quarta-feira, 22 de abril de 2026

CRONICA - MILES DAVIS | Waters Babies (1976)

 

Em 1975, fisicamente exausto por longas turnês, debilitado pelas drogas e pelo álcool, irritado com uma gravadora que sempre exigia demais e incomodado com a imprensa musical por criticar sua guinada radical para o rock, Miles Davis fez uma pausa na música. E estava determinado a não retornar por um tempo, com a intenção de viver uma vida de excessos. 

No entanto, a Columbia pretendia aumentar seu investimento no trompetista afro-americano. A gravadora pediu ao produtor Teo Macero, um mestre da colagem, que vasculhasse os arquivos e visse o que poderia ser reaproveitado. O resultado foi Waters Babies, lançado em novembro de 1976.

Composto por cinco faixas, o álbum provém das sessões de gravação de Nefertiti (1967), bem como daquelas gravadas entre Filles de Kilimanjaro (1968) e In a Silent Way (1969). Em suma, um período de transição entre o jazz modal e o jazz fusion, entre o jazz acústico e o elétrico. Um álbum que revela um trompetista em dúvida, buscando seu caminho.

No primeiro lado do disco, o famoso trompetista é acompanhado por seu segundo quinteto, composto pelo baixista Ron Carter, o baterista Tony Williams, o pianista Herbie Hancock e o saxofonista Wayne Shorter.

O Lado A destaca a importância de Wayne Shorter neste quinteto mágico, já que todas as três faixas foram compostas pelo saxofonista. Abre com a faixa homônima, inspirada em um dos primeiros livros que Wayne Shorter leu ( The Water Babies, A Fairy-Tale for a Land Baby, um clássico da literatura infantil anglo-saxônica de Charles Kingsley, de 1863). Uma balada encantadora e nostálgica no jazz clássico, com uma interação suntuosa e sedutora entre o trompete e o saxofone. Os pratos criam tensão, o contrabaixo é abafado e o piano, embora discreto, é imbuído de melancolia. Em suma, cinco músicos em perfeita harmonia. Isso é ainda mais evidente nas faixas mais swingadas e sombrias "Capricorn" e "Sweet Pea", que retomam o tema da balada outonal.

Contudo, este excelente show de abertura não deve obscurecer o fato de que o grupo havia caído na rotina, sem muito mais a provar. Ao mesmo tempo, Miles Davis confessou ao saxofonista John Coltrane que não sabia mais o que tocar, preso a um estilo musical estereotipado que havia atingido seus limites. Um mês após essas sessões, Coltrane faleceu, levando consigo uma certa visão do jazz. Miles Davis, agora em desespero, se viu como a única estrela de um gênero que estava perdendo força. Mas uma estrela que começava a se apagar.

Em meados da década de 1960, o jazz já não era um estilo em voga e começava a declinar. Rock, pop e soul eram as novas tendências. A Columbia Records, gravadora do trompetista, viu suas vendas despencarem e sentiu-se obrigada a abraçar esses ritmos que cativavam os jovens, relegando os músicos de jazz ao status de intelectuais antiquados para um público seleto. No verão de 1967, para muitos, Miles Davis era coisa do passado. Mas ele tinha os recursos para voltar à ativa. Como o futuro demonstraria.

No segundo lado, um tanto relutante em abraçar a direção que Miles Davis estava tomando, Ron Carter cedeu lugar a Dave Holland. Herbie Hancock, por sua vez, teve que lidar com Chick Corea no piano elétrico. Em suma, fica claro que Miles Davis estava tentando uma incursão no jazz elétrico com Chick Corea, ainda que hesitante, aventurando-se por caminhos que pareciam bastante arriscados.

Os sons do seu Fender Rhodes conferem uma certa fluidez que remete ao rock psicodélico popular na época. Miles Davis e Wayne Shorter encontraram nele um espaço maior, novos horizontes, um motivo para criar atmosferas estranhas e inquietantes. Ex-baterista com sensibilidade à música hispânica, este novo integrante traz um estilo percussivo ao piano e nuances latinas. Tudo isso é claramente perceptível em "Two Faced", uma longa balada etérea de 18 minutos também composta por Wayne Shorter. Nesta peça errante, a bateria adiciona um toque tribal contido e o contrabaixo, um groove discreto. Em "Dual Mr. Tillman Anthony", com 13 minutos de duração, encontramos esses mesmos ingredientes, mas com uma sensação mais ondulante.

Embora não seja exatamente essencial, Waters Babies é uma oportunidade para evocar um período em que Miles Davis empreendeu sua transformação musical.

Títulos:
1. Water Babies
2. Capricorn
3. Sweet Pea
4. Two Faced
5. Dual Mr. Anthony Tillmon Williams Process
6. Splash

Músicos:
Miles Davis: Trompete;
Wayne Shorter: Saxofone;
Herbie Hancock: Piano, Piano Elétrico;
Chick Corea: Piano Elétrico;
Ron Carter: Contrabaixo;
Dave Holland: Baixo;
Tony Williams: Bateria

Produção: Teo Macero




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