sexta-feira, 10 de março de 2023

Bandas Raras de um só Disco

 

             Estrella De Marzo - A Los Niños Con Amor (1974)


O Estrella de Marzo foi formado pela junção de dois músicos do grupo 50 de Marzo com Carlos Daza formando este que seria um dos melhores grupos de seus pais, Bolívia, nos anos setenta. Seus integrantes, antes de iniciar a carreira fonográfica, passaram alguns anos pelos Estados Unidos, onde não tiveram êxito, mas puderam vivenciar a cena roqueira local, assistindo apresentações de grupos de primeira linha como Deep Purple e King Crimson entre outros e isto lhes trouxe informações e conhecimento que serviriam para a construção deste seu primeiro trabalho.

Lançado em 1975, A Los Niños Con Amor contava com letras que ficam entre a ingenuidade da época do movimento flower power e um profundo idealismo. O grupo produz um rock bem forte, competente e que surpreende pela técnica e bom gosto com que as canções são executadas. Mesmo com uma produção simples, o álbum resistiu ao tempo e hoje soa belíssimo como mostra a faixa Claro Dia. O primeiro lado acaba com Naturaleza Sonrieme, uma boa faixa, mas que se encerra de forma abrupta e repentina.

O lado B começa com um hard básico, Casi Nada Falta Ya, que mostra a pegada simples e direta do grupo. Mistura de Grand Funk e Led Zeppelin sem rodeios. Encuentro vem em seguida com jeito de rock clássico, as guitarras mais limpas são um dos melhores momentos do disco. O álbum termina com um belo e angelical tema denominado Cancion de Cuna, onde novamente, a letra “cabeça” serve de base para uma bela melodia e uma precisa execução realizada pelo trio. Mesmo com a qualidade e a experiência que os músicos tinham alcançado o trabalho não decolou e o grupo ficou pelo caminho.

O trio praticamente gravou o disco ao vivo em pouquíssimo tempo, e mostra que é nas coisas simples e feitas com o coração que se pode produzir grandes trabalhos. O que dizer de um pais como a Bolívia, sem a menor tradição no rock, lançaria em plena metade dos anos setenta um álbum tão inspirado como este.

Felizmente, para os colecionadores, o álbum editado pelo selo boliviano Heriba foi reeditado pela competente Shadocks Music, propiciando enfim a aquisição deste raro e ótimo trabalho e que deve ser conferido pelos fãs do grupo

Integrantes.

Luis Equino (Baixo e Vocal)
Carlos Daza (Guitarra e Vocal)
German Urquidi (Bateria)
 
01. Maestro (5:21)
02. Claro Dia (5:43)
03. Naturaleza Sonrieme (5:01)
04. Casi Nada Falta Ya (3:27)
05. Encuentro (4:46)
06. Los Duendes (4:58)
07. Canción De Cuna (4:53)
 


Cinco Músicas Para Conhecer: Os Duetos de David Bowie

 



David Bowie é um dos maiores artistas de todos os tempos, isso sem sombra de dúvidas. Criou discos e canções atemporais, mas não só na música ele se destacou. Foi um dos primeiros artistas a entrar no mundo da internet, sempre esteve pronto para auxiliar amigos e campanhas de caridade, bem como colaborar com amigos para ajudar na carreira do mesmo. Salvou nomes como Iggy Pop e Peter Frampton do ostracismo, bem como revelou ao mundo gigantes do porte de Stevie Ray Vaughan, Mick Ronson e Carlos Alomar, para citar só alguns. No Cinco Músicas Para Conhecer de hoje, apresento alguns dos principais duetos de Bowie ao longo de sua carreira, sempre ao lado de nomes consagrados da música, e aqui, em maioria adaptações de canções consagradas anteriormente.


“Across the Universe” – w/ John Lennon [1975]

Sucesso da carreira dos Beatles, registrada na despedida Let it Be, e composta por John Lennon, “Across the Universe” foi regravada por Bowie com a participação especial do autor cantando o refrão. Apesar da predominância vocal de Bowie ao longo dessa linda faixa, a participação de Lennon é emblemática, principalmente na segunda metade da canção, onde ele e Bowie travam um lindo dueto entoando a frase “Nothing is gonna change my world”, gritada a plenos pulmões em uma sincronia de amigos que se conhecem há anos, e com uma categoria que somente gigantes têm nessas horas. Iniciando a fase soul de Bowie, “Across the Universe” está no indispensável Young Americans, e em algumas coletâneas do camaleão.


“Peace on Earth / Little Drummer Boy” – w/ Bing Crosby

Conheci essa canção através do especial de Natal Bing Crosby’s Merrie Olde Christmas, de Bing Crosby, o qual foi ao ar em 30 de novembro de 1977, e que encontrei na internet quando buscava vídeos de David Bowie. Clássico natalino, este é um dueto arrepiante, com os vocais graves dos cantores encaixando-se perfeitamente enquanto Crosby canta “Little Drummer Boy” (tradicional natalina) e Bowie solta a voz em “Peace on Earth” (de Ian Fraser e Larry Grossman), em uma magnífica adaptação feita por Katherine K. Davis ao lado de Harry Simeone e Henry Onorati. O arranjo orquestral é extremamente apropriado para a canção, tornando-o o clima de emoção em cada pedaço das caixas de som. Em 1982, a canção foi lançada em uma bolachinha e em um EP 12″, com “Fantastic Voyage” no lado B, alcançando a terceira posição nas paradas britânicas e sendo um dos compactos mais vendidos na carreira de Bowie, com mais de 400 mil cópias.


“Under Pressure” – w/ Freddie Mercury [1982]

A única faixa composta por Bowie, e curiosamente não lançada em um disco de Bowie por muito tempo, é certamente o mais emblemático e conhecido dueto do Camaleão. O duelo vocal dele com Freddie Mercury é uma das mais emocionantes audições de uma canção envolvendo o nome David Bowie na história, superada talvez somente por “Wild is the Wind”. Os dois monstros sagrados ingleses revezam seus vocais, com Bowie no grave e Mercury caprichando em agudos e falsetes, em um contraste incrível. E quando ambas cantam juntos, ao final da canção, sobre como o amor é importante nas nossas vidas, bom, daí a casa literalmente cai. Bowie também fez uma versão com Annie Lennox no especial em homenagem à Mercury, Freddie Mercury Tribute Concert, em 1992, marcada por uma cara de susto de Bowie hilariante, perante o “assédio” de Lennox. A canção saiu em uma bolachinha de extremo sucesso, com a inédita “Soul Brother” no lado B, isso em 1981, e devido a esse sucesso, incluída em Hot Space no ano seguinte. Também está presente em coletâneas e álbuns ao vivo do Queen, porém sem a participação de Bowie.


“Tonight” – w/ Tina Turner [1984]

Para quem imaginaria que a união do Camaleão com a Acid Queen geraria uma canção poderosa, com muita energia e vitalidade, a dupla entrega aqui uma canção inspirada pelo reggae, com uma latinidade e um romance clichê demais para os mais xiitas fãs do duo, mas com uma beleza e elegância que somente esses dois gigantes da música mundial poderiam criar. Na composição de Bowie com Iggy Pop, do clássico Idiot (1977), as surpresas estão presentes não só pela levada latina, que transformou totalmente o original de Iggy, mas também por que na versão aqui, Bowie faz o papel de Iggy, enquanto Tina faz o papel de Bowie, servindo como uma base sólida para os vocais graves de Bowie. Para mim, isso tornou a adaptação ainda mais linda que o original. Foi lançada no álbum homônimo de 1984 e em um compacto de relativo sucesso, com “Tumble and Twirl” no lado B. A dupla também interpretou “Tonight” ao vivo, sendo registrado no disco Tina Live in Europe (1988) e em um compacto com “River Deep, Mountain High”.


“Dancing In The Street” – w/ Mick Jagger [1985]

Versão dançante e super anos 80 desse clássico de Marvin Gaye, regravado por nomes como The Mamas & The Papas, The Kinks, Black Oak Arkansas e Van Halen, é outro grande sucesso de Bowie em parceria com um músico britânico, agora o Senhor Lábios de Borracha Mick Jagger. Bowie e Jagger já eram bem conhecidos na época, e uniram-se pela campanha Live Aid, regravando esse super sucesso trazendo novos locais para a letra original. Soltinha nos estúdios, a dupla canta numa alegria espontânea e contagiando muito o ouvinte. Os backing vocals gospel, a linha de baixo sinuosa, as batidas quadradas e cronometradas da bateria, e um naipe de metais grudento, são algumas das atrações de uma faixa onde a dupla gigante divide harmonicamente os vocais. Cabe ainda a Bowie citar o nosso “Brazil” na canção. Saiu em um single de extremo sucesso mundial, além de um clipe de também idêntico sucesso, e também se faz presente em diversas coletâneas de Bowie.


Classificação de todos os álbuns de estúdio De La Soul

 

De la Soul


Os grupos têm sido um componente importante do hip hop, e De La Soul é um dos grupos de hip hop mais subestimados de todos os tempos. Desde seu álbum de estreia, 3 Feet High and Rising, até seu segundo álbum, De La Soul Is Dead, este grupo lançou alguns álbuns clássicos. Até o momento, o trio de Posdnous, Maseo e Dave conseguiu sustentar uma música de alta qualidade, e não é de admirar que sejam tão reverenciados. Aqui está o nosso ranking de todos os álbuns do De La Soul, do pior ao melhor.

8. AOI: Bionix (2001)


2001 foi um ano complicado no hip hop, e muitos artistas, incluindo De La Soul, que foi um dos grupos de hip hop mais talentosos, se viram presos no labirinto underground/mainstream. De La Soul eram conhecidos por serem diferentes, e para eles lançarem um álbum tão fácil de digerir era um pouco improvável. A música de abertura do álbum. "Baby Phat" foi uma ode às mulheres plus size, enquanto "What We Do (For Love", com participação de Slick Rick, foi uma canção humorística sobre a puberdade e a descoberta da própria sexualidade. O álbum teve alguns destaques, especialmente as primeiras oito músicas, depois qual o álbum foi um sucesso e um fracasso.


7. Art Official Intelligence: Mosaic Thump (2000)


Graças a músicas como "Oooh" e "All Good?" este álbum viu o retorno de De La Soul ao território das paradas. O álbum indicado ao Grammy contou com várias participações especiais de artistas como Redman, Busta Rhymes , Beastie Boys e Chaka Khan, que ajudaram a manter o álbum vivo e fresco. O álbum termina com uma nota forte, porém, com a música "The Art of Getting Jumped" explicando como evitar apanhar enquanto estiver no clube.

6. The Grind Date (2004)

 

Este álbum deveria ser a trilogia final do Art Official Intelligence (AOI), mas devido à mudança de foco do álbum, o grupo decidiu lançar The Grind Date como um álbum independente. O álbum contou com a participação de artistas como Ghostface, Common, Sean Paul e MC Spike Lee. O álbum recebeu críticas positivas da crítica e mereceu ser considerado um dos melhores álbuns de hip hop de 2004. O álbum contém batidas cativantes que complementam as letras de uma forma excelente. O álbum foi produzido por uma equipe de produtores talentosos com duas colaborações únicas com J. Dilla. O álbum alcançou a posição 87 na Billboard 200 dos EU

5. And the Anonymous Nobody… (2016)

 

Quando De La Soul anunciou que lançaria outro álbum após um longo hiato, os fãs obviamente ficaram empolgados em ver o retorno de um dos grupos mais criativos do hip hop. Em um gênero que é indiscutivelmente impulsionado por jovens rappers, é difícil para rappers experientes produzir sucessos de forma consistente, mas De La Soul provou que eles são os porta-estandartes do rap moderno e estão envelhecendo bem. O álbum recebeu críticas favoráveis ​​da crítica, com Exclaim! Chamando-o de um dos lançamentos de álbum mais emocionantes do ano. O álbum contou com artistas convidados como 2 Chainz, Pete Rock, Snoop Dogg e muitos mais. A faixa “Pain” mostra o grupo se unindo a Snoop Doggem um hino otimista que tem um grande gancho e um groove manhoso. O álbum estreou no número 12 na Billboard 200 dos EUA e foi indicado ao 59º Grammy Awards de Melhor Álbum de Rap.

4. Stakes Is High (1996)

 

Em termos de assunto e produção, Stakes is High é considerado o álbum De La Soul mais sombrio de todos os tempos. Embora tenha recebido críticas favoráveis, não foi um sucesso comercial. O álbum viu o grupo mudar seu som e estilo e foi o primeiro álbum que não foi produzido pelo Príncipe Paul, pois eles sentiram que sua produção não combinava com o clima do álbum. Os temas principais do álbum foram a comercialização do hip hop e a crítica do gangsta rap. Isso levaria a um conflito com Tupac, que retaliou com a música "Against All Odds", que está contida em seu álbum póstumo, The Don Killuminati: The 7 Day Theory. O álbum também é notável por fazer de Mos Def um nome familiar no jogo do rap.

3. Buhloone Mindstate (1993)

 

A julgar pelas letras, De La Soul não estava em um lugar perfeito quando lançou este álbum. Com o grupo cada vez mais preocupado com a situação com Tommy Boy e com o fato de o Native Tongues estar à beira do colapso, Buhloone Mindstate não foi um álbum feliz. Comparado aos álbuns anteriores, este álbum foi bastante curto, embora parecesse ter mais propósito. Em uma lista publicada pela Rolling Stone em 2005, Chris Rock o nomeou o décimo maior álbum de hip hop de todos os tempos.

2. 3 Feet High and Rising (1989)


Em segundo lugar em nosso ranking de todos os álbuns do De La Soul está seu álbum de estreia, 3 Feet High and Rising, que é amplamente reconhecido como um clássico. Na época de seu lançamento, o álbum era como nenhum outro, com o grupo mostrando que estava tudo bem ser diferente no hip hop. O que mais impressiona neste álbum é sua produção que foi feita pelo príncipe Paul. O título do álbum foi inspirado em uma das primeiras canções de Johnny Cash, enquanto a maioria dos samples usados ​​no álbum eram de músicas relativamente desconhecidas de nomes como Steely Dan e Liberace. Em uma crítica do álbum pela Q-Magazine, Macy Gray descreveu o álbum como um dos melhores dos últimos 15 anos e comparou De La Soul aos Beatles.

1. De La Soul is Dead (1991)

 

Pouquíssimos artistas podem reivindicar o status de obra-prima para seus dois primeiros álbuns, e De La Soul é um deles. De La Soul is Dead é o segundo álbum de estúdio do grupo e um dos primeiros álbuns a receber uma avaliação perfeita do The Source. Embora muitas pessoas citem 3 Feet High and Rising como seu melhor álbum, sempre considerei este álbum o melhor. O álbum falou principalmente sobre questões como mortalidade, estupro e a pressão que vem do sucesso anterior. O álbum alcançou a posição 26 na Billboard 200 dos EUA e ficou em 228º lugar na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos dos Rolling Stones.

Estilos de Fado

 Sabia que nem tudo o que um fadista canta é Fado? Sabe qual a diferença entre Fado Tradicional, Fado Canção, Marcha e Folclore?Estilos de Fado

Kotoviski

“Eu… vou lá para fora canto Fado, canto Marchas, canto Folclore, canto canções espanholas, canto coisas brasileiras. Faço um programa misturado.

O que é, é que (a não ser que haja espanhóis na plateia, ou portugueses ou brasileiros, os franceses, os alemães, os americanos. os gregos, os troianos, os, sei lá, todos os países que agora há que inventaram também) pensam que todas as canções que eu canto são Fado, visto que eu sou anunciada como fadista, uma cantora de Fado de Portugal.

Quer dizer, Amália Rodrigues, já toda a gente sabe que é Fado e que é Portugal. Cante aquilo que eu cantar. Porque eles como não sabem o que é o Fado, eles pensam, partem do princípio que tudo quanto eu canto é Fado.”

Amália Rodrigues

Hoje em dia, existe muita confusão em torno do que é o Fado.

Por um lado, como já Amália Rodrigues disse, pode-se cair no erro de pensar que tudo o que um Fadista canta é Fado.

Mas, se na sua altura, os portugueses, espanhóis e brasileiros, conseguiam fazer a distinção, hoje, nem a indústria fonográfica portuguesa sabe o que é Fado.

O cúmulo desta situação deu-se quando Ricardo Ribeiro recusou uma nomeação para Melhor Álbum de Fado nos prémios Play, afirmando que o álbum em questão (Respeitosa Mente) não é de Fado!

Por outro, muitas pessoas confundem nomes de Fado com tipos ou estilos de Fado! Até em vários artigos na Internet, inclusive na Wikipedia, vemos títulos de Fado, misturados com estilos de Fado e tipos de manifestações de Fado!

Existem os títulos dos Fados Tradicionais (entenda-se o nome de uma música de Fado Tradicional) que começam sempre por “Fado…

“Fado Bailado”
“Fado Marialva”
“Fado Corrido”
“Fado Alcântara”
etc…

Existe um estilo de Fado que se chama Fado Canção. E os títulos das músicas também podem começar por “Fado”…

“Fado do Estudante”
“Fado Hilário”
“Fado Português”
etc…

E também há o Fado Vadio, que é uma forma de espetáculo e partilha de Fado, não um estilo de Fado.

E ainda há algumas adjetivações dos Fados, mas que não constituem um estilo de Fado, mas sim uma característica, por exemplo “Fado castiço”. Mas nesta situação a palavra castiço é apenas um adjetivo.

Tudo isto pode gerar muita confusão. Por isso, vamos analisar o que, atualmente, os fadistas costumam cantar nos seus espetáculos e tentar perceber cada um desses estilos.

Estilos de Fado

Há duas grandes famílias de Fado: Fado Tradicional Fado Canção (ou Fado musicado).

Mas, na maior parte dos concertos, os fadistas, tal como a Amália Rodrigues, também fazem um “programa misturado” e cantam mais dois estilos de música portuguesa, mas que não são Fado: Marchas e Folclore.

Vejamos em que é que estes quatro estilos são diferentes e o que caracteriza cada um deles.

Fado Tradicional


Uma boa interpretação moderna de um Fado Tradicional (Fado Bizarro)

“Fado Tradicional” é o nome que se dá a um conjunto de fados com características únicas. Podemos dizer que é Fado no seu estado mais puro e que a sua prática e a sua musicalidade são distintas de todos os outros géneros musicais.

Mas apesar de se chamar “tradicional” não devemos julgar que isto é Fado do passado ou que é Fado à moda antiga. Este é o estilo mais livre, no qual os músicos têm mais possibilidades interpretativas.

Algumas das características mais interessantes desta vertente são as seguintes:

  • O nome de um Fado Tradicional somente diz respeito à música;
  • A seleção da letra fica a cargo do fadista;
  • O Fado Tradicional não tem refrão;
  • Interpretar Fado Tradicional é criar, e não reproduzir, pois não seguimos uma partitura.

Fado Canção


Um dos temas mais populares de Fado Canção

O Fado Canção resulta da integração de outras linguagens musicais no Fado. Por isso, também se costuma chamar “Fado Musicado”.

De uma forma simples, pode-se dizer que é uma mistura de Fado com outros géneros musicais. Por vezes aproxima-se mais da estética do Fado, mas outras vezes distancia-se completamente.

Um exemplo de um sucesso de Fado Canção moderno, muito distante da estética do Fado

Um bom exemplo de uma abordagem moderna de um Fado Canção – “Noite” – com estilo de Fado

Praticamente todos os sucessos de Fado incluem-se nesta categoria. Se pesquisar “Fado” no Youtube, a maior parte dos resultados são deste tipo de Fado e não de Fado Tradicional.

Há quase sempre um refrão e, ao contrário do Fado Tradicional, o nome do tema refere-se à música e à letra no seu conjunto.

Marchas e Folclore

Estes dois estilos, apesar de serem cantados pela maior parte dos Fadistas, não são Fado. Mas vale a pena conhecer, nem que seja para conseguir identificar quando os estiver a ouvir.

Marchas

Sendo uma forte tradição popular e com grande força em Lisboa, alguns fadistas importantes começaram a cantar marchas nos seus espetáculos.



Folclore

O Folclore, música típica de várias regiões de Portugal, também tem vindo a ser integrado pelos fadistas nos seus concertos.


No vídeo abaixo, poderá ouvir a fadista Filipa Cardoso a apresentar o tema que vai cantar, não como um Fado mas como Folclore (0:29)


É também um estilo alegre e fácil de ouvir, onde se pode pedir a colaboração do público para cantar e bater palmas.


Tudo isto é Fado?

Um tema de Fado onde se questiona o que é Fado, mas num Fado Canção!

Muitas pessoas dizem que gostam do “fado alegre”, quando, na verdade, sem saberem (porque pensam que tudo o que um fadista canta é Fado), o que gostam é de Marchas, Folclore e de algum Fado Canção mais popular.

Recordo-me que uma vez num restaurante, quando as cantoras pediam um Fado, simplesmente diziam:

“É o Fado [nome do fado] em [tom do fado]

Mas quando queriam cantar Marchas, Folclore e Fado Canção com pouco estilo de Fado, diziam-me:

“É o [nome da música]… para eles…”

Aqui “para eles” significava para eles ficarem animados, para eles baterem umas palmas, para eles cantarem, para eles participarem, etc.

Há quem considere que Fado é Fado Tradicional. É um estilo aberto, mas único, que se diferencia dos outros, não só pela sua sonoridade, mas também pelas particularidades que o tornam diferente de outros géneros musicais.

Fado Canção não é Fado? Às vezes sim, outras vezes não. Não é possível estabelecer fronteiras científica para esta questão, mas para mim é fácil perceber que os sucessos de Fado como Nem às Paredes Confesso, Canto o Fado, Chuva ou Quem me Dera, não são Fado porque simplesmente estão muito mais próximos de outros géneros musicais do que do Fado.

Espero que agora, quando for a um concerto de Fado ao Vivo, saiba se está a ouvir Fado, Marcha ou Folclore e que, quando estiver a ouvir Fado, saiba distinguir entre Fado Canção ou Fado Tradicional

FADOS do FADO...letras de fados...

 



Sinal

João Ferreira Rosa / Popular *fado menor*
Repertório de Maja Milinkovic


Vivi a guerra brutal
Que ecoou no meu país
Sem ter feito nenhum mal
Menina triste, infeliz

Ouvi um dia uma voz / Que sem perceber sentia
Parecia falar de nós / Da gente que mais sofria

Era Amália que cantava / Lá longe em Portugal
E que em mim despertava / Na minha vida, um sinal

Quis ir ver a sua terra / Aprender o português
E o fado que em mim encerra / Que hoje canto p’ra vocês



Quadras variadas

De Henrique Rego
Transcritas do livro *Poetas Populares do Fado-Tradicional* de
Daniel Gouveia e Francisco Mendes


Por mais pérolas que citem
Tu não julgues minha louca
Que hajam pérolas que imitem 
As pérolas da tua boca

Não existem bailarinas / Nem nos confins da Europa
Que bailem como as meninas / Desses teus olhos, cachopa

Tantas mentiras empregas / Sempre que falas comigo
Que às vezes até me negas / As mentiras que eu te digo

Se entrasse no teu alcouce / Conforme pedes que eu entre
Ia trair quem te trouxe / Nove meses no seu ventre

Se juras, malmequer branco / Que o meu amor bem me quer
Eu juro que não te arranco / Nem uma folha, sequer

Recordar com devoção / Um pretérito bendito
É conter o infinito / No espaço dum coração

Numa vertigem tão forte / A vida vai tão depressa
Que à vezes perto da morte / É que a vida então começa

Santo António milagreiro / Pelo amor que te dedico
Enfeita-me o céu inteiro / Com vasos de manjerico

Ao meu querido São João / Meu devotado patrono
Vou-lhe dar meu coração / Para lhe servir de trono

Meu amor, no bailarico / De saia verde, a bailar
Faz lembrar um manjerico / Regado e posto ao luar


Meus irmãos

Letra de João de Freitas
Escrita para Ercília Costa reaparecer no Brasil”
Letra publicada no jornal Guitarra de Portugal em Setembro de 1938
Desconheço se esta letra foi gravada.
Publico-a na esperança de obter informação credível


Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado
Meus irmãos, voltei de novo
A visitar este povo
Grande e de rara beleza
E a trazer-vos as saudades
Das aldeias e cidades
Da terra mãe, Portuguesa

Ai, como andava ansiosa
De ao Brasil, nação ditosa / De novo poder voltar
P’ra vos cantar outra vez
O fado bem português / Que eu sinto e canto a rezar

Corri Portugal inteiro
E neste fado altaneiro / Pedi às vossas mãezinhas
Que sempre vos escrevessem
Porque vocês nunca esquecem / Aquelas lindas velhinhas

Todas me queriam beijar
Pedindo para vos dar / Seus beijos, mas eram tantas
Que eu guardei no coração
P’ra vos dar nesta canção / Os beijos daquelas santas




Crítica ao disco de Himmellegeme - 'Variola Vera' (2021)

Himmellegeme - 'Variola Vera'

(1 de octubre 2021, Karisma Records)

 

Himmellegeme - 'Variola Vera

 Há várias coisas positivas para falar sobre o grupo Himmellegeme e seu segundo álbum 'Variola Vera'.

Esta banda norueguesa é composta por Aleksander Vormestrand (vocal e guitarra), Hein Alexander Olson (guitarra solo), Lauritz Isaksen (teclado), Erik Alfredsen (baixo) e Thord Nordli (bateria).

'Variola Vera' foi lançado pelos noruegueses em 1º de outubro de 2021 e é adicionado ao seu álbum de estreia, 'Myth of Earth' de 2017.

Este novo trabalho inicia-se com 'Shaping Mirrors Like Smoke', com harmonias dóceis que introduzem passagens de guitarra muito oscilantes que evidenciam as influências pós-rock dos escandinavos, mas que posteriormente se transformam em sonoridades psicadélicas em que a bateria e o baixo ganham todas as atenções . São várias linhas de teclados que acompanham a composição em boa parte dela. Vormestrand mostra todo o seu talento como cantor nesta ocasião com um estilo mais sutil e angelical. Por outro lado, os momentos mais altos da música, que estão nos refrões, têm curta duração e é nas partes mais suaves que o vocalista assume o protagonismo.

A segunda faixa é 'Heart Listening' em que temos uma abertura acústica em que o violão de Weigand ocupa grande parte das seções da composição. Enquanto novamente Vormestrand faz falsetes interessantes que são complementados por bateria e baixo em uma melodia lenta e agradável. Há também riffs de guitarra elétrica extraordinários e é assim que Hein Alexander Olson brilha do começo ao fim, onde há até momentos em que ambos se fundem e criam um som apetitoso para os ouvidos.

Em cada música que o grupo apresenta existem elementos diferenciadores entre uma e outra, algumas delas mesmo diametralmente opostas. Algo acontece com 'Blowing Raspberries', a terceira faixa, que, ao contrário das duas primeiras faixas, tem um som super goove e cambiante, quase dançante. Imagine ao vivo em um grande palco com todo mundo curtindo com o ritmo do baixo, além do atraente solo no final, que merecia mais duração, e que nos mostra que os nativos de Bergen têm capacidade de transitar por diferentes gêneros .

A quarta música, 'Brother', lembra Sigur Ros e Leprous às vezes com certas passagens que cheiram a blues, mas também a folk, criando uma balada que, ao contrário das músicas anteriores, entra em seu coração e alma com ganchos acústicos suaves . Além disso, os falsetes na voz de Vormestrand dão mais intensidade à peça. Assim, conforme a música avança, ela cresce e se torna cada vez mais intensa com a bateria, as cordas do violão e a voz.

'Let The Mother Burn' é pura psicodelia com uma cítara que lembra os sons da segunda metade dos anos 60 mas com algumas pitadas de pós-rock, além disso há linhas de guitarra e notas de baixo que se destacam ao longo da composição, mas nada melhor que o refrão que diz "expira; expira" com percussão bombástica somada à voz poderosa que faz cada música te deixar grudado no teto. Na segunda parte há uma parte mais reflexiva, mais suave que joga com as cordas, os efeitos sonoros e a bateria, para nos levar ao encerramento épico do coro mas desta vez mais intenso do que se já fosse, agora vai fazer você cante o refrão com todas as suas forças.

'Caligula' por sua vez tem alguns ritmos que são dominados pela bateria que nessa faixa bate cada prato, bateria e caixa como nunca antes com a guitarra que é bem dinâmica e depois dá um dos melhores solos do álbum, fazendo Let Hein Alexander Olson brilha. O refrão soa dentro da tradição mais rock e ao mesmo tempo não soa velho e/ou antiquado, mas cativa e acaba sendo apreciado.

Chega a penúltima música e uma das que me fez abordar este álbum. 'Agafia'. Apresenta-nos um riff minimalista e simples, mas eficaz, para depois convidar os outros instrumentos a juntarem-se, continuando com este mas com a outra guitarra a fazer outra linha complementar com a bateria e os restantes membros. Não posso deixar de usar efeitos de reverberação tanto nas guitarras quanto nos teclados que criam uma aura mística e profunda. Os versos tem um efeito de teclado com características solúveis com a bateria que se perde junto com as guitarras e aí tudo explode no refrão. O último quarto da música é um epílogo marcante com todos os instrumentos misturados sem perder sua identidade, alcançando um momento sonoro épico e surpreendente com as guitarras dando um som encorpado,

'Variola Vera', a música que dá nome ao álbum, é uma simples composição pós-rock que fecha o álbum como uma espécie de despedida, mas não acrescenta muito e não complementa o que já foi visto.

Himmellegeme cobre muitos gêneros e espectros de rock progressivo, às vezes ouço Sigur Ros, Pink Floyd ou Anathema. E é que a música dos noruegueses ao longo do álbum 'Variola Vera' está repleta de influências. Gostam dos sons eletrónicos, mas sobretudo dos efeitos e das distorções, sem fugir ao facto de em vários momentos soarem mais acústicos do que se possa imaginar. Chega a tal ponto que às vezes seria difícil categorizar sua música. Tem progressivo, eletrônico, ambiente, post-rock, até um pouco de folk e blues, mas cuidado, sem todas essas influências confundirem ou confundirem, tudo se mistura de forma que o grupo crie uma identidade própria altamente identificável.

Enfim, este é um grande álbum que contém boas e excelentes canções e que ganha um lugar entre os meus melhores do ano.

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ROCK ART