quarta-feira, 4 de março de 2026

Em 1971, o Pink Floyd fez um show no Crystal Palace, em Londres, e centenas de peixes morreram

 


Em 15/mai/1971, depois de uma década dedicada à música erudita, os caras do Greater London Council (um órgão administrativo da capital) decidiram entregar seu ilustre espaço Crystal Palace Bowl (um espaço fantástico para shows ao ar livre) aos jovens. O CPB era diferente de tudo em Londres. Uma concha acústica de concreto armado abrigava o palco à beira de um pequeno lago com o público sentado do outro lado da água (o espaço recebeu de Bob Marley a Pixies, antes de cair em desuso e ser reformado em 1997). A mudança na programação foi motivada por um ambicioso jovem promotor chamado Harvey Goldsmith, que se tornaria um dos maiores nomes do ramo, montando o histórico "Live Aid" com Bob Geldof, em 1985 (além da série anual "Prince's Trust", o "Concert For The People Of Kampuchea", entre tantos). Mas, em 1971, ele fez o The Garden Party, um evento projetado para capitalizar as boas vibrações de verão dos festivais de Woodstock e Isle Of Wight, mas mais convenientemente localizado em uma cidade, com boas conexões de transporte público. A banda Quiver (muito associada aos discos de Al Stewart, que depois se juntou ao pessoal do Sutherland Brothers) abriu o evento, seguida por sets do MountainThe Faces e Pink Floyd (cuja icônica apresentação gravada em Pompéia aconteceria depois, em alguns meses, entre 4-7/out/71). E, com o Pink Floyd sendo o Pink Floyd, eles queriam que o evento fosse diferente de qualquer outro. A banda, então, contratou um polvo. Sim, mas não um polvo animal marinho.
Tratou-se de uma estrutura inflável com tentáculos de 25 metros de comprimento, originalmente encomendada para marcar a inauguração da Stichting Octopus, uma exposição realizada no Stedelijk Museum, em Amsterdam, em 1968. A ser inflado, o tal polvo subia gradualmente, de cabeça para baixo, antes que suas oito pernas lentamente se formassem. Para a Garden Party, esta gigantesca fera de borracha emergeria do lago (imagine isto) no clímax do set do Pink Floyd, para deleite ou surpresa ou horror do público. E o que poderia dar errado numa ideia tão bacana? A verdade precisa ser dita: muita coisa e, pior, aconteceu (olha a "Lei de Murphy" aí). Foi um dia bem quente, com um tipo de calor sufocante para Londres. No Crystal Palace, o público tinha um lago para se refrescar. Então, a turba entrou na água e passou a brincar entre os tentáculos do bicho inflável. Claro que isso causou inúmeros danos ao polvo. Os roadies do Pink Floyd tentaram inflar a criatura, num certo momento, supostamente desencadeando explosões de enxofre sob a água, mas o estrago já estava feito, o polvo estava flácido e sem condições de inflar. Pior foi que deu ruim para os peixes do lago. Se eles não tivessem morrido pelas chamas ou pelo poderoso sistema de som quadrifônico da banda (a banda entreou "Echoes" durante o set, ela só apareceria em gravação no álbum "Meddle", lançado em out/71), eles morreriam pelo uso alegre (e indevido) do lago pelo público. Pobres peixes. Para piorar e lascar tudo, uma chuva torrencial caiu após o Pink Floyd subir ao palco e o público se dividiu em dois, a turma que buscou abrigo e os que já estavam tão encharcados que preferiram se juntar ao grupo dentro do lago, enquanto os peixes mortos iam subindo e brotando sombriamente na superfície da água. Cena apocalíptica!
O baterista Nick Mason contou este episódio em seu livro "Inside Out: A Personal History Of Pink Floyd":
"O polvo veio empinando do lago. A coisa não teria virado o que virou se vários fãs sem noção e com a mente prá lá de alterada não tivessem se despido e caído na água. Numa cena que lembrou o livro 'Vinte Mil Léguas Submarinas', os lunáticos se enroscaram nos canos de ar e ameaçaram estragar a performance afogando-se impensadamente".
Quanto ao Greater London Council, que permitiu toda essa lenha, a reação foi a normal e cobrou do Pink Floyd o custo da substituição dos peixes e da restauração do lago à sua antiga glória. 




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