quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

REVIEW NOFX – Single Album

 

A banda punk NOFX passeia pelo lado sombrio da vida em “Single Album”

Após um hiato de cinco anos sem lançar um álbum de inéditas, a banda californiana de punk rock/hardcore NOFX dá prosseguimento a discografia com “Single Album”. Lançado em 26 de fevereiro, o disco reúne dez canções com letras obscuras que discorrem sobre assuntos variados como vício em drogas, envelhecimento, morte, sexualidade, término de relacionamentos amorosos, solidão, o problema das armas nos EUA, dentre outros assuntos. Segundo disse o baixista e vocalista Fat Mike em recente entrevista para a revista Rolling Stone: “Não fazemos álbuns ou músicas engraçadas. Somos engraçados nos shows, mas nossas músicas são tristes e depressivas. Somos meio como o cineasta Michael Moore, que faz documentários brilhantes sobre assuntos sérios, mas de uma forma divertida, e isso funciona perfeitamente“.

O disco abre com a excelente “The Big Drag”, uma reflexão sobre o envelhecimento e a necessidade de enfrentar os problemas que surgem ao longo da vida com algum otimismo, ritmicamente ela lembra bastante o trabalho da banda punk britânica Wire, “I Love You More Than I Hate Me” é um lamento veloz sobre o término de um relacionamento amoroso, “Fuck Euphemism” lida com os preconceitos e rótulos que o baixista recebe por ser adepto do crossdressing, “Fish In A Gun Barrel” é um ska/reggae que aborda a necessidade de se estabelecer um controle efetivo de armas nos EUA, em “Birmingham” Fat Mike narra sua própria história em relação ao vício em drogas mencionando situações vividas na cidade que dá título à canção, “Linewleum” é uma paródia sobre “Linoleum” – hit da banda lançado em 1994 e tocado a exaustão por diversas bandas iniciantes, “My Bro Cancervive Cancer” é uma paulada no melhor estilo punk rock californiano, “Grieve Soto” é uma homenagem a Steve Soto, fundador da banda punk The Adolescents, “Doors and Fours” discorre sobre morte e overdose fazendo explícita referência à Los Angeles dos anos 80, “Your Last Resort” fecha o álbum enganando o ouvinte no primeiro minuto com uma suave melodia tocada ao piano antes de explodir num punk rock veloz.

“Single Album” explora diferentes sonoridades sem se afastar do estilo que consagrou a banda, é melodicamente consistente e reúne letras interessantíssimas que fogem do lugar comum. Um trabalho maduro e intenso que demonstra a relevância da banda nos dias atuais . Vale a pena conferir.

FICHA TÉCNICA

Artista: NOFX

Título: Single Album

Gravadora: Fat Wreck Chords

Produção: D-Composers e Jason Livermore

Data de Lançamento: 26 de fevereiro de 2021.

Duração: Aprox. 36m.

Faixas

01. The Big Drag
02. I Love You More Than I Hate Me
03. Fuck Euphemism
04. Fish In A Gun Barrel
05. Birmingham
06. Linewleum
07. My Bro Cancervive Cancer
08. Grieve Soto
09. Doors and Fours
10. Your Last Resort


REVIEW Blackmore’s Night – Nature’s Light


 Veterano guitar hero britânico segue explorando a música renascentista em novo álbum do Blackmore’s Night

Fundado em meados de 1997 pelo guitarrista Ritchie Blackmore (ex-Deep Purple e Rainbow) e por sua esposa – a vocalista e compositora Candice Night – a banda Blackmore’s Night apresenta um trabalho que mistura a música renascentista europeia com elementos do pop e do rock. A sonoridade é predominantemente acústica, ao contrário dos trabalhos anteriores do lendário guitarrista britânico, muito associados ao som da Fender Stratocaster e dos amplificadores Marshall.

Décimo primeiro álbum gravado em estúdio pela banda, “Nature’s Light” vem à luz após um hiato de seis anos, período em que a banda lançou alguns EP’s natalinos e Blackmore retornou brevemente ao hard rock, realizando algumas apresentações pontuais pela Europa com uma nova encarnação de sua banda – o Rainbow.

Em termos de novidades, “Nature’s Night” segue a mesma toada dos trabalhos anteriores, misturando delicadas melodias acústicas dedilhadas por Blackmore com letras que discorrem sobre temas fantásticos e natureza. Nesta seara, destacam-se a faixa de abertura “Once Upon December”, que enfatiza a bela voz de Candice e a divertida “Going to the Faire”. Entretanto, os fãs da marcante sonoridade elétrica de Ritchie não se decepcionarão com as faixas instrumentais “Darker Shade of Black” e “Der Letzte Musketier”. Além disso, o álbum traz uma nova versão para “Wish You Were Here” – uma das canções favoritas dos fãs – presente no álbum de estreia “Shadow of the Moon”, lançado em 1998.

“Nature’s Light” é mais um trabalho que segue fiel à proposta do grupo de resgatar a música folclórica renascentista e fundi-la com a música pop contemporânea. Apesar de escassos os momentos, ainda é possível ouvir algumas faíscas sonoras que fulguram da surrada Stratocaster que alçou Ritchie Blackmore ao posto de guitar hero ao lado de bandas como Deep Purple e Rainbow. Em suma, um álbum honesto, agradável de se ouvir e despretensioso. 

FICHA TÉCNICA

Artista: Blackmore’s Night

Álbum: Nature’s Light

Data de lançamento: 12 de março de 2021

Gravadora/Selo: earMusic/Shinigami Records (Brasil)

Faixas:

01. Once Upon December

02. Four Winds

03. Feather In The Wind

04. Darker Shade Of Black

05. The Twisted Oak

06. Nature’s Light

07. Der Letze Musketier

08. Wish You Were Here

09. Going To The Faire

10. Second Element


Os 50 anos de Sticky Fingers, clássico dos Rolling Stones

 

Álbum marcou a estreia de Mick Taylor como membro efetivo da banda e legou pérolas como “Brown Sugar”, Wild Horses”, “Sister Morphine” e outras.

Apesar do sucesso mundial, os Rolling Stones passavam por momentos conturbados no final da década de 60 e início da de 70. Acontecimentos como a morte do guitarrista Brian Jones, o incidente que resultou na morte trágica de um fã durante apresentação da banda no Festival de Altamont, confrontos com o ex-empresário Allen Klein, rompimento com a gravadora Decca e o vício em drogas dos integrantes desenhavam um futuro nada animador no horizonte da banda.

“Sticky Fingers” começou a ser composto nesse contexto ainda em 1969, mas somente ganharia vida em 23 de abril de 1971, quando foi lançado em solo britânico (nos EUA o disco foi lançado com sete dias de atraso). Produzido por Jimmy Miller, trata-se de um retrato um tanto quanto sombrio, cujas letras abordam questões tradicionais ao rock’n’roll como relacionamentos amorosos, sexo e drogas.

A abertura fica a cargo do megahit “Brown Sugar”, uma faixa libidinosa que circunda em torno de um riff de guitarra irresistível. O cadenciado R&B “Sway” dá seguimento à obra e conta com um inspirado solo de guitarra de Mick Taylor e uma letra “atormentada” escrita por Jagger.

Embebida no blues e na música latina, “Can’t You Hear Me Knocking” possui um clima de jam session com solos que destacam a refinada técnica de Taylor. O lamento “You Gotta Move” é uma releitura para um blues composto por Mississippi Fred McDowell – um bluesman que viveu nos arredores da cidade de Memphis e foi muito importante para o desenvolvimento da técnica de slide.

“Bitch” é um rock vigoroso e sujo em que o saxofone de Bobby Keys e o trompete de Jim Price acentuam mais um grande riff composto por Keith Richards. “I Got the Blues”, por sua vez, é uma balada soul que remete ao material produzido por artistas do famoso selo americano Stax Records. A sombria “Sister Morphine” traça um relato agonizante que faz referências explícitas ao uso de drogas.

Duas canções do disco foram bastante influenciadas por Gram Parsons, amigo íntimo de Keith Richards e músico country que intergrou as bandas The Byrds e Flying Burrito Brothers. “Dead Flowers” é um country cínico, já a belíssima “Wild Horses”, uma das melhores baladas compostas pela banda.

A triste “Moonlight Mile” encerra o trabalho de maneira grandiosa com um lindo arranjo de cordas composto pelo maestro Paul Buckmaster, que havia trabalhado previamente com Elton John e David Bowie.

Passados cinquenta anos de seu lançamento, “Sticky Fingers” se mantém como um dos melhores trabalhos lançados pelos Rolling Stones em termos de composição e execução. Um registro histórico visceral que retrata fielmente os excessos e as angústias experimentadas pelos lendários roqueiros britânicos no início da década de setenta.

Curiosidades:

“Sticky Fingers” foi o primeiro álbum lançado pela banda utilizando o próprio selo (Rolling Stones Records)

A famosa logomarca da língua, criada pelo designer John Pasche e finalizada por Craig Braun, apareceu pelo primeira vez no encarte do álbum.

Foi o primeiro disco do grupo a alcançar o topo das paradas americanas e britânicas simultaneamente.

Faz parte da lista dos “200 álbuns definitivos do Rock and Roll Hall of Fame, figurando na quadragésima nona posição.

A célebre arte da capa criada por Andy Warhol foi censurada na Espanha pelo regime do sanguinário ditador Francisco Franco, assim como a faixa “Sister Morphine”, substituída por uma versão de “Let It Rock”, clássico de Chuck Berry.

FICHA TÉCNICA

Artista: The Rolling Stones

Álbum: Sticky Fingers

Selo: Rolling Stones Records

Data de lançamento: 23 de abril de 1971

Produtor: Jimmy Miller

Duração: Aprox.46m06s

Faixas:

01. Brown Sugar (Jagger/Richards)

02. Sway (Jagger/Richards)

03. Wild Horses (Jagger/Richards)

04. Can’t You Hear Me Knocking (Jagger/Richards)

05. You Gotta Move (Davis/McDowell)

06. Bitch (Jagger/Richards)

07. I Got The Blues (Jagger/Richards)

08. Sister Morphine (Faithful/Jagger/Richards)

09. Dead Flowers (Jagger/Richards)

10. Moonlight Mile (Jagger/Richards)

REVIEW Peter Frampton – Forgets the Words

 

A guitarra que canta: guitarrista britânico lança novo álbum instrumental composto por versões para canções de artistas que vão do pop ao jazz

Após ser diagnosticado como portador de miosite (uma doença degenerativa incurável de caráter autoimune que afeta a musculatura do corpo causando enfraquecimento e inflamações) em 2019, Peter Frampton resolveu realizar sua turnê derradeira antes que a doença progredisse ao ponto de impedi-lo de tocar guitarra. Infelizmente o giro precisou ser interrompido em meados de março de 2020 em razão da pandemia.

Antes que suas habilidades motoras fiquem comprometidas em decorrência da grave doença que o acomete, Frampton resolveu entrar em estúdio com sua banda para gravar o máximo de material possível. O primeiro álbum que veio à luz foi “All Blues” (2019) – um disco em homenagem ao blues composto por versões para clássicos do estilo e repleto de participações especiais.  “Forgets the Words” é o segundo álbum resultante de seus esforços e reúne apenas versões instrumentais para canções de artistas variados de gêneros que vão do jazz ao rock. Aliás, não é a primeira vez que Frampton se aventura nesta seara, já que em 2006 ele lançou o excelente “Fingerprints” – disco que lhe rendeu um Grammy na categoria de “Melhor Álbum Pop Instrumental” no ano de 2007.

“Forgets the Words” foi produzido pelo próprio artista em parceria com o experiente engenheiro de som e produtor Chuck Ainlay, conhecido pelos trabalhos com Mark Knopfler (ex-Dire Straits) e vários artistas da música country americana. O trabalho foi gravado na cidade de Nashville no estúdio de Frampton.

Sobre a seleção do repertório, Frampton mencionou o seguinte durante entrevista de divulgação para a revista Guitar World: “Este álbum é uma coleção de dez das minhas músicas favoritas. Minha guitarra também é uma voz e eu sempre gostei de tocar minhas melodias favoritas que todos nós conhecemos e amamos. Essas faixas são minha excelente banda e eu prestando homenagem aos criadores originais destas músicas maravilhosas. Foi muito divertido de fazer e eu realmente espero que você também goste”.

Ao longo de todo álbum, Frampton acentua as melodias presentes nas canções gravadas numa abordagem bastante jazzística que privilegia timbres límpidos, muitas variações de acordes, solos fluidos e precisos carregados de puro feeling. Dentre as escolhas do guitarrista, belas rendições para “Reckoner” (Radiohead), “Isn’t It a Pity” (George Harrison), “Avalon” (Roxy Music), “Are You Gonna Go My Way” (Lenny Kravitz), “Dreamland” (Jaco Pastorius), “I Don’t Know Why” (Stevie Wonder) e “If You Want Me to Stay” (Sly & the Family Stone).

O grande destaque do álbum fica para a emocionante homenagem prestada a David Bowie em “Loving the Alien”. Além de ter participado como guitarrista na banda do “camaleão do rock” durante a turnê “Glass Spider Tour”, realizada em 1987, os dois eram amigos de infância e frequentaram a mesma escola. Uma outra curiosidade: o pai de Frampton chegou a dar aulas de arte para Bowie durante três anos no colégio.

Apesar das atribulações concernentes à sua saúde, Frampton ainda é capaz de emocionar e empolgar com uma execução técnica sublime e bom gosto na escolha dos timbres de guitarra. Em “Forgets the Words” o guitarrista consegue dialogar com o ouvinte através de seu instrumento, transmitindo muita musicalidade e sentimento.

FICHA TÉCNICA

Artista: Peter Frampton

Álbum: Forgets the Words

Data de lançamento: 23 de abril de 2021

Gravadora: Universal Music Enterprises

Produção: Peter Frampton e Chuck Ainlay

Duração: 47m59s

Faixas

01. If You Want Me to Stay (Stewart)

02. Reckoner (Greenwood/Greenwood/O’Brien/Selway/Yorke)

03. Dreamland (Colombier/Pastorius)

04. One More Heartache (Moore/Robinson/Rogers/Tarplin/White)

05. Avalon (Ferry)

06. Isn’t It a Pity (Harrison)

07. I Don’t Know Why (Hardaway/Hunter/Riser/Wonder)

08. Are You Gonna Go My Way (Kravitz/Ross)

09. Loving the Alien (Bowie)

10. Maybe (Kennedy/Maderia)


Uma Pérola Redescoberta do Soul Brasileiro

 Após alguns anos fazendo seus shows nos bares de SP, o pernambucano Di Melo teve uma grande chance. Tudo graças a Alaíde Costa, que lhe arrumou um contrato com a EMI-Odeon. Em oito dias, com um time de músicos com nomes do quilate de Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte, e um suíngue nato, estava pronto o auto-intitulado “Di Melo”,

“Kilario” já acusa, estamos diante de um disco de Funk/Soul. E haja Groove, desde o Clavinet de Hermeto, os metais quentes, e um certo teor regional. O balanço não deve em nada para nenhum Sly & The Family Stones da vida, em pérolas como “A Vida em Seus Métodos diz Calma” e seu sofisticado Rhodes, ou os maravilhosos arranjos de cordas de “Minha Estrela”.

Há momentos extremamente atmosféricos, como a crônica da vida cosmopolita de “Comformópolis”, a balada “Alma Gêmea” ou o Tango de “Sementes”, que só destacam o brilho dos geniais arranjos.

O Samba-Rock à la Jorge Ben é o ponto de partida de “Pernalonga” (com um suíngue que chega perto da mão mágica de Jorge!) e “Se O Mundo Acabasse Em Mel”, com um bom-humor que emprega muita personalidade a esse caldeirão Pernambucano.

O disco se encerra numa linda “Indecisão”, com o inconfundível toque nordestino do Baião, nas flautas divinas (e quase onipresentes) de Hermeto.

Com esse disco, Di Melo poderia ter se tornado um dos cabeças da fervilhante cena do Soul brasileiro, mas um evidente desinteresse da gravadora em sua distribuição fez com que ele voltasse para Pernambuco, e, pelo menos para o grande público, desaparecesse, gerando até lendas sobre sua suposta morte. Mas, seu status de clássico Cult, adquirido no decorrer dos anos, fez com que, décadas depois, presenciássemos o ressurgimento do “Imorrível”, que em seus métodos diz calma!

As ondas que permanecerão eternas.

 Escrever sobre esta banda que tanto amo não está sendo fácil nesses dias sombrios após o falecimento do mestre Neil Peart. Quem ama sabe como é doloroso a perda de um ídolo e de um dos melhores músicos que já passaram por esta terra. No entanto, o legado fica e deve ser exaltado sempre; a maior homenagem que podemos fazer é lembrar e falar de sua obra. Então, vamos lá!!!

A chegada dos anos 80 para o Rush pode ser considerada como um ponto de transição para a banda, em vários aspectos. Após as tensas e exaustivas gravações do fantástico Hemispheres, de 1978, o Rush passou 1979 em branco, sem lançar nada – algo inédito na carreira do grupo até então – para recarregar as baterias e observar o que estava acontecendo na música à época.

E é sob esta óptica que PERMANENT WAVES, sétimo álbum de estúdio da banda, chegava às lojas logo no início de 1980, já mostrando as mudanças esperadas. No entanto, ainda com muito talento e virtuosismo, marca registrada do trio canadense. O clima estava mais leve, a banda voltou ao Canadá (o disco anterior foi gravado no País de Gales), estavam perto da família, reduziram os tempos das músicas e mergulharam de cabeça na sonoridade oitentista, com influência da New Wave e até mesmo do Reggae, além, é claro, do bom e velho Rock and Roll que Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart sempre fizeram.

R2

O álbum alcançou o terceiro lugar da parada canadense e americana e o quarto lugar na parada inglesa, além de atingir status de disco de platina e disco mais vendido da banda até então. O Rush estava caminhando para o seu ápice, com menos pressão e com inspiração e liberdade de sobra para compor o que quisessem.

Logo na abertura com ”The Spirit Of Radio” ficou claro a quebra de paradigma das progressivações complexas para uma canção altamente radiofônica que mistura Rock, Pop, New Wave, Reggae tudo em uma coisa só. Música quase que obrigatória em todos os shows da banda. Ainda assim, com um alto nível instrumental e com o título da música fazendo referência a uma estação de rádio local.

Mas não pense que não haverá complexidade em um disco do Rush, muito pelo contrário. ”Freewill” está aí para provar isso; o que parece simples de início, com um riff absolutamente ‘cantável’, se transforma num verdadeiro caos sonoro, com os três integrantes solando em cada um dos seus instrumentos. Uma banda qualquer poderia estragar uma música com isso, o Rush fez com que todas as vezes que essa música foi tocada ao vivo a plateia levante-se e aplauda, tamanho talento e precisão cirúrgica destes três músicos monstruosos. ESPETACULAR!

R4
”Jaccob’s Ladder” uma música altamente climática, com várias camadas. Jacob’s Ladder (Escada de Jacó) refere-se à uma conhecida passagem da Bíblia, localizada mais precisamente no Antigo Testamento. Em Gênesis 28:10-22 ocorre o relato de um sonho do personagem Jacó, no qual uma grande escada deixada na terra surgia, cujo topo levava ao céu. ”Entre Nous” uma música simples, porém com uma melodia e letras lindíssimas vão conduzindo o disco de maneira agradabilíssima a qualquer ouvido. A linda balada ”Different Strings” prepara o terreno para o Grand Finale. E QUE FINAL, selo Rush de qualidade.

Tenho até dificuldades de falar sobre ”Natural Science”, a maior música do disco, com duração de 9 minutos e meio. Letras sobre ficção científica (grande paixão de Neil Peart), vários andamentos, trocas de compassos, climas espetaculares, um dos melhores solos de guitarra de Lifeson, Geddy Lee destruindo nas 4 cordas e Neil Peart mostrando o porquê ser o melhor baterista da sua geração (na minha humilde opinião). Simplesmente fenomenal, o disco não poderia terminar de forma mais bela. QUE MÚSICA, senhoras e senhores!

Este disco serviu como o precursor do que viria a ser, até hoje, o disco mais famoso e mais aclamado da banda, o clássico Moving Pictures. Todavia, eu, como um fã ardiloso do Rush, considero Permanent Waves o melhor trabalho da banda. A escolha não é fácil, muitos concorrem a este posto, mas minha mente já está feita com relação a isso. Um disco que abre os anos 80 deixando bem claro que o Rush não estava para brincadeiras.

R3

E fica aqui mais uma vez a minha singela homenagem a uma banda que nunca cansarei de honrar e homenagear. Os prantos e a tristeza com a perda de um ídolo transformam-se em alegria e satisfação ao relembrar as maravilhas que Neil Peart deixou, ainda mais para quem toca bateria e sabe a importância que este cara teve para o instrumento. 

DAVID BREWIS, SOZINHO E BEM ACOMPANHADO!

 

Os britânicos Field Music, como já devem ter reparado, são motivo de veneração e acolhimento festivo aqui pela casa. Sempre que os irmão Brewis se movimentam em actividades de composição, a campainha vai dando toques para que a atenção não se perca na espuma dos dias. No caso, um primeiro lamiré surgido no início do mês referia-se à estreia a solo de David Brewis, o mano da guitarra, com o álbum "The Soft Struggles", o primeiro em nome próprio depois de uma trilogia com o projecto paralelo School of Language.


A aposta sugere alguma simplicidade e contenção instrumental, longe da sofisticação pop que é aplicada aos Field Music, para o que recebeu e promoveu a ajuda, entre outros, do clarinete e saxofone de Faye MacCalman, do piano e flauta de Sarah Hayes e do quarteto de cordas Crude Tarmac, um género de jazz acústico festivo registado rapidamente no estúdio de Sunderland que divide com o irmão Peter e que não deixou de adicionar, fraternalmente, a bateria às canções. 

O disco sairá em Fevereiro pela Daylight Saving Records, casa recentemente fundada para editar esta e outras aventuras extra(ordinárias) mas há já pré-encomenda limitada e assinada à venda pela Rough Trade com despacho marcado para Fevereiro.


SONDRE LERCHE, ESCRITOR E NÃO SÓ!


A mania salutar de escrever sobre a vida e a música não é desconhecida para Sondre Lerche. Mantendo um interesse crescente pela literatura e para além de dois livros infantis e artigos em jornais noruegueses, em 2020 publicou a coletânea "Alle sanger handler om deg"/"Every song is about you” onde se reunem vinte e três ensaios em inglês sobre músicos, concertos, canções e artistas como os Prefab Sprout, Fiona Apple, Milton Nascimento, Julia Holter ou Kylie Minogue. O bichinho da escrita volta agora a atacar com uma nova prosa! 


Em "Alene i Sagen"/"Alone in the Song", publicado recentemente pela editora de Oslo Flamme Forlag em "single box", formato entre um livro e uma revista, o ensaio inédito verte sobre como a música brota quando e onde menos se espera, de como a solidão forçada pode ser uma fonte de trabalho em alta velocidade e como as letras lideram sempre todo o processo de composição. O esforço, concretizado entre digressões intensas pela Noruega parcialmente bloqueadas pela covid 19 e pelo vício da corrida (Lerche já conclui cinco maratonas), têm como epicentro e centralidade a composição, registo e envolvimentos para o excelente álbum "Avatars of Love" lançado em Abril passado, experiência artística intensificada desde o seu regresso temporário a Bergen em 2020 depois de quinze anos passados entre Los Angeles e Brooklyn nos E.U.A. 

Já quarentão, um outro gosto especial por vinhos naturais e orgânicos e pela sua produção levou-o ao lançamento de PATOS, rótulo para duas colheitas experimentais (rosé e cava) destinadas ao mercado americano e que, aparentemente, escorregam sem dificuldade. Temos vitivinicultor!

Entretanto e mantendo o hábito, Lerche não acabou o ano sem gravar mais uma versão de uma canção escolhida a dedo entre as muitas de agrado recente. Ao lado do amigo Matias Tellez, a selecção foi-se estreitando a "As It Was" de Harry Styles, "Break My Soul" de Beyoncé, "About Damn Time" de Lizzo mas a escolha recaiu em "Anti-Hero", tema escrito a meias por Taylor Swift e Jack Antonoff. Gravado no Blanca Studio de Bergen, a cover está disponível desde a véspera de Natal.

CRONICA - POPOL VUH | In Den Gärten Pharaos (1971)

 

Estamos no jardim dos faraós, no Éden dos deuses cósmicos.

Se em Affenstunde era difícil perceber a busca espiritual do Popol Vuh, em In Den Gärten Pharaos publicado na Pilz a dúvida é rapidamente dissipada.

Para esta segunda obra publicada em 1971, o alemão Florian Fricke utilizará os mesmos ingredientes de Affenstunde : exploração do moog, sintetizadores tocados por Frank Fiedler e percussão fornecida por Holger Trülzsch. Adicione a isso órgão e piano elétrico.

Mas ao contrário de seu antecessor, In Den Gärten Pharaos será menos contemplativo e experimental. Sem deixar de pairar, este LP revela-se mais intelectual, mais despojado, mais ponderado, inspirando os delírios do space rock de Tangerine Dream e Klaus Schulze.

Composta por duas faixas de quase vinte minutos cada, esta segunda obra começa com o título homônimo. Esta faixa começa com sons fantasmagóricos, misteriosos, estranhos e vagamente ameaçadores criados por um moog desencantado. Aparece uma percussão que tenta rasgar esse estado vaporoso. Em seguida aceleram o ritmo para introduzir um piano elétrico límpido como um rio trazendo um toque exótico até jazzístico. Estamos finalmente na floresta dos grandes faraós.

Depois vem a segunda parte, “Vuh”. Peça transcendental, monolítica, tribal onde a tensão é omnipresente com este pesado e monumental órgão a repetir incessantemente o mesmo motivo. Ao fundo dos sintetizadores celestiais, onde percebemos o que parecem ser lamentos e invocações que nos fascinam, nos absorvem, nos penetram, nos paralisam.

Transportada por percussão metálica, “Vuh” é uma odisséia no espaço. "Vuh" é o além como um destino. “Vuh” são nossas dimensões explodidas. "Vuh" é a liberação do corpo. "Vuh" são as leis físicas que explodem. “Vuh” é tempo suspenso. “Vuh” está em outro lugar e aqui unido. "Vuh" é uma realidade que está além de nós. "Vuh" é beleza.

Subimos os degraus do paraíso para entrar no templo dos deuses cósmicos.

Popol Vuh assinou uma obra-prima do krautrock e muito mais que viria a dar origem a outra obra-prima: Aguire , trilha sonora do filme de mesmo nome do diretor Werner Herzog.

Editado em CD em 2004 pela editora SPV, In Den Gärten Pharaos é enfeitado com dois bónus cuja abordagem é muito mais experimental. Ouça em loop.

Títulos:
1. In Den Gärten Pharaos
2. Vuh

Músicos:
Florian Fricke: Mmog Synth, Electric Piano, Organ
Holger Trülzsch: Percussão
Frank Fiedler: Moog Synth

Produção: Popol Vuh, Bettina Frick


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