sexta-feira, 10 de março de 2023

SAIBA TUDO SOBRE OS Real Combo Lisbonense

Real Combo Lisbonense

Ana Brandão: voz
Bernardo Barata: baixo
Jan Mucznik: voz, guitarra
João Leitão: guitarra
João Paulo Feliciano: Hammond, piano
João Pinheiro: bateria
Márcia Santos: voz
Mário Feliciano: Farfisa, voz
Rui Alves: percussões, voz
Sérgio Costa: piano, piano eléctrico

Com um repertório essencialmente constituído por clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa, o Real Combo Lisbonense é uma formação que recupera, sob uma perspectiva actual, o espírito e a vocação dos conjuntos de baile dos anos 50 e 60.

Num mundo em transformação a um ritmo cada vez mais acelerado, corremos o risco de deixar, irrecuperavelmente, para trás muitas marcas, objectos e tradições da maior importância para a preservação da nossa identidade.

Na música, uma das tradições que lamentavelmente se perdeu foi a das orquestras e conjuntos que, em meados do século XX, animavam os casinos, hotéis, bares e restaurantes das principais metrópoles ocidentais. Lisboa não era excepção – apresentava, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, uma cena viva de espaços dedicados ao convívio e à dança. Eram tempos de constrangimentos vários e esse tipo de locais servia como escape e alienação das emoções individuais e colectivas. Em simultâneo, o desenvolvimento da actividade turística garantia um fluxo de clientes cosmopolitas que afluía a Portugal em busca de sol, divertimento e de um certo exotismo quasi-tropical.

Foi nesse ambiente que se deu o início da música Pop em Portugal, resultado de uma série fértil de confluências várias. Partindo de uma matriz que assentava essencialmente nas tradições da canção ligeira e romântica, no fado e no folclore, elementos de outros estilos foram progressivamente incorporados de forma natural, consoante as modas e os contactos com o mundo exterior. A melhoria substancial das vias de comunicação e a criação da Linha Imperial da TAP levaram ao contacto inevitável com o que de mais moderno se fazia além-fronteiras. Foi assim que chegaram até nós influências que foram rapidamente assimiladas pelos jovens músicos portugueses: sons e ritmos oriundos da América do Sul – em especial do Brasil, mas também de Cuba, México e Argentina. De África, por via das antigas colónias – sobretudo de Cabo Verde –, outras sonoridades. Da Europa, um novo estilo de canção popular – italiana, espanhola e francesa. Tudo isto para além do jazz americano e ainda dos estilos internacionais emergentes na época – o twist, o yé-yé e o rock’n’roll.

Esse momento particularmente rico da música em Portugal foi, em grande medida, sufocado pelo regime político da altura. Directamente, através dos vários mecanismos de censura e, de um modo mais indirecto, pelo impacto que a guerra colonial teve nos mais variados sectores do país – a chamada obrigatória de todos os jovens para ingressar no exército, num esforço de guerra excepcional, fez com que muitas das formações musicais vissem impossibilitada a sua actividade regular. O período que se seguiu, antes e depois da revolução de Abril de 74, não foi, também, propício ao desenvolvimento da expressão musical Pop e, em particular, da música de dança. A urgência, as motivações e a matriz estética desse tempo eram outras.

Hoje, volvido meio século, é precisamente esse espírito que se pretende recuperar com a formação do Real Combo Lisbonense. Não se trata de um retorno a valores ou estéticas passadistas, nem de um qualquer exercício gratuitamente revivalista, mas antes da recuperação de algo vital, de manifesto interesse, que se perdeu nessa corrida desenfreada do progresso que tudo atropela e tudo faz esquecer!

Apesar do seu código genético revelar marcas vincadas de raiz popular, a sua morfologia incorpora múltiplas componentes de modernidade, instrumentais e cénicas, que estabelecem a ponte entre o passado e o presente. A sua música aspira, dessa forma, a ser congregadora, transgeracional, transsocial e transcultural.

Novos e menos novos, ricos, pobres e remediados – a todos, com um piscar de olho, o Real Combo Lisbonense convida para a dança!



Parecido com

 


Fotos






Faixas principais

DE Under Review Copy (À SOMBRA DE DEUS)

À SOMBRA DE DEUS

Quando em 1987/88 eu e o Berto Borges, então baterista dos Rongwrong, concebemos o projecto À Sombra de Deus, estávamos longe de imaginar a importância histórica e documental que o mesmo iria adquirir. Tínhamos a percepção nítida que estava a chegar ao fim um ciclo de grande pujança criativa da juventude da cidade e o nosso intuito era não deixar que o seu legado, no que à música diz respeito, fosse varrido pelo tempo. A maioria dos protagonistas dessa agitação juvenil da primeira metade da década de 1980 – grupos como Auaufeiomau, Ruge-Ruge, Comédia Selvagem, PVT Industrial, Os Eléctricos Chamados Desejo… – tinham cessado a actividade ou – no caso dos Bateau Lavoir – evoluído para algo diferente, sem deixarem qualquer documento que atestasse o que tinham sido esses anos. E quando em 1986 os seus herdeiros mais directos – Rongwrong, Mão Morta e Bateau Lavoir – fazem parangonas nas páginas dos jornais nacionais por via da participação no III Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous, em Lisboa (que ganhariam em toda a linha, com a vitória dos Rongwrong e a atribuição do Prémio de Originalidade aos Mão Morta), isso acaba por funcionar como caução do que já sabíamos: era não só social e culturalmente galvanizante como artisticamente relevante o que se passava em Braga. Mas se em 1988 tanto os Rongwrong como os Mão Morta já tinham a sua música gravada e editada, havia uma considerável quantidade de pérolas musicais do passado recente que só existiam na memória de quem tinha estado presente – eram essas pérolas que nós queríamos recuperar! Mas depressa nos demos conta que isso era como querer ressuscitar um cadáver: ninguém estava interessado em revisitar o passado, as circunstâncias que tinham ditado o fim das bandas pesavam mais do que quaisquer outras considerações e toda a gente preferia concentrar-se nos seus novos grupos e projectos. É assim que o nosso objectivo inicial acaba a ser desviado, obrigando-nos a olhar o presente e a fazer focagem na actualidade musical da cidade, que acabaria por dar subtítulo ao disco: Braga 88. E em 1988 essa cena musical juvenil era de transição: para além do triunvirato que dois anos antes colocara Braga no mapa musical português estavam ainda activos três outros grupos saídos das cinzas das movimentações juvenis da primeira metade da década (Rua do Gin, Baile de Baden-Baden e Espírito Ressacado) e surgiam já grupos de uma geração nova, que tinha por referência os ecos dos seus conterrâneos mais velhos (Orfeu Rebelde, Pai Melga, Os Gnomos). A colectânea integraria todos esses grupos – a excepção seriam os Espírito Ressacado que, quando da gravação do disco, tinham ido tentar a sua sorte para Berlim, por onde se mantiveram quase um ano –, fazendo um retrato fiel do que era a Braga musical em 1988. E foi com esta ideia já bem assente que Berto Borges foi apresentar o projecto aos responsáveis municipais, que o receberam de braços abertos e o assumiram como de interesse municipal. Foi assim já com o patrocínio da Câmara Municipal de Braga que em Dezembro de 1988 a colectânea À Sombra de Deus começou a tomar forma, com as diversas bandas participantes a deslocarem-se aos estúdios Tcha-tcha-tcha, em Miraflores, para registarem as suas intervenções, face à inexistência de estúdios de gravação em Braga. E a 19 de Abril de 1989 era então editado “À Sombra de Deus – Braga 88”, o primeiro disco publicado por uma Câmara Municipal a fazer o retrato musical juvenil de uma cidade, que para a história da música portuguesa revelaria ainda os Rua do Gin e o tema “Rebeca”. Uns anos depois, já com Berto Borges afastado dos meandros musicais e concentrado na sua carreira de professor universitário e eu com a minha vida quase totalmente centralizada em Lisboa, onde se desenrolava a minha actividade jurídica, é Miguel Pedro, baterista dos Mão Morta, que, juntamente com Henrique Moura, retoma a ideia da colectânea. O panorama musical bracarense tinha-se alterado significativamente, num refluxo de visibilidade e de dinamismo colectivo, com a geração dos anos 80 reduzida aos Mão Morta, que prosseguiam o seu percurso cada vez mais destacado, aos Rua do Gin, intermitentes e à deriva, sem soluções de estabilidade, a projectos paralelos, como os Um Zero Amarelo, formado por Carlos Fortes e António Rafael, membros dos Mão Morta, ou a diversões de estúdio, como os Humpty Dumpty, do próprio Miguel Pedro e de Manuel Leite, antigo mentor e baixista dos Rongwrong, ou os Electrodomésticos, um devaneio de alguns sobreviventes dos Bateau Lavoir; quanto ao mais, havia ecos esporádicos de outras existências musicais pela cidade, sem conexão entre si, numa dispersão que acentuava ainda mais a sensação de vazio colectivo e de falta de uma cultura juvenil partilhada como a que movimentara a cidade na década anterior. Fazendo um levantamento dessas existências dispersas, Miguel Pedro encontrou um punhado de bandas – Blind Panic, Dusk, Industrial Metal Machine, Tass, Wodka Technicolor (esta integrando um sobrevivente dos Orfeu Rebelde) –, com algum dinamismo criativo e actividade efectiva, provenientes de uma nova geração com referências e motivações muito diversas e diferentes das dos seus conterrâneos mais velhos, e considerou que, juntamente com as bandas e projectos da geração anterior, tinha matéria suficiente para avançar para um segundo volume do À Sombra de Deus. Obtido o necessário apoio da Câmara Municipal, que mais uma vez se mostrou receptiva à ideia, e também da BMG – então editora dos Mão Morta –, o disco “À Sombra de Deus – Volume 2” começa a ser gravado em Novembro de 1993 no estúdio EPVA, de Manuel Leite, que com as facilidades ocasionadas pela tecnologia digital montara o primeiro micro-estúdio de gravação da cidade. Seria depois editado pela BMG em Setembro de 1994, numa cerimónia de lançamento que contou com um concerto de todas as bandas participantes e dos convidados britânicos Inspiral Carpets. Em 2004 caberia mais uma vez a Miguel Pedro o ressuscitar da ideia da colectânea. Tinham-se passado dez anos e, depois de um refluxo que se pressentia já na edição anterior, Braga parecia ter de novo uma situação musical dinâmica, com alguns nomes a ganharem relevo nacional, como os Big Fat Mamma, que haviam assinado por uma multinacional, ou os Demon Dagger, um valor emergente na enérgica e marginal cultura do rock extremo. Fazendo um levantamento das existências, que continuavam dispersas, Miguel Pedro inventariou, para além dos Mão Morta, ainda uns restos de actividade da geração dos anos 80, corporizada nos Os Seis Graus de Separação, novo grupo de Paulo Trindade depois de encerrado o capítulo Rua do Gin, e nos Wave Simulator, nova encarnação musical de Jorge Roque cujas raízes longínquas remontavam aos Espírito Ressacado. Já da geração que havia despontado nos anos 90, mais concretamente do borralho dos Wodka Technicolor, vinham os VortexSoundTech e a banda de apoio a Sandy Kilpatrick, The Neon Road, um escocês então radicado em Braga, numa primeira nota de cosmopolitismo a querer romper no meio musical bracarense. As outras notas eram os Mécanosphère, que eu integrava juntamente com o francês Benjamin Brejon e o americano Scott Nydegger – que protagonizariam, inclusive, algumas colaborações com Sandy Kilpatrick –, e a vocalista brasileira dos Big Fat Mamma, Alex Liberalli. Ainda com ligações à geração dos anos 80, embora de outra ordem, surgia também André Leite, então um jovem e promissor songwriter, filho de Manuel Leite e de Teota, dos Rongwrong. As restantes existências musicais que Miguel Pedro recenseou com actividade significativa na cidade – bandas como Freequency, Jack In The Box, Phi, Spank The Monkey, Zero e as já referidas Big Fat Mamma e Demon Dagger – eram fruto de uma geração mais recente, que assomara para a música no final da década ou mesmo já no decorrer do novo milénio. Encontrados os protagonistas e recebido novamente o apoio da Câmara Municipal de Braga, o “À Sombra de Deus – Volume 3” começa a ser gravado em Maio de 2004 no estúdio que os Mão Morta, através da sua editora Cobra, haviam instalado com o técnico Nelson Carvalho na Casa do Rolão, então a sua histórica sala de ensaios. Seria depois editado a 26 de Julho do mesmo ano, com o selo do Município. Este terceiro volume, e a continuidade – por ele representada – do retrato panorâmico do som bracarense num momento concreto, transformaria definitivamente o projecto À Sombra de Deus num registo da actividade musical juvenil na cidade ao longo dos tempos, a primeira e única monitorização com estas características a existir em Portugal. Conscientes desse facto, e do valor histórico, patrimonial e musicológico que isso implica, eu e o Miguel Pedro há muito que sentíamos chegado o momento para um novo volume do À Sombra de Deus. Com efeito, depois da conversão do espaço vazio sob a bancada Nascente do Estádio 1.º de Maio em modernas salas de ensaio e da sua disponibilização pela autarquia às bandas da cidade em 2006, o meio musical bracarense não era mais o mesmo. Ganhara uma nova dinâmica colectiva e, mais do que isso, um protagonismo de âmbito nacional que ultrapassava mesmo o alcançado pela mítica geração dos anos 80. Hoje, a par dos Mão Morta, nomes como Peixe:Avião, Long Way To Alaska, Mundo Cão, Smix Smox Smux ou At Freddy’s House são referências incontornáveis do panorama musical português. E com eles muitas outras bandas e projectos coexistem, em combinações diversas e percursos díspares, mas igualmente passíveis do mesmo destaque. E isso devia ficar registado. Tanto mais que a riqueza criativa do presente, ainda que potenciada pela partilha de áreas de ensaio e de convívio, era muito fruto da história musical da cidade, essa mesma história que vinha sendo contada pelos vários volumes do À Sombra de Deus. Assim, se da primitiva geração dos anos 80 só restavam musicalmente activos os Mão Morta, era dos seus membros que partiam muitas das ramificações e movimentações de intercâmbio que caracterizam de novo a cena musical bracarense – seja com elementos de outras bandas e de outras gerações seja chamando à cidade músicos e artistas de outras latitudes –, dando origem a colectivos e projectos como Mundo Cão, Estilhaços, O Governo ou Palmer Eldritch. Também da geração dos anos 90 só Marco Pereira, revelado nos Wodka Technicolor, se mantinha musicalmente activo – depois da sua passagem nos anos 00 pelos The Neon Road, VortexSoundTech e Wave Simulator –, mas dava logo corpo a Tatsumaki e aos Nyx. Finalmente, da geração revelada ao terceiro volume do À Sombra de Deus havia ainda um grande rasto de actividade: das cinzas dos Big Fat Mamma vinham os Monstro Mau e os Balão de Ferro, com Gonçalo Budda a integrar também os Mundo Cão; do lume dos Freequency vinham bandas e projectos como os Smix Smox Smux, os Peixe:Avião, The Astroboy e Palmer Eldritch; do ocaso dos Spank The Monkey vinha o At Freddy’s House. Tudo isto, com epicentro nas salas de ensaio do Estádio 1.º de Maio, já daria para preencher um novo disco do À Sombra de Deus, embora lhe ficasse a faltar um novo capítulo da gesta da música bracarense – o capítulo aberto por bandas como Long Way To Alaska, Ermo, Hunted Scriptum, Spitting Red, Egg Box, Vai-te Foder, The 1969 Revolutionary Orgy ou Angúria, nascidas no seio de uma nova geração particularmente activa e promissora. Por fim, o retrato musical da cidade não ficaria ainda completo se não incluísse os projectos de músicos que, tendo tido percurso por outras paragens, se tinham entretanto fixado em Braga, como é o caso de Cavalheiro e de Dead Men Talking. Era pois toda esta riqueza e diversidade que devia ficar documentada, fixando um momento especialmente mágico da história musical da cidade. Assim, quando Braga foi nomeada Capital Europeia da Juventude, logo nos demos conta que tínhamos aí a oportunidade para o concretizar desse almejado novo volume do À Sombra de Deus. Miguel Pedro tratou pois de apresentar o projecto aos responsáveis pela Capital Europeia da Juventude, que imediatamente o apadrinharam, e em Fevereiro de 2012, no estúdio Moby Dick que Gonçalo Budda propositadamente deslocara e montara no complexo das salas de ensaio do Estádio 1.º de Maio, iniciavam-se as gravações das bandas participantes. Começava a tomar forma a colectânea “À Sombra de Deus 4 – Braga 2012”, o quarto volume desta narrativa da música juvenil bracarense, agora editado sob os auspícios da Capital Europeia da Juventude – Braga 2012 e com distribuição nacional pela Compact. [Adolfo Luxúria Canibal]

COMPILAÇÕES

 
À SOMBRA DE DEUS - BRAGA 88 [LP, Câmara Municipal de Braga, 1988]

 
À SOMBRA DE DEUS VOLUME 02 [CD, BMG, 1994]

 
À SOMBRA DE DEUS VOLUME 03 [CD, Câmara Municipal de Braga, 2004]

 

À SOMBRA DE DEUS 04 - BRAGA 2012 [2xCD, Braga 2012, 2012]


SOM VIAJANTE (Calomito "Cane di schiena" (2011)

 


Obviamente, os membros da banda italiana Calomito não são o tipo de pessoa que gosta de se lembrar constantemente de si mesmos. Como verdadeiros artistas, eles desprezam a mesquinhez e abordam o processo criativo com uma medida filosófica, porém, com paixão genuína. Acontece que o ano de lançamento do disco "Inaudito" (2005) coincidiu com o nascimento do escritório milanês AltrOck Productions. O fundador deste último, o produtor intelectual Marcello Marinone , em todos os aspectos, foi obrigado a prestar atenção a uma equipe de pensamento tão banal. Na verdade, foi exatamente isso que aconteceu. Não imediatamente, mas ainda assim. Claro, os lutadores do acampamento Calomitocompreendeu os benefícios de uma aliança potencial com a empresa em rápida expansão do Signor Marcello. Porém, os princípios cavalheirescos não permitiam que os caras tratassem os funcionários da gravadora Megaplomb que os abrigava como um porco. A delicada situação ameaçou se transformar em crise, porém, para grande satisfação de cada uma das partes, as dificuldades foram resolvidas sem desnecessário derramamento de sangue. A gestão de ambas as empresas conseguiu encontrar uma linguagem comum. E o tão esperado, gravado e mixado por dois anos, o lançamento de "Cane di schiena" cabeçudo da justiça genovesa trouxe um duplo estigma: AltrOck/Megaplomb. Mas chega de rodeios, vamos à parte mais agradável da nossa história.
As nove faixas do álbum demonstram o método de composição e execução de CalomitoNo seu melhor. A introdução de "Bella Lee" carrega o ouvinte com uma grande fração polifônica - ligadura teclado-vento com uma guitarra multifacetada e passagens refinadas de violino. Sim, isso é avant-rock - com características humanas: emocionalidade, raiva e breves interjeições de natureza reflexiva. No número "Parliamone", a estrutura monotemática gradualmente se transforma em uma fusão indie exuberante e poeticamente sublime com um toque de tempero Canterbury. Definitivamente, um hábil jogo de humores é uma das características do grupo. O canto operístico da diva desconhecida com acompanhamento de piano na fase de abertura de "Infaditi" certamente confunde. O que se segue é um shifter de gênero magistral,Frank ZappaNa complexa bebida "Fungo", loucas piruetas de sopro se cruzam perfeitamente com astúcia calculada, mas a obra-título nos dá a graça de um prog alto de câmara, multiplicada pelo formidável passo de raros acordes crimzo em uníssono. O humor negro do estudo "Pappa irreale" é feito em estética mista (country e western, ragtime, jazz cigano + pseudo-pompa caricatural, por trás da qual espreita um sorriso eriçado). No contexto da trama "Antena", as técnicas de guitarra de Fripp são cimentadas com uma poderosa solução sonora; a adivinhação de comando atinge o efeito efetivo máximo aqui. A mensagem sardônica do esboço "Klez" lembra as piruetas caóticas de uma abelha encurralada; cruelmente, e ao mesmo tempo brilhante à sua maneira. O épico é completado por um absolutamente cinematográfico, com uma mistura de exótico, afresco "Calomito .
Para resumir: um ato de rock intrigante, inteligente e original, incorporado com bom gosto, talento e um senso de proporção filigrana. Um verdadeiro presente para os fãs do jazz de câmara de vanguarda. Eu recomendo.



SOM VIAJANTE (Corduroy "Dad Man Cat" [plus demos] (1992)

 


Os principais caras da cena acid jazz da ilha na década de 1990, Corduroy tornou-se aquele ato artístico desesperadamente ousado que a mídia de massa européia, cedeu ao Britpop, tanto precisava. No comando do quarteto de Londres estavam os irmãos gêmeos Addison - Ben (bateria, voz) e Scott (teclados, voz). De 1987 a 1990, esse casal, escondido atrás dos fofos pseudônimos Big Ben e Great Scott, liderou o projeto independente Boys Wonder . Mas à medida que cresciam, os caras queriam cada vez mais voltar os olhos para as melodias nostálgicas ouvidas na infância e para o som quente do tubo. Houve um processo difícil de encontrar pessoas afins. Porém, na realidade, tudo saiu melhor do que você pode imaginar. O impulso criativo dos Addisons foi apoiado pelo baixistaRichard Searle , que tocou na equipe glam psicodélica Doctor & The Medics por vários anos . O quarto participante chave da aventura foi o jovem guitarrista Simon Nelson-Smith , que deu uma contribuição significativa para o design do ambiente sonoro básico de Corduroy . A equipe realizou seu primeiro set ao vivo "em público" na véspera de Ano Novo de 1991. Motivos brilhantes, charme e atrevimento dos estreantes, aliados a um domínio muito decente dos instrumentos, impressionaram o público. O grupo quase imediatamente ganhou fãs. Dândis promissores foram levados ao lápis pelos donos do escritório de perfil Acid Jazz Eddie Piller e Gilles Peterson , com cuja submissão o conjunto nasceu com o LP "Dad Man Cat".
O número de abertura "Chowdown" chama a atenção com as acrobacias do funk da moda: órgão, guitarra wah, piano elétrico e uma seção rítmica legal. O começo perfeito, um petisco para os amantes do retro. O desfile de groove continua com o estudo de assinatura "Long Cool & Bubbly" com seus riffs, acordes de jazz e um aceno geral para o melhor dos tempos - o divisor de águas pontilhado dos anos 1960/1970. A intriga da história é adicionada por uma variação do tema do thriller "The Girl Who Was Death": um sombrio "Hammond", ataques de guitarra elétrica que coçam, um leve toque de "acidez" e loucura coletiva em ascensão. De "How to Steal the World" Veludo texturizadovolte-se para o coquetel de fusão funky "Frug in G Major" transbordando de energia, confundindo as faixas com simulações de cordas de órgão. No esboço dançante da fase irônica de "Electric Soup", as chamas da era dos "filhos das flores", carregadas de vida e sensualidade, brilham com luzes estroboscópicas. Uma viagem chique a um passado aparentemente absolutamente real. A alma latina "Rabo de Cavalo" é a outra face do talento do compositor inglês. Sem artificialidade, deliberação. Entrada extremamente natural no território, relativamente falando, Mandrille uma viagem perfeitamente harmoniosa por uma rota exótica. O thriller de ritmo e blues "Harry Palmer" apela para a tradição dos heróis cômicos dos velhos tempos à la James Bond. É preciso explicar que também aqui esperamos uma inspiração, mas ao mesmo tempo subordinada à lógica interna, confusão de imagens e cores? A personificação da moda desenfreada é a faixa "E-Type", o prato de assinatura de Corduroy , um autocartoon desenhado com bom gosto. A melodiosa atração do jazz "Skirt Alert" é substituída pela arrastada "Six Plus One", onde o groove existe por causa do groove. A série termina com uma enérgica versão cover de "Money Is" de Quincy Jones , emitindo poderosos destaques sonoros . Para um "lanche" - seis bônus de demonstração que podem alegrar os fãs.
Resumindo: um programa acid jazz excepcionalmente excelente, demonstrando a relevância e a elegância indestrutível dos postulados musicais do "Antigo Testamento". Eu recomendo.




VALE A PENA OUVIR DE NOVO

 

Amália Rodrigues - "Um amor de Amália - Gravado ao vivo no Canecão" [1973]

“Painkiller”, o clássico álbum que reinventou o Judas Priest


 Décimo-segundo disco de estúdio da banda era o que precisava ser feito naquele momento, com muito peso

Judas Priest – ‘Painkiller’
Lançado em 3 de setembro de 1990

Se o inferno tivesse uma banda marcial, certamente soaria como a introdução de bateria de ‘Painkiller’, música que dá título e inicia o álbum lançado pelo Judas Priest em 3 de setembro de 1990. Neste disco, o 12° de estúdio da carreira da banda, houve a tentativa de soar mais pesado do que nunca. E eles acertaram.

O contexto, evidentemente, conspirou para que ‘Painkiller’ obtivesse tal sonoridade. A fama do Judas Priest estava em queda livre desde o maior sucesso da carreira deles, o ótimo ‘Screaming for Vengeance’ (1982). O álbum seguinte, ‘Defenders of the Faith’ (1984), até segurou o rojão, massa tentativa de soar mais hard rock em ‘Turbo’ (1986) e o pouco inspirado ‘Ram It Down’ (1988) fizeram o Priest ter desfalque em popularidade em um período crucial – os anos 80.

Eles sabiam que precisavam mudar. E a primeira alteração foi forçada: em 1989, o baterista Dave Holland deixou a banda. O substituto, Scott Travis, veio do The Scream, banda com músicos do Racer X e com um ainda desconhecido John Corabi (futuro vocalista do Mötley Crüe). Era significantemente mais técnico e habilidoso com as baquetas do que todos os antecessores dele no Priest.


“Scott Travis nos levou a outra dimensão com seu trabalho incrível de pedal duplo, enquanto Dave só usava pedal simples. Isso nos abriu uma nova gama de possibilidades”, reconhece o vocalista Rob Halford, em entrevista à ‘Metal Hammer’.

Outra alteração foi feita na cadeira da produção: após mais de uma década com Tom Allon na função, a banda trouxe Chris Tsangarides, que se destacou nos anos 80 após gravar Black Sabbath, Anvil, King Diamond, Thin Lizzy e Tygers of Pan Tang, entre outros. Tsangarides já havia trabalhado com o Priest, em ‘Sad Wings of Destiny’ (1976), como engenheiro de som e “fazedor de chá”, segundo os músicos.

Em ‘Painkiller’, Chris teve o papel de fazer o grupo soar mais pesado, agregando influências do thrash metal – subgênero que o próprio Judas ajudou a construir como influência. Este, inclusive, é um dos grandes méritos da banda em sua carreira: inspirar-se por aquilo que chegou posteriormente. Modernizar-se. Faz parte do “jogo artístico”.

As gravações de ‘Painkiller’ aconteceram entre janeiro e março de 1990, na França, mas o álbum demorou um pouco para sair. Na época, estava em etapas finais de julgamento o processo onde a banda era acusada de ser responsável pela tentativa de suicídio de dois garotos, Ray Belknap e James Vance, na cidade americana de Reno, em 1985.

Em 1989, os músicos já haviam sido obrigados a trocar os figurinos de couro pelos ternos para ir ao tribunal em suas defesas. Os pais dos meninos – Belknap, que morreu de imediato, e Vance, que sobreviveu, mas faleceu em 1988 após ficar com sequelas severas – alegavam que o cover do Judas para ‘Better By You, Better Than Me’ os incitou a tentar tirar suas vidas. O caso não deu em nada, mas fez a banda perder tempo, além de abalar os bastidores.

Foi difícil, mas o Priest conseguiu superar todos esses problemas – mudança na formação e no mercado, além do contratempo judicial – para lançar um de seus álbuns mais célebres. ‘Painkiller’ é bem-sucedido na intenção de trazer a versão mais pesada do grupo até aquele momento. Não só nas composições, como, também, nas performances individuais e timbragens de instrumentos.

Ajudado pela sobriedade recente, Halford estava, indubitavelmente, em seu auge como cantor. Sua voz ganhou mais profundidade e contornos com a performance heavy que o álbum demandava. As guitarras de Glenn Tipton e K.K. Downing soavam cada vez mais raivosas – a timbragem usada nos solos é quase um sinônimo para “metal”. Enquanto Ian Hill seguiu com seu estilo discreto de tocar baixo, Scott Travis elevou o patamar da banda e trouxe destaque à bateria.

A música ‘Painkiller’ sintetiza todos os elementos que fazem o álbum, de mesmo título, se destacar. Todavia, há outras faixas de destaque. ‘Hell Patrol’, sobre os pilotos americanos na Guerra do Golfo, é caótica e pesada como deveria ser – e há pelo menos uma faixa parecida com ela em cada disco seguinte da banda. ‘All Guns Blazing’, de letra autoafirmativa, reforça a fórmula artística que o Priest finalmente havia encontrado.

‘Leather Rebel’ e ‘Metal Meltdown’ mostram, cada uma a seu modo, os predicados técnicos de Glenn Tipton e K.K. Downing, que soam exuberantes no álbum como um todo. A melódica ‘Between the Hammer & the Anvil’, a cadenciada ‘A Touch of Evil’ – que já nasceu clássica – também se destacam, além da balada ‘Living Bad Dreams’, que ficou fora da tracklist original, mas está presente no relançamento de 2001.

Não dá para negar que ‘Painkiller’ era o álbum que o Judas Priest precisava fazer naquele momento. O problema é que o momento não parecia tão bom assim. As vendas até foram boas, mas não exatamente satisfatórias a ponto de diferenciar esse disco dos antecessores diretos. Será que eles chegaram tarde demais, ao usar só naquele momento a influência do thrash metal, ou cedo demais, antes de bandas como Pantera, Korn e Sepultura se destacarem? Nunca saberemos.

Fato é que a turnê de divulgação ajudou um pouco a reverter esse quadro. A banda passou até pelo Brasil, sendo uma das atrações do festival Rock in Rio 1991, junto de Guns N’ Roses, Megadeth, Faith No More e do já mencionado Sepultura. Foi nessa tour, inclusive, que Halford raspou os cabelos e adotou o visual “Metal God” definitivo.

Todavia, o Priest já mostrava alguns sinais de cansaço, tanto no palco quanto fora. A recepção morna a ‘Painkiller’ fez com que as músicas do novo álbum saíssem do repertório ao longo dos meses. As tensões internas e uma suposta falta de liberdade artística motivaram Rob Halford a sair da banda, ao fim da tour, em 1992, dedicando-se a um novo projeto, o Fight, que soava ainda mais pesado.

“Eram tempos difíceis. O Alice in Chains surgiu com ‘Man in the Box’ e todo o mundo do rock mudou de foco. O caso nos tribunais também colaborou. Tente acordar toda manhã com o peso de ser acusado de matar duas pessoas. Não é fácil”, disse Halford, à ‘Metal Hammer’. Tipton complementa: “Isso tudo nos afetou mais do que parece. Quando você tem que ir ao tribunal todo dia por seis semanas e ouve várias mentiras, inclusive com o sistema legal americano te fazendo de bode expiratório, isso te irrita”.

Os músicos reconhecem que ‘Painkiller’ salvou o Judas Priest de não acabar, mas não foi o suficiente para segurar Rob Halford na banda. A popularidade do grupo caiu ainda mais nos anos seguintes, com o vocalista Tim “Ripper” Owens na vaga do próprio ídolo. Halford também não conseguiu emplacar com o Fight, nem com outros projetos, e voltou ao Priest em 2003, já na condição de lenda.

Seja durante a “fase Ripper” ou nos trabalhos com Rob Halford após seu retorno, ‘Painkiller’ pavimentou o caminho do Judas Priest para o futuro. A repercussão pode não ter sido das maiores em termos de vendas, mas este é, certamente, um dos álbuns mais importantes da banda. E quando o material é bom o bastante, o reconhecimento acaba chegando em algum momento. Antes tarde do que nunca.

1. Painkiller
2. Hell Patrol
3. All Guns Blazing
4. Leather Rebel
5. Metal Meltdown
6. Night Crawler
7. Between the Hammer & the Anvil
8. A Touch of Evil
9. Battle Hymn (instrumental)
10. One Shot at Glory

Faixas bônus do relançamento de 2001:

11. Living Bad Dreams
12. Leather Rebel (ao vivo em 1990)

Destaque

ROCK ART