O álbum Fullgás (1984) transformou Marina Lima (que na época assinava apenas Marina) numa grande estrela do pop rock brasileiro e numa “máquina” de fazer canções de sucesso, resultado de uma bem-sucedida pareceria entre ela e seu irmão, o poeta Antônio Cícero. Em 1985, veio o álbum Todas, que puxado pelas músicas “Eu Te Amo Você”, “Nada Por Mim” e “Difícil”, vendeu mais de 250 mil cópias, rendendo uma grande turnê que percorreu todo o Brasil. Dessa turnê saiu o primeiro álbum gravado ao vivo da cantora carioca, Todas Ao Vivo, lançado em 1986, e que também foi sucesso de vendas.
Em dezembro de 1987, Marina lançou o seu sétimo álbum de estúdio, Virgem, produzido pelo consagrado saxofonista e produtor, Léo Gandelman. Numa entrevista para a revista Bizz, publicada na edição de fevereiro de 1988, Marina disse que a sua vida havia passado por mudanças: trocou de residência, viajou para a Europa, mudou de empresária e terminou um relacionamento amoroso. Segundo ela, todo esse processo de transformação na sua vida influenciou na canção que dá nome ao álbum.
Virgem mantém o direcionamento pop rock seguido por ela a partir de Fullgás, trazendo canções com arranjos muito bem construídos e com apelo pop certeiro para tocar no rádio. O álbum traz três canções que Marina compôs sozinha, sem a parceria de Antônio Cícero. A princípio, mostrou-se um tanto quanto insegura, mas contou com o incentivo do produtor Léo Gandelman que insistiu que ela gravasse as três canções que compôs sozinha.
O álbum começa com o som de dedilhado de violão da balada “Pseudo-Blues”, um início que remete, ainda que sutilmente, às canções acústicas do Led Zeppelin. Mais adiante, os outros instrumentos fazem a sua entrada.
“Zerando” é um blues rock de Marina e Antônio Cícero, com o riff de guitarra pontuando boa parte da música, que traz Léo Gandelman fazendo solos de saxofone incríveis. “Preciso Dizer Que Te Amo”, de Cazuza, Bebel Gilberto e Dé Palmeira, aparece neste álbum em sua primeira versão, com um arranjo suave e elegante, com direito ao solo de saxofone de Gandelman que dá um toque de sofisticação à canção. “Hearts”, cover de um sucesso de 1981 de Martin Balin (1942-2018), ex-vocalista do Jefferson Airplane, é um pop rock bem arranjado, mas sem grandes pretensões.
O lado 1 do álbum termina com o pop rock alegre e dançante “Prestes A Voar”, com Torcuato Mariano fazendo solos distorcidos de guitarra que dão um pouco de agressividade à faixa.
“Virgem”, canção que dá nome ao álbum, é quem abre o lado 2. É um dos maiores sucessos da carreira de Marina Lima. Conforme ela já havia dito à revista Bizz, no começo de 1988, o título que dá nome à canção e ao álbum, refletia o processo de renovação que a sua vida passava naquele momento, e nesse processo, estava incluído o fim de um relacionamento. A canção não só deixa a entender isso como também revela que foi um fim libertador para a cantora, como se estivesse se libertando de alguém autossuficiente, que acreditava que tudo girava ao seu redor: “As coisas não precisam de você / Quem disse que eu / Tinha que precisar? / As luzes brilham no Vidigal / E não precisam de você / Os Dois Irmãos / Também não precisam”. A letra da canção traz nomes de lugares conhecidos da paisagem do Rio de Janeiro, a cidade natal da cantora, como o morro do Vidigal, o Hotel Marina, o morro Dois Irmãos e o Leblon. E por falar em Leblon, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) “Os Inocentes do Leblon” é citado na canção: “Os inocentes do Leblon / Esses nem sabem de você”.
Marina em detalhe do poster que vinha na versão LP de Virgem.
Depois da balada confessional “Virgem”, vem “Uma Noite e ½” para elevar o clima do álbum. Composta pelo baixista Renato Rocketh, “Uma Noite e ½” foi a primeira música de trabalho de Virgem, e se tornou outro grande sucesso do álbum e da carreira de Marina Lima. “Uma Noite e ½” é um pop rock alegre, sensual, solar, e que tem tudo a ver com o verão do Rio de Janeiro. O destaque fica para a participação de Renato Rocketh, autor da música, fazendo dueto vocal com Marina Lima.
Na reta final do álbum, “Confessional” inicia uma sequência três canções compostas por Marina, sem a parceria do seu irmão poeta. “Confessional” é uma canção romântica que trata sobre amor e desejo. “Doce Espera” chegou a ter uma execução em rádio modesta, e chama atenção a sua longa introdução que permite ao ouvinte perceber o talento dos músicos que acompanharam Marina na gravação do álbum. A curta “1º de Abril (Eu Negar?!) ” encerra o álbum trazendo apenas a voz e o violão de Marina.
O ano de 1988 se revelaria um dos mais proveitosos da carreira de Marina Lima. Em fevereiro daquele ano, ela se apresentou na primeira edição oficial do Festival Hollywood, no Rio de Janeiro e São Paulo, onde tocou algumas canções do então recém lançado álbum Virgem. O festival contou com astros rock brasileiro e internacional como Lulu Santos, Ira! Titãs, Paralamas do Sucesso, Ultraje A Rigor, Supertramp, Duran Duran, Simply Red, Pretenders entre outros.
Igualmente aos três álbuns anteriores (Fullgás, Todas e Todas Ao Vivo), Virgem foi mais um sucesso comercial na carreira de Marina. “Uma Noite E ½”, “Virgem”, “Preciso Dizer Que Te Amo” estavam entre as músicas mais tocadas nas rádios de todo o Brasil em 1988, levando o álbum a conquistar um Disco de Platina por ter chegado à marca de 250 mil cópias vendidas.
Além do sucesso de vendas, Virgem foi sucesso de crítica também. Por causa dele, Marina venceu em três categorias do Prêmio Sharp de Música Brasileira/1988: “Melhor Cantora Pop rock”, “Melhor Disco Pop rock” (por Virgem) e “Melhor Música Pop Rock” (por “Preciso Dizer Que te Amo”).
Faixas
Lado 1
"Pseudo-Blues" (Nico Rezende, Jorge Salomão)
"Zerando" (Marina Lima, Antônio Cícero)
"Preciso Dizer Que te Amo" (Dé, Cazuza, Bebel Gilberto)
O quarto álbum de Joni Mitchell, Blue, é belo, triste e honesto. Como a chuva a cair numa tarde de Inverno.
Quando Joni Mitchell mostrou as suas canções a Kris Kristoferson, este desabafou: “caramba, Joni, guarda qualquer coisa para ti”. Blue não é bem um disco, é mais um aquário, os seus sentimentos como peixes azuis (verdes, amarelos) nadando à vista de todos. Apenas uma parede de vidro finíssima separa o mundo interior de Mitchell dos nossos ávidos olhos (ouvidos, pele). As suas bonitas melodias quase não têm roupa por cima: uma diáfana guitarra, um límpido piano, o esquisitíssimo saltério dos Apalaches (tipo uma viola estragada mas que soa fixe nas mãos de Joni). Quem quiser ser vulgar, espreita pela fechadura: olha aqui a gaja enrolada com o Cohen, olha ali a vadia na cama com o Nash, olha acolá a rameira dormindo com o Taylor. Porém, olhar para Blue como quem folheia a revista Maria seria tão grosseiro como alguém se divertir sozinho contemplando a Vénus de Milo.
Em Blue não vemos nada, somos vistos. O deslumbramento é nosso, o desamparo também. Não crescemos nos rios gelados do Canadá mas as saudades da infância pertencem-nos, desejos impossíveis de evasão: todos já fomos tristes e egoístas, todos já fizemos chorar, que bom seria patinar no gelo da nossa meninice (fugir, voar). Falamos de “River”, é claro, uma canção de natal tristíssima, muito antes dos clássicos natalício-depressivos de Tom Waits e dos Pogues tornarem o Natal mais suportável. “Jingle Bells” não é apenas citada, é corrompida, transmutando a sua alegria pueril em pungente melancolia. Forma e conteúdo dançando sempre juntos: quando canta “I would teach my feet to fly” a sua voz voa também, como um pequeno pássaro assustado riscando o azul do céu.
Blue não é bem música, é mais pintura, leve como uma aguarela, translúcida como um vitral (à mais leve brisa tudo se desfaz). Mas Joni não pinta apenas (isso seria banal), cria também as suas próprias tintas, inventando novas afinações de guitarra, forjando os seus próprios acordes (se a guitarra não existisse, Joni inventá-la-ia, pregando seis atacadores à sua alma).
As canções de Blue não são bem canções, são mais cinema, tal é o seu poder de evocar imagens, ambientes, sensações. Na curta-metragem “The Last Time I Saw Richard”, parece que estamos também lá nós, sentados no balcão escuro, uma última moeda na jukebox, a bartender de laço e meias rendilhadas a despachar-nos porque está na hora do fecho, ele (o pragmático) maldizendo o romantismo dela, ela (a sonhadora) menosprezando o cinzentismo dele, os dois, afinal, unidos na mesma amargura.
Pessimista? Estamos em 1971, são os ares do tempo. Se no disco anterior Joni cantava o florido “Woodstock”, agora, depois do horror pós-Manson-Altamont, é tempo de fazer o luto pelo lindo sonho. Por isso, em “California”, Mitchell desabafa: “sentado num banco de jardim em Paris / lendo as notícias / não dão uma chance à paz / era só um sonho nosso”. Blue é o dia seguinte, quando a ressaca vem, e um fel amarguísimo sobe à boca.
Após uma década em que se revelou uma das maiores cantoras do Brasil e campeã em vendagens de discos, a década de 1980 que se iniciava mostrava-se promissora para Clara Nunes. Embora tenha alcançado a fama como cantora de samba, Clara demonstrava uma vontade de não se prender a apenas um estilo musical.
A partir de 1977, Clara passou a experimentar outros estios musicais, mas sempre priorizando estilos brasileiros como ritmos nordestinos como o xote e baião, e afro-brasileiros como o jongo e o ijexá. E as suas incursões foram da bolha do samba foram surpreendentes e bem-sucedidas. “Feira de Mangaio”, por exemplo, do álbum Esperança (1979), é um forró que ela gravou com Sivuca e que se tornou um dos maiores sucessos da sua carreira, e comprovava que Clara não era apenas uma grande sambista, mas que podia trilhar em outras esferas musicais. O que não era uma novidade, pois Clara era uma cantora romântica de bolero e samba-canção nos primeiros discos, muito diferente do que ela viria a ser depois.
Nos álbuns seguintes, Clara prosseguiu com as suas incursões fora do samba. Em Brasil Mestiço, álbum de 1980, cuja faixa principal é “Morena de Angola”, Clara gravou o forró “Viola de Penedo”, que fez sucesso e ajudou ao álbum vender 500 mil cópias. No álbum seguinte, Clara, de 1981, ela gravou dois forrós “Magoada” e “Como É Grande e Bonita A Natureza”. No entanto, havia um predomínio de sambas, ainda que variassem entre o samba tradicional carioca ao samba com influência com influência das músicas de região de matriz africana como Candomblé, religião da qual ela era convertida.
Em 1982, Clara decide gravar um álbum com um repertório ainda mais variado musicalmente, mas que ao mesmo tempo, é dedicado às raízes negras que ajudaram a compor o povo brasileiro. Não à toa, o álbum foi batizado de Nação, título que também nomeia um samba composto por João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio e que Clara gravou para o álbum. Nação sintetiza muito nas suas dez faixas toda a obra de Clara Nunes, e aponta caminhos que a sua música poderia trilhar no futuro.
E é justamente esse samba quem abre o álbum, cuja letra possui um entendimento complexo. Ao mesmo tempo que ressalta a ancestralidade do povo afro-brasileiro, ao citar jeje (um dos povos africanos trazidos como escravos para o Brasil entre os séculos 18 e 19), alguns versos parecem trazer críticas veladas ao regime ditatorial que governava o Brasil na época. Os versos “Jêje / Tua boca do lixo / Escarra o sangue / De outra hemoptise / No canal do mangue” poderiam estar se referindo à tortura pela qual passavam os presos políticos (‘escarra sangue”), nos porões da ditadura (“no canal do mangue”). A letra é cheia de referências à cultura afro-brasileira, à fauna e à flora do Brasil e até mesmo a personagens da história do país como Caramuru e Anhanguera.
Na sequência, “Menino Velho”, um misto de samba e chula. “Ijexá”, do baiano Edil Pacheco, aproxima Clara Nunes ao gênero musical que dá nome à música que tocado pelos afoxés no carnaval baiano como o tradicional Filhos de Gandhy, para o qual a música é dedicada. Oriundo da Nigéria, o ijexá veio para o Brasil com os negros escravizados, encontrou abrigo nas cerimônias religiosas nos terreiros de Candomblé de Salvador, e depois ganhou as ruas da capital baiana no carnaval através dos afoxés. “Ijexá”, a canção, ressalta a beleza e os valores de um povo sofrido como o povo negro.
Assim como “Menino Velho”, “Vapor de São Francisco” é outra composição da dupla Romildo e Toninho Nascimento presente no álbum Nação. Misto de samba e jongo, “Vapor de São Francisco” faz referência às antigas embarcações que navegavam o Rio São Francisco, entre Pirapora, em Minas Gerais, e Juazeiro, na Bahia, e que tiveram o seu auge entre meados do século 19 até a década de 1970, no século 20.
Fechando o lado A da versão LP de Nação, “Novo Amor”, primeiro momento romântico do álbum. A canção é uma bossa nova de Chico Buarque em que ressalta a versatilidade de Clara Nunes como intérprete. A letra trata sobre uma mulher que sabe da existência de um novo amor na vida do que ama. Mas ela diz a essa outra mulher que esse homem voltará para ela.
Clara Nunes em sessão de fotos de divulgação do álbum Nação.
O lado B começa grande estilo com o samba exaltação “Serrinha”. Composta por Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro (marido de Clara Nunes), “Serrinha” é uma homenagem à escola de samba Império Serrano e ao Morro da Serrinha, em Madureira, zona norte do Rio de Janeiro, onde se localiza a agremiação. O Morro da Serrinha é conhecido pela prática do jongo, dança e estilo musical africanos que a comunidade herdou dos negros escravizados, e que teria influenciado os primeiros sambistas cariocas no início do século 20. Paulo César Pinheiro e Clara Nunes haviam combinado que a cada disco, haveria uma música que homenagearia uma escola de samba carioca. No álbum anterior, Clara, de 1981, a escola de samba Portela (a preferida de Clara Nunes), foi homenageada com o samba “Portela Na Avenida”.
Depois de um samba forte e intenso, o ritmo desacelera com outro ijexá presente em Nação, “Afoxé Pra Logun”, de Nei Lopes. A música presta homenagem a Logunedé, orixá da caça e da pesca, filho de Oxum e Oxóssi.
Uma outra experiência que Clara Nunes vinha desenvolvendo e de maneira bem-sucedida foram as suas incursões em ritmos e temáticas nordestinas. “Cinto Cruzado” é um baião de Guinga e Paulo César Pinheiro, que fala da seca no sertão nordestino e da exploração desumana do trabalho do homem sertanejo pelo patrão. A canção faz uma crítica dura à real situação dos flagelados da seca, mas ao mesmo tempo, conserva uma beleza poética nos seus versos.
“Mãe África”, parceria de Sivuca e Paulo César Pinheiro, é uma curiosa fusão de baião com a musicalidade africana. A letra saúda a ancestralidade afro-brasileira, os povos negros que com sua cultura e religiosidade, ajudaram a compor a nação brasileira.
“Amor Perfeito” fecha Nação como o segundo momento romântico do álbum, uma parceria de Ivor Lancellotti e Paulo César Pinheiro. Clara canta acompanhada de um violão e de uma naipe de violinos apenas. Os versos são carregados de muita paixão e de um amor intenso pela pessoa amada. A canção parece ser uma declaração de amor de Paulo César Pinheiro à própria Clara Nunes, sua esposa. E logo ela, que fecha o álbum, o último que a cantora gravaria nesta vida. Não deixa de ser também uma canção de despedida, onde houve a necessidade, antes da partida de Clara, de ratificar o que um sentia pelo outro. E com certeza, a reciproca era verdadeira.
Aquele ano de 1982 se tornaria um dos mais movimentados na vida de Clara. Foi um dos mais movimentados não somente na vida da Clara artistas, mas também da Clara cidadã. Desde o golpe que instalou uma ditadura militar no Brasil, em 1964, o povo brasileiro voltou a votar para governador, em 1982. Isso motivou Clara Nunes e outros artistas a fazerem campanha para candidatos a governador que se opunham à ditadura como Leonel Brizola, no Rio de Janeir, e Pedro Simon, no Rio Grande do Sul. Clara mostrava-se não só uma grande artista, mas também uma pessoa muito bem articulada politicamente.
Mas a sua vida profissional prosseguia. Entre maio e junho de 1982, gravou o álbum Nação. Depois, foi participar de um festival de música latino-americano na Alemanha, ao lado de Sivuca e Elba Ramalho. Logo após o lançamento de Nação, por volta de agosto de 1982, Clara Nunes, acompanhada do Conjunto Nosso Samba, partiram para uma turnê no Japão, onde se apresentaram em várias cidades e gravaram um programa especial para a TV NHK.
De volta ao Brasil, em setembro, Clara fez um show de lançamento do álbum Nação para convidados, na boate 150 Night, do Maksoud Plaza Hotel, em São Paulo.
Em novembro de 1982, uma semana após as eleições, Clara Nunes integra uma comitiva de artistas brasileiros da qual faziam parte Chico Buarque, Djavan, João Bosco, MPB-4 e João do Vale, que partiu em viagem para Cuba, onde participaram do Festival de La Nueva Canción, em Varadero.
Clara Nunes sendo entrevistada na TV NHK, no Japão, em agosto de 1982.
Ao retornar ao Brasil, Clara via o álbum Nação muito bem nas paradas de discos mais vendidos. O álbum atingia a marca de 600 mil cópias vendidas. “Ijexá”, “Serrinha” e a faixa-título eram as faixas do álbum mais tocadas nas emissoras de rádio, e ganharam videoclipes exibidos no Fantástico, da TV Globo.
Depois de um ano intenso de muito trabalho, turnês, gravação de disco, aparições em rádio e TV, Clara e o seu marido, Paulo César Pinheiro, decidiram fazer uma pausa no fim do ano. O casal passou o Natal e os festejos de Ano-Novo em Caetanópolis, em Minas Gerais, terra natal de Clara Nunes, junto aos familiares dela. Durante a estadia em Caetanópolis, Clara Nunes visitou todos os familiares, até mesmo parentes e amigos mais distantes que ela não via há anos.
Naquela ocasião, o marido já conversava com Clara sobre os planos para o próximo álbum. Discutiam sobre o repertório, audição de fitas de novos compositores e gravações. No entanto, a insistência da cantora em rever parentes e rever lugares da época de sua infância, pareciam ser sinais de despedida de Clara, que o marido compositor só teria consciência tempos mais tarde. A cantora teria confessado ao marido que ela não veria mais aquelas pessoas e que o novo ano que se iniciava, seria o último da vida dela. Ao retornarem de viagem para o Rio de Janeiro, Clara Nunes comunicou ao marido que havia tomado uma decisão: iria fazer uma cirurgia de varizes.
Em 5 de março de 1983, Clara Nunes submeteu-se a uma cirurgia de varizes na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Durante a cirurgia, a cantora teve uma reação alérgica a um dos componentes da anestesia, e entra em coma, permanecendo nesse estado por 28 dias na CTI (Centro de Tratamento Intensivo) da clínica. Nas semanas seguintes, imprensa e fãs permaneceram na frente da clínica em busca de notícias. Não faltaram boatos dos mais diversos para justificar os motivos da internação da cantora na clínica: inseminação artificial, tentativa de suicídio, overdose de drogas, surra do marido e até mesmo aborto, o que nesse caso seria impossível pelo fato de Clara ter feito uma histerectomia em 1979. A irmã de Clara, Maria Gonçalves Pereira, e Paulo César Pinheiro, marido de Clara, tentaram o possível para que aquela situação não se tornasse um “circo”.
Após 28 dias de agonia, Clara Nunes faleceu em 2 de abril de 1983, vítima de uma parada cardíaca, aos 40 anos. Os médicos já haviam alertado ao marido e à família de Clara Nunes que se a cantora sobrevivesse, teria sequelas graves devido à falta de oxigenação no cérebro motivado pela reação alérgica. O corpo de Clara Nunes foi velado na quadra da Portela, no Rio de Janeiro, escola de samba da qual a cantora tinha forte afeição. Mais de 50 mil pessoas foram ao velório. O corpo da cantora mineira foi sepultado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, que contou com a presença de familiares, amigos e milhares de fãs. Seu túmulo não só é visitado por fãs, mas também por religiosos do Candomblé e da Umbanda, que costumam fazer cerimônias e deixar oferendas em memória da Clara Nunes.
E se a cirurgia tivesse transcorrido bem e Clara fosse liberada sã e salva da clínica, qual rumo a música dela teria tomado? A pergunta é inevitável para fãs e críticos musicais, e até mesmo para quem não é fã da cantora, mas reconhece a relevância de Clara Nunes para a música brasileira. Talvez as respostas e algumas pistas possam ser encontradas no próprio Nação, último álbum da cantora de Clara. Certamente, ela apostaria ainda mais nas experiências com a música nordestina. Estreitaria laços com artistas nordestinos que estavam em ascensão como Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho, por exemplo. Continuaria trilhando nesse seguimento, mas ao mesmo tempo tendo o cuidado com qualidade do repertório, não tendendo para forró popularesco.
Numa outra frente, como já era apontado por Nação, Clara estaria se aproximando ainda mais da música da Bahia por causa das incursões que ela vinha fazendo no ijexá. Muito provavelmente, Clara Nunes teria gravado o ijexá “É d’Oxum”, dos baianos Gerônimo e Vevé Calazans, gravada pela primeira vez pelo MPB-4 especialmente para a trilha sonora da minissérie Tenda dos Milagres, da TV Globo, em 1985, exatos dois anos após a morte da cantora. E com o novo momento que a música baiana vivenciaria a partir de meados dos anos 1980, com o surgimento da axé music e ascensão dos blocos afros de Salvador, não seria surpresa uma parceria de Clara Nunes com blocos afros soteropolitanos como Olodum ou Ilê Aiyê.
Mas tudo isso são só especulações, um saudável exercício de futurologismo que infelizmente nunca poderá acontecer. Resta-nos apreciar a fantástica voz de Clara Nunes nas canções que ela gravou, e contemplar a sua dança e o seu carisma nos videoclipes e programas de TV que ela participou em vida.
Em meio ao furacão punk que tomava conta do cenário musical do Reino Unido na segunda metade da década de 1970, a banda Dire Straits, formada em Londres em 1977, ganhou rapidamente projeção com o primeiro sucesso, "Sultans of Swing", no ano seguinte. Para os mais sensíveis, o som apurado do Dire Straits era como um bálsamo em meio ao caos instalado pela crueza punk.
Apesar dos elogiados Making Movies (1980) e Love Over Gold (1982), respectivamente terceiro e quarto álbuns de estúdio, a banda liderada pelo guitarrista e vocalista Mark Knopfler, só conquistou a consagração com o multiplatinado quinto álbum, Brothers In Arms, lançado em maio de 1985. Até ali, o grupo passou por várias trocas de integrantes, restando apenas Knopfler e o baixista John Illsley da formação original.
Sete meses após ter lançado o álbum duplo gravado ao vivo Alchemy: Dire Straits Live, a banda inglesa iniciou em outubro de 1984 as gravações de Brothers In Arms, no AIR Montserrat, na ilha caribenha de Montserrat, o segundo estúdio do AIR Studios. O primeiro fica em Londres. A produção ficou a cargo de Mark Knopfler e do produtor Neil Dorfsman.
O produtor Neil Dorfsman e o vocalista e guitarrista do Dire Straits, Mark Knopfler, na mesa de som do estúdio AIR Montserrat.
Brothers In Arms marcou a estreia do tecladista Guy Fletcher num disco do Dire Straits. Embora a banda já tivesse um tecladista, Alan Clark, o líder do Dire Straits, Mark Knopfler, convidou Fletcher para integrar o grupo depois de ficar impressionado com o desempenho do tecladista quando os dois trabalharam juntos na trilha sonora do filme Cal, de Pat O’Connor, em 1984. A banda passou a ter dois tecladistas.
Um fato curioso é que durante o primeiro mês de gravação do álbum, o baterista do Dire Straits, Terry Williams, foi temporariamente substituído nas gravações por Omar Hakim, um baterista de estúdio, profissional dedicado a participação nas gravações de discos de vários artistas. A medida teria sido tomada porque o desempenho de Wiiliams nas gravações estava abaixo do que se esperava para o álbum.
De toda a discografia do Dire Straits, Brothers In Arms tem algumas peculiaridades que o diferencia dos outros álbuns do grupo inglês, e vão muito além das vendas e prêmios que conquistou. A principal delas é a de que Brothers In Arms foi um dos primeiros álbuns que quando gravado, foi pensado para o lançamento em CD, que em meados dos anos 1980, era a grande novidade tecnológica da indústria fonográfica. A curiosidade é que a versão em CD de Brothers In Arms trouxe as faixas em duração mais longa, enquanto na versão LP, as faixas foram oferecidas em duração mais curta.
Na versão LP, o álbum é muito bem dividido. No lado A, concentram-se as canções ditas mais acessíveis, e o lado B, canções com uma temática que gira em torno da guerra e do belicismo.
A faixa de abertura de Brothers In Arms é “So Far Away”, primeiro single do álbum. Mark Knopfler teria escrito a canção para sua esposa durante uma das turnês do Dire Straits. Nos versos, o guitarrista reclama da distância e da falta que sente de sua amada: “Now here I am again in this mean old town / And you're so far away from me / Now where are you when the sun goes down? / You're so far away from me” (“Aqui estou eu de novo nesta maldita cidade velha / E você está tão longe de mim / E onde você está quando o Sol se põe? / Você está tão longe de mim”).
“Money For Nothing”, a faixa seguinte, é a única do álbum que foi escrita por Mark Knopfler em parceria. A música foi composta em parceria com Sting, na época, ainda vocalista do The Police. Knopfler teve a ideia de escrever a letra da música depois de ter ouvido uma conversa entre dois funcionários de uma loja de departamentos, em que um deles, ao ver o artista, disse para o colega que deveria ter aprendido tocar algum instrumento para ser um astro do rock, e não ficar ali trabalhando duro, carregando geladeiras, fornos micro-ondas e televisores. É o que fica evidente logo de cara nos primeiros versos: “Now look at them yo-yo's that's the way you do it / You play the guitar on the MTV / That ain't workin', that's the way you do it / Money for nothin' and chicks for free” (“Olha só para a grana deles é assim que se faz / Tocar guitarra na MTV / Aquilo não é trabalhar, é assim que se faz / Dinheiro por nada e garotas de graça”). O single de “Money For Nothing” chegou ao 1º lugar no Reino Unido.
Além do riff de guitarra sensacional na introdução, outra coisa marcante de “Money For Nothing” é o seu videoclipe, uma animação totalmente produzida no computador. Foi o primeiro videoclipe exibido pela MTV do Reino Unido.
Videoclipe de "Money For Nothing": animação computadorizada.
Misto de country rock com rock’n’roll, “Walk Of Life” é provavelmente a música mais alegre e cativante de Brothers In Arms. Por incrível que pareça, ela quase foi excluída do álbum pelo produtor Neil Dorfsman. Só se manteve por insistência dos membros da banda. O destaque fica para os solos de orgão Hammond executados pelo tecladista Alan Clark.
Se no primeiro sucesso da carreira do Dire Straits, “Sultans Of Swing”, a guitarra de Mark Knopfler era o instrumento protagonista, em “Your Latest Trick”, faixa que sucede “Walk Of Life” em Brothers In Arms, o protagonismo é do saxofone de Michael Brecker. Os solos de saxofone feitos por Brecker dão sensualidade à canção. Talvez por causa do ritmo lento, leve e sedutor que “Your Latest Trick” possui, a canção entrou no imaginário de algumas pessoas como “música de motel”.
Encerrado o lado A da versão LP de Brothers In Arms, mais uma balada, “Why Worry”, uma canção calma, serena. Tudo em “Why Worry” é delicado e agradável, dos arranjos à letra.
O lado B da versão LP de Brothers In Arms, a banda dedicou a canções com temas ligados a guerra e ao belicismo. A primeira faixa desse lado é “Ride Across The River” que tem um ritmo estilizado de reggae. A letra versa sobre soldados destemidos que se julgam os defensores da liberdade e da justiça, cheios de confiança de que nada irá derrota-los: “I'm a soldier of freedom in the army of man / We are the chosen, we\'re the partisan / The cause it is noble and the cause it is just / We are ready to pay with our lives if we mus” (“Eu sou um soldado da liberdade no exército do homem / Nós somos os escolhidos, nós somos os partidários / A causa é nobre e a causa é justa / Estamos prontos para pagar com nossas vidas se for preciso”).
“The Man’s Too Strong” é uma canção em que um ex-soldado, ao voltar do campo de batalha, é tratado como um criminoso de guerra. Na sequência, “One World”, que possui uma guitarra funky e um baixo cheio de slaps, parece fugir do belicismo temático abordado pelas canções do lado B do álbum.
“Brothers In Arms”, canção que dá nome ao álbum é quem encerra o mesmo. Teria sido composta por Mark Knopfler inspirado na Guerra das Malvinas, um conflito que envolveu a Inglaterra e Argentina pelo domínio das Ilhas Malvinas (para os ingleses, Falklands), ao sul da América do Sul, em 1982. Melancólica, a canção trata sobre um soldado que na beira morte, num campo de batalha, descreve as dores e os horrores que vivenciou na guerra: “Through these fields of destruction / Baptism of fire / I've witnessed your suffering / As the battles raged higher / And though they did hurt me so bad / In the fear and alarm / You did not desert me / My brothers in arms” (“Por estes campos de destruição / Batismos de fogo / Assisti a todo o seu sofrimento / Enquanto a batalha se acirrava / E apesar de terem me ferido gravemente / Em meio ao medo e ao pânico / Vocês não me desertaram / Meus companheiros de batalha”).
Convidado ilustre: Bob Dylan (à direita) ao lado de Mark Knopfler, numa participação especial no show do Dire Straits, em Melbourne, durante a etapa australiana da turnê Brothers In Arms, em fevereiro de 1986.
Inicialmente, a recepção por parte da crítica a Brothers In Arms foi negativa no Reino Unido, enquanto que nos Estados Unidos, o álbum foi melhor acolhido pela imprensa musical americana. Um mês antes do lançamento de Brothers In Arms, o Dire Straits iniciou uma grande turnê mundial para promover o álbum, que percorreu a Europa, Ásia, América do Norte e Oceania. Em julho de 1985, a banda inglesa se apresentou no festival beneficente Live Aid, no estádio de Wembley, onde dividiu o palco com Sting na canção “Money For Nothing”. A Brothers In Arms Tour turnê terminou em abril de 1986, num grande show em Sydney, na Austrália.
Brothers In Arms teve um desempenho comercial fantástico. Vendeu cerca de 30 milhões de cópias em todo o mundo. Foi o primeiro álbum a vender 1 milhão de cópias em versão CD. Alcançou o primeiro lugar na Billboard 200, nos Estados Unidos. Liderou as paradas de álbuns do Reino Unido, Austrália, Alemanha, Espanha, Suécia e Suíça. É o 8º álbum mais vendido na história da indústria fonográfica do Reino Unido.
Além das ótimas vendas, Brothers In Arms conquistou prêmios importantes como o Grammy de “Melhor Álbum Projetado – Não Clássico”, em 1986, e o Brit Awards de “Melhor Álbum Britânico”, em 1987. Em 2011, a revista britânica Q, incluiu Brothers In Arms na lista dos 100 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, ficando na 51ª posição.
Depois da grande turnê de Brothers In Arms, o Dire Straits entrou num período de “hibernação” de cerca de quatro anos. Nesse período, cada integrante cuidou das suas atividades pessoas. Mark Knopfler seguium com sua carreira solo paralela à do Dire Straits, e inclusive criou o projeto Notting Hillbillies, uma banda de country rock formada com outros músicos convidados. O Dire Straits só lançou um novo álbum de estúdio em 1991, On Every Street, que teve uma repercussão moderada. Seguiu-se uma turnê mundial de um ano e que rendeu o segundo álbum gravado ao vivo do Dire Straits, On the Night, lançado em 1993. Em 1995, o Dire Straits chegou ao fim, depois de 18 anos de atividades.
Dire Straits: Mark Knopfler (guitarras e vocais), John Illsley (baixo e vocais), Alan Clark (teclados), Guy Fletcher (teclados e vocais), Terry Williams (bateria) e Omar Hakim (bateria).
Faixas
Todas as letras foram escritas por Mark Knopfler, exceto Money For Nothing, que foi feita por Knopfler e Sting.
Um ótimo disco, além de bastante versátil e que entrega para o ouvinte um registro musical sólido do começo ao fim
Quando lançado em 1989, Eat Me In St. Louis, marcaria o último disco com a formação original da banda. Também pode ser visto como o disco mais pesado já lançado pelo grupo, destacando-se principalmente os trabalhos de guitarra de Francis Dunnery, algo bastante influenciado por Brian May. Ele também era o vocalista, com uma voz que se assemelha a Peter Gabriel – ainda que outros nomes venham em mente conforme o disco se desenvolve. Naquela altura de sua carreira, Francis já havia se estabelecido como um excelente músico. Se for comparar com os dois discos anteriores, aqui a banda soa menos “progressiva”, principalmente em relação ao 2º álbum, Once Around the World. O que dá a entender disso é que a banda estava colocando como meta o sucesso nas paradas, tanto que várias peças do disco se encaixam em um padrão radiofônico previsível e amigável, o que de forma alguma quer dizer que não são boas músicas. Uma das ênfases do álbum está em gerar refrões cativantes e partes de guitarra emocionantes, e nisso eles foram bastante eficazes. Roger Dean forneceu um novo logotipo para a banda, mas não participou da criação da imagem da capa.
“Positively Animal” começa por meio de um solo frenético de guitarra, como se estivesse começando um show da banda e não um disco de estúdio. Possui uma base simples, mas cativante – principalmente o baixo. O solo de guitarra é breve, mas bem interessante. Interessante também é o trabalho das teclas. “Underneath Your Pillow”, essa música foi um dos singles do disco. Começa com alguns sintetizadores antes que os restantes dos instrumentos entrem na música. A base de guitarra é bem alta e muito interessante e o refrão é cativante. “Let Us All Go” inicia com um riff funky do piano elétrico e uma bateria eletrônica que estabelece um tapete para os vocais de Dunnery. A guitarra possui um suingue excelente, enquanto o piano segue funky e a seção rítmica produz uma base sólida. Mais uma vez o refrão é muito bom, principalmente pelos backing vocals que conseguem valorizar ele ainda mais.
“Still Too Young To Remember” é outro single do disco e foi o de maior sucesso na época. Já começa com uma melodia muito boa e um solo de guitarra bastante emotivo. Baixo e bateria criam uma cozinha excelente, enquanto violão e guitarra base cadenciam a peça muito bem - também há um breve, mas ótimo solo de guitarra. Os vocais também merecem destaque, principalmente nos refrãos que mais uma vez são do tipo pra cantar junto. “Murder Of The Planet Earth”, às vezes o primeiro segundo de uma música nos faz lembrar de outra, nesse caso, o primeiro segundo me veio instantaneamente “Valerie” do Steve Winwood em mente. As guitarras e os sintetizadores são os instrumentos que mais gritam alto aqui. Uma música sem muito rodeios, mas que funciona muito bem no disco.
“People Of America”, talvez “Ghost Town” da banda The Special não seja uma música tão conhecida assim, mas a vibe dela é bastante parecida com essa aqui, sendo até mesmo a mensagem um pouco semelhante. Antes de quaisquer partes instrumentais – que são todas bem adequadas – o grande destaque aqui são os vocais, principalmente os refrãos. Impressionante como eles sabiam fazer um refrão soar cativante. “Sister Sarah” começa com uma brincadeira vocal antes de toda a banda entrar em um ataque instrumental eletrizante, com ótimo riff de guitarra, linhas robustas de baixo, bateria potente e teclas muito bem carregadas. Novamente o refrão é ótimo e as harmonias vocais muito boas. O solo de guitarra é bastante fluído e matador.
“Leaving Without You”, Dunnery canta quase à capela o início da peça, acompanhado apenas por uma sutil cama de sintetizador. Então que uma ótima melodia de guitarra assume o controle. O trabalho de teclado e baixo aqui são bem característicos dos anos 80. Os solos de Dunnery realmente são os destaques do disco. A mudança de ritmo por volta de 3:20 direciona a música para uma harmonia mais bonita do que a que estava sendo entregue até então. “'Till The End Of Time”, o riff com que essa música começa me faz lembrar um pouco de Jimmy Page, enquanto a bateria ao melhor estilo John Bonham realça ainda mais o espírito do Led Zeppelin, porém, quando o teclado entra na peça, voltamos para o som de uma banda tipicamente 80’s. Há momentos em que a entrega vocal faz com que lembremos de David Lee Roth.
“The Ice Melts Into Water” começa trazendo uma sensação melancólica por meio de um fade-in de sintetizador e um baixo sutil. Mesmo quando Dunnery aumenta o som de sua guitarra e o clima fica mais pesado, ele ainda carrega consigo uma certa angústia, não demorando para a música retornar ao seu sentimento melancólico original, bombardeando a peça com uma infinidade de emoções. A guitarra do final lembra Steve Howe. “Charlie” finaliza o disco com Dunnery mostrando o seu total domínio de sua guitarra por meio de uma melodia belíssima que não soaria deslocada em nenhum disco do Steve Hackett. Em determinado ponto, uma outra guitarra em overdrive se junta à guitarra solitária, deixando a peça mais encorpada e bela. Um final de disco de beleza rara.
Um ótimo disco, além de bastante versátil e que entrega para o ouvinte um registro sólido do começo ao fim. Creio que não preciso comentar mais nada.