quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Os anos Bla…Bla de Franco Battiato.

 

Musica é entretenimento ou incerteza. Se você gosta da música, o prazer é certo, mas se não gosta sempre vai persistir em sua cabeça uma dúvida honesta: será que isso é realmente ruim ou sou eu que não soube reconhecer seus encantos? Claro que nessas horas você pode consultar a opinião “isenta” de um especialista. Um crítico musical, por exemplo. Mas tenha em mente que ele, apesar do profissionalismo, muitas vezes também se deixa levar pela opinião alheia (daí as aspas), de outros especialistas que ele respeite. Todos nos sentimos confortáveis com o entretenimento, mas ninguém quer ficar com a batata quente da incerteza nas mãos.
A longa e produtiva carreira do italiano Franco Battiato é pontuada pelo entretenimento garantido ou pela incerteza atroz. Seus discos lançados a partir de 1978 são de um pop certeiro e dançante enquanto que sua fase anterior, vanguardista e experimental, só foi devidamente digerida depois que ele foi taxado de gênio pelo, digamos, conjunto da obra. A fase que mostramos aqui é a mais difícil e compreende seus primeiros LPs lançados pelo selo independente Bla…Bla.
Franco Battiato nasceu na Sicília, aquela ilha cercada de Mediterrâneo por todos os lados e localizada bem na ponta da bota. Aliás, ao longo da história, foi para lá que os governos italianos chutaram a maioria dos seus desafetos políticos. Ilha meio grega e meio árabe, lar do vulcão Etna, ponto estratégico dos fenícios em seu comércio marítimo, a Sicília de tanta história, tantas culturas dominantes e um povo tão peculiar, rude, sábio, miscigenado e temido (dizem que o general Aníbal, com seu poderoso exército, preferiu cruzar a Espanha, os Pirineus e os Alpes do que tê-la em seu caminho rumo a Roma), encontrou em seu filho Franco um terreno fértil para cultivar todas as suas peculiaridades e extravasá-las através de um talento musical ousado e multifacetado.
Battiato trocou a Sicília por Milão em 1963, aos 18 anos. Demorou alguns anos ainda até que vislumbrasse um caminho seguro na música e mal conseguia se virar com o pouco dinheiro que levantava gravando acetatos promocionais que encartavam alguns números de uma revista de passatempos ou trabalhando em um armazém. As coisas nunca são fáceis para um jovem imigrante numa cidade grande, mas a juventude é o abrigo da ilusão e é ela que fazia o jovem Franco perseverar e dedicar à sua musica cada minuto livre de seu tempo.
Milão na primeira metade dos anos sessenta era a capital italiana dos cabarés e Franco finalmente encontrou abrigo para suas aspirações musicais em um deles, o Cab 64, que o contrata como um folk-singer siciliano em cujo repertório desfilam as antigas canções folclóricas da ilha. Nada a ver com rock, sua verdadeira paixão, mas pelo menos assegurou um local onde ele e seu violão podiam abrir para as atrações musicais da casa todas as noites. Não demora muito e acaba sendo contratado para acompanhar uma das vedetes da casa, a famosa Ombretta Coli, cujo marido na época, Giorgio Gaber, era cantor de sucesso. Foi ele quem abriu a primeira porta importante para Battiato: a da poderosa Phonogram . Estamos já em 1967 e Battiato grava seu primeiro single, “La Torre”, e conhece também seu primeiro fracasso. Apesar disso, a gravadora não estava disposta a desistir do rapaz, vendo nele o nosso equivalente a um cantor de jovem guarda bem ao gosto das gatinhas italianas. Em 68, lança seu segundo single, “E l’amore” , um pop tão sem-vergonha quanto o primeiro e que teve o mesmo destino, mas com a vantagem de incluir o jovem músico nos famosos festivais promocionais que sempre agitaram a Itália. Franco participou do Un disco per l’estate (o mais popular da época), Festivalbar, Cantagiro, Canzoníssima e por aí vai. Não ganhou nenhum, porém começou a firmar sua reputação de cantor e a subir sua cotação entre os críticos, que o consideraram uma grande promessa para 1969. “Lacrime e Pioggia” (versão de “Rain and Tears”, do Aphrodite’s Child) já esboça o sucesso que seu próximo single, “Fumo di una Sigaretta”, alcançaria, vendendo 100.000 cópias. A fama tão sonhada e batalhada por Franco, no entanto, começou a aborrecê-lo, pois ele sabia que no fundo não passava de marionete nas mãos dos executivos da gravadora e sua cabeça estava cheia de projetos mais ambiciosos e arriscados.
A virada da década já é testemunha de uma ainda tímida, porém definitiva, mudança no direcionamento musical de Battiato, aproximando-o pouco a pouco da experimentação que seria assumida definitivamente no ano seguinte. O engraçado é que essa mudança lhe foi intuída de forma acidental na metade de 1969, quando participava de um programa de sábado à noite na TV repleto de atrações internacionais. Parece que o maestro da orquestra de palco era um incompetente de carteirinha e os músicos saiam de  tom a perdiam o ritmo a todo momento. Na hora em que Battiato ia servir seu arroz-feijão pop, o acompanhamento tomou a dimensão de uma iguaria de vanguarda. Ninguém entendeu, mas Franco gostou tanto do resultado que decidiu naquele momento encerrar suas atividades como cantor de música ligeira. 
A intenção podia ser boa, mas na realidade Franco nem sabia por onde começar. Não achava que tinha cultura literária ou musical para de repente abandonar seus roqueiros americanos e buscar influências mais, digamos assim, contemporâneas e européias. Por mais paradoxal que seja, no entanto, simpatizou-se com a eletrônica e começou a experimentar em seu brinquedinho recentemente adquirido: um sintetizador VCS 3. 1970 também é o ano em que ele assina com o selo Bla…Bla Records e é lá que se envolve com o baterista Nunzio Fava “Cucciolo”, o baixista Bob Callero e o guitarrista Marco Zoccheddu na formação do grupo Osage Tribe, inspirado em sua momentânea paixão pela cultura dos índios americanos. Sua cabeça, porém, estava tão aberta a novas ideias que não demora muito resolve abandonar o grupo e tocar em frente um projeto solo. Arrow Head, o único LP do Osage Tribe, foi lançado em 1972 e Battiato aparece creditado apenas como um dos compositores da música que abre o disco.
Imagine a cabeça de Franco na época como um caldeirão de água fervendo que vai recebendo ingredientes os mais diversos para depois, em fogo brando, apurar uma sopa de gosto impossível de se definir. Música clássica, pitadas de música lírica italiana, colagens sonoras, tudo vai engrossando esse caldo/fusion em que o cozinheiro, ainda por cima, é um aventureiro na incipiente culinária eletrônica. Confuso? Não, simplesmente genial. Battiato batizou a iguaria de Fetus e a serviu na forma de LP em 1972.

Fetus foi inspirado numa transmissão da RAI chamada Destinazione uomo (Destino homem), dedicada ao escritor Aldous Huxley (o mesmo que já havia inspirado Jim Morrison no nome de sua banda). O álbum é uma viagem ao interior do corpo humano considerado como símbolo do Corpo Universal. O resultado é rotulado por Battiato como “altro rock”, um progressivo paradoxal e provocativo, ao mesmo tempo ingênuo e culto, original na proposta instrumental e um tanto bizarro nas letras (colaboração do grupo de intelectuais conhecido como Frankenstein). Já que foi inspirado em Huxley, nada mais natural que seu subtítulo fosse Ritorno ao Mundo Nuovo. A música que dá nome ao LP, por exemplo, começa com a batida de um coração no embrião materno. De repente, como se saída das entranhas do inferno, surge a voz do feto dizendo: “Eu nem havia nascido ainda / e já sentia no coração que a minha vida nascia sem amor / e eu me arrastava lentamente por dentro das veias do corpo humano / em busca do meu destino”…  Na música chamada “Meccanica”, a essência humana já se apresenta totalmente modificada: “Mecânicos os meus olhos / de plástico o meu coração / mecânico o cérebro / sintético o sabor / mecânicos os dedos de pó lunar / em um laboratório o gene do amor”. 
Como banda de apoio nesse disco, Battiato contou com os músicos do grupo Cristalli Fragili (Gianfranco “Gianni” Mocchetti no baixo, Gianfranco D’Adda na bateria e Riccardo Pirolli na guitarra e vocais). Musicalmente predominam os efeitos especiais, as fitas pré-gravadas e as percussões eletrônicas, construindo magníficas atmosferas sonoras com uma ainda tímida influência asiática. A capa, mostrando uma chocante foto de um feto (claro!), foi censurada. Fetus impõe nosso Franco como a personagem mais extrema do rock italiano da época, servindo como modelo para muitos grupos da nascente cena progressiva. A crítica mais atenta cobre o músico de elogios enquanto que o público, como é natural, estranha a revolução que aconteceu em sua música e o recepciona com frieza nos festivais Pop Meeting e Pow Wow, tanto que o álbum vendeu apenas 7.000 cópias. Uma versão em inglês do disco, com o título Foetus, também foi registrada para explorar o mercado externo, mas só tive notícia de seu lançamento em CD pela Vinyl Magic em 1999.
O ano de 1972 também viu o outrora romântico Battiato cada vez mais mergulhado em pesquisas eletrônicas e nos estudos de teoria musical. No começo do ano seguinte  sai seu segundo álbum pela Bla…Bla, Pollution, um trabalho marcado pela provocação e, paradoxalmente, pelo sucesso. Começa que na capa interna do álbum existe um aviso datado de 9 de outubro de 1972 e elaborado pelo Centro Internazzionale di Studi Magnetici, uma associação pseudocientífica fundada em 1937. Num encontro de todos os CISM, realizado em setembro daquele ano na França, eles anunciaram a inauguração do maior estroboscópio magnético do mundo, cuja intenção seria bloquear por um dia, por meios magnéticos, todos os automóveis a gasolina e diesel da Itália, alertando assim a humanidade para a catástrofe ecológica que se aproximava.
Pollution é um disco difícil de assimilar, repleto de investigações eletrônicas e letras herméticas sobre a triste e alienada condição humana. A primeira faixa é uma ode ao silêncio, que é comparado ao pistão de um cilindro: “O silêncio do ruído das válvulas a pressão / os cilindros de calor / tanques de produção… e mesmo o seu espaço está medido / Você não tem forças para tentar mudar o seu futuro / por medo de descobrir uma liberdade que não tem / Já se perguntou, afinal, qual a função que você tem?”  Outra faixa do álbum, “Plancton”, de certa forma compara o homem a essa vegetação que passa anos e anos simplesmente “vegetando” no fundo do mar: “Estou vivendo há dois séculos no oceano / já aprendi a respirar o mar / as minhas mãos se tornaram escamas / o fundo do mar está mudando a minha estrutura / e o meu corpo está cada vez mais parecido com os peixes / meus cabelos tornam-se algas”. A música que leva o nome do álbum nos introduz a um mundo de átomos, íons, hidrogênio, leis físicas e poluição, enquanto a faixa “Beta”, de clima aprazível e um coro angelical, nos conduz a uma sonhada felicidade: “Sou feliz de ser um beta / o meu dia não é duro / dentro do mar posso me vestir pelos gamas / e pelos deltas sou obedecido / quando jogo não derroto ninguém / não tenho violência na mente”. Mesmo assim, quase no final, Battiato não se furta de interrompê-la por instantes para fazer um alerta: “…dentro de mim vivem minha idêntica vida microorganismos que não sabem que pertencem ao meu corpo / E eu, a que corpo pertenço?”. A faixa que procura resgatar a faceta oriental de Franco é “Areknames”, uma música de ritmo contagiante e acessível.
Contracapa de Pollution
Escrevi dois parágrafos acima que esse trabalho foi um sucesso. E foi mesmo, um inesperado sucesso para um disco tão repleto de intrincados detalhes. Chegou a décimo lugar nas paradas, o que obrigou Battiato a pegar sua banda – Ruby Cacciapaglia nos sintetizadores, Gianfranco D’Adda na bateria, Marcio Ellepi nas guitarras e Gianni Mocchetti no baixo – e sair rapidamente em excursão, com gente escapando pelo ladrão nas casas de show por onde se apresentava. Franco agora era o homem da moda e, apesar disso, não abria mão de sua personalidade contestatória. Sua atitude no palco era a de um agitador, provocando o público e liberando todas as suas contradições, a ponto de suas apresentações geralmente acabarem em tumulto, com brigas na plateia e ameaças de linchamento aos músicos. Em um concerto em Londres, onde representava a Itália e se apresentou junto com o Magma e o Tangerine Dream, deixou no palco apenas dois televisores que produziam ruídos de interferência e dois rádios sintonizados em ondas curtas. Os ingleses na plateia achavam que ele fosse um técnico de som e demorou um tempo para cair a ficha de que aquele fulano no palco era na realidade o artista. Em um festival internacional na cidade de Veneza, o público não queria saber dos visitantes estrangeiros – queriam Battiato. No final de seu show não o deixaram ir embora do palco, pedindo aos gritos que ele tocasse o Pollution. Mas Franco tinha outros planos: sentou-se em frente ao teclado e começou a tocar apenas uma nota. Depois de agüentar um bom tempo, a plateia começou a xingá-lo e a ameaçá-lo. Outro que simplesmente enlouqueceu com as atitudes do músico foi seu empresário, pois no sétimo show de sua excursão Battiato se cansou de tanta agitação e cancelou os demais.
Franco se dizia saturado da música eletrônica. Estava em uma típica crise criativa e questionava a qualidade de seus últimos trabalhos ao mesmo tempo em que não enxergava um caminho por onde pudesse evoluir. No entanto, foi apenas um breve período de confusão, já que dois fatos importantes culminaram com o lançamento de seu terceiro disco no final de 1973: primeiro, uma proximidade maior com o misticismo oriental e a meditação e, segundo, ter assistido em outubro a um concerto em Torino do músico de vanguarda alemão Karl-Heinz Stockhausen, de quem mais tarde se tornou amigo.
Sulle Corde di Aries resulta um álbum bem mais simplista que os anteriores, se bem que o conceito de simples, em se tratando de Battiato, necessita que se reformule o verbete em todos os dicionários. Continua sendo uma obra orgânica, mas não mais naquele sentido científico que foi Fetus ou ecológico como Pollution.  Este terceiro disco é repleto de unidade e unicidade. A música “Sequenze e Frequenze”, que toma todo o lado A, não respira da forma como sabemos respirar um habitante do ocidente. Está mais para o pulsar do organismo de um monge islâmico, um dervixe que rodopia para o Profeta e encontra na eletrônica a liberdade corpórea que necessita para sua purificação e iluminação. É belíssima, hipnótica, de uma maturidade inesperada tendo em vista a personalidade provocadora do artista.
Franco agora assume a tecnologia como a principal linguagem da nossa cultura. Diz que usar a eletrônica para imitar a sonoridade de instrumentos tradicionais é deformá-la. Que a música eletrônica é interessante porque é ambígua e proporciona uma profundidade que não é real, mas sintética.  Está claro que nosso garoto siciliano evoluiu; aos poucos se desnuda de sua imagem pop, agressiva e um tanto alucinada para vestir uma nostalgia imaginária, costurada por um lirismo latente. Isto está presente em todas as quatro músicas de Sulle Corde di Aries, onde a eletrônica se concentra em texturas, como se criasse um enorme campo gramado de onde brotam os sons naturais de oboés, saxes, violoncelos, vozes de sopranos, tenores e percussões surpreendentes. Não à toa, Aries é o primeiro signo do zodíaco, aquele que no hemisfério norte introduz a primavera.

Franco está cada vez mais impactado pela experimentação erudita. Sua admiração por Stockhausen (e em menor escala por John Cage) faz com que seu próximo disco, “Clic”, lançado em 1974, traga encartado um opúsculo dedicado ao mestre, inclusive com uma foto do homenageado. Em plena afirmação do minimalismo, Battiato não se comporta como um Terry Riley ou um Philip Glass; sua sonoridade é obsessiva, inquietante, jogando com colagens, referências clássicas e texturas que nos remetem aos grupos de krautrock mais eletrônicos. Se o disco anterior era mais maduro, “Clic” é mais culto, contando com a colaboração de uma seção de sopros e o quarteto de cordas do Conservatório de Milão, dirigido por Luciano Bianco. Ele se diz um prático e não um teórico como seu mestre alemão ou como Cage.
Nas músicas “Rien Ne Va Plus” e “Propriedad Prohibida” , por exemplo, a combinação de sintetizadores com violinos dão forma a ritmos que podem se desenvolver indefinidamente, não conhecendo limites a não ser a duração das faixas, gerando um prazer que ilude os ouvidos, pois seu objetivo real é atacar diretamente o cérebro. “I Cancelli della Memoria” apresenta mais de seis minutos de música ambiente, o que serve como prova de suas afirmações posteriores de que já fazia esse tipo de som antes de Brian Eno. Aqui não existem canções; a única música que contém uma letra,“No U Turn”, está mais para o mapeamento de um estado de espírito: “Para conhecer a mim e a minha verdade / eu tenho combatido os fantasmas da angústia / com muitas perdas / e para destruir velhas realidades / eu tenho flutuado num mar de irracionalidade…”. No final do disco somos surpreendidos pelo nonsense de “Ethika fon Ethica”, onde o dial de um rádio não consegue se decidir por uma sintonia, desfilando uma colagem surreal de programações. No final, a voz de Franco nos deseja boa noite e entra o hino nacional italiano. “Clic” foi lançado também na Inglaterra, pela Islands, mas na forma de um pastiche, com apenas 3 músicas do LP de um lado e “Aria di Rivoluzione”, do disco anterior, tomando todo o lado B. 
Afirmei linhas atrás que Franco se considerava na época um prático e não um teórico. Na cabeça dele, os práticos desenvolvem à sua maneira a tradição musical italiana, que já foi representada por Verdi e mais recentemente pela música ligeira. Os teóricos, por outro lado, são como cientistas financiados para isolar-se e buscar coisas que as pessoas não podem entender. O espaço dos teóricos é concedido pelo poder enquanto que os práticos contam apenas com a realidade cotidiana para definir seu espaço. Tudo muito bonito, mas em seu próximo disco, Mademoiselle “Le Gladiator”, lançado em 1975, Battiato atinge o máximo do experimentalismo, criando um disco perturbador, até mesmo desagradável, como se quisesse confundir o ouvinte médio a ponto dele se sentir agredido. São apenas 3 músicas, todas instrumentais, que somam pouco mais de 30 minutos. “Goutez et Comparez”, a faixa que toma todo o primeiro lado e que foi gravada em estúdio, pode ser definida como um exercício de colagens acústicas, efeitos sonoros, silvos lancinantes, loopings, vocalizações histéricas, fragmentos de música e poesia concreta. Fosse ele um teórico e poderíamos viajar em conceitos semióticos para explicá-la, mas como se define um prático, a sensação de ouví-la beira a uma crise de ansiedade em meio ao caos de uma grande cidade em plena hora do rush de um dia chuvoso. Mudar o lado do disco até que refresca um pouco: “Canto Fermo” e “Orient Effects” foram gravadas ao vivo na Catedral de Monreale, em plena cidade de Palermo, na Sicília natal de Franco. No potente órgão, em meio a teclados vários e tubos barrocos, o músico parece se deixar levar pela emoção de estar de volta à sua gente, mas imagino que o ouro que resplandece na penumbra das colunas de mármore da Catedral é um espetáculo que combina muito melhor com as improvisações sonoras do artista do que preto chapado de um disco de vinil.
Mademoiselle “Le Gradiator” também é o último disco de Franco pelo selo Bla…Bla. Foi a fase mais subversiva de sua carreira e resultou em cinco LPs, dois compactos simples e várias colaborações além da já citada Osage Tribe, entre elas Jumbo, Juri Camisasca, Colonello Musch, Springfield, Ixo, Capsicum Red e Genco Puro & Co. O selo ainda aproveita o espólio e lança uma coletânea dupla chamada Feedback.
Em 1976, o compositor se aventura como autor de teatro e entra de cabeça na militância política. Logo assina com a Dischi Ricord e lança mais três LPs até 1978, época em que começa uma parceria com o compositor e violinista Giusto Pio. Cansado da tímida resposta financeira por ser um músico de vanguarda, resolve voltar ao formato pop para conquistar as massas. Assina um contrato com a poderosa EMI e já na virada dos anos 80 seu LP Patriots chega ao primeiro lugar na Itália e conquista as pistas de dança de toda a Europa. Sua carreira de lá para cá é repleta de sucessos e reconhecimento, com Battiato se tornando uma das maiores celebridades da música italiana, sem nunca abrir mão de sua ousadia e inteligência. Como podemos ver, muito ainda poderia ser escrito por aqui sobre Franco Battiato, mas esse bla bla bla fica para uma próxima vez.
Algumas músicas:
Una célula (Fetus)
Meccanica (Fetus)
Areknames (Pollution)
Aria di rivoluzione (Sulle Corde di Aries)
Aries (Sulle Corde di Aries
Propriedad Prohibida (“Clic”)
Goutez et Comparez (Mademoiselle “Le Gladiator”
Fontes:
. Al Aprile e Luca Mayer – La musica rock-progressiva europea (Gammalibri, 1980)
. Eduardo Margaretto – Franco Battiato (Cátedra, 1990)
. Battiato – Testi & Spartiti (Gammalibri, 1984)
. Cesare Rizzi – Enciclopedia del rock italiano (Arcana, 1993)
. Sites da Internet


TEDESCHI TRUCKS BAND - LET ME GET BY (2016)

 



TEDESCHI TRUCKS BAND
''LET ME GET BY''
JANUARY 29 2016
56:28           MUSICA&SOM
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01 Anyhow 06:34 (Mike Mattison, Susan Tedeschi, Derek Trucks)
02 Laugh About It 05:06 (Kofi Burbridge, Tim Lefebvre, Mike Mattison, Susan Tedeschi, Derek Trucks)
03 Don’t Know What It Means 05:58 (Kofi Burbridge, J.J. Johnson, Tim Lefebvre, Mike Mattison, Susan Tedeschi, Derek Trucks)
04 Right On Time 04:33 (Mike Mattison, Derek Trucks)
05 Let Me Get By 04:25 (Kofi Burbridge, Tyler Greenwell, Tim Lefebvre, Mike Mattison, Susan Tedeschi, Derek Trucks)
06 Just As Strange 03:41 (Doyle Bramhall II, Susan Tedeschi, Derek Trucks)
07 Crying Over You / Swamp Raga For Hozapfel, Lefebvre, Flute And Harmonium 08:02 (Mike Mattison, Susan Tedeschi, Derek Trucks)
08 Hear Me 04:31 (Doyle Bramhall II, Derek Trucks)
09 I Want More 07:14 (Doyle Bramhall II, Mike Mattison, Susan Tedeschi, Derek Trucks)
10 In Every Heart 06:20 (Mike Mattison, Susan Tedeschi, Derek Trucks)
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Doyle Bramhall II/Clapping, Drums, Fuzz Bass, Guitar, Guitar (Acoustic), Guitar (Bass), Guitar (Electric), Guitar (Rhythm), Percussion, Vocals
Maurice Brown/Clapping, Horn Arrangements, Trumpet, Vocals (Background)
Kofi Burbridge/Clapping, Clavinet, Flute, Harmonium, Horn Arrangements, Mini Moog, Organ (Hammond), Pedal Piano, Piano (Grand), Vocals (Background), Wurlitzer Piano
Alecia Chakour/Clapping, Vocals
Jonathan Dinklage/Viola, Violin
Tyler Greenwell/Clapping, Drums, Percussion, Vocals (Background)
Henry Hey/Horn Arrangements, String Arrangements
J.J. Johnson/Clapping, Drums, Percussion, Vocals (Background)
Tim Lefebvre/Bass (Upright), Clapping, Drones, Field Recording, Guitar (Bass), Vocals (Background)
Mike Mattison/Clapping, Vocals, Vocals (Background)
Mark Rivers/Clapping, Vocals, Vocals (Background)
Saunders Sermons/Clapping, Horn Arrangements, Trombone, Trombone (Bass), Vocals (Background)
Susan Tedeschi/Clapping, Guitar, Guitar (Rhythm), Vocals, Vocals (Background)
Derek Trucks/Clapping, Drums, Guitar, Guitar (12 String Acoustic), Guitar (Acoustic), Guitar (Electric), Guitar (Leslie), Guitar (Resonator), Guitar (Rhythm), Harmonium, Horn Arrangements, Percussion, Slide Guitar, Vocals (Background)
Kebbi Williams/Clapping, Horn Arrangements, Sax (Baritone), Saxophone, Vocals (Background)
Anja Wood/Cello

Depois de Made Up Mind de 2013, Tedeschi Trucks Band pegou a estrada com força, acumulando 200 datas em 2014. Depois que Derek Trucks fez os shows finais da Allman Brothers Band e TTB se separou da Sony, a banda de 12 integrantes e amigos (incluindo Doyle Bramhall II ) entrou em seu Swamp Raga Studios atrás da casa de Trucks e Susan Tedeschi e começou a gravar ensaios no estilo jam; todos foram encorajados a contribuir com ideias, músicas, etc. Eles paravam para trabalhar na estrada e depois voltavam para gravar um pouco mais. O resultado final é Let Me Get By, produzido pela Trucks, gravado por Bobby Tis e lançado pela Fantasy. O baixista de jazz Tim Lefebvre juntou-se permanentemente (ele também fazia parte da banda de David Bowie no Blackstar), e Alecia Chakour foi contratada para equilibrar Mike Mattison e Mark Rivers nos backing vocals. A formação é completada pelo tecladista Kofi Burbridge, os bateristas Tyler Greenwell e JJ Johnson e uma seção de trompas de três integrantes. Caminhões prova um produtor destemido aqui. Este conjunto de dez canções escrito de forma colaborativa mostra a habilidade da banda em tocar e compor através do soul sulista, rock de raiz, blues, funk gorduroso, jazz, música clássica indiana, música de cinema e polirritmias africanas e brasileiras. Uma óbvia oferta de estúdio, é caloroso e ressonante, mas cheio de energia e ideias. A sensação é solta e grooving, as performances quentes. Nos dois últimos álbuns do TTB, Tedeschi se sentiu confortável como vocalista de uma grande banda. Ela é quase icônica aqui, arriscando com o fraseado, encontrando espaços ocultos em linhas e sílabas e emocionando da barriga. Ela nunca exagera em uma música, mas sempre canta muito. (Verificar " A fusão de gospel, soul, doo wop e blues rock no próximo "In Every Heart" oferece um solo de Trucks que se aprofunda no grão emocional para contrastar com a doce vibração. Nunca TTB soou tão orgânico, relaxado e livre. Let Me Get By é o álbum pelo qual este grupo tem se esforçado desde sua formação. Você precisa disso. A fusão de gospel, soul, doo wop e blues rock no próximo "In Every Heart" oferece um solo de Trucks que se aprofunda no grão emocional para contrastar com a doce vibração. Nunca TTB soou tão orgânico, relaxado e livre. Let Me Get By é o álbum pelo qual este grupo tem se esforçado desde sua formação. Você precisa disso.


Classificação de todos os álbuns de estúdio de Tyler Childers

Tyler Childers

Vindo das Montanhas Apalaches do leste de Kentucky, Tyler Childers tem feito suas rondas na cena da música country. Seu primeiro álbum de estúdio, Purgatory , foi lançado em 5 de outubro de 2018, pela Hickman Holler Records. Este artigo classifica todos os quatro álbuns de estúdio de Tyler agora, colocando um contra o outro para ver qual sai por cima. Não entenda mal, porém, cada álbum é ótimo por si só, e eu recomendo conferir cada um deles. Não há uma única música de Tyler Childers que eu tenha ouvido que eu ache ruim, mas isso não quer dizer que algumas músicas não se destacam um pouco mais do que outras. Então, sem muito mais delongas, aqui está minha classificação de todos os quatro álbuns de estúdio:

4. Long Violent History (2020)

 

Este é o álbum mais recente de Tyler Childers, e é o menos favorito de muitos fãs até agora, com base nos padrões que seus álbuns anteriores estabeleceram. Em seus dois primeiros álbuns, “Bottle and Bibles” e “Purgatory”, Tyler canta sobre fazer música, drogas, beber, sentir falta de sua mulher e sua vida como um caipira. Em “Long Violent History”, no entanto, Tyler dá uma guinada esperada ao se concentrar na violência mundial e em como a humanidade está se destruindo. Antes de lançar o vídeo, Tyler lançou um vídeo de 6 minutos para servir de introdução para seu álbum. No vídeo, ele fala sobre toda a violência e sofrimento que vemos no noticiário todos os dias e como tudo está conectado. Ele explica que, para combater a violência, devemos primeiro nos conscientizar do que está acontecendo ao nosso redor e, o mais importante, tentar criar empatia com outros grupos. Para maior clareza, vamos abordar o álbum em três partes:

Melodias de violino

O álbum começa com uma ótima nota, com um cover impetuoso de violino da música do show de 1973 de Stephen Sondheim, “Send In The Clowns”. Seguem-se outras sete melodias de rabeca – seis tradicionais e uma moderna – executadas com a habilidade e confiança de um homem que acabou de aprender a tocar rabeca (criança admite ter começado a aprender a rabeca há apenas um ano). Ao fundo estão dobradores de cordas experientes.

As canções de protesto

Na faixa-título do álbum e na música final, Tyler canta sobre essa “Long Violent History” que todos nós estamos envolvidos, e ele não esconde seus sentimentos. Ele aborda o racismo sistemático e a brutalidade policial, contextualizando a questão da verdade indescritível e da saturação da mídia na América. Ele também pede que as pessoas tenham empatia, sugerindo que a mudança começa com a simples capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa.

O vídeo

Lançado como uma introdução ao álbum, vemos um vídeo de Childers falando diretamente para a câmera, explicando seus pensamentos sobre a violência ao nosso redor e como podemos combatê-la. Childers não mede suas palavras e deixa bem claro que precisamos abrir nossos olhos e ver verdadeiramente tudo ao nosso redor, para que possamos lutar por aqueles que não podem lutar.

3. Country Squire (2019)

 

“Country Squire” é o terceiro álbum de estúdio de Childers , lançado em 2 de agosto de 2019. O álbum mistura os estilos Country e Americana, com várias músicas apresentando instrumentação de guitarra de aço. A faixa-título abre o álbum e dá o tom do que vem a seguir: um homem de quase vinte anos que se orgulha de ser pobre e ama sua caminhonete. Na primeira linha da faixa de abertura, ele canta: “Bem, esta noite estou em Chillicothe, Na direção do vento da fábrica de papel, estou aqui cuspindo na calçada”, e você pode sentir a tristeza que está por vir. . Tão estereotipado de músicos country. Eles prosperam em situações difíceis e, em seguida, endurecem para deixar tudo rolar em suas costas. Há muitas músicas neste álbum que se encaixam nessa imagem, “Bus Route”, “ House Fire”, e “Paz de espírito”. Na segunda música, "Bus Route", ele fala sobre ter sido rejeitado por um colega de classe por quem tinha tesão e como ele "tentou beijá-la uma vez no corredor do ônibus, e ela passou por cima de mim, de bruços o chiclete no chão.” Childers é muito bom com detalhes, o que ajuda a dar vida às suas letras.

2. Bottle and Bibles (2011)

 

Childers tinha apenas 19 anos quando lançou este álbum. Lançado em 2011, Bottle and Bibles é seu primeiro álbum de estúdio. Este mostra as raízes country do artista com uma influência particular do bluegrass. Suas letras são cruas com um senso de imediatismo, tornando-as muito pessoais, mesmo quando falam sobre os temas mais universais de amor e pobreza. Hoje em dia, existem algumas músicas deste álbum que vi Childers tocar ao vivo, particularmente “Se Whiskey Could Talk”, “Hard Time” e a faixa-título. Não porque as músicas sejam medíocres nem nada, mas porque ele prefere se ater aos lançamentos mais recentes, o que é compreensível. Ainda assim, é interessante ver o quanto ele cresceu como músico. Childers se apóia mais em seu lado espiritual/religioso neste álbum, ainda mais do que em lançamentos subsequentes. Isso explica por que muitos de seus fãs gravitam mais para este álbum, com muitos passando-o como seu favorito. “Hard Times” é a minha favorita deste álbum.

1. Purgatory (2017)

 

O segundo álbum de estúdio de Childers, Purgatory, foi lançado em 2017. O artista de música country desenvolve seu primeiro álbum, “Bottle and Bibles” (2011), apoiando-se na instrumentação de bluegrass e influências folk. Notavelmente, Childers tem um som mais maduro neste álbum, mais aparente em sua entrega vocal. Ele escolhe abandonar seu estilo característico de cantar aos gritos, o que eu acho uma coisa boa. Ele permite mais variação em termos de melodia e harmonias, tornando este álbum mais forte no geral. A faixa de abertura “I Swear (to God)” não é uma música clássica de amadurecimento, nem é uma música sentimental de separação, mas sim um aceno para o valor do sal da terra de trabalhar e resistir. No videoclipe de I Swear (to God), Childers toca violão e piano, além de cantar. Você pode ver em sua performance emocional que ele coloca seu coração em cada verso que canta. 

Bandas Raras de um só Disco

 

Diabolus - High Tones (1972)



Embora muito pouco conhecida , "a banda que o mundo esqueceu", como disse Max Von Seibold, filho do baterista, em um site de memória (www.diabolustheband.net, não mais ativo) – a banda DIABOLUS, formada em Oxford, Inglaterra, é uma predecessora do rock sinfônico que viria a surgir no meio dos anos 70s. Seus membros eram: John Hadfield (guitarra e vocal), Anthony Hadfield (baixo, vocal), Philip Howard (flauta, sax tenor, órgão, piano, vocais), Ellwood Von Seibold (bateria, percussão) e Pedro Cornel (sem detalhes adicionais). A banda foi considerada não comercial e sucessivos desmembramentos e reintegrações sob o nome de Sunfly acabaram por mantê-la ativa por um bom tempo.

Seu único LP, "High Tones", foi gravado em 1971 em Londres, produzido por Hugh Murphy e Shel Talmy (leia-se The Who), mas nunca foi lançado por razões "comerciais". Uma edição não autorizada foi lançada na Alemanha pelo selo Bellaphon. Quando em meados de 1990, os membros tiveram ciência disso, começaram a lutar judicialmente pelos direitos de propriedade, acabando por finalmente relançar o álbum pela gravadora Sunrise Records, da Europa.

Seu estilo musical vai de melodias populares até a instrumentação eclética, incluindo flauta, sax e vocais de pelo menos três membros da banda, passando por jazz e composições mais trabalhadas. O trabalho vocal lembra bastante Gentle Giant, enquanto o uso de flautas tem a similaridade do Jethro Tull. O sax usado nos remete ao Pink Floyd dos anos 80s, banda que usava esse instrumento de uma maneira mais eventual, enquanto que no caso do DIABOLUS, já fazia parte do álbum como um todo. Algumas das músicas aproximam-se do jazz fusion, através do uso de tempos quebrados e percussões abertas, com momentos de total livre improvisação. 

Integrantes.

John Hadfield (Guitarra, Vocal)
Anthony Hadfied (Baixo, Vocal)
Philip Howard (Flauta, Teclados, Saxofone)
Ellwood Von Seibold (Bateria)
 
 
01. Lonely Days (7:10)
02. Night Clouded Moon (5:46)
03. 1002 Nights (4:48)
04. 3 Pieces Suite (7:05)
05. Lady Of The Moon (3:56)
06. Laura Sleeping (8:04)
07. Spontenuity (8:20)
08. Raven's Call (6:18)

Crítica ao disco de Ángel Ontalva & Vespero - 'Live at the Astrakhan State Theatre of Opera and Ballet' (2020)

 Ángel Ontalva & Vespero - 'Ao vivo no Astrakhan State Theatre of Opera and Ballet'

(23 de junho de 2020, OctoberXart Records)

Ángel Ontalva & Vespero - Ao vivo no Astrakhan State Theatre of Opera and Ballet

Hoje temos a grata oportunidade de apresentar a terceira peça fonográfica da associação hispano-russa ÁNGEL ONTALVA & VESPERO, o álbum ao vivo “Live At The Astrakhan State Theatre Of Opera And Ballet”. Quase todo o material aqui contido provém daquele fabuloso disco de estreia da associação que foi "Carta Marina" (2018), juntando três temas que já figuravam num disco a solo do próprio ONTALVA: tudo isto foi gravado ao vivo durante a inauguração de uma exposição das obras de Ontalva no local mencionado no título, em 28 de fevereiro de 2019. As gravações adicionais subsequentes foram distribuídas entre os estúdios La Ratonera (Fuensalida, Espanha) e Astracán (Rússia). O álbum em questão foi editado pela editora OctoberXart Records a 23 de junho em co-produção do próprio ONTALVA e de Francisco Macías, embora se deva esclarecer que, literalmente falando, não se trata apenas de um álbum dele em conjunto com VESPERO. Em efeito,Natasha Blinova ao pé do cânion, assumindo a melódica e o piano em metade das canções contidas neste item fonográfico. Toda esta informação sonora é tratada com uma precisão imaculada que nos permite potenciar o sentido de conjunto projectado pelo conjunto, o que se traduz numa abordagem mais movida pela subtileza e por um espírito de engenharia na hora de concretizar o esquema psicodélico progressivo e experimental que é o marca desta casa multinacional. Claro que Ontalva está a cargo da arte gráfica, e o trabalho é impressionante, como sempre.

Os primeiros 14 minutos do álbum são ocupados pela dupla de 'Horrenda Charybdis Near Lofoten' e 'Giant Lobster Between The Orkneys And The Hebrides'. Ambas as peças, que estão entre as mais significativas da associação entre ONTALVA e VESPERO, apresentam dois exercícios de elegante e refinada musicalidade jazz-progressiva com inegáveis ​​arestas crimsonianas e muitas outras enraizadas na fusão. O primeiro destes temas é expressão de uma extroversão deslumbrante no interior de uma engenharia sofisticada, enquanto o segundo privilegia a graça evocativa, estabelecendo-se num jogo de alternâncias entre passagens intensas e outras mais contidas. A proeminência do violino e as relevantes texturas do bandolim marcam um importante contrapeso ao senhorio imposto pelo duo rítmico. Pode-se afirmar desde já que quase todas as cartas do conjunto estão na mesa. Segue-se 'Satélites, uma peça que cumpre a função de explorar nuances serenas e contemplativas assentes num desenvolvimento temático que se mantém firme no âmbito da envolvente através das variantes que vão surgindo ao longo do percurso. A cadência particular da escaleta ajuda a reforçar uma aura de intimidade espiritual, tornando-se o cúmplice perfeito do violino, que, juntamente com a guitarra elétrica, se embebe de um lirismo cristalino. Imaginamos aqui o boletim meteorológico experimentado com os padrões de Canterbury. 'Sledges Crossing The Gulf Of Bothnia' é o item mais longo com quase 8 minutos e meio de duração, e a sua função é realizar uma nova exploração em ares fusionais dentro de um enquadramento sonoro inicialmente sustentado por uma suavidade meticulosamente elegante, e posteriormente, redireccionado para um groove mais vivo. Nesta nova situação, o conjunto adiciona cores space-rocker à sua paleta de sons. 'Never Again' retorna ao terreno do jazz contemporâneo, desta vez com ornamentos latinos herdados. Os majestosos floreios do piano são os principais recursos para ampliação e valorização do desenvolvimento temático. 'Carta Marina' estabelece o oposto do calor da peça anterior com a sua demonstração de densidade e tensão numa arquitectura sonora onde o avant-prog e o jazz contemporâneo se misturam. O piano de Blinova continua presente para reforçar o papel dos teclados no cenário geral,

'Sea Orm' – outro dos standards mais célebres deste projeto – resume uma engenharia musical coerentemente erguida sob uma roupagem prog-psicodélica onde o núcleo temático deixa claro o seu brilho e carisma essenciais. Tudo termina com a chegada de 'Eyes In The Mirror', uma peça que regressa plenamente ao discurso e groove típicos do jazz-fusion com uma orientação progressiva. O calor cativante que emana do encontro entre o violino e a melódica estabelece o corpo central de onde a guitarra eléctrica terá de partir para marcar um sistema de floreios que dinamizam uma fantasia extremamente notável. Talvez seja a melhor presença do violão em todo o evento. A jovialidade ágil que aqui impera faz desta peça o momento perfeito para uma despedida carinhosa. Em fim,


- Amostras de 'Live at the Astrakhan State Theatre of Opera and Ballet':

DE RECORTES & RETALHOS

 

Musica&Som Nº 68 - "O Country, o Rock e a Amiga" / Célia Pedroso 1981


Destaque

Malefic Oath – The Land Where Evil Dwells (Demo 1992)

  Country: Netherlands   Tracklist   1. Intro 01:04 2. Prediction Of The Unborn Son 04:34 3. The Endless Way To The Unknown 03:11 4. Garde...