terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

“Back To Black” (Island Records, 2006), Amy Winehouse

 


Amy Winehouse surgiu como um grato sopro de novidade na música pop no começo dos anos 2000. Naquele momento, Britney Spears e Christina Aguilera eram o modelo padrão de cantora jovem de sucesso no cenário pop da época. Com seu álbum de estreia, Frank, lançado em 2003, Amy nadava contra a corrente do padrão pop feminino da época ao resgatar o som da Motown, o R&B dos anos 1960, o jazz, mas com uma roupagem musical contemporânea. Toda essa bagagem musical era uma herança que ela herdou de sua família, que gostava de jazz, soul e R&B antigos. A cantora inglesa, então com 20 anos, logo virou uma grande sensação. Seu primeiro álbum, Frank, alcançou o 13º lugar da parada britânica de álbuns, vendeu mais de 3 milhões de cópias. Amy foi agraciada em 2005 com o troféu Ivor Novelle Awards na categoria “Melhor Canção Contemporânea” por “Stronger Than Me”, faixa do álbum Frank.

Passado o período de muita exposição proporcionado pelo sucesso do álbum Frank, Amy Winehouse mergulha num período de profundo “bloqueio criativo”, sem conseguir compor nada de novo e interessante. Por volta de 2005, a jovem cantora conheceu Blake Fielder-Civil, que apesar de ser comprometido com outra mulher na época, começa um relacionamento com Amy. O romance dos dois se mostra conturbado, cheio de escândalos, brigas, agressões físicas e verbais. Como se tudo isso não bastasse, foi Blake quem apresentou a heroína a Amy Winehouse, que já tinha problemas com álcool. Para tentar superar o vício em álcool e drogas de Amy, sua família tenta interná-la numa clínica de reabilitação, mas logo a cantora abandona o tratamento.

Amy Winehouse no início da carreira.

Em novembro de 2005, Amy Winehouse inicia o processo de produção do seu segundo álbum. Para o novo trabalho, Amy estava decidida a fazer algo diferente, distante do apelo jazzístico do primeiro Frank. Para o novo álbum, ela queria um trabalho voltado para a sonoridade da Motown, o soul e o R&B dos anos 1960, mas mantendo um frescor contemporâneo. A princípio, Salaam Remi, produtor de Frank, iria produzir sozinho o segundo álbum de Amy, mas a gravadora indicou o jovem produtor Mark Ronson para trabalharem juntos. A gravação do novo álbum ocorreu em diferentes estúdios, entre Miami, Nova York e Londres.

Para que o novo álbum saísse do jeito que Amy havia pensado, foi contratada a The Dap-Kings, a banda de acompanhamento da cantora veterana Sharon Jones (1956-2016), que conquistou reconhecimento após os 40 anos gravando álbuns inspirados na soul music e R&B dos anos 1960, mas com um “verniz” moderno. Amy tinha uma profunda admiração pelo trabalho de Sharon Jones. Procurando dar uma sonoridade que remetesse ao soul clássico dos anos 1960, os produtores chegaram a usar equipamentos valvulados. Amy por sua vez, buscou inspiração visual e musical em artistas femininas dos anos 1960 como a cantora Shirley Bassey e girl groups daquela década como The Shangri-Las, The Shirelles e  The Ronettes.

Uma pequena amostra do novo álbum foi lançada em 23 de outubro de 2006: era o single de “Rehab”. Primeiro single do novo álbum, “Rehab” carrega nos seus arranjos a proposta musical que Amy Winehouse almejava, um som com referências da soul music e do R&B dos anos 1960, porém com uma leitura mais contemporânea. A letra é uma crítica da cantora àqueles que tentaram interna-la numa clínica de reabilitação devido ao seu vício em bebida alcoólica: “I ain't got the time / And if my daddy thinks I'm fine / He's tried to make me go to rehab / But I won't go, go, go”. (“Eu não tenho tempo / E mesmo meu pai pensando que eu estou bem / Ele tentou me mandar pra reabilitação / Mas eu não vou, vou, vou”).  Na parada britânica de singles, “Rehab” foi do 19º lugar para o 7º lugar. Nos Estados Unidos, foi 9º lugar na Billboard Hot 100.

Sharon Jones & The Dap-Kings.

Em 27 de outubro, Back To Black, segundo álbum da carreira de Amy Winehouse chega às lojas. Assim como expressou a canção “Rehab”, lançada anteriormente como single, o álbum Back To Black era o reflexo do momento conturbado da vida particular de Amy, como o romance turbulento da cantora com Blake e o vício em álcool e drogas. Tudo isso estava presente nas letras das canções de Back To Black como na já citada “Rehab”, lançada como single e presente no álbum como primeira faixa na qual ela recusa o tratamento na clínica de recuperação. Acredita que tem mais o que fazer, preferindo ficar em casa ouvindo Ray Charles e Donny Hathaway, dois gigantes da soul music: “I'd rather be at home with Ray / I ain't got seventy days / 'Cause there's nothing / There's nothing you can teach me / That I can't learn from Mr. Hathaway…” (“Prefiro ficar em casa com Ray / Não posso ficar setenta dias internada / Por que não há nada / Não há nada que você possa me ensinar / Que eu não possa aprender com o Sr. Hathaway...”).

A segunda faixa é “You Know I’m No Good”, que traz uma batida rítmica inspirada em “Tramp”, sucesso de Otis Redding e Carla Thomas, de 1967, só que com um vigor mais contemporâneo aproximando-se do hip hop. O assunto central da música é a infidelidade que Amy estava sofrendo por parte de Blake Fielder-Civil. Em “Me &Mr. Jones”, Amy incorpora o espírito das grandes divas do jazz. A canção fala de traição, e Amy demonstra ressentimento no cantar, mas ao mesmo se mostra apaixonada.

The Shangri-Las, Shirley Bassey e The Ronettes: referências estético-musicais para Amy Winehouse.

“Just Friends” surpreende pelo seu ritmo que remete aos primórdios do reggae lá na década de 1960. A faixa trata de um romance que acabou, mas que guardaria um fio de esperança por uma volta. “Back To Black”, faixa que dá nome ao álbum, trata de mágoa e sofrimento. Os arranjos com clima sombrio reforçam a ideia de alguém que sofreu tantas vezes e que agora está com o coração em luto: “I died a hundred times / You go back to her / And I go back to I go back to us” (“Eu morri uma centena de vezes / Você volta para ela / E eu volto / Eu volto para nós”).

Com uma base instrumental calma e bonita, “Love Is A Losing Game” é mais outra canção do álbum que retrata o romance conturbado de Amy e Blake para o qual ela se entregou de corpo e alma. Como trata a canção em sua letra, o romance de Amy com Blake foi como um “jogo de azar”, que trouxe para a cantora mais perdas do que ganhos.

“Tears Dry On Their Own”, segundo a própria Amy, é sobre o rompimento da sua relação com Blake Fielder-Civil após descobrir que ele tinha outra pessoa. Ao contrário da outras canções do álbum que tratam sobre fim de relacionamento, nesta música Amy se mostra mais confiante, dona de si, capaz de tocar a vida em frente sem se tornar refém de um antigo amor. Talvez pelo próprio conteúdo da letra, o ritmo de “Tears Dry On Their Own” é mais alegre, positivo.

Amy Winehouse.
“Wake Up Alone” é uma balada soul bem ao estilo das vocalizações doo-wop dos anos 1950, fala sobre solidão e saudade. Em “Some Unholy War”, Amy demonstra todo o seu amor incondicional: “If my man was fighting / Some unholy war / I would be behind him / Straight shook up beside him” (“Se meu homem estivesse lutando / Em alguma guerra profana / Eu estaria atrás dele / Firme bem ao lado dele”). A faixa seguinte, “He Can Only Hold Her” tem um ritmo soul bem ao estilo do som clássico da Motown anos 1960, com vocais de apoio incríveis, merecendo destaque para o baixo e a bateria que dão uma levada dançante para a faixa. Fechando o álbum, “Addicted”, uma canção onde Amy fala sobre seu vício em maconha.

A recepção da crítica a Back To Black foi positiva. Os críticos destacaram o afastamento de Amy Winehouse do jazz e a sua aproximação ao soul e ao R&B produzidos nos anos 1960. O álbum se torna rapidamente um sucesso comercial em todo o mundo, puxado pelo hit “Rehab”, primeira música de trabalho de Back To Black. Outras faixas do álbum geraram singles e se tornaram grandes sucessos como “You Know I’m No Good”, “Love Is A Losing Game”, “Tears Dry On Their Own” e a faixa título.

Back To Black alcançou o 1º lugar na parada da Billboard 200, nos Estados Unidos. Foi também 1º lugar na parada de álbuns do Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Espanha, 2º lugar no Brasil e 4º lugar no Canadá. Em 2007, foi o álbum mais vendido em todo o mundo, alcançando a marca de 6 milhões de cópias vendidas.

O sucesso de Back To Black não só levou Amy Winehouse a se tornar uma grande estrela da música pop mundial, como também a conquistar uma série de prêmios promovidos pela indústria fonográfica. Na 50ª edição dos Grammy Awards, em 2008, Amy foi a grande vencedora ao conquistar cinco prêmios com Back To Black: “Gravação do Ano” (por “Rehab”), “Canção do Ano”(por “Rehab”), “Melhor Álbum Vocal Pop”, “Melhor Performance Vocal Pop Feminina” e “Artista Revelação”.

Amy e Blake: romance turbulento.
Lamentavelmente, parece que atingir o ápice da fama não significou tranquilidade na vida de Amy Winehouse. Sua vida particular ia de mal a pior. O romance com Blake Fielder-Civil, com quem acabou se casando em maio de 2007, era movido a brigas, separações e reatamentos, álcool e drogas, tornando-se um prato cheio para os tabloides sensacionalistas. Amy deixou de ser manchete de jornais pela música que fazia, mas pelos vexames que dava. Seu quadro de saúde se agravava, os médicos temiam pela vida da cantora que se mostrava relutante aos tratamentos. Creditando a dependência química à má influência de Blake, o pai de Amy, Mitch Winehouse, exigiu que ele se divorciasse da filha, o que acabou acontecendo em 2009.

Em 2011, tentou retomar a carreira artística com apresentações ao vivo e participações em gravações de alguns artistas como no álbum Duets II, de Tony Bennett, com o qual gravou a canção “Body And Soul”. As apresentações ao vivo, com uma Amy esquálida e frágil revelaram-se desastrosas, o que levou a cantora a ceder ao tratamento do seu vício.

No entanto, após um período de abstinência, Amy teve uma recaída, voltou a beber exageradamente, vindo a falecer em 23 de julho de 2011, aos 27 anos. A música perdia uma cantora talentosíssima que certamente nos brindaria com outros grandes álbuns com sua voz e seu visual memoráveis, caso não tivesse morrido tão cedo. Back To Black acabou se tornando seu álbum de despedida, ainda que lançado cinco antes de sua morte.

O álbum, hoje uma das obras-primas da música pop deste começo de século XXI, deixou um grande legado, ao resgatar a soul music e o R&B dos anos 1960, mas dentro de uma olhar mais contemporâneo, chegando a contribuir com o surgimento de um nova tendência, denominada de neo soul. Amy Winehouse e seu Back To Black abriram caminho para outras cantoras britânicas Adele, Duffy e Dionne Bromfield dentro da linha soul music “retrô”. Na lista dos 500 Maiores Álbuns de Todo Os Tempos, da revista Rolling StoneBack To Black figura em 451º lugar. Estima-se que Back To Black tenha vendido desde o seu lançamento pouco mais de 20 milhões de cópias.

Faixas
  1. “Rehab”             
  2. “You Know I'm No Good”           
  3. “Me & Mr. Jones”                         
  4. “Just Friends” 
  5. “Back to Black”  (Amy Winehouse - Mark Ronson)         
  6. “Love Is a Losing Game”             
  7. “Tears Dry on Their Own”  (Winehouse - Nickolas Ashford - Valerie Simpson)  
  8. “Wake Up Alone” (Winehouse - Paul O'Duffy) 
  9. “Some Unholy War”     
  10. “He Can Only Hold Her” (Winehouse - Richard Poindexter - Robert Poindexter)            
  11. “Addicted”               
Todas as faixas são de autoria de Amy Winehouse, exceto as indicadas.  
  

“Rehab”

“You Know I'm No Good”

“Me & Mr. Jones”

 “Just Friends”

“Back to Black”

“Love Is a Losing Game”

“Tears Dry on Their Own”

“Wake Up Alone”

“Some Unholy War”

“He Can Only Hold Her”

“Addicted”

“Luiz Gonzaga Ao Vivo – Volta Pra Curtir” (RCA, 2001), Luiz Gonzaga

 


Quem viu Gonzaga – De Pai Pra filho (2012), filme de Breno Silveira, teve a oportunidade de saber um pouco da história de Luiz Gonzaga (1912-1989), o “Rei do Baião”. Viu o começo de sua carreira artística, ainda muito jovem, no sertão de Pernambuco, e o auge da fama entre o final dos anos 1940 e os anos 1950.

Mas o filme mostra também a decadência do velho “Lua” (um dos seus apelidos) na década de 1960. Era uma época estranha e hostil para o sanfoneiro pernambucano. O Brasil e o mundo viviam um momento de turbulências e transformações. A chamada “Era de Ouro” do rádio, tornou-se coisa do passado. Astros daquele período dourado como o próprio Luiz Gonzaga, mais Orlando Silva, Sílvio Caldas, Vicente Celestino entre outros, viraram coisas “cafonas”, “peças de museu”. O público jovem mudou, e com ele o seu gosto musical. A bossa nova, a música de protesto, Jovem Guarda e o Tropicalismo faziam parte do gosto musical dos jovens brasileiros daquele momento. Os Beatles, os Rolling Stones, a contracultura, eram as novas referências de comportamento para aquela juventude. Gonzaga parecia um ser deslocado do tempo.

A partir de 1964, seus shows tornaram-se mais minguados, o público era diminuto. O “Rei do Baião”, assim como outros artistas de sua geração, passaram a centrar fogo contra o rock, a culpá-lo pela perda de prestígio e pela “americanização” cultural do público jovem da época. Tanto é que em 1967, Gonzaga gravou a música “Xote dos Cabeludos”, dele e de José Clementino, onde ele faz um desabafo: “Cabra que usa pulseira / No pescoço medalhão / Cabra com esse jeitinho / No sertão de meu padrinho / Cabra assim não tem vez não / Não tem vez não / Não tem vez não”.

Em 1968, o compositor e produtor musical Carlos Imperial (1935-1992) tentou dar uma ajuda ao “Rei do Baião”, mas de uma maneira bem curiosa. Usando toda a sua influência e malandragem, espalhou pela grande mídia que os Beatles iriam gravar “Asa Branca”, maior sucesso da carreira de Gonzaga. Muita gente acreditou, e a mentira de Imperial rendeu entrevistas em revistas e jornais com Luiz Gonzaga, trazendo-o de novo à mídia. Quanto aos Beatles, o máximo que aconteceu foi que naquele ano, quando lançaram o famoso “Álbum Branco”, dentre as faixas daquele álbum duplo estava a canção “Blackbird”. Coincidência ou não, ao menos pelo título, teria mais a ver com “Assum Preto”, canção lamentosa que é outro sucesso da carreira de Gonzaga.


Beatles gravando "Asa Branca"? Carlos Imperial espalhou o boato para ajudar Luiz Gonzaga a sair do ostracismo.

Mas aos poucos, a barreira entre Gonzaga e os “cabeludos” começava a diminuir. Os tropicalistas demonstravam admiração pelo trabalho de Gonzaga. Muito antes de se tornar famoso em todo país, Gilberto Gil chegou a tocar sanfona, ainda na adolescência nos anos 1950, por influência das músicas de Luiz Gonzaga que ele ouvia no rádio. O autointitulado álbum de Gilberto Gil lançado em 1969, antes de partir para o exílio em Londres, trazia uma regravação de “17 Légua e Meia", de Humberto Teixeira e Carlos Barroso, gravada originalmente por Luiz Gonzaga em 1949. Caetano Veloso, durante o exílio em Londres, gravou em 1971 o seu álbum com cinco faixas em inglês e duas faixas em português, uma delas, “Asa Branca”, numa versão completamente melancólica. O baiano de Santo Amaro da Purificação demonstra mais uma vez apreço por Gonzaga no álbum seguinte, Transa, gravado em Londres e lançado em janeiro de 1972. Na canção “You Don't Know Me”, que mescla versos em inglês e em português, Caetano toma emprestado versos da música “Hora do Adeus”, gravada por Luiz Gonzaga em 1967: “Eu agradeço ao povo brasileiro / Norte, Centro, Sul, inteiro / Onde reinou o baião”.

Em 1971, Gonzaga lança o álbum O Canto Jovem de Luiz Gonzaga, uma tentativa de reconquistar o público urbano, sobretudo do Sudeste. A capa mostra um Gonzaga sem o seu traje tradicional, mas vestido como um homem urbano, e ao fundo um edifício de cidade grande. No repertório, músicas de compositores em sua maioria jovens na época como a dupla Antônio Carlos & Jocafi, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Geraldo Vandré entre outros.

Contudo, foi em março de 1972 que a redescoberta de Luiz Gonzaga acontece por completo e de maneira arrebatadora. Já com Gil e Caetano de volta do exílio, eles de alguma forma fomentaram um processo de revitalização da carreira de Gonzaga. Sob a direção de Jorge Salomão, roteiro de José Carlos Capinam e ambientação cenográfica de Luciano Figueiredo e Oscar Ramos, Luiz Gonzaga começa uma temporada de shows no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, intitulada “Luiz Gonzaga Volta Pra Curtir”. Pela primeira vez, o “Rei do Baião” se apresentava na Zona Sul carioca, para uma plateia em sua maioria formada jovens “cabeludos”, intelectuais, estudantes - alguns deles de esquerda, fazendo oposição ao regime ditatorial da época - e que estavam ali para ver Luiz Gonzaga apresentar a sua música autêntica do sertão nordestino e ouvir os seus “causos”.

Naquela temporada de shows no Teatro Tereza Rachel, Luiz Gonzaga foi acompanhado pelo então jovem Dominguinhos (sanfona) - que havia recém deixado de usar o nome Neném e trocado para Dominguinhos – Maria Helena (voz, triângulo e cabaça), Toinho (triângulo), Raimundinho (reco-reco), Ivanildo Leite (zabumba, gonguê e triângulo), e uma novidade, uma guitarra elétrica e um baixo elétrico, instrumentos até então estranhos no forró, mas comuns no rock, executados nos shows pelo guitarrista Renato Piau e pelo baixista Porfírio Costa. Luiz Gonzaga havia enfim baixado a guarda com o som dos “cabeludos”.


Luiz Gonzaga e Maria Helena no show antológico no Teatro Tereza Rachel, em 1972.

A temporada no Teatro Tereza Rachel foi um enorme sucesso de público e de crítica que puderam ver Gonzaga desfilar no palco os seus maiores sucessos e ouvi-lo contar “causos” e histórias da sua vida no sertão e na cidade grande. Um dos “causos” foi sobre a época em que Gonzaga foi tocar numa república estudantil logo quando chegou ao Rio de Janeiro, nos anos 1930. Um dos estudantes era Armando Falcão, que estava presente no show e na ocasião era um político importante ligado aos militares da ditadura.

Luiz Gonzaga.
O show da noite do dia 24 de março de 1972 foi todo gravado, porém as fitas ficaram guardadas por quase trinta anos. Somente em 2001, doze anos após a morte de Luiz Gonzaga, o show da temporada antológica do velho “Lua” foi lançado em CD com o título Luiz Gonzaga Ao Vivo – Volta Pra Curtir. O registro traz clássicos da carreira do “Rei do Baião” que não poderiam faltar como “Asa Branca”, “Boiadeiro”, “Assum Preto”, “Respeita Januário” e “Xote das Meninas”. A apresentação foi muito bem capturada pela gravação, e o ouvinte consegue ser transportado ao Teatro Tereza Rachel, em 1972. A guitarra executada por Renato Piau fica ao fundo fazendo uma base de maneira competente. Uma pena que o espetáculo não foi registrado em vídeo.

A temporada no Teatro Tereza Rachel pode até não ter sido tão rentável para Luiz Gonzaga, que por causa de compromissos com aquela temporada no teatro, não podia tocar em outras praças. Mas ajudou a resgatar a carreira de um dos artistas mais importantes da música popular brasileira em todos os tempos. Pode-se afirmar que foi um divisor de águas. Se o público jovem redescobriu o “Rei do Baião”, este por sua vez reviu os seus conceitos, tornou-se um artista um pouco mais flexível.

A partir daquele espetáculo, Luiz Gonzaga adotou a guitarra elétrica nos seus discos, diferente de Jackson do Pandeiro (1919-1982) que se manteve resistente à guitarra até o final da década de 1970, quando passou a incluí-la nas suas gravações. No álbum Luiz Gonzaga, de 1973, foi empregado o uso da guitarra elétrica, do baixo e da bateria, como se pode perceber em faixas como “O Fole Roncou” e “Baião de São Sebastião”. O emprego desses instrumentos não descaracterizou a musicalidade de Gonzaga. Acabou sendo uma tendência seguida a partir dos anos 1970 por outros artistas de forró como Trio Nordestino e Genival Lacerda, o que acabou por modernizar o forró, o xote e a outros ritmos populares do interior nordestino sem tirar deles a essência. E isso, direta ou indiretamente, passa pela temporada de shows ao vivo no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, em 1972, que mudou a carreira de Gonzaga.  

Faixas

01-"Boiadeiro" (Klecius Caldas – Armando Cavalcante)
     "Cigarro de Paia" (Armando Cavalcante - Klecius Caldas)

02-"Moda da Mula Preta" (Raul Torres)
      "Lorota Boa (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)

03-"Siri Jogando Bola" (Luiz Gonzaga – Zé Dantas)
     "Macapá" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)

04-"Qui Nem Giló" (Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira)
     "Oiá Eu Aqui de Novo" (Antonio Barros)

05-"Asa Branca" (Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira)
     "A Volta da Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)

06-"Assum Preto" (Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira)
     "Ana Rosa" (Humberto Teixeira)

07-"Hora do Adeus" (Luiz Queiroga – Onildo Ameida)

08-"Estrada de Canindé" (Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira)
     "Respeita Januário"' (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)

09-"Numa Sala de Reboco" (José Marcolino – Luiz Gonzaga)
    "O Cheiro da Carolina" (Amorim Roxo - Zé Gonzaga)
     O Xote das Meninas" (Luiz Gonzaga - Zé Dantas)

10-"Adeus, Rio" (Luiz Gonzaga – Zé Dantas)
     "Aquilo Bom (Garotas do Leblon)" (Luiz Gonzaga - Severino Ramos)

11-"No Meu Pé de Serra" (Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira)
     "Baião" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)

12-"Pau de Arara" (Guio de Moraes – Luiz Gonzaga)
     "Juazeiro" (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira)

13-"Derramaro O Gai" (Luiz Gonzaga – Zé Dantas)
     "Imbalança" (Luiz Gonzaga - Zé Dantas)

14-"A Feira de Caruaru" (Onildo Ameida)

15-"Olha A Pisada" (Luiz Gonzaga – Zé Dantas)
     "Boiadeiro" (Armando Cavalcante - Klecius Caldas)



Ouça na íntegra Luiz Gonzaga Ao Vivo -
Volata Pra Curtir

10 discos essenciais: synthpop

 


Até meados dos anos 1970, os sintetizadores eram instrumentos que estava fora do alcance dos "pobres mortais". Esses "brinquedinhos" eram caríssimos, e apenas os grandes astros do rock e da música pop faziam uso deles. No rock progressivo, os sintetizadores eram praticamente instrumentos obrigatórios, e bandas como Pink Floyd, Yes e Emerson Lake & Palmer se destacaram no uso desses instrumentos. Mas na música pop, artistas como Stevie Wonder, também utilizaram os recursos dos sintetizadores nos seus trabalhos.

Porém, no final dos anos 1970, com o avanço da tecnologia, os sintetizadores se tornaram mais compactos e mais baratos. Além disso, se tornaram mais práticos e fáceis de serem tocados, trazendo recursos que permitiam programar sequências, notas, um andamento inteiro de uma música. Era praticamente uma banda num só instrumento, e a preços acessíveis.

Isso fez com que na Inglaterra, uma molecada ávida, adquirisse esses instrumentos eletrônicos, e com o lema do "faça-você-mesmo" tomado emprestado do punk rock, partiu com a cara e a coragem para fazer suas próprias músicas e formar suas próprias bandas, ainda que tivesse o mínimo de conhecimento musical possível.

Sob a influência de Kraftwerk, David Bowie (fase Low) e do músico e produtor Giorgio Moroder, uma nova geração de cantores e bandas surgia praticando uma música pop eletrônica simples, ritmo dançante, refrãos "chicletes" e forte apelo comercial. Batizada a princípio de tecnopop, o synthpop (abreviação de synthetizer pop) surgia no esplendor do pós-punk por volta de 1979 quando houve um desdobramento para novas vertentes musicais após a explosão punk. O synthpop era uma delas. Gary Numan, The Human League, Depeche Mode, Soft Cell, Ultravox, Yazoo entre outros fizeram parte dessa primeira geração do synthpop.

Tendo a década de 1980 como o seu período áureo, o synthpop resistiu ao tempo. O seu principal legado foi popularizar os sintetizadores (assim como o rock fez com a guitarra elétrica) e influenciou as mais diversas tendências da música pop eletrônica, como a house music, o electro, EBM, o techno e outras tantas vertentes.


The Man Machine (EMI, 1978), Kraftwerk. O quarteto alemão de Düsseldorf vinha do elogiadíssimo álbum Trans-Europe Express (1977), quando lançou em 1978, The Man Machine, um trabalho onde a banda abordou temas como glamour decadente e a robotização da sociedade. A capa foi inspirada nos trabalhos do artista plástico e designer gráfico russo El Lissitzky (1890-1941), um dos mais importantes nomes da vanguarda da arte russa de meados do século XX. Foi a partir de The Man Machine que o Kraftwerk passou a usar nas suas apresentações, manequins iguais aos integrantes da banda, que programados, executavam movimentos como se tivessem tocando os instrumentos.  Em The Man Machine, o Kraftwerk explora ritmos mais dançantes, vozes robóticas e batidas percussivas repetitivas com um apelo pop como se pode notar em faixas como "The Model", "The Robots", "Spacelab" ou a faixa-título. Pioneiro da sonoridade eletrônica e de temáticas futuristas dentro da música pop, o Kraftwerk se tornaria através de The Man Machine uma das principais influências para artistas de synthpop com Gary Numan, New Order, Depeche Mode, The Human League entre outros.  
   

The Pleasure Principle (Beggars Banquet, 1979), Gary Numan. The Pleasure Principle  é o álbum de estreia da carreira solo de Gary Numan, o primeiro astro do synthpop a fazer sucesso. A capa mostra Numan de terno com uma postura "robótica" e um olhar frio, remetendo ao Kraftwerk. Aliás, a banda alemã é uma das referências sonoras no álbum, assim como também é perceptível influências de Low, álbum de David Bowie de 1977. O synthpop presente em The Pleasure Principle é amparado nas camadas de sintetizadores que criam toda uma atmosfera sonora futurista e em alguns momentos sombria, combinadas com o baixo e a bateria emprestadas do rock. "Engineers", "Films", "Metal" e "Airlane" são faixas que merecem destaque. Contudo é "Cars" e os seus riffs marcantes e futuristas de sintetizadores, o grande hit do álbum e o maior sucesso da carreira de Numan. 


Dare ( Virgin Records, 1981), The Human League. Terceiro álbum do Human League,
Dare representa o momento de reestruturação na banda inglesa com a chegada de novos membros (principalmente as vocalistas Joanne Catherall e Susan Ann Suley) e de sua reorientação musical, deixando o experimentalismo eletrônico dos dois primeiros álbuns e indo em direção a uma sonoridade pop mais dançante e comercial. Trazendo musicas com temas que giram em torno de amor, paixão e ciúme, Dare foi o álbum de maior sucesso do Human League. Alcançou o 1º lugar da parada inglesa de álbuns e emplacou os hits "The Sound Of The Crowd", "Love Action" e "Open Your Heart". Porém, "Don't You Want Me" é o grande hit do álbum e o maior da carreira do Human League, que invadiu as rádios e as pistas de dança em todo o mundo naquele começo dos anos 1980.


Non-Stop Erotic Cabaret (Vertigo, 1981), Soft Cell. Um formato que se tornou uma tradição entre os grupos de synthpop foi a dupla: um vocalista e um tecladista. Uma das primeiras duplas a despontar no synthpop foi o duo inglês Soft Cell, formado pelo vocalista Marc Almond e o tecladista Dave Ball. Non-Stop Erotic Cabaret, álbum de estreia da dupla, aborda temas que giram em torno de sexo, luxúria, pornografia, homossexualidade e a vida noturna. A música do Soft Cell ficou marcado pelo som simples e cheio de efeitos do sintetizador pilotado por Ball e pelos vocais afetados e teatralizados de Marc Almond. Para o álbum, o Soft Cell regravou "Tainted Love", um hit de Gloria Jones de 1964, que ganhou uma versão synthpop e acabou se tornando o maior sucesso da carreira da dupla. "Bedsitter", "Sex Dwarf" e "Entertain Me" são outras faixas que merecem algum destaque.


Upstairs At Eric´s (Mute Records, 1982), Yazoo. Logo após deixar o Depeche Mode no final de 1981, o tecladista Vince Clark juntou-se à cantora Alison Moyet e com com ela formou a dupla Yazoo, em 1982. O som da dupla ficou marcado pelo pop eletrônico dos sintetizadores de Clark e a voz potente de Moyet. A dupla teve uma duração breve: dois anos e dois álbuns. O primeiro álbum, Upstairs At Eric´s, é quem traz o maior sucesso do duo inglês, "Don't Go", 3º lugar na parada britânica. Na edição norte-americana do álbum, foi incluída "Situation", outro grande hit do Yazoo, mas que fora lançada na Inglaterra apenas como lado B do single de "Only You", esta presente também  Upstairs At Eric´s. Com o fim da dupla em 1983, Moyet saiu em carreira solo, enquanto Clark partiu para a formação de outros grupos, sendo o mais bem sucedido o Erasure, duo que ele formou com o cantor Andy Bell em 1985, e que alcançou um enorme sucesso entre o final dos anos 1980 e começo dos anos 1990.


Songs FromThe Big Chair ( Mercury, 1985), Tears For Fears. O synthpop já havia deixado de ser uma "exclusividade" da cena alternativa europeia desde que Dare, do Human League, havia estourado em 1981 puxado pelo megahit planetário "Don't You Want Me". Mas com Songs FromThe Big Chair, segundo álbum do duo inglês Tears For Fears, o gênero eletrônico alcançou níveis de popularidade mais elevados, alcançando outros nichos de público. Em Songs FromThe Big Chair, o Tears For Fears fez uma perfeita combinação de camadas sonoras de sintetizadores com riffs de guitarra e uma bateria poderosa. O álbum alcançou o 1º lugar na Billboard 200, nos Estados Unidos e 2º lugar no Reino Unido. As faixas "Shout", "Everybody Wants To Rule The World" e "Head Over Heels" tornaram-se grandes hits e impulsionaram as vendas de Songs FromThe Big Chair que chegou à marca de 9 milhões de cópias vendidas, colocando o Tears For Fears entre os nomes mais populares do cenário pop mundial dos anos 1980. Para a promoção do álbum, foi montada uma gigantesca turnê internacional que durou até o final de 1986.


Introspective (EMI, 1988), Pet Shop Boys. Após os dois primeiros elogiados álbuns, os Pet Shop Boys alcançaram popularidade mundial com o terceiro álbum, Introspective, quer vendeu mais de 4,5 milhões de cópias. Introspective apresenta seis longas faixas, mas que no entanto, teve quatro dessas faixas lançadas como singles mais curtas destinadas ao rádio, e também em versões remix para as pistas.  "It's Alright", "Left To Me Own Devices", "Domino Dancing" e "Always On My Mind" foram os grandes hits do álbum. "Always On My Mind" é uma regravação de um antigo sucesso de Elvis Presley, que no álbum foi remixada com uma outra faixa, o acid house "In My House". Antes de lançarem Introspective, os Pet Shop boys haviam lançado no final de 1987, um single de "Always On My Mind" após participarem de um especial de TV em homenagem a Elvis. E foi a versão do single, mais curta do que a do álbum, que fez sucesso mundial e foi 1º lugar na Billboard Hot 100, nos Estados Unidos.


Technique (Factory, 1989), New Order. A temporada que o New Order passou em
Ibiza, em 1988, gravando material para um novo álbum acabou exercendo uma grande influência no som da banda. O grupo inglês esteve em contado com a cena de acid house de Ibiza, Espanha, que fervilhava naquele momento. A conclusão das gravações do álbum na Inglaterra. Embora em algumas faixas o estilo que consagrou a banda de Manchester se mantenha, em outras, percebe-se que o New Order incorporou referências do acid house em seu som como se pode notar em "Fine Time", "Mr. Disco" e no grande hit do álbum, "Round And Round". Technique foi o primeiro álbum do New Order a alcançar o 1º lugar da parada do Reino Unido.


Violator (Mute, 1990), Depeche Mode. Com o álbum Music For The Masses, de 1987, o Depeche Mode conquistou o mercado norte-americano e por tabela, o resto do planeta. Já naquele álbum, a banda inglesa demonstrava um processo de transformação, se distanciando do pop eletrônico alegrinho do começo da carreira e seguindo em direção para uma sonoridade mais madura e um tanto quanto sombria. Essa nova orientação se tornaria mais evidente no álbum seguinte, Violator, lançado em 1990. Tal mudança de rota musical consolidada em Violator não afetou a popularidade conquistada pela banda com Music For The Masses. Ao contrário, foi a consagração do Depeche Mode. Violator teve um ótimo desempenho comercial ( 2º lugar na para de álbuns do Reino Unido e 7º no dos Estados Unidos), levando a banda a uma grande turnê mundial, passando pelos Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão.
"Personal Jesus"e "Policy Of Truth" fizeram sucesso, mas nada comparável à popularidade planetária de "Enjoy The Silence", a principal faixa de Violator.


Sound Of Silver (DFA Records, 2007), LCD Soundsystem. Formada em 2002, em Nova York, Estados Unidos, a LCD Soundsystem é uma das mais aclamadas bandas da música pop deste começo de século XXI. LCD Soundsystem é uma prova de que o synthpop continua vivo e e ainda exerce influência na música pop contemporânea. Liderada pelo músico e produtor James Murphy, a banda norte-americana faz um combinado musical de pop eletrônico, rock, pós-punk e house music. Sound Of Silver resume muito bem a proposta do LCD Soundsystem que fica na fronteira entre o rock alternativo e o pop eletrônico, dando ênfase aos sintetizadores e às guitarras. Se "Get Innocuous" traz referências de Kraftwerk e David Bowie (fase Low ), "North American Scum" mostra a veia roqueira da banda, enquanto que "All My Friends", "Someone Great" e "Sound Of Silver" são puro synthpop.         


10 discos essenciais: Soul music/R&B

 


A história da soul music e do R&B se confundem, estão mais juntas e conectadas do que se imagina. O R&B, a princípio, era chamado de rhythm and blues, e surgiu por volta da década de 1940, nos Estado Unidos, como um desdobramento do urban blues, vertente que eletrificou o blues que antes era apenas acústico. Sua principal característica quando surgiu era o andamento mais rítmico e acelerado do que o do blues, e desprovido de improvisações. Porém, alguns críticos musicais afirmam que o termo rhythm and blues teria sido criado pela indústria fonográfica e pela imprensa musical norte-americanas no início dos anos 1940 para classificar numa só categoria nas listas das paradas discos, gêneros musicais negros como gospel, jazz e blues. Antes, o termo usado era race music, considerado um tanto quanto ofensivo.

O rhythm and blues serviu de base para o surgimento do rock'n'roll nos anos 1950. Naquela mesma década, o seu encontro com o gospel daria origem à soul music. Do rhythm and blues, a soul music herda o ritmo, a levada, enquanto que do gospel, recebe o canto imponente e cheio de melismas. Mas se o gospel é em essência, religioso, o soul é completamente profano.

A soul music ganha grande projeção mundial a partir da década de 1960, graças a gravadoras como Motown e Stax, e exercerá forte influência na produção de música pop nas décadas seguintes. Já o rhythm and blues irá passar por várias metamorfoses e novos significados. Da década de 1970 em diante, passou a ser identificado apenas com as iniciais "R&B", e torna-se um termo classificatório para englobar a soul music, o funk (outro gênero que ajudou a criar) e a disco music.

As novas tecnologias e fusões com outros gêneros nos últimos quarenta anos, fizeram brotar novas vertentes a partir da soul music e do R&B. Na década de 1990, nasce o R&B contemporâneo, que surge da mistura do funk e soul com as batidas eletrônicas e o canto falado do hip hop. O neo soul guarda algumas semelhanças com o R&B contemporâneo, mas se difere desse ao carregar consigo a influência da soul music dos anos 1970. Esses são apenas dois exemplos de como a soul music e o R&B continuam vivos e servindo de referência na música pop contemporânea.


Modern Sounds In Country and Western Music (ABC/Paramount, 1962), Ray CharlesConsiderado o melhor álbum da carreira de Ray Charles, Modern Sounds In Country and Western Music foi um desafio para o artista. Charles estava decidido a gravar um disco onde faria releitura pessoal de alguns sucessos da country music, o que deixou o presidente da sua gravadora desesperado, pois acreditava que seria um enorme fracasso, um astro negro reinventando canções de branco numa América racista. No entanto, o disco foi um grande sucesso comercial. Em Modern Sounds In Country and Western Music, Ray Charles fez regravações do universo da country music como "Hey, Good Lookin'", de Hank Williams e até o rock caipira "Bye, Bye, Love", dos Everly Brothers, em versões soul e jazzística.


Otis Blue/Otis Redding Sings Soul (Stax/Volt, 1965), Otis ReddingOtis Redding viveu pouco, apenas 26 anos. Morreu muito jovem, no auge da carreira, num desastre aéreo em 10 de dezembro de 1967. Apesar da vida curta, Otis conseguiu cravar o seu nome na história da soul music. Seu terceiro álbum de estúdio, Otis Blue/Otis Redding Sings Soul, de 1965, é uma das obras-primas do selo Stax, um patrimônio da soul music e grande rival da Motown. O disco traz covers como "(I Can't Get No) Satisfaction", dos Rolling Stones - numa interpretação bem pessoal de Otis -"My Girl", dos Temptations e "Change Gonna Come", de Sam Cooke, outro gênio da soul music, morto em 1964. Mas o disco tem também canções de Otis como "Respect", que ganharia uma versão definitiva com Aretha Franklin, em 1967, versão que é a mais conhecida do grande público.


I Never Loved A Man The Way I Love You (Atlantic Records, 1967), Aretha FranklinAretha Franklin era uma aposta da Columbia Records para ser uma diva do jazz. Mas a visão equivocada da gravadora e a má divulgação dos discos da jovem cantora só empurravam a sua carreira para baixo. Bastou um produtor de uma gravadora concorrente, Jerry Wexler, da Atlantic Records, que com um olhar mais apurado, percebeu que aquela garota era uma joia bruta em mãos erradas, e decidiu apostar naquele jovem talento. I Never Loved A Man The Way I Love You foi a estreia de Aretha na Atlantic Records, e revelou para o mundo, um "vulcão" em forma de cantora que estava dentro dela. A grande faixa do álbum é a releitura de "Respect", de Otis Redding, que com Aretha, ganhou uma versão libertária e definitiva.


What's Going On (Motown, 1971), Marvin Gaye. What's Going On foi uma grande revolução na soul music ao abordar temas mais densos como a guerra, a miséria e os problemas ambientais. Marvin bateu pé firme para lançar o álbum, pois a gravadora Motown estava acostumada a lançar discos com temáticas mais amenas e românticas. A companhia torceu o nariz e acreditava que o disco seria um fracasso. Contrariando as previsões da gravadora, o álbum se tornou um grande sucesso e as músicas "Mercy Mercy Me (The Ecology), "Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)" e a faixa-título conquistaram o público. What's Going On representou a autonomia artística de Gaye que queria fugir das canções "açucaradas" e do cabresto imposto pela Motown. O êxito do álbum incentivou outros astros da gravadora a buscarem a sua liberdade criativa e artística como Stevie Wonder, que também conseguiu dobrar a Motown com o álbum duplo Songs In The Key Of Life (1976), também tocando em assuntos espinhosos como o racismo.


Super Fly (Custom Records, 1972), Curtis Mayfield. Terceiro álbum da carreira solo de Curtis Mayfield, Super Fly é uma trilha sonora do filme de mesmo nome na linha do "blaxplotation", uma tendência cinematográfica norte-americana produzida por negros para o público negro e que esteve em evidência no começo dos anos 1970. Enquanto o filme foi um fracasso de bilheteria, que aborda o ambiente barra pesada do Harlem, em Nova York, a trilha foi um grande sucesso comercial. Em Super Fly, o disco, Curtis se mostra um artista brilhante cantando e produzindo uma obra magistral: canto em falsete, arranjos de cordas impecáveis, linhas de baixo pulsantes, guitarras com efeitos wah-wah hipnóticos. Nas faixas "No Thing On Me" e "Freddie's Dead", Curtis tece críticas ao tráfico de drogas.


Greatest Hits (Hi, 1976), Al Green. Certamente o cantor CeeLo Green e o vocalista da banda Vintage Trouble, Ty Taylor, devem ter ouvido bastante Al Green, uma das maiores vozes da soul music de todos os tempos. Green pertence a uma nobre linhagem da soul music da qual fazem parte outros dois grandes mitos, os finados Sam Cooke e Otis Redding. O cantor teve o seu auge entre 1969 e 1976, quando emplacou dezenas de hits e implantou um estilo de cantar que serviu de modelo para muita gente. Greatest Hits é uma compilação que reúne os maiores sucessos de Green da sua fase áurea e que se tornaram obras-primas da soul music como "Let's Stay Together", "Look What You Done For Me", "Call Me" e "I'm Still In Love With You".


Songs In The Key Of Life (Motown, 1976), Stevie Wonder. A Motown havia apostado uma grana alta na renovação de contrato com Stevie Wonder, após uma sequência de álbuns muito bem avaliados pela crítica e com ótimos desempenhos comerciais. No entanto, a demora na produção do ambicioso Songs In The Key Of Life preocupou a Motown. Porém, a espera do lançamento do álbum valeu à pena. Além de ser álbum duplo, Songs In The Key Of Life trazia de brinde um EP com mais 4 faixas, um deleite total para os fãs. Abordando temas como amor, racismo, política, fé e conflitos sociais, Songs In The Key Of Life emplacou hits memoráveis como “Isn't She Lovely” e “Sir Duke”, conquistou quatro prêmios Grammy, e tornou-se um dos mais importantes álbuns da história da soul music e do R&B.


Thriller (Epic,1982), Michael Jackson. Se com Off The Wall (1979), Michael Jackson havia se transformado num pop star adulto, com Thriller, ele transformou-se num mito. Em Thriller, Michael repetiu a dobradinha com o produtor Quincy Jones que deu certo em Off The WallThriller é até hoje o maior fenômeno comercial da história da indústria fonográfica, com a estimativa de mais de 100 milhões de cópias vendidas. O sucesso de Thriller apoiou-se na bem equilibrada dosagem de pop, funk, R&B, rock e baladas românticas. Mas sem sombra de dúvidas, os videoclipes de "Billie Jean", de "Beat It" e de "Thriller", centrados nas coreografias hipnóticas de Michael Jackson, ajudaram não só a alavancar as vendas do álbum como também inauguraram a era dos videoclipes.


Live At The Harlem Square Club, 1963 (RCA, 1985), Sam Cooke. Gravado em janeiro de 1963, o material gravado ao vivo no Harlem Square Club passou mais de vinte anos arquivado. A RCA havia abortado o projeto de lançamento por achar as gravações muito cruas, agressivas. Esse material foi redescoberto em 1985 e lançado em disco naquele ano, e dá para entender o motivo da RCA ter desistido de lançá-lo. Naquele show, Sam Cooke fez um show visceral, diferente do Sam Cooke doce e suave que a gravadora e o grande público haviam se acostumado. Ele canta de uma maneira que se aproxima do estilo de Otis Redding. Num show para um público exclusivamente negro, Cooke se mostra à vontade e se entrega completamente. Não à toa, Live At The Harlem Square Club, 1963 está entre os melhores álbuns ao vivo de soul music
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Back To Black (Island,2006), Amy Winehouse. Segundo álbum da carreira de Amy Winehouse (1983-2011), Back To Black foi um dos maiores fenômenos da indústria fonográfica deste começo de século XXI. Com um pé no soul, no jazz e no R&B dos anos 1960, e o outro na contemporaneidade, Back To Black catapultou Amy Winehouse para o estrelado da música pop mundial. Neste álbum, Amy contou com o apoio da The Dap-Kings, banda de apoio de Sharon Jones, cantora veterana que se notabilizou por desenvolver um estilo musical totalmente influenciado pela soul music e R&B dos anos 1960.  Ao mesmo tempo que representava a consagração de Amy, Back To Black representou também o começo da decadência precoce da jovem cantora inglesa, que culminaria na sua morte em 2011. Amy e seu Back To Black foram responsáveis por abrir caminho para uma nova geração de cantoras inglesas que carregam nos seus "DNA's" musicais as referências da soul music clássica como Adele, Duffy e Dionne Bromfielde.

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