sábado, 11 de março de 2023

The Lathums – From Nothing to a Little Bit More (Extended) (2023)

 

Os LathumsA tão esperada estreia dos Lathums, 'How Beautiful Life Can Be', veio como uma agradável surpresa para Joe Public (refletida em seu status de topo das paradas) em seu lançamento há 18 meses. Mas para aqueles que estavam prestando atenção, ou seja, sua base de fãs não insignificante, era apenas um lançamento oficial de músicas que estavam em seus léxicos pessoais há muito tempo.
Lançar o álbum dois (relativamente) logo depois é uma jogada inteligente, pois traz a base de fãs e os fãs de bom tempo na fila para testemunhar o próximo passo como um. E, com uma exceção, é um grande passo. A bateria galopante, o baixo disco e o riff retorcido de 'Say My Name' mostram sua evolução musical, mas servem apenas para complementar a guitarra principal de Scott Concepcion, que está praticamente implorando para…

MUSICA&SOM

…ser jogado no topo de um penhasco, licks alegremente arrancados dele.

É precedido por seu último single 'Struggle', atraindo o ouvinte com um motivo de piano simples, mas eficaz e um vocal suave de Alex Moore, antes de se tornar um hino de coração na manga que provavelmente será cantado por todos e diversos a partir do restante de 2023.

Da mesma forma, Moore raspa o céu em 'Sad Face Baby', uma fatia de Kings of Leon da era do pico até as mudanças de ritmo e 'whoas' cavernosos, enquanto uma regravada 'Crying Out' foi reforçada para melhor atender a isso nova versão muscular do grupo. Aparecendo originalmente como uma faixa bônus na estreia, sua inclusão é garantida para melhor se adequar ao clima e à vibração do álbum, no qual Moore entra em detalhes granulares sobre os vários estágios de um relacionamento.

“Obrigado por me amar”, ele canta na alegre e contagiante 'Lucky Bean' em um cenário de trombetas e caixas, enquanto as coisas pioram em 'I Know Pt 1' ("Você dirigiu uma adaga direto através meu coração”), toda inclinada da Motown e cordas suntuosas. Na verdade, o conteúdo lírico se desgasta em alguns pontos, sendo tão auto-indulgente, mas a intensidade das emoções em uma idade tão jovem nunca deixará de ressoar.

Felizmente, em músicas como a bestial 'Facets', Moore compensa com sua marca registrada, jogo de palavras travessos e rápidos, enquanto a faixa de destaque 'Land and Sky', que começa como uma guinada rastejante, irrompe com alguns graves musicais de roda livre de sua banda. -companheiros.

Cheio de pequenos toques e floreios que mostram sua maturidade, 'From Nothing to a Little Bit More' prova enfaticamente que os Lathums estão aqui para ficar.

1. Struggle [03:51]
2. Say My Name [03:47]
3. I Know Pt 1 [03:52]
4. Lucky Bean [02:49]
5. Facets [02:30]
6. Rise and Fall [04:02]
7. Sad Face Baby [04:14]
8. Turmoil [03:25]
9. Land and Sky [04:05]
10. Crying Out [04:10]
11. Undeserving [08:03]
12. Knotted Bed of Roses [02:51]
13. Humble Beginnings [03:09]
14. Slowly the Wheels Are Turning [03:03]
15. Chills [02:12]
16. Say My Name (Live at Neighbourhood Festival) [04:12]
17. I Know Pt 1 (Live at Neighbourhood Festival) [04:04]
18. Facets (Live at Neighbourhood Festival) [02:41]
19. Sad Face Baby (Live at Neighbourhood Festival) [04:19]


“Alô Malandragem, Maloca O Flagrante” (RCA, 1986), Bezerra da Silva

 




Bezerra da Silva (1927-2005) foi um dos mais carismáticos e escrachados nomes da história do samba. Apelidado de “embaixador das favelas”, ganhou fama com sambas irreverentes que retratavam malandros, caguetes, otários, policiais, cornos, sogras, adúlteras e políticos safados. Seu prestígio era tão grande que ultrapassavam as fronteiras do samba, a tal ponto de ser admirado até mesmo por bandas do rock brasileiro, dentre os quais Barão Vermelho e Planet Hemp.

José Bezerra da Silva nasceu no Recife, em Pernambuco. Aos 15 anos, foi expulso da Marinha Mercante, onde trabalhava. Partiu para o Rio de Janeiro para fugir da pobreza em que vivia na capital pernambucana e também para procurar o seu pai. Chegou a encontra-lo na então capital do Brasil, mas após desentendimentos com ele, acabou ficando sozinho. Para sobreviver no Rio de Janeiro, trabalhou na construção civil como pintor de paredes. No final dos anos 1940, ingressa no bloco carnavalesco Unidos do Cantagalo tocando tamborim.

Em 1950, um dos integrantes do Unidos do Cantagalo leva Bezerra da Silva para a Rádio Clube do Brasil, onde vai atuar como ritmista. Porém, entre o fim da década de 1950 e início dos anos 1960, Bezerra vive como mendigo pelas ruas de Copacabana. Por volta de 1965, sua vida muda de rumo quando consegue um emprego trabalhando na orquestra da gravadora Copacabana, onde acompanha vários artistas em gravações de discos. Em 1969, surge a sua primeira grande chance na carreira artística: lança o pela gravadora Copacabana o seu primeiro compacto, embora não tenha conseguido grande repercussão.

Seis anos depois, em 1975, Bezerra da Silva lança o seu primeiro álbum, O Rei do Coco – Volume 1, pela gravadora Tapecar. Daí em diante, o sambista lança um álbum a cada ano e vai construindo o seu nome no meio do samba, desenvolvendo o seu estilo e formando o seu público.

Mas a partir de 1980, quando é contratado pela gravadora RCA, a carreira de Bezerra da Silva começa a decolar, graças aos seus sambas irreverentes que retratam a dura realidade dos morros cariocas. Desde aquele momento, Bezerra desenvolvia o hábito de gravar sambas de compositores pouco conhecidos. Era uma maneira que Bezerra encontrou de usar o prestígio que estava conquistando para ajudar aqueles compositores que estavam à margem da indústria musical.

Bezerra da Silva: sambas irreverentes que retratavam malandros, caguetes, otários,
policiais, cornos, sogras, adúlteras e políticos safados. 

O grande estouro de Bezerra da Silva chega na maturidade, em 1984, aos 57 anos, com “Defunto Caguete”, um samba hilário do álbum É Esse Aí Que É o Homem, em que o sujeito mesmo morto, dedurava qualquer um. Nem no inferno e nem no céu ele perdeu o costume: caguetou o diabo e São Pedro. No ano seguinte, em 1985, saiu Malandro Rife, disco que emplacou dos sucessos da carreira de Bezerra, “Bicho Feroz” e “Vítimas da Sociedade”.

Em 1986, Bezerra da Silva veio com Alô Malandragem, Maloca O Flagrante, um álbum com doze sambas irreverentes que seguem a fórmula musical que consagrou o sambista pernambucano. Temas que se tornaram frequentes nos sambas gravados por Bezerra como adultério, contrabando, malandragem, drogas e delação, estão presentes em Alô Malandragem, Maloca O Flagrante.

O álbum começa com uma música que se tornou um dos maiores sucessos de Bezerra da Silva, “Malandragem Dá Um Tempo”, um samba em que um usuário de maconha, por receio de ser delatado por algum caguete, só vai acender o baseado quando os “dedos de seta” (o mesmo que caguete, delator), sumirem da área. O refrão se tornou antológico: “Vou apertar / Mas não vou acender agora / Vou apertar / Mas não vou acender agora / Se segura malandro / Pra fazer a cabeça tem hora / Se segura malandro / Pra fazer a cabeça tem hora”.

“Defunto Grampeado” começa com o soar de uma sirene de viatura da polícia. É a polícia chegando a um cemitério e manda para o enterro para prender ninguém menos que o defunto. Na verdade, no caixão não havia defunto, mas um “cabrito importado”, que na gíria da malandragem é contrabando. O samba termina com o vigário que fazia a cerimônia do falso sepultamento, e mais alguns malandros contrabandistas “enjaulados”.

“Quem Usa Antena É Televisão” é um samba sobre adultério, em que um malandro, ao voltar da boemia, chega em casa e encontra a sua mulher com outro homem. Embora seja um samba irreverente, “Quem Usa Antena É Televisão” possui um teor machista nos seus versos, e ainda traz a violência contra a mulher, que na letra da música, pagou um preço por trair o marido boêmio: “Lá na minha bocada / A crioula do Chico
Pedia socorro / Chorava, gemia / O coro comia / A nega apanhava / Que nem um ladrão / Isso aconteceu / Em uma madrugada / De segunda-feira / O Chico voltava
Lá da gafieira / E flagrou um esperto / No seu barracão...”.

“Maloca O Flagrante” é outro samba contrabando. Desta vez, os malandros fazem de tudo para esconder a muamba para se livrar do flagrante com a chegada da polícia: “Não vai dar pra dividida / Esconde a muamba e sai batido / Quando o malandro é de verdade / Na briga não gosta de sair ferido”.

Em “Vovô Cantou Pra Subir”, uma entidade espiritual, neste caso o “vovô”, adverte um pai de santo desonesto para não cobrar pelas consultas, e lembra que “caridade não se paga”, um dos princípios da Umbanda. Durante a época difícil que Bezerra da Silva vivenciou quando morou na rua no Rio de Janeiro, no começo dos anos 1960, o sambista encontrou apoio na Umbanda, e através dela conseguiu refazer a sua vida.

“A Rasteira do Presidente” foi gravada durante o recém-implantado Plano Cruzado pelo então presidente do Brasil, José Sarney, no início de 1986, com o objetivo de combater o alto índice da inflação. O governo “congelou” os preços, e para fazer com que o plano desse certo, incentivou o povo a fiscalizar os preços no comércio (lojas, supermercados, postos de gasolina...). Após poucos meses de algum resultado positivo, o plano perdeu fôlego e fracassou antes mesmo do ano acabar.

“Meu Bom Juiz” faz uma clara alusão a José Carlos dos Reis Encina (1956-2004), o Escadinha, traficante de drogas que foi um dos fundadores da organização criminosa Comando Vermelho, e que em 1985 protagonizou uma fuga espetacular, ao fugir de helicóptero do presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Porém, no ano seguinte foi preso novamente. Escadinha comandava o tráfico de drogas no Morro do Juramento, e como todo líder do tráfico, comportava-se como um benfeitor da comunidade para ganhar a confiança. É uma triste realidade que persiste não só nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, mas nas de outras grandes cidades brasileiras. A letra sai em defesa daquele suposto “defensor” da comunidade como se fosse um herói, um reflexo da pouca ou nenhuma presença do Estado nas comunidades carentes. Se o poder público não atende as necessidades dessa população, são os traficantes quem atendem, cobrando em troca o silêncio e a dignidade dela.

José Carlos dos Reis Encina, o "Escadinha",  um dos fundadores do Comando Vermelho
e tema do samba "Meu Bom Juiz".


“Língua De Tamanduá” é mais um samba sobre caguete que entrega a malandragem para a polícia, e tem a sua língua comparada a de um tamanduá. Neste samba, o caguete entregou até quem nada fez de errado: “Veja bem o que você fez / Seu língua de tamanduá / Tem gente pagando pelo que não fez / Só porque / Seu dedo não soube apontar / Agora a malandragem já está sabendo que você cagueta e vai lhe ripar”.

Em “Na Boca Do Mato”, um malandro escapou da casa de uma mulher após a chegada do furioso marido dela. Só não morreu porque sabia jogar capoeira que ele teria aprendido na Bahia.

Se em “Na Boca Do Mato”, o corno era valente, em “Sua Cabeça Não Passa Na Porta”, o corno é manso e inofensivo: “Seu amigo que é gavião / Está sempre contente e feliz / Todo dia ele dá um presente à sua criança e você nada diz
E a sua mulher, muito honesta, jura e diz que nem morta / Mas qualquer dia sua cabeça não passa na porta”.

Para a malandragem, otário e caguete são a mesma coisa. Em “Os Direitos Do Otário”, o otário só tem dois direitos: tomar tapa e não dizer nada.

“Compositores De Verdade” encerra o álbum homenageando os compositores. Assim como Bezerra deu visibilidade a compositores pouco prestigiados, o sambista sempre foi grato a eles pelo seu sucesso. Composta sob medida para Bezerra por Romildo, Édson Show e Naval, “Compositores De Verdade” é um samba de agradecimento. Em seus versos, o samba traz de maneira interessante citações a outros sambas que fizeram sucesso na voz de Bezerra da Silva como “Colina Maldita” (“Eu sou do pico, da Colina Maldita”), “Mandei Pro Inferno” (“Já mandei a minha nega pro inferno”), “Produto Do Morro” (“Sou produto do morro”), “Pega Eu” (“Gatuno que entra na casa de pobre”), “Minha Sogra Parece Sapatão” (“Toma tapa da minha sogra sapatão”) e “Bicho Feroz” (“Para bicho feroz tenho a planta maneira”).

Considerado um dos melhores discos da carreira de Bezerra da Silva, Alô Malandragem, Maloca O Flagrante teve como as faixas que mais fizeram sucesso “Malandragem Dá Um Tempo”, “Meu Bom Juíz” e “Sua Cabeça Não Passa Na Porta”. O sucesso em rádio de “Malandragem Dá Um Tempo”, não livrou Bezerra de ter problemas com as autoridades que o acusavam de fazer apologia à maconha. Em 1996, a banda Barão Vermelho lançou um disco intitulado Álbum, em que a banda carioca regravou sucessos de outros artistas, dentre eles “Malandragem Dá Um Tempo”, porém numa versão mais pop.

Faixas

Lado A
  1. “Malandragem Dá Um Tempo” (Popular P – Adelzonilton - Moacir Bombeiro)    
  2. “Defunto Grampeado” (Evandro do Galo - Pedro Butina)
  3. “Quem Usa Antena É Televisão” (Pinga – Celsinho da Barra Funda)          
  4. “Maloca O Flagrante” (Tonho - Cláudio Inspiração - Laureano)
  5. “Vovô Cantou Pra Subir” (Roxinho - Alicate de Niterói)
  6. “A Rasteira Do Presidente” (Bicalho - Silvio Modesto) 

Lado B
  1. “Meu Bom Juiz” (Beto s - Braço - Serginho Meriti) 
  2. “Língua De Tamanduá” (Valmir - Tião Miranda)
  3. “Na Boca Do Mato” (Luiz Grande)
  4. “Sua Cabeça Não Passa Na Porta” (Barbeirinho do Jacarezinho)
  5. “Os Direitos Do Otário” (1000tinho - Jorge Garcia)
  6. “Compositores De Verdade” (Romildo - Édson Show – Naval)


“Malandragem Dá Um Tempo” 


“Defunto Grampeado” 


“Quem Usa Antena É Televisão”


 
“Maloca O Flagrante”


 
“Vovô Cantou Pra Subir”


 
“A Rasteira Do Presidente”


 
“Meu Bom Juiz”


 
“Língua De Tamanduá”


“Na Boca Do Mato”


 
“Sua Cabeça Não Passa Na Porta”


 
“Os Direitos Do Otário”


 
“Compositores De Verdade”

“Õ Blésq Blom” (Warner, 1989), Titãs

 


O ano era 1989, e o então octeto paulista Titãs estava no primeiro escalão do rock brasileiro. Naquele momento, disputavam acirradamente com Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii, o posto de banda de rock mais importante do Brasil. Os Titãs desfrutavam de uma popularidade invejável conquistada através do sucesso de público e de crítica dos álbuns Cabeça Dinossauro (1986) e Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas (1987). A banda estava com um prestígio tão grande que em julho de 1988, se apresentaram no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. A apresentação foi registrada e foi lançada naquele mesmo ano no álbum Go Back, o primeiro álbum gravado ao vivo dos Titãs.

Para o próximo álbum de estúdio, os Titãs poderiam muito bem repetir a “fórmula” de Cabeça Dinossauro ou de Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas, álbuns de grande sucesso comercial, afinal, como diz o ditado, “em time que está ganhando, não se mexe”. Mas os Titãs pareciam mesmo dispostos a arriscar e contrariar o ditado popular.

Foi da aposta em sair da “zona de conforto”, e lançar um novo e consistente trabalho que nasceu Õ Blésq Blom, em 1989. O álbum foi uma evolução natural de Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas, onde os Titãs experimentaram pela primeira vez no seu trabalho musical, baterias programadas e samplers. Mas apesar da presença da eletrônica, Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas ainda conservava alguma crueza de Cabeça Dinossauro.

Em Õ Blésq Blom, os Titãs trouxeram o experimentalismo eletrônico aliado ao pop com “vernizes” de música brasileira, uma configuração musical completamente ausente nos dois discos anteriores. Houve em Õ Blésq Blom um emprego maior das programações eletrônicas e sintetizadores, em detrimento das guitarras, algo que gerou uma certa insatisfação aos guitarristas Marcelo Fromer (1961-2001) e Tony Bellotto.

A concepção de Õ Blésq Blom nasceu a partir do reencontro dos Titãs com Mauro e Quitéria, um casal de cantadores paupérrimos que ganhava a vida cantando na praia de Boa Viagem, no Recife. O primeiro encontro ocorreu em 1987, e o reencontro dos Titãs com o casal se deu por conta do show da turnê de Go Back. O casal tinha um jeito bem peculiar de se apresentar: Mauro, um ex-estivador, tinha um grau de deficiência visual, cantava sacudindo um ganzá improvisado, num idioma que supostamente era uma mistura de espanhol, inglês, grego e italiano, cujo resultado era quase incompreensível. Quitéria acompanhava o marido na cantoria e ditava o ritmo. O primeiro encontro ocorreu em 1987, mas nesse segundo encontro, a banda fez algo diferente: Paulo Miklos, um dos vocalistas da banda, com um gravador caseiro, decidiu gravar em fita cassete cerca de uma hora de cantoria exótica do casal pernambucano.


Mauro e Quitéria: de cantadores das ruas do Recife à
participação especial no álbum Õ Blésq Blom

Em pouco tempo, a fita com as músicas gravadas de Mauro e Quitéria acabou conquistando todo o resto da banda, que ouvia constantemente no restante da turnê de Go Back. Durante a pré-produção de Õ Blésq Blom, Paulo Miklos teve a ideia de incluir a cantoria de Mauro e Quitéria em “Miséria”, uma das músicas selecionadas para o repertório do álbum. Uma ideia foi puxando outra, e motivados pela cantoria popular de Mauro e Quitéria, os Titãs levaram em consideram a possibilidade de incluir referências de música brasileira na sonoridade do novo álbum, mas sem cair no lugar-comum, buscando uma abordagem mais contemporânea.

A pré-produção de Õ Blésq Blom mostrou-se bastante profícua. O grupo chegou a compor e gravar trinta músicas, o que deu margem para a possibilidade que o novo trabalho fosse lançado no formato álbum duplo. No entanto, optaram por uma quantidade mais “enxuta” e coesa de canções, e decidiram que Õ Blésq Blom seria um álbum simples.

Presente no novo álbum, “Racio Símio”, o nome de uma das faixas, quase foi o título do álbum. Mas o fato de lembrar muito “Homem Primata” e “Cabeça Dinossauro”, os membros da banda procuraram um nome diferente. Foi então que Nando Reis sugeriu “Õ Blésq Blom”, uma estranha expressão usada pelo repentista Mauro que segundo ele, significava “Os primeiros habitantes da Terra”.

A produção do álbum ficou sob o comando de Liminha, o mesmo que havia produzido os dois álbuns anteriores. Liminha tentou convencer a Warner em bancar as gravações do álbum nos Estados Unidos, por causa dos recursos técnicos mais avançados, como o estúdio de Prince, em Minneapolis. Embora os Titãs fossem um dos artistas de maior sucesso do seu cast, a Warner não quis bancar a ideia. O máximo que Liminha conseguiu da companhia, foi trazer o engenheiro de som norte-americano, Brad Gilderman, profissional que já havia trabalhado com astros como Janet Jackson e Tom Petty, mais equipamentos novos.

Como a ideia de gravar nos Estados Unidos naufragou, as sessões de gravação do novo álbum acabaram ocorrendo nos estúdios Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, entre os meses de julho e setembro de 1989. Foram os mesmos estúdios onde os Titãs gravaram Cabeça Dinossauro Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas.


Brad Gilderman, engenheiro de som norte-americano que trabalho com
os Titãs no álbum Õ Blésq Blom. 

A arte da capa de Õ Blésq Blom foi concebida por Arnaldo Antunes, um dos letristas e vocalistas dos Titãs, que fez um trabalho bastante artesanal e que consistiu em colagens de letras recortadas, borrões de café no papel, manchas de caneta e até cinzas de cigarros. O resultado estético fez jus ao conceito experimental do álbum.

Õ Blésq Blom começa com uma vinheta com o casal de cantadores de Recife, Mauro e Quitéria, cantando no seu “idioma”. Um trecho da gravação da fita gravada por Miklos na praia da Boa Viagem com o casal, foi adicionado à vinheta que não só abre o álbum como serve de introdução à faixa “Miséria”, que trata sobre o abismo social que separa pobres e ricos no Brasil. A música é um pop rock com várias camadas de teclados e programações eletrônicas, enquanto as guitarras desempenham papel secundário. Nesta faixa, Paulo Miklos e Sérgio Britto se revezam nos vocais.  

“Racio Símio”, faixa que a princípio daria nome ao álbum, faz um interessante jogo de palavras e de sentido dos versos dando um caráter surrealista: “Os cavalheiros sabem jogar damas / Os prisioneiros podem jogar xadrez”“Só os mortos não reclamam / Os brutos também mamam”. Os Titãs fazem uma citação ao samba “Moro Onde Não Mora Ninguém”, sucesso de 1975 do sambista Agepê (1942-1995): “Eu não tenho onde morar / Moro onde não mora ninguém”.

O reggae “O Camelo E O Dromedário” traça uma curiosa reflexão sobre a diferença entre o camelo e o dromedário, enquanto que o pop rock rápido e certeiro “Palavras”, aborda o emprego das palavras no nosso cotidiano. 

“Medo” é talvez o único momento do álbum que faz lembrar os Titãs da fase Cabeça Dinossauro. Neste rock raivoso e cheio de vigor, Arnaldo Antunes canta sobre os medos que afligem o ser humano no mundo contemporâneo. As guitarras de Marcelo Fromer e de Tony Bellotto assumem maior protagonismo nesta faixa. “Natureza Morta”, é uma dispensável vinheta presente apenas na versão CD de Õ Blésq Blom.

Na versão LP de Õ Blésq Blom, quem abre o lado B é “Flores”, uma das principais faixas do álbum e que traz Branco Mello no vocal principal. Bastante surreal e mórbida, a letra parece descrever o eu lírico da canção vivenciando o seu próprio funeral de dentro do caixão, após tentativas de suicídio. Destaque para os riffs certeiro de guitarra de Tony Bellotto e para os solos fantásticos de saxofone de Paulo Miklos.

Com Arnaldo Antunes no vocal principal, “O Pulso” guarda um grau de “parentesco” com “Nome Aos Bois”, do álbum Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas. Diferente de “Nome Aos Bois”, onde a banda cinta 34 nomes de personalidades do século XX do Brasil e do mundo, entre ditadores, homicidas, políticos, líderes religiosos e figuras polêmicas, em “O Pulso”, os Titãs enumera uma série de doenças capazes de causar repulsa ao ouvinte. Apesar da lista extensa de enfermidades, o refrão ressalta que apesar de tudo, a vida insiste em resistir: “O pulso ainda pulsa”.

Em “32 Dentes”, Branco Mello canta o velho conflito entre gerações, onde os jovens não confiam nos adultos. O pop funk “Faculdade” é uma das faixas menos interessantes de Õ Blésq Blom, e que cairiam bem melhor no segundo álbum da banda, Televisão (1985).

Paulo Mikos e Sérgio Britto voltam a se revezar nos vocais em Õ Blésq Blom na faixa “Deus E O Diabo”, um funk eletrônico dançante em que a banda deu grande ênfase aos sintetizadores e programações eletrônicas. A letra da música foge do lugar-comum do embate com viés religioso entre “bem X mal”. Ao invés disso, os Titãs retratam Deus e o Diabo convivendo num mesmo espaço, dividindo as atividades banais do cotidiano. 

Assim como iniciou, o casal Mauro e Quitéria encerra o álbum numa vinheta com sua cantoria.

Titãs em 1989. 

Lançado em 16 de outubro de 1989, Õ Blésq Blom teve uma recepção moderada por parte da crítica. Na semana de lançamento, a “Folha de S. Paulo” deu destaque de página inteira no seu caderno cultural “Ilustrada”. O jornalista Jimi Joe, no seu artigo para o jornal “O Estado de S. Paulo”, não foi nada simpático já no título: “Oito timoneiros no barco sem rumo”. Sônia Mara, do jornal “Folha da Tarde” foi irônica com os Titãs e mostrou-se pouco amistosa com a proposta musical de Õ Blésq Blom: “Eles são os picaretas mais refinados que o rock tupiniquim já produziu (...) Faltou neste LP material coeso e menos dispersivo”. Já o jornalista José Augusto Lemos, na sua resenha sobre o álbum para a edição de dezembro de 1989, da revista Bizz, destacou a produção de Õ Blésq Blom: “o vinil mais bem produzido que este país já viu”.

Em novembro de 1989, os Titãs deram início à turnê de Õ Blésq Blom que percorreu todo o Brasil e que durou até 1991, totalizando cerca de 500 shows. As apresentações em São Paulo e na região Nordeste, contaram com a abertura do casal Mauro e Quitéria.

Comercialmente, Õ Blésq Blom foi bem-sucedido, alcançando a marca de pouco mais de 400 mil cópias vendidas. Nada mal para uma obra onde os Titãs ousaram não repetir a fórmula consagrada dos dois álbuns anteriores. O álbum gerou cinco singles: “Flores” (1989), “Miséria” (1989), “Medo” (1989), “Deus E O Diabo” (1990) e “O Pulso” (1990).

Se as críticas na semana de lançamento não foram nada generosas, o reconhecimento de Õ Blésq Blom veio quando o público, e mesmo a crítica, foram assimilando e entendendo o álbum. Õ Blésq Blom venceu em seis categorias do Prêmio Bizz/1989: “Melhor Disco”; “Melhor Música”, por “Flores” (eleita pelos leitores) e “Miséria” (pela crítica); “Melhor Capa”; “Melhor Grupo” (eleito pela crítica); “Melhor Show” e “Melhor Baterista”. No ano seguinte, em 1990, os Titãs conquistaram o prêmio MTV Video Music Awards na categoria “Escolha da Audiência/ Brasil”, pelo videoclipe de “Flores”.


Branco Mello em cena do videoclipe de "Flores". 

Õ Blésq Blom encerrou a década de 1980 para os Titãs com chave de ouro. Em 1991, começo de uma nova década, os Titãs redirecionam novamente a sua música. Talvez influenciados pelos ventos do movimento grunge que tomaram conta do cenário do rock mundial, os Titãs abandonaram a sonoridade eletrônica, e passam a focar no rock mais cru e agressivo. Com essa nova reorientação musical, os Titãs lançaram naquele ano o álbum Tudo Ao Mesmo Tempo Agora, o último da banda com Arnaldo Antunes, que depois desse trabalho, deixou os Titãs para seguir carreira solo.

Alguns críticos musicais apontam que o legado do álbum, já no final da década de 1980, antecipava o que o seria perfil do rock brasileiro dos anos 1990, calcado na fusão com ritmos brasileiros e o emprego tecnologia eletrônica. Para uma parcela desses críticos, Õ Blésq Blom teria influenciado nada menos que o Mangue Beat, movimento cultural liderado por Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S.A, e que pôs Recife no mapa do cenário pop brasileiro.
Em 2007, a edição brasileira da revista Rolling Stone elegeu Õ Blésq Blom o 74º melhor disco da música brasileira.

Faixas

Lado A
1. “Introdução por Mauro e Quitéria” (Mauro – Quitéria)
2. “Miséria “ (Arnaldo Antunes - Paulo Miklos - Sérgio Britto)
3. “Racio Símio” (Arnaldo Antunes - Marcelo Fromer - Nando Reis)
4. “O Camelo E O Dromedário” (Marcelo Fromer - Nando Reis - Paulo Miklos - Tony Bellotto)
5. “Palavras” (Marcelo Fromer - Sérgio Britto)
6. “Medo” (Arnaldo Antunes - Marcelo Fromer - Tony Bellotto)
7. “Natureza Morta” (Arnaldo Antunes – Liminha - Branco Mello - Marcelo Fromer - Paulo Miklos - Sérgio Britto)

Lado B
8. “Flores” (Charles Gavin - Paulo Miklos - Sérgio Britto - Tony Bellotto)
9. “O Pulso” (Arnaldo Antunes - Marcelo Fromer - Tony Bellotto)
10. “32 Dentes” (Branco Mello - Marcelo Fromer - Sérgio Britto)
11. “Faculdade” ( Arnaldo Antunes - Branco Mello - Marcelo Fromer - Nando Reis -Paulo Miklos)
12. “Deus E O Diabo” (Nando Reis - Paulo Miklos - Sérgio Britto)
13. “Vinheta Final por Mauro e Quitéria” (Mauro – Quitéria)

Titãs: Arnaldo Antunes (vocal), Branco Mello (vocal), Charles Gavin (bateria e percussão), Marcelo Fromer (guitarra e violão (em "Medo" e "32 Dentes")), Nando Reis (baixo e vocal), Paulo Miklos (saxofone (em "Flores") e vocal), Sérgio Britto (teclado e vocal), Tony Bellotto (guitarra, violão (em "Flores") e violão de 12 cordas (em "32 Dentes")).


“Introdução por Mauro e Quitéria”


“Miséria “


“Racio Símio


“O Camelo E O Dromedário” 


“Palavras” 


“Medo” 


“Natureza Morta” 


“Flores”


“O Pulso” 


 “32 Dentes”


“Faculdade” 


“Deus E O Diabo” 


 “Vinheta Final por Mauro e Quitéria”

Destaque

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