealismo e estruturas mais ambiciosas coexistem em um caos tão livre quanto controlado. Em suma, Os Mutantes está determinado a romper a barreira do som, em um frenesi total refletido em sua arte, diretamente inspirada em uma história em quadrinhos erótica de ficção científica no estilo de Barbarella.
O disco abre numa favela turbulenta com “Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde que Eu Tenha o Rock and Roll”. Mas a voz suave e calmante de Rita Lee na terna e pastoral canção folclórica “Vida de Cachorro” imediatamente acalma os ânimos, amolecendo até mesmo os corações de cães vadios.
A partir daqui, a coisa fica séria. Como o nome sugere, “Dune Buggy” é um boogie. Só que, com seu baixo marcante e órgão incrivelmente envolvente, a faixa rapidamente decola para um território funk intergaláctico, completo com botas plataforma, calças prateadas e cabelo loiro platinado. Os Mutantes inventam o glam rock brasileiro aqui. Santana então faz uma aparição em “Cantor de Mambo”, como entrar em um bar carioca esfumaçado. Retornamos às estrelas com “Beijo Exagerado / Todo Mundo Pastou”, uma nave espacial de soul pesado impulsionada por raios laser.
Pomposa e espirituosa, “Balada do Louco” une Yes e Sweet, combinando complexidade harmônica, teatralidade e uma melodia cativante em uma faixa audaciosa e grandiosa. É quase como se o próprio Freddie Mercury tivesse se inspirado nela!
“A Hora ea Vez do Cabelo Nascer” é uma faixa de hard rock furiosa e celestial, que dispara como um carro de corrida, misturando potência, energia e extravagância sonora. Rita Lee assume o microfone em “Rua Augusta”, uma versão da música de Hervé Cordovil, e entrega um boogie frenético ambientado em um saloon, combinando energia, glamour e a exuberância sonora tipicamente brasileira. Retornando a uma favela movimentada, o álbum conclui em um cenário de cabaré extravagante com “Todo Mundo Pastou II”, oferecendo um final jubilante e carnavalesco.
Mas o trunfo deste LP é, sem dúvida, a faixa homônima, com quase 10 minutos de duração. Uma verdadeira demonstração de força do prog rock pesado alucinatório, ela mistura atmosfera sombria, ambiência estranha, swing, jazz, space rock, uma sequência enganosamente sinfônica, órgão imponente e guitarra com toques de acid house, levando o ouvinte a uma jornada sonora fascinante e desenfreada.
No entanto, este fantástico disco de vinil para o ávido fã de astronautas não consegue esconder a crescente dissensão dentro do grupo, particularmente a gradual marginalização de Rita Lee. Além de alguns vocais de apoio, por mais esplêndidos que sejam, e duas canções, ela recebe pouca proeminência nas faixas mais expressivas. Ela deixou Os Mutantes pouco depois e embarcou em uma carreira solo em 1972. Faleceu em maio de 2023.
Títulos:
1. Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha O Rock And Roll
2. Vida De Cachorro
3. Dune Buggy
4. Cantor De Mambo
5. Beijo Exagerado / Todo Mundo Pastou
6. Balada Do Louco
7. A Hora EA Vez Do Cabelo Nascer
8. Rua Augusta
9. Mutantes E Seus Cometas No País dos Baurets
10. Todo Mundo Pastou II
Músicos:
Arnaldo Baptista: Vocais, Teclados
Rita Lee: Vocais, Percussões
Sérgio Dias: Guitarra, Vocais
Liminha: Baixo
Dinho Leme: Bateria
Produção: Arnaldo Baptista
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