terça-feira, 7 de março de 2023

“Rio” (EMI,1982), Duran Duran

 



O grande desafio para um cantor, cantora ou banda, após um álbum de estreia bem prestigiado, é fazer do segundo álbum tão bom ou melhor que o primeiro. Com a banda inglesa Duran Duran não foi diferente. Expoente do new romantic, movimento musical britânico que esteve no auge no começo dos anos 1980, o Duran Duran conquistou fama através do seu primeiro e autointitulado álbum, lançado em 1981. As faixas “Planet Earth” e “Girls On Film” fizeram um grande sucesso radiofônico, contribuindo para que o álbum tivesse bom desempenho comercial e levando a banda a fazer a sua primeira grande turnê, que além de incluir a terra natal, o Reino Unido, passou também pela Bélgica, França, Suécia, Holanda, Alemanha e Estados Unidos.

Ao final da turnê de seu primeiro álbum, a banda estava motivadíssima para começar a gravar o seu segundo álbum. Enquanto o segundo álbum não chegava e para aproveitar o sucesso de “Girls On Film”, o Duran Duran gravou às pressas o single de “My Own Way”, lançado em outubro de 1981. Já com material suficiente para o segundo álbum, o grupo entrou nos estúdios da AIR, em Londres, em janeiro de 1982, para as gravações, sob a produção de Colin Thurston (1947-2007), o mesmo que havia produzido o primeiro álbum da banda inglesa.

Desde os videoclipes de “Planet Earth” e de “Girls On Film”, o Duran Duran já entendia que o videoclipe era um veículo importante de divulgação do trabalho de um artista. E para tanto, o videoclipe merecia a mesma atenção, o mesmo cuidado que a gravação de um álbum. Antes mesmo do lançamento do segundo álbum, a banda selecionou as faixas que teriam videoclipe e contratou o diretor Russel Mulcahy para dirigir. Mulcahy já havia trabalhado com Duran Duran na direção do videoclipe de “Planeth Earth”.


Duran Duran, da esquerda para a direita: John Taylor, Roger Taylor, Simon Le Bon,
Nick Rhodes e Andy Taylor.


Em março de 1982, o Duran Duran e a equipe de filmagem viajaram para o Sri Lanka para filmar os videoclipes de “Hungry Like The Wolf”, “Save A Prayer” e “Lonely In Your Nightmare”. O diretor Mulcahy empregou todo um caráter cinematográfico aos videoclipes, dando ritmo de aventura, mostrando belas mulheres, a paisagem tropical e o povo nativo do Sri Lanka. É perceptível nos videoclipes, a inspiração de Mulcahy em filmes de James Bond e em Caçadores da Arca Perdida.

Do Sri Lanka, a banda voou para a Austrália em abril, onde começaram antecipadamente a turnê promocional do segundo álbum que só seria lançado no mês seguinte. A surpresa desagradável foi que o guitarrista Andy Taylor passou mal durante um show em Sydney. Foi diagnosticado com malária, contraída por Andy no Sri Lanka. O músico acabou ficando de fora da turnê europeia para poder se recuperar.

Ainda em abril, o Duran Duran parte para Antígua, uma das ilhas do Caribe para filmar mais dois videoclipes, o de “Rio” e o de “Nightboat”, duas músicas presentes no segundo álbum que estava presentes a sair.

Em 4 maio de 1982, “Hungry Like The Wolf”, o primeiro single do novo álbum é lançado. Uma semana depois, foi a vez do tão esperado segundo álbum do Duran Duran, intitulado Rio. No Reino Unido, Rio alcançou o posto de 2º lugar da parada de álbuns, enquanto que o single de “Hungry Like The Wolf” chegou ao 5º lugar.

Rio mostra que o Duran Duran evoluiu do seu primeiro para este seu segundo álbum. A turnê pelos Estados Unidos em 1981 parece ter aberto os horizontes para a banda inglesa, que incorporou ao seu som pop referências da música negra norte-americana. John Taylor, um admirador confesso de Bernard Edward (1952-1996), baixista do Chic, explora as linhas de baixo do funk e as adapta ao som do Duran Duran. A guitarra de Andy Taylor soa um pouco mais roqueira. Contudo, os sintetizadores de Nick Rhodes que dão tempero synthpop à sonoridade do Duran Duran, se fazem presentes e muito relevantes para as músicas da banda inglesa.


O baixista do Chic, Bernard Edwards (o segundo da direita para esquerda) foi a
grande inspiração para o baixista do Duran Duran, John Taylor.  

A faixa-título é quem abre o álbum, um pop rock contagiante feito para grandes arenas. O baixo puxado para o funk de John Taylor se mostra bem entrosado com a guitarra roqueira de Andy Taylor. Apesar do título, “Rio” não traz na sua letra nenhuma referência à cidade do Rio de Janeiro. O que se vê na letra, é uma citação ao Rio Grande, rio que separa os Estados Unidos e México. Curiosamente, “Rio” é cantado como se referisse a uma garota. O refrão foi inspirado na linha melódica de “Stevie’s Radio Station”, música da TV Eye, banda punk de Birmingham, mesma cidade onde surgiu o Duran Duran. O videoclipe de “Rio” foi filmado em Antígua, no Caribe, foi espirado nos filmes de James Bond, e mostra belas mulheres, praias paradisíacas e os membros da banda muito bem vestidos.

“My Own Way” foi lançada como single em novembro de 1981, no rastro do sucesso de “Girls On Film”. A banda decidiu regravá-la e incluí-la em Rio, porém numa versão mais pop. Destaque para o baixo de John Taylor cheio de “slaps”, para a bateria percussiva de Roger Taylor e para os solos de guitarra de Andy Taylor na reta final da música. Em "Lonely In Your Nightmare", uma garota está solitária em seu pesadelo, e Simon Le Bon quer ser o anjo da guarda dela; com certeza, era o desejo de dez entre dez garotas fãs do Duran Duran naquela época.

Uma gargalhada dada pela então namorada de Nick Rhodes é a senha para dar início a “Hungry Like The Wolf”, um exemplo de música pop por excelência. Os riffs da guitarra de Andy Taylor estão por toda parte, enquanto que John Taylor faz uns slaps no seu baixo aqui e ali. No videoclipe de “Hungry Like The Wolf”, filmado no Sri Lanka, o Duran Duran parece estar participando de algum filme de Indiana Jones. 

“Hold Back The Rain” encerra o lado 1 da versão LP de Rio, mantendo o clima lá em cima em ritmo alucinante. A letra no entanto, escrita por Simon Le Bom era uma alerta do cantor ao seu companheiro de banda, John Taylor e seu uso abusivo de álcool e drogas. O curioso é que John só veio saber que a música foi dedicada a ele muitos anos depois. 

Em “New Religion”, o Duran Duran faz uma interessante mistura entre funk de branco com os sintetizadores gélidos do pós-punk.  A faixa seguinte, “Last Chance On The Stairway” é um pop rock melódico sobre flerte e desejo sexual. 

Rio traz a grande canção do Duran Duran, a balada “Save A Prayer”.  A construção instrumental e melódica desta canção é o ponto alto do álbum, e revela o talento musical dos membros da banda. Nick Rhodes constrói camadas de sonoras produzidas pelos seus sintetizadores que dão à canção um ar de mistério, e ao mesmo tempo elegância e imponência. Mas nos refrãos de “Save A Prayer”, quem brilha é Andy Taylor com sua guitarra. O single de “Save A Prayer” saiu em agosto de 1982, e chegou ao 2º lugar na parada de singles do Reino Unido. Foi durante as filmagens do videoclipe de “Save A Prayer”, no Sri Lanka, que Andy Taylor contraiu o vírus da malária, vindo a doença a se manifestar durante um show do Duran Duran na Austrália. O guitarrista acabou afastado da turnê europeia de Rio por recomendação médica.

O álbum chega ao fim com “The Chauffeur”, uma canção cuja letra originalmente foi escrita como um poema por Simon Le Bon, em 1977, quando tinha apenas 19 anos de idade. A letra revela o talento de Le Bom na poesia, e um lirismo poético pouco comum em letras de canções pop. No videoclipe de “The Chauffeur”, dirigido por Ian Emes, os membros do Duran Duran não aparecem. Todo o protagonismo do videoclipe fica por conta de três modelos vestidas em lingerie, que por simulam um encontro lésbico num estacionamento. O teor erótico do videoclipe fez com que ele fosse proibido em alguns lugares.


Simon Le Bon no videoclipe de "Hungry Like The Wolf".

Em julho de 1982, o Duran Duran prosseguiu com a turnê do álbum Rio passando pelo Canadá. Depois o quinteto inglês integrou a turnê Track Across American Tour, em conjunto com o Blondie, abrindo os shows da banda norte-americana.

Apesar das suas qualidades como álbum pop, com canções com forte apelo radiofônico, inicialmente, Rio teve um desempenho fraco no mercado norte-americano. Quando o álbum foi pensado, foi justamente em alavancar a carreira do Duran Duran nos Estados Unidos. Para reverter a situação, o Duran Duran e a gravadora Capitol (responsável pela distribuição dos discos da banda nos Estados Unidos) decidiram convocar o produtor David Kershenbaum para produzir versões remix das faixas de Rio para as pistas de dança e lançá-las em singles de 12 polegadas. Seria uma tática para ganhar o público norte-americano e melhorar as vendas de Rio. As faixas escolhidas para o remix foram “Rio”, “Hold Back The Rain”, “My Own Way”, “Hungry Like The Wolf” e “New Religion”.

Enquanto isso, por volta de junho de 1982, o videoclipe de “Hungry Like The Wolf” estreia na programação da MTV dos Estados Unidos. A alta exposição do videoclipe na emissora acaba contribuindo para impulsionar as vendas do single da música e do álbum Rio.

Os singles em versões remix agradaram o público e os DJ’s norte-americanos. A Capitol acabou reunindo todos esses singles num EP, Carnival, lançado em setembro de 1982 não só nos Estados Unidos, mas também no Canadá, Japão, Taiwan, Espanha e Holanda. As rádios norte-americanas passam a tocar as versões remix de Carnival e a popularidade do Duran Duran cresce nos Estados Unidos.

A turnê de Rio, iniciada em abril de 1982, prossegue pelo resto do ano. Depois de Canadá e Estados Unidos, a turnê passa pela Austrália, Japão, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Alemanha Ocidental, Portugal e Reino Unido.

O sucesso de Carnival motivou a banda e a Capitol a relançarem em novembro de 1982 o álbum Rio na América do Norte (onde as vendas eram baixas), numa versão edição remasterizada e trazendo versões remix das outras faixas restantes.

Com os videoclipes do Duran Duran sendo exibidos à exaustão na MTV e o sucesso das versões remix das faixas de Rio nas emissoras de rádio, o Duran Duran finalmente conseguiu conquistar a América, disseminando a “duranmania” em solo norte-americano, conquistando milhões de fãs. A idolatria ao Duran Duran nos Estados Unidos era algo que não se via desde a beatlemania, nos anos 1960. Rio chegou ao 6º lugar da Billboard 200, nos Estados Unidos, e em março de 1983, o álbum ganhou disco de platina ao chegar à marca de 1 milhão de cópias vendidas no mercado norte-americano. No mês seguinte, Rio já havia alcançado a marca de 2 milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos, sendo agraciado com um disco duplo de platina.

Nesse momento, foi lançado o Duran Duran – Video Album, uma fita de vídeo que reúne os 11 videoclipes da banda produzidos entre 1981 e 1983, lançado nos formatos VHS, Betamax e Laserdisc. O lançamento de Duran Duran – Video Album coincidiu com o lançamento do single de “Is There Something I Should Know?”, música que não fez partiu de nenhum álbum do Duran Duran. O videoclipe de “Is There Something I Should Know?” foi incluído no Duran Duran – Video Album.

Em 1984, o o videoclipe de “Hungry Like The Wolf” conquista o prêmio Grammy de “Melhor Videoclipe”, categoria que estreava na edição daquele ano. 

Faixas

Lado 1
  1. "Rio"
  2. "My Own Way"
  3. "Lonely In Your Nightmare"
  4. "Hungry Like The Wolf"
  5. "Hold Back The Rain"
Lado 2
  1. "New Religion"
  2. "Last Chance On The Stairway"
  3. "Save A Prayer"
  4. "The Chauffeur"

Todas as canções foram compostas e escritas por Duran Duran.

Duran Duran: Simon Le Bon (vocal), John Taylor (baixo), Andy Taylor (guitarra), Nick Rhodes (teclados) e Roger Taylor (bateria).



"Rio" (videoclipe original)

"My Own Way"

"Lonely In Your Nightmare" 
(videoclipe original)

"Hungry Like The Wolf" (
videoclipe original)


"Hold Back The Rain"

"New Religion"

"Last Chance On The Stairway"

"Save A Prayer" 
(videoclipe original)

"New Religion" (videoclipe gravado 
ao vivo em Oakland, em 1984)

“British Steel” (CBS, 1980), Judas Priest



O ano de 1980 foi muito marcante para o rock pesado. Sim, houve perdas caras para o gênero musical, como as mortes de Bon Scott, vocalista do AC/DC, e de John Bonham, baterista do Led Zeppelin. Porém, os ganhos foram muitos e decisivos, e que norteariam a caminhada do heavy metal durante a década de 1980. O AC/DC, que havia perdido Scott, rapidamente encontrou um novo vocalista e se refez do luto com o antológico álbum Back in Black. Enquanto isso, o Black Sabbath lançava Heaven And Hell, álbum que marcava a estreia do fantástico vocalista Ronnie James Dio (1942-2010) no lugar de Ozzy Osbourne. O ex-vocalista do Sabbath por sua vez, lançava o seu primeiro álbum solo, Blizzard Of Ozz.

Em agosto de 1980, em Leicestershire, na Inglaterra, ocorria a primeira edição do festival Monsters Of Rock, reunindo as mais diversas bandas de som pesado como Rainbow, April Wine, Scorpions e Saxon. Uma nova geração de bandas britânicas despontava para revigorar o heavy metal através do movimento chamado NWOBHM (abreviação de New Wave of British Heavy Metal, em português: Nova Onda Do Heavy Metal Britânico) do qual faziam parte Motörhead, Iron Maiden, Saxon, Def Leppard, Samson entre outras bandas.

Foi em meio a esse cenário tão movimentado para o heavy metal em 1980, que o Judas Priest, uma das bandas que faziam parte da geração NWOBHM, lançou naquele ano Britsh Steel, seu sexto álbum de estúdio. Considerado o melhor álbum da discografia do Judas Priest e um dos melhores da história do heavy metal, Britsh Steel foi responsável pelo quinteto inglês conseguir conquistar o tão sonhado prestígio nos Estados Unidos.

Antes das gravações de British Steel, o Judas Priest havia sofrido uma baixa. No final de 1979, o baterista Les Binks deixou o Judas Priest por discordar do direcionamento musical que a banda vinha adotando. Em seu lugar entrou Dave Holland, ex-baterista do Trapeze.

As gravações ocorreram entre janeiro e fevereiro de 1980, no Startling Studios, um estúdio de gravação que ficava numa mansão que na época pertencia ao ex-baterista dos Beatles, Ringo Starr. Tom Allom conduziu a produção de British Steel, segundo trabalho dele com o Judas Priest. Allom havia produzido antes Unleashed In The East, o primeiro álbum ao vivo do Judas Priest, gravado durante apresentações em Tóquio, no Japão, em fevereiro de 1979.

Talvez o fato mais curioso durante as gravações de British Steel, foram as improvisações para criar efeitos sonoros, numa época que não havia sample. Utilizaram garrafas de leite em “Breaking The Law” para criar ruído de vidros quebrando, de talheres e de tacos de bilhar em “Metal Gods”.


Judas Priest em 1980, da esquerda para a direita: Ian Hill, Glenn Tipton,
Rob Halford,  K.K. Downing e Dave Holland. 

A primeira música de divulgação de British Steel foi “Living After Midnight”, cujo single foi lançado em março de 1980, e ficou em 12º lugar na parada de singles do Reino Unido.

Em 14 de abril de 1980, British Steel era lançado, e já com o Judas Priest na estrada com a British Steel Tour, turnê iniciada em março, um mês antes do lançamento do álbum, e que durou até agosto daquele ano. Iron Maiden foi a banda de abertura nos concertos da turnê no Reino Unido, enquanto que em alguns concertos da turnê pelos Estados Unidos, quem abriu foi o Def Leppard.

British Steel começa com o riff rápido de guitarra de “Rapide Fire”. A bateria de Dave Holland conduz o ritmo veloz da música que dá ao ouvinte, uma ideia do que ele vai encontrar no restante do álbum.

A faixa seguinte começa com um som estranho, que parece uma simulação de ruído de trovão feito por sintetizador, mas logo é seguido pelo som pesado de guitarras, baixo e bateria que dão início a “Metal Gods”. Rob Halford canta com fúria um futuro sombrio onde a humanidade será dominada por máquinas.

“Breaking In The Law”, um dos maiores sucessos do Judas Priest, conta a história de um homem desesperado, arruinado, que sem perspectivas de melhora de vida, vê o crime como alternativa de sobrevivência. Aqui, a desesperança do personagem da música se aproxima das letras de cunho político social do punk rock. O ruído de vidros quebrando foi feito com a quebra de garrafas de leite durante as gravações do álbum. É possível ouvir na música o som de sirenes de polícia.

“Grinder” é talvez a faixa mais pesada do álbum, e nela as guitarras desempenham um protagonismo do início ao fim da música, seja fazendo a base sonora, seja fazendo os solos. O riff de guitarra é agressivo, que parece ser executado por duas guitarras simultaneamente, e está em sintonia com a linha de baixo robusta de Ian Hill. Juntos, produzem uma massa sonora pesada e consistente.   

O lado A do álbum termina com “United”, uma música que possui ares de canção épica, de hino a ser cantado em shows de rock em estádios e arenas a plenos pulmões, tal qual os cantos de torcida de futebol: “United, united, united we stand / United we never shall fall / United, united, united we stand / United we stand one and all” (“Unidos, unidos, unidos nós ficamos / Unidos nós nunca iremos cair / Unidos, unidos, unidos nós ficamos / Unidos nós ficamos, um por todos”).

O lado B da versão LP de British Steel começa com o peso de “You Don't Have To Be Old To Be Wise” e sua crítica explícita aos adultos, mostrando que o jovem pode ter maturidade e senso crítico: “I grow sick and tired of the same old lies / Might look a little Young / So what's wrong / You don't have to be old to be wise” (“Estou ficando de saco cheio das mesmas velhas mentiras / Posso parecer um pouco jovem / E daí, o que há de errado? / Você não tem que ser velho para ser sábio”).

“Living After Midnight”, a faixa seguinte, é provavelmente o maior sucesso da carreira do Judas Priest, e mostra que heavy metal pode ser popular e radiofônico. A música começa apenas com a bateria de Dave Holland ditando o ritmo para depois entrar os outros instrumentos. Com um refrão empolgante e festivo, “Living After Midnight” trata de prazer e diversão na madrugada. É aquele típico rock capaz de agitar até o mais desmotivado dos seres humanos.

“The Rage” tem o seu início com um fraseado rítmico que remete ao reggae. Em seguida, entra o peso agressivo do metal, mas mantém o ritmo que continua lento. Halford solta a sua voz poderosa, enquanto que mais ao final da música, há um desfile sensacional de solos de guitarra.

O álbum termina veloz como começou, com “Steeler” fechando British Steel com chave de ouro. A música possui riffs de guitarra rápidos e afiados, e uma bateria veloz e direta, do jeito que o fã de heavy metal gosta.


Rob Halford e Glenn Tipton, em julho de 1980, durante turnê do ãlbum British Steel

British Steel significou a consagração do Judas Priest. O quinteto inglês conseguiu após cinco álbuns de estúdio e um ao vivo, conquistar o disputado mercado fonográfico dos Estados Unidos. Lá, o álbum chegou à marca de 1 milhão de cópias vendidas. Essa conquista se deveu, segundo alguns especialistas, ao direcionamento mais comercial que a banda deu ao seu som, se comparado ao álbum anterior. O Priest repetiu a “fórmula” musical de British Steel nos álbuns posteriores como Point Of Entry (1981) e Screaming For Vengeance (1982).

O álbum ganhou um relançamento remasterizado em 2001, e com duas faixas bônus incluídas, "Red, White & Blue", gravada durante as sessões do álbum Turbo (1985), e uma versão ao vivo de “Grinder”, gravada durante um show no Long Beach Arena, Long Beach, Califórnia, em 1984.

Em 2009, o Judas Priest fez uma turnê especial de 30 anos de British Steel que percorreu os Estados Unidos, onde a banda tocou todas as faixas do álbum na íntegra ao vivo. Houve também um lançamento de uma edição especial de 30 anos do álbum com um CD e DVD de um show gravado ao vivo em agosto de 2009, no The Seminole Hard Rock Arena, em Hollywood, na Flórida, nos Estados Unidos.

British Steel foi classificado em 2017, pela revista Rolling Stone, em 3º lugar na sua lista dos “100 Melhores Álbuns de Heavy Metal de Todos os Tempos”.

Faixas

Lado A
  1. “Rapide Fire”
  2. “Metal Gods”
  3. “Breaking The Law”
  4. “Grinder”
  5. “United”
Lado B
  1. “You Don't Have To Be Old To Be Wise”
  2. “Living After Midnight”
  3. “The Rage”
  4. “Steeler”

Todas as faixas escritas por Rob Halford, K.K. Downing e Glenn Tipton.
Judas Priest: Rob Halford (vocal), Glenn Tipton (guitarra), K. K. Downing (guitarra), Ian Hill (baixo) e Dave Holland (bateria).



“Rapid Fire”


“Metal Gods”


“Breaking The Law”
(videoclipe original)


“Grinder”

“United” (apresentação da banda 
no programa "Top Of The Pops, 
TV BBC, agosto de 1980)


“You Don't Have To Be Old To Be Wise”

“Living After Midnight” (videoclipe original)

“The Rage”


“Steeler”

 

Feu! Chatterton – Palais d’Argile (2021)

 

É altíssimo o patamar onde se posiciona Palais d’Argile. Os franceses Feu! Chatterton fizeram um álbum tão repleto de predicados, que é difícil imaginar ter entre mãos algo assim tão extraordinário.

Há muito que da antiga Gália não nos chegava algo tão estimulante. Apesar de não serem virgens nesta coisa de lançar discos e fazer carreira musical, é com Palais d’Argile que os Feu! Chatterton merecem entrar pela porta grande do universo artístico planetário. Talvez não venha a acontecer, é certo, mas seria justíssimo que o mundo inteiro pusesse os seus perros ouvidos no recente longa-duração da banda francesa. Os nossos, convém dizer, não se fizeram surdos, como bem se verá. Antes pelo contrário: estão maravilhados, ao ponto de Palais d’Argile ser, até ao momento, um dos mais belos, intensos e fascinantes discos do (ainda) mortiço ano de 2021. As razões são muitas, e podem ser verificáveis logo à primeira audição, mesmo que eventualmente desatenta e desinteressada. O que se ouve nas treze faixas do álbum faz-nos entrar numa espécie de espiral do tempo da chanson française, embora modernizada e vibrante como nunca. Mas há mais, muito mais. Há o texto poético, o dizer dos versos, a veia dançante de alguns temas, mas sobretudo há ainda aquilo que nos faz gostar tanto de música: canções extraordinárias! Como se não bastasse, Palais d’Argile oferece-nos uma visão do mundo muito curiosa. Curiosa e atual, convenhamos. Apetece dizer que já merecíamos um disco assim, para tornar um pouco mais alegre e viva a nossa existência em banho-maria.

Feu! Chatterton

Palais d’Argile apresenta-nos um mundo novo. Um mundo e um tempo de ecrãs tácteis que iludem a realidade, inventando outra à qual nos colamos quase sem retorno. É o pouco admirável mundo novo viral em que vivemos, espelho do que nos assola, isolando-nos como se fossemos conchas de nós próprios. Mas o que os Feu! Chatterton cantam, de facto, é a saudade do mundo antigo, do que existia e que existe agora mais na memória saudosa do que de qualquer outra forma: “Adieu vieux monde adoré”, canta Arthur Teboul em “Cristaux Liquides”, por oposição aos versos iniciais (“Moi, je caresse ton visage / Sur mon écran tactile”) do mesmo lindíssimo tema. Não faltam, aliás, grandes canções, como aqui já se referiu. A sequência inicial é, toda ela, inebriante. “Monde Nouveau”, a mencionada “Cristaux Liquides” e “Écran Total” são balas certeiras para o cérebro e para as ancas mais dançantes. Sempre com aquele savoir-faire, de copo na mão, que os velhos e bons mestres da canção francesa ensinaram ao mundo em décadas passadas do século transato. Por isso, ouvir Palais d’Argile é ter Gainsbourg ao nosso lado, é ter MontandBrel e Aznavour como companhia, piscando timidamente, e de forma simultânea, o olho a Barbara, a Gréco e a Jeanne Moreau, ao mesmo tempo que entram Alain BashoungFerré e Bécaud na festa rítmica, eletrónica, roqueira dos cinco rapazes geniais da eterna Paris! Depois, vem a tranquilidade outonal de “Avant Qu’il n’y Ait Le Monde”, a mais bela canção que poderão ouvir este ano! Sim, não dizemos a coisa por menos. É ouvir com atenção para depois se entender a razão destas palavras, embora muitos outros temas (todos, na verdade, o que é realmente espantoso!) disputem a nossa atenção de maneira incondicional: “Compagnons” (que maravilha!) e “La Mer” (a poesia, sempre a poesia – “Elle a mis ses bas, lui ses paumes sur ses hanches / Il ne savait pas comment bien tenter sa chance”) servem apenas como mais dois meros exemplos.

Em Palais d’Argile há ainda a sublinhar uma vertente épica que lhe confere estilo e substância. Há ecos de Arcade Fire em alguns temas (“Écran Total”, claro), como se nota também, e de que maneira, o toque decisivo do mago da eletrónica francesa, Arnaud Robotini, na produção do álbum. O mais curioso será, porventura, perceber que a epicidade do disco existe na medida exata em que ele próprio canta o colapso do mundo. Tudo isto encenado de forma quase operática, romântica, bela e trágica ao mesmo tempo. Mas não nos assustemos com a dura verdade de Palais d’Argile, até porque convém ter em conta mais esta pequena achega: que outra coisa é, de facto, a existência humana, a não ser a vivência lúcida e encenada do seu próprio fim?


Arlo Parks – Collapsed In Sunbeams (2021)


 

Arlo Parks dá voz à sua geração, por meio de ritmos suaves e uma forma peculiarmente positiva de olhar para a vida.

Arlo Parks tem 20 anos e uma sensibilidade invejável para temas atuais e assuntos que um jovem tende a gerir mal. Em vez de hiperventilar como a maioria dos seus pares, Parks escolhe cuidadosamente as suas palavras e escreve canções calmas e boas para pôr as coisas em perspetiva. Acabada de sair da adolescência, lançou em janeiro deste ano o seu álbum de estreia, Collapsed In Sunbeams, com a Transgressive Records, editora responsável por trabalhos de SOPHIEJulia Jacklin e Alvvays.

Arlo sai de casa de manhã, ostentando toda a sua coolness e confiança, e observa o mundo em seu redor sem deixar nada escapar. Sentada num banco de jardim, pega numa caneta e num caderno e escreve poemas sobre as trivialidades da vida a que costumamos escolher não prestar atenção. As suas letras têm tanto de amor e intimidade como de autodescoberta adolescente. Pára para ver a vida a acontecer e foca-se nos pormenores, transcrevendo-os para a sua arte de forma subtil. Admira as coisas banais e guarda-lhes um lugar de destaque nas suas músicas.

Para os mais distraídos, Collapsed In Sunbeams pode parecer mais um disco indie chill sem grande substância além de beats simples e experiências divertidas com sintetizadores; mas depois de uma primeira audição, entramos nos olhos de Parks e vemos o mundo que disseca discretamente com palavras cruas e diretas. Não há romanticismos, ou idealizações ingénuas. É real, as coisas passam-se mesmo assim. Arlo conhece o mundo em que vive e desafia-o a confrontá-la. Além dos spoken words recorrentes, não raras vezes surgem descrições escolhidas a dedo, detalhando frames saídos de curtas metragens onde as suas músicas são banda sonora, quase como que um convite a que, na nossa cabeça, passem imagens de episódios semelhantes nossos. Abre-nos espaço no seu banco de jardim quando dá nomes às pessoas de quem e com quem fala, oferecendo-nos a proximidade que os poemas exigem.

Arlo Parks
Arlo Parks

Por entre referências que parecem deslocadas quando consideramos a sua mocidade – vão de Twin Peaks a Thom Yorke, passando pelos poemas de Sylvia Plath, e não esquecendo o eyeliner de Robert Smith -, fala-se de sexualidade, saúde mental, pressão social e problemas da vida moderna. O álbum composto por doze faixas começa com acordes leves por detrás da declamação de um dos muitos e belos poemas de Arlo Parks (que intitula o próprio disco) e acaba com uma melodia feliz sobre estar triste. Destacam-se “Caroline”, com a sua descrição de um people watching acidental, “Too Good”, que ilustra tão bem a mensagem do álbum quando Arlo se pergunta “Why do we make the simplest things so hard?”, “Portra 400”, que, como o filme analógico predileto para retratos, retrata alguém e “Black Dog”, pela sua proximidade à realidade.

Todo o álbum é constituído por temas profundos, cantados tendo em vista o que de bom podemos encontrar neles. Não se trata de coragem, mas talvez de audácia da parte de Arlo, quando fala por todos nós e dos nossos infortúnios de forma tão leve. Se tratarmos os problemas com naturalidade e frontalidade, eles deixam de ser grandes e feios. São só extras incluídos nisto que é viver. Enquanto nós perderíamos horas de sono a pensar sobre como o planeta Terra não está um sítio muito agradável para se viver, Arlo dá-nos ritmos para dançarmos e trata os assuntos como se não a assustassem. É impossível ficar indiferente à esperança que as canções emanam. As letras despretensiosas confortam os inquietos (não só, mas também) porque são cantadas por uma voz quase familiar e um doce sotaque londrino. Vamos ficar bem, diz a Arlo – e se a Arlo diz, acreditamos.

Parks é poetisa antes de ser cantora e as suas músicas com descrições detalhadas, quase cinematográficas, disfarçam a ira que às vezes é cantada. Entramos na sua maneira despreocupada (o que não significa menorizante) de ver a vida e deixamo-nos levar pela sua crença num futuro mais luminoso. Não só nele crê, como para ele trabalha – porque se há coisa que Collapsed In Sunbeams deixa bem claro é que o mundo tem uma geração inteira à espera da sua vez para falar.

O mundo que se prepare, porque Arlo Parks veio para ficar.


Destaque

Lord Flimnap "Point of View" (1989)

  Quem conhece "As Viagens de Gulliver",  de Jonathan Swift,  provavelmente se lembra do ardiloso e invejoso Flimnap, Lorde Chance...