quinta-feira, 12 de março de 2026

Mac Demarco – Another One (2015)

 


Em 2014, Mac Demarco trouxe-nos o festejado Salad Days, que conquistou um notório terceiro lugar no top de discos do ano da redacção Altamont. Mas o canadiano atómico é um rapaz irrequieto, e não conseguiu esperar mais para nos presentear com mais um tomo da sua idiossincrática história. Este outro disco é chamado, apropriadamente, Another One, embora o nome tenha mais a ver com a temática geral. Este é o exercício de Demarco a fazer o seu disco de amor, ou o seu disco de apaixonado. Na verdade, o trabalho tem sido referido com um mini-álbum, nome algo estranho mas que ajuda a descrever um disco de 23 minutos, oito músicas.

Se Mac brinca desta feita ao amor – como brinca com tantas outras coisas – musicalmente a praia é a mesma. Aliás, se Salad Days era gostosa dolência que não primava necessariamente pela variedade estilística, este novo disco é ainda mais assim. Para tanto contribui o típico ambiente musical que é marca registada de Demarco: som narcótico e super-relaxado, aquela guitarra barata com som quase patenteado, soando sempre “molhada” e sempre ligeiramente desafinada e um milisegundo atrás do ritmo certo.

Como habitualmente, o canadiano gravou tudo sozinho, no seu quarto na sua casa nova (que ele, aliás, nos convida a visitar, dando a morada certa e tudo, na última música). A bateria é relaxada, como habitualmente, a voz certa e serena, sempre no mesmo tom, o baixo só aguenta a estrutura e nada mais, o simples sintetizador salienta com ar primitivo alguns ambientes e a guitarra, enfim, é aquilo que nos leva a reconhecer este artista poucos segundos depois das primeiras notas.

As músicas estão lá, na verdade. Debaixo da capa militantemente lo-fi do seu trabalho, Demarco é um óptimo escritor de canções. No entanto, o seu som de marca, com a qual ele banha tudo o que faz, é também a sua prisão, deixando-o, em alguns momentos, algo previsível.

O rapaz é, claro está, um reconhecido espalha-brasas. Desde dar concertos de cuecas, tirar e partilhar fotos suas na sanita, passando pelas foleirotas capas dos seus discos (esta é mais uma) ou pelos vídeos que parecem estar sempre a gozar consigo próprio. Kevin Parker, o senhor Tame Impala, recordou recentemente a saída de Coachella, na carrinha de digressão da comitiva Demarco, com este à janela a acenar um vibrador gigante na direcção dos seus fãs. Isto para dizer que dá um pouco a sensação de que Mac Demarco vive num esforço empenhado de sabotar-se, de não se levar demasiado a sério, de não querer nunca ficar demasiado grande. A verdade é que, com o talento que tem, ficamos sempre com a vontade de o ver fazer ainda melhor, mas para isso é preciso que ele o queira, que ele deseje levar a sua arte ao próximo nível.

Para já, Demarco quer apenas tocar música e palhaçar. Por mais que desejássemos vislumbrar se ele seria capaz de nos dar um disco de uma geração, não nos podemos queixar. Mac Demarco, o palhaço da turma musical indie desta década, continua a dar-nos boas músicas e bons álbuns. E a ser feliz assim. Tudo certo, portanto.



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