sábado, 11 de março de 2023

“The Stone Roses” (Silvertone, 1989), The Stone Roses

 




No final dos anos 1980, a cidade de Manchester via surgir uma nova safra de bandas que transformaria a cena musical daquela cidade. Se por muito tempo, Manchester viveu sob os tons acinzentados do pós-punk, com o surgimento do movimento “Madchester”, aquela cidade se tornava mais alegre, colorida e festiva. O movimento, cujo nome fazia um trocadilho de “Mad” (“louco”, em português) com o nome da cidade, ficou caracterizado por bandas que faziam uma mistura de rock alternativo com dance music e psicodelismo dos anos 1960. A casa noturna Haçienda, fundada pela banda New Order (que era também de Manchester, mas que surgiu no começo dos anos 1980), era o ponto de encontro de jovens que iam ao local para se divertirem varando a madrugada, dançando ao som de bandas e DJ, e “turbinados” por álcool e drogas da moda como o ecstasy.

A cena do “Madchester” revelou várias bandas que dariam um novo rumo ao rock inglês na virada dos anos 1980 para os anos 1990 como Happy Mondays, Inspiral Carpets, The Charlatans entre outras. Contudo, nenhuma delas experimentou uma popularidade e uma ascensão meteórica como a banda Stone Roses. Em pouco tempo, a fama dos Stones Roses ultrapassou a cena roqueira de Manchester alcançou todo o Reino Unido, conquistando a imprensa musical e o público britânicos. Não demoraria muito, e a fama dos Stones Roses chegaria aos Estados Unidos, a “meca” da música pop mundial.

Os Stone Roses nasceram em Manchester, em 1983, a partir da ideia saída da cabeça de Ian Brown (vocais e percussão) e de John Squire (guitarra e vocais de apoio). Após a troca de alguns músicos, a banda conseguiu fixar-se a partir de 1987 com a formação que incluía, além de Brown e Squire, o baixista Rob Hampson e o baterista Alan “Reni” Wren.

The Stone Roses em 1989, da esquerda para a direita: Gary "Mani" Mounfield, John Squire,
Ian Brow e  Alan"Reni" Wren. 

A banda, que já contava com dois singles no currículo, assinou um contrato com a gravadora  Zomba, no início de 1988. Porém, ficou acordado que os lançamentos do trabalho da banda sairiam pela Sivertone Records, uma subsidiária da Zomba. Logo já estavam em estúdio gravando o primeiro single, “Elephant Stone”, produzido por Peter Hook, baixista do New Order e que foi lançado em outubro de 1988. Entre junho de 1988 e fevereiro de 1989, os Stone Roses gravaram material para o primeiro álbum, sob a produção de John Leckie, profissional experiente e que já havia sido engenheiro de som do Pink Floyd nos anos 1970 na gravação dos The Dark Side Of The Moon e Wish You Were Here.

Paralelo ao período de gravação do primeiro álbum, os Stone Roses agitavam a cena musical da Manchester do final dos anos 1990 firmando-se como uma das bandas mais destacadas. Em fevereiro de 1989, sai o single de “Made Of Stone”.

Finalmente, em 2 de maio de 1989, o primeiro e homônimo álbum Stone Roses foi lançado, porém não desertou muito o interesse do grande público e da imprensa, exceto a Melody Maker e NME (New Music Express), que já vinham publicando matérias sobre a nova cena musical de Manchester naquele momento. A arte da capa do álbum do guitarrista John Squire, que também tinha habilidades para pintura. Squire foi também o criador das artes das capas dos singles dos Stones Roses. A pintura da capa do álbum de estreia da banda foi inspirada na arte do pintor expressionista abstrato norte-americano Jackson Pollock (1912-1956). Quanto aos limões, seriam uma referência aos protestos em Paris, em maio de 1968, quando os estudantes revoltosos costumavam chupar limões para suportar os efeitos do gás lacrimogênio da polícia francesa.

Público na casa noturna Haçienda, em julho de 1988, em foto da NME, publicação inglesa que
foi uma das primeiras da área musical a identificar o fenômeno "Madchester".

The Stone Roses, o álbum, musicalmente é uma combinação de várias referências. É possível identificar referências de Beatles e Byrds, safra 1966/1967, The Who, experimentalismo psicodélico dos anos 1960, e The Smiths, estes últimos, ilustres conterrâneos de Manchester e que haviam chegado ao fim 1987.
“I Wanna Be Adored” é quem abre o álbum. Começa com uma introdução ruidosa e longa num volume quase inaudível, mas que vai aumentando gradativamente até ceder lugar a uma linha de baixo executada por Gary “Mani” Mounfield. O título da música reflete bem o espírito autossuficiente que os Stone Roses sempre fizeram questão demonstrar.

A faixa seguinte, “She Bangs The Drums” é um pop rock contagiante, poderoso, radiofônico, agradável de se ouvir. Traz guitarras melódicas bem ao estilo da tradição das “guitar bands” inglesas dos anos 1960, porém traduzidas para os anos 1980.

“Waterfall” é outra faixa do álbum que carrega os referenciais do pop rock inglês dos anos 1960. Possui boas harmonizações vocais e uma bateria vibrante. Em seguida vem “Don’t Stop”, que nada mais é do que a versão em rotação inversa da base instrumental de “Waterfall”, acrescida de efeitos e colagens sonoras que dão à faixa todo uma sonoridade psicodélica.

A atmosfera psicodélica prossegue em “Bye Bye Badman”, cujo refrão tem um ritmo agitado e numa levada que se aproxima do folk e do country rock, só de uma forma bem enxuta, estilizada.

“Elizabeth My Dear” é faixa mais curta do álbum, e mais parece uma vinheta. Tem apenas voz e violão, e sua melodia faz o ouvinte mais atento lembrar de “Scarborough Fair”, uma antiga balada folk do antigo cancioneiro inglês, e que já foi gravada por vários artistas como a dupla Simon & Garfunkel, Sarah Brightman e o Queensrÿche.

“ (Song For My) Sugar Spun Sister” é talvez a faixa do álbum que mais carrega na sua essência a herança melódica do folk rock dos anos 1960 praticado por bandas como os Byrds. A tradição das guitar bands britânicas dos 1960 prossegue na faixa seguinte, “Made Of Stone”, com suas guitarras e vocais cheios de efeitos.

Os Stone Roses em capas da NME e Melody Maker: grande sensação do rock inglês no final dos anos 1980.

A calmaria e a bateria sutilmente jazzística dão o tom em “Shoot You Down”, enquanto que as guitarras melódicas e as harmonizações vocais caracterizam “This Is The One”.

Encerrando o álbum, “I Am The Resurrection”, a mais longa faixa do álbum, com seus pouco mais de oito minutos. A música é praticamente dividida em duas. Se a primeira metade é bem ao estilo das bandas dos anos 1960 como os Byrds, a segunda metade da faixa segue um longo caminho instrumental, assumindo um ritmo mais dançante, com uma bateria percussiva e guitarra funky dotada de efeitos.

Após uma apresentação no programa de TV de grande audiência em todo o Reino Unido na época, o Top Of The Pop, em novembro de 1989, os Stone Roses passaram a ser notados pelo grande público, ajudando a impulsionar as vendas do álbum de estreia da banda. O sucesso do álbum contribuiu também para a divulgação do movimento Madchester, arrastando outras bandas para o cenário musical britânico, e olhares da imprensa musical do Reino Unido - e depois do mundo - se voltariam para a Manchester.

Em pouco tempo, de banda alternativa de Manchester, os Stone Roses passaram a maior sensação do rock britânico do final dos anos 1980, o “futuro do rock’n’roll”. A fama dos Stone Roses ganhou o mundo. A revista norte-americana Rolling Stone afirmara que o álbum de estreia dos Stone Roses já era um dos melhores lançamentos de 1989, e o ano nem havia terminado. Comungando da mesma opinião as inglesas NME e Melody Maker, que certamente, por já conhecerem a cena de Manchester, não ficaram surpresas com o potencial do álbum. Ainda em 1989, Os Stone Roses se apresentaram no Canadá e Japão, e em maio de 1990 se apresentaram pela primeira vez nos Estados Unidos.

Assim como a fama dos Stone Roses crescia, a prepotência e arrogância da banda também cresciam. Numa entrevista para a NME, Ian Brown chegou a dizer que os Stone Roses eram a banda mais importante do mundo. Cheios de si, recusaram o convite para abrir um show dos Rolling Stones no Canadá. Para a mesma NME, quando disseram que haviam perdido uma grande oportunidade, Ian Brown disse que eram os Rolling Stone que deveriam abrir um show para os Stone Roses.

Guitarrista e pintor: John Squire em 2011, durante a sua exposição "Celebrity", em Londres.

Em 1990, começaram os conflitos entre os Stone Roses e o selo Silvertone Records por causa de pagamento. Os desentendimentos acabariam fazendo a banda assinar um contrato com a gigante Geffen Records, num valor de 40 milhões de dólares, em 1991. Uma batalha judicial entre a Silvertone e Geffen se arrastou, chegando a atrapalhar o lançamento do segundo álbum da banda, Second Coming, que só aconteceu em 1994. Lançado pela Geffen, Second Coming foi bastante aguardado pelos fãs, mas quando chegou às lojas, foi duramente criticado pela imprensa. Além disso, o cenário musical britânico era outro: a onda Madchester havia passado, o que estava em voga era ascensão do Britpop, que revelaria ao mundo uma nova geração de bandas britânicas capitaneada pelo Oasis (banda originária de Manchester, assim como os Stone Roses), e que de uma certa forma, foram influenciadas pelo primeiro álbum dos Stone Roses.

Daí em diante, a banda entrou em decadência, passou por um processo de trocas de integrantes, em 1996, a banda anunciou a sua dissolução.

Em 2011, a banda retornou com sua formação clássica, fizeram uma turnê mundial no ano seguinte. Lançaram dois singles em 2016, “All For One” e “Beautiful Thing”, e em 2017, fizeram uma pequena turnê. Depois disso, pouco se sabe do futuro da banda, se encerrou novamente ou se está “hibernando”.

Faixas

"I Wanna Be Adored"
"She Bangs The Drums"        
"Waterfall"    
"Don't Stop"
"Bye Bye Badman"
"Elizabeth My Dear"  
"(Song For My) Sugar Spun Sister"   
"Made Of Stone"       
"Shoot You Down"
"This Is The One"
"I Am The Resurrection"

The Stone Roses: Ian Brown (vocais), John Squire (guitarra e vocais de apoio), Gary "Mani" Mounfield (baixo) e Alan"Reni" Wren (bateria, vocais de apoio e piano em “She Bangs The Dream”).




Ouça na íntegra o álbum The Stone Roses



"I Wanna Be Adored" (videoclipe original)


10 discos essenciais: Elton John




Cantor, compositor e pianista, Elton John é um dos mais bem sucedidos artistas da música mundial em todos os tempos. Ao longo de sua carreira, vendeu mais de 300 milhões de discos em todo o mundo, e conquistou vários prêmios dentre os quais cinco prêmios Grammy, cinco Brit Awards, um Oscar e um Globo de Ouro. Ao lado do parceiro Bernie Taupin, compôs canções que aliam beleza melódica, arranjos muito bem construídos e apelo comercial como “Daniel”, “Goodbye Yellow Brick Road”, “Rocket Man”, “Skyline Pigeon” e “Tiny Dancer”.

O auge da carreira de Elton John foram os anos 1970, quando alcançou uma popularidade internacional gigantesca, marcada por uma fileira de canções nas paradas de sucesso, alta vendagem de discos, extensas turnês com arenas e estádios lotados em todo o mundo. Naquele período, Elton John costumava se apresentar nos seus concertos vestindo figurinos extravagantes e óculos extremamente exagerados e esquisitos. Tanta exposição, tanta fama, excesso de trabalho, alto consumo de álcool e drogas, afetaram a qualidade da sua música que começou a cair a partir da segunda metade dos anos 1970.

Somente a partir de 1983, através do seu álbum Too Low for Zero, Elton John aos poucos começou a recuperar a sua popularidade, e desta vez, adotando um comportamento mais comedido muito por conta da maturidade alcançada. Homossexual assumido, Elton John é casado desde 2005 com o diretor de cinema e produtor canadense David Furnish. Além da carreira artística, Elton John é envolvido na luta contra a AIDS, e para isso, criou no final dos anos 1980, a Elton John AIDS Foundation.

Abaixo, confira 10 álbuns que ajudam a compreender a musicalidade de Elton John, bem como a qualidade da parceria Elton John – Bernie Taupin, uma das mais notáveis parcerias da história do rock.

Elton John (DJM Records, 1970). Embora seja o segundo álbum da carreira de Elton John, este autointitulado álbum do cantor inglês foi o primeiro a ser lançado nos Estados Unidos. “Your Song”, é a faixa que abre o disco e o primeiro grande sucesso de Elton John. “Border Song”, primeiro single do álbum, foi regravada por Aretha Franklin (1942-2018) e se tornou um grande sucesso. Em “I Need You To Turn To”, o cravo executado por Elton John dá um toque de pop barroco à canção. “Take Me To The Pilot” é um blues rock contagiante em que Elton John canta acompanhado de um coral gospel. Elton John, o álbum, foi indicado ao Grammy na categoria “Álbum do Ano”.


Tumbleweed Connection (DJM Records, 1970). Seis meses após o lançamento de seu segundo e autointitulado álbum, Elton John lançava o seu terceiro álbum, Tumbleweed Connection. Completamente diferente de Elton John, mais voltado para o pop rock sinfônico, Tumbleweed Connection é um trabalho conceitual tendo como tema o velho oeste norte-americano, e uma musicalidade mais alinhada ao country rock. O ponto de partida para compor as canções do álbum foram os filmes de faroeste que encantaram a infância e adolescência de Bernie Taupin, parceiro de Elton John. “Ballad Of Well Known Gun” diz respeito à história de um fora da Lei. Uma das inspirações para a concepção de Tumbleweed Connection, foi o aclamado The Band, segundo álbum da The Band, lançado em 1969 e que tinha justamente o passado dos Estados Unidos como temática. “My Father’s Gun” trata do drama de um jovem que perdeu o pai na Guerra Civil Americana. Tumbleweed Connection não teve grande repercussão na época de seu lançamento, mas sua relevância na discografia de Elton John só viria a crescer ao longo do tempo.


Madman Across The Water (DJM Records, 1970). Em Madman Across The Water, Elton John retorna ao pop rock sinfônico que vinha desenvolvendo no seu segundo álbum, mas interropido em Tumbleweed Connection. Dois dos maiores sucessos da carreira de Elton John estão entre as nove faixas de Madman Across The Water, “Tiny Dancer” e “Levon”. Após quase trinta anos, “Tiny Dancer” voltou às paradas de sucesso depois que foi incluída na trilha sonora do filme Almost Famous (Quase Famosos, no Brasil), em 2000. O então tecladista do Yes, Rick Wakeman, faz uma participação especial no álbum tocando órgão Hammond nas músicas “Razor Face”, na faixa-título e em “Rotten Peaches”.


Honky Château (DJM Records, 1971). Quinto álbum da carreira de Elton John, Honky Château é no entanto o primeiro álbum do cantor em que ele gravou todas as faixas com a sua banda (Davey Johnstone na guitarra e vocais, Dee Murray no baixo e vocais, Nigel Olsson na bateria e vocais) que o acompanhava nos shows e com a qual gravaria os seus próximos álbuns. Isso não ocorreu nos álbuns anteriores porque o produtor Gus Dudgeon não confiava no potencial da banda, daí então preferir trabalhar com músicos de estúdio, mais experientes em gravações de discos. Honky Château iniciou uma nova fase na carreira de Elton John que o levaria ao status de super astro do rock. Foi o primeiro álbum de Elton John a conquistar o 1º lugar na parada de álbuns dos Estados Unidos. A faixa de maior sucesso de Honky Château é sem sombra de dúvidas “Rocket Man”, seguida de “Honky Cat”.


Don't Shoot Me I'm Only The Piano Player (DJM Records, 1973). Don't Shoot Me I'm Only The Piano Player manteve Elton John como astro do rock em franca ascensão. “Crocodile Rock’, primeiro single de Don't Shoot Me I'm Only The Piano Player, foi lançado antes do álbum, em outubro de 1972, e alcançou o 1ºlugar nos Estados Unidos e Canadá. Mas o estouro mesmo foi “Daniel”, que se tornou um sucesso mundial, e contribuiu para que Don't Shoot Me I'm Only The Piano Player vendesse mais de 3 milhões de cópias. O álbum traz outras faixas interessantes como “Teacher I Need You” (um rock sobre a paixão juvenil de um aluno por sua professora), “High Flying Bird” (uma das mais belas baladas compostas pela dupla Elton John – Bernie Taupin) e a dramática “Have Mercy On The Criminal”, um misto de blues e orquestra sinfônica sobre a vida de um prisioneiro em fuga.


Goodbye Yellow Brick Road (DJM Records, 1973).  Após uma sequência de excelentes álbuns como Madman Across The Water (1971), Honky Château (1972) e Don't Shoot Me I'm Only the Piano Player (1973), Elton John chega à consagração com o álbum duplo Goodbye Yellow Brick Road, em 1973. O álbum ratifica o alto nível da parceria Elton John-Bernie Taupin como hitmakersjá mostrado nos álbuns anteriores. Dentre as faixas de Goodbye Yellow Brick Road, algumas se tornaram clássicos da carreira de Elton John como “Candle In The Wind”, “Bennie And The Jets”, “Saturday Night's Alright For Fighting”, a quilométrica “Funeral For A Friend/Love Lies Bleeding” e a faixa-título. Goodbye Yellow Brick Road vendeu mais de sete milhões de cópias, e consagrou Elton John como um astro de primeira grandeza do rock.


Caribou (DJM Records, 1974). Caribou foi gravado às pressas em janeiro de 1974, em absurdos nove dias, às vésperas de uma turnê pelo Japão e Oceania, ainda num momento em que Elton John desfrutava do estrondoso sucesso do álbum Goodbye Yellow Brick Road. Havia uma pressão da gravadora em lançar um novo álbum a cada seis ou oito meses, transformando Elton John numa máquina de fazer música e dinheiro. As turnês extensas, a alta exposição midiática e os excessos de álcool e drogas já começavam a afetar a sua criatividade. Apesar de estar distante do brilhantismo de Goodbye Yellow Brick RoadCaribou teve um bom êxito comercial. “Don't Let The Sun Go Down On Me” é a grande canção do álbum, embora “The Bitch Is Back” tenha também sido um grande sucesso. Destaque para a trágica “Ticking”, canção sobre um jovem perturbado que comete uma chacina num bar de Nova York.


Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy (DJM Records, 1975). Em seu nono álbum, Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy, Elton John se redimiu do mediano Caribou. Com uma capa criada pelo artista gráfico Alan Aldridge (1938-2017) inspirada na arte de Hieronymus Bosch (1450-1516), Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy é um álbum autobiográfico onde Elton é o Capitão Fantástico e o Bernie Taupin é o Brown Dirt Cowboy. Todas as faixas foram compostas pela dupla, e retratam alguns momentos de suas vidas, como em “Someone Saved My Life Tonight”, que aborda a tentativa de suicído de Elton John, aos 21 anos, e que foi interrompida graças a uma intervenção de um amigo seu. Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy marcou o ápice da criatividade da dupla Elton-Taupin na fase de ouro de Elton John nos anos 1970. Chegou ao 1º lugar da Billboard 200, nos Estados Unidos e na parada de álbuns do Reino Unido.


Rock Of The Westies (DJM Records, 1975). Neste álbum, Elton John não conta mais com o baterista Nigel Olsson e o baixista Dee Murray, ambos estranhamente dispensados após as gravações de Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy. Foram substituídos por Roger Pope (bateria) e Kenny Passarelli (baixo). O álbum marcou a chegada do telcadista James Newton Howard e a inclusão de mais um guitarrista, Caleb Quaye, que já havia trabalho com Elton no início da carreira. Lançado cinco meses após o elogiadíssimo Captain Fantastic And The Brown Dirt CowboyRock Of The Westies embora seja um álbum razoável, representou o início do declínio da qualidade musical de Elton John após tanta exposição e os problemas do vício do cantor com a cocaína. Ainda assim, Rock Of The Westies foi 1º lugar na Billboard 200, nos Estados Unidos, e 5º lugar na parada de álbuns do Reino Unido e da França. “Island Girl”, “Grow Some Funk Of Your Own” e “I Feel Like A Bullet (In The Gun Of Robert Ford)” são as principais faixas.


Too Low For Zero (DJM Records, 1983). Too Low For Zero marcou uma nova fase na carreira de Elton John, quando o cantor recuperou o prestígio depois de um período em baixa. Foi o primeiro álbum após sete anos a trazer um repertório com todas as faixas compostas pela dupla Elton John-Bernie Taupin. Além disso, marcou o retorno da formação básica da banda de apoio de Elton John: Dee Murray, Nigel Olsson e Davey Johnstone. Em Too Low For Zero, Elton John toca sintetizador em todas as faixas, o que não acontecia desde A Single Man (1978). “I Guess That's Why They Call It The Blues”, “I'm Still Standing” e “Kiss The Bride” foram as faixas do álbum mais executadas em radio. Dos álbuns lançados por Elton John nos anos 1980, Too Low For Zero foi o mais vendido.

 

“A Panela do Diabo” (Warner, 1989), Raul Seixas e Marcelo Nova

 




Na segunda metade dos anos 1980, Raul Seixas (1945-1989) estava em completa decadência artística. Atravessava por uma situação financeira terrível e por problemas de saúde agravados pelo vício no álcool e drogas. Raul estava desacreditado por jornalista e empresários do meio artístico. A possibilidade de Raul morrer esquecido e na miséria era quase certa. No entanto, sua parceria com Marcelo Nova - baiano de Salvador como ele - evitou que o mais expressivo astro do rock brasileiro tivesse um final de vida engolido pelo esquecimento. Essa parceria havia rendido uma turnê de 50 shows e um álbum, o A Panela Do Diabo, lançado dois antes da morte de Raul, em agosto de 1989.

Mas para entender como se deu esse encontro de dois roqueiros provocadores e irreverentes, é necessário voltar no tempo, até o ano de 1984, quando Raul Seixas e Marcelo Nova se encontraram pela primeira vez. Naquele ano, Raul havia ido ao Circo Voador, no Rio de Janeiro, assistir ao show da banda baiana de rock Camisa de Vênus, da qual Marcelo era vocalista. Ao saber que Raul estava na plateia, Marcelo convidou Raul para subir ao palco, onde juntos, na base do improviso, cantaram clássicos do rock’n’roll como “Long Tall Sally”, “Be Bop A Lulla” e “Tutti-Frutti”. Marcelo já era um fã de Raul desde a adolescência, nos anos 1960, quando frequentava os shows do ídolo ainda em início de carreira em Salvador onde era vocal do Raulzito & Os Panteras.

Um novo encontro entre os dois ocorreu em 1985, desta vez Marcelo Nova indo assistir ao show de Raul Seixas na casa noturna Raio Laser, em São Paulo. Marcelo foi ao camarim cumprimentar Raul. Trocaram telefones e endereços, e a partir daí, começava a nascer uma grande amizade entre os dois.

Ainda em 1985, em dezembro, Raul fez o seu último show como cantor solo, para depois afastar-se dos palcos para tratar da pancreatite crônica causada pelo alcoolismo. A partir daí, iniciou-se sua fase de ostracismo.

Enquanto isso, no ano seguinte, o Camisa de Vênus regrava um grande sucesso de Raul Seixas, “Ouro de Tolo”, presente em Correndo O Risco, álbum que marcou a estreia da banda baiana numa grande gravadora, a Warner.

Ainda que estivesse longe dos palcos, Raul continuou lançando discos. Em março de 1987, Raul lançava pela gravadora Copacabana, o álbum Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum, que vendeu mais de 100 mil cópias, puxado pelo sucesso do country rock “Cowboy Fora Da Lei”.

No mesmo ano, em outubro, chegava às lojas, Duplo Sentido, o último trabalho do quinteto baiano que estava encerrando as suas atividades em pleno auge da carreira. O álbum duplo trazia a faixa “Muita Estrela, Pouca Constelação”, parceria de Marcelo Nova e Raul Seixas que se tornou a primeira música da dupla a ganhar popularidade.

Com o fim do Camisa de Vênus, Marcelo Nova montou uma banda para acompanhá-lo na sua carreira solo, a Envergadura Moral. Com ela, lançou em agosto de 1988 o seu primeiro álbum solo, Marcelo Nova E A Envergadura Moral.

Na mesma época, Raul Seixas lançava um novo álbum, A Pedra Do Gênesis, pela gravadora Copacabana. Contudo, o veterano roqueiro baiano continuava ausente dos palcos por causa da sua doença. O fato não de fazer shows há cerca de três anos, agravou a sua situação financeira, que por tabela, comprometia o tratamento da sua saúde.

A péssima condição financeira e o estado debilitado de Raul causado pela pancreatite, sensibilizaram Marcelo Nova. O ex-líder do Camisa de Vênus que estava prestes a iniciar os seus primeiros shows da carreira solo, abriu mão deles, e decidiu se apresentar ao lado de Raul Seixas, dividindo o palco e o cachê. Assim, Marcelo pretendia não só ajudar financeiramente Raul, mas também reerguer a carreira de um ídolo que estava caindo no esquecimento. Em 18 de setembro de 1988, o primeiro show de Marcelo e Raul foi nada menos do que na cidade natal dos dois, Salvador, na antológica Concha Acústica do Teatro Castro Alves. O show levou o público ao delírio. Era a volta de Raul a um palco após três anos de ausência.

Dois meses depois, Marcelo e Raul partiam para uma turnê de cinquenta shows pelo Brasil. Durante a turnê, a dupla compôs novas canções. Não demorou muito, e surgiu um convite de André Midani, na época presidente da gravadora Warner no Brasil, para que a dupla gravasse um disco. Raul e Marcelo aceitaram o convite, e com fim da turnê, em maio de 1989, entraram no estúdio Vice-Versa, em São Paulo, naquele mesmo mês, para gravar o álbum.


Marcelo Nova e Raul Seixas: rock'n'roll e irreverência.

Em junho, saiu o primeiro single, “Carpinteiro Do Universo”, um “aperitivo” do álbum que Raul Seixas e Marcelo Nova estavam gravando. Com o single no mercado e a música tocando no rádio, deram entrevistas em rádios e participaram de programas de TV como Jô Soares Onze e Meia e Domingão do Faustão. Ainda em junho, a dupla partiu para uma nova turnê, iniciando por São Paulo, no Olympia. Raul e Marcelo encerraram a nova turnê em 13 de agosto, no ginásio Nilson Nélson, em Brasília.

Finalmente, chegava às lojas em 19 de agosto, o tão aguardado álbum de Raul Seixas e Marcelo Nova: A Panela Do Diabo. O título chocou uma parcela do público, e também os mais conservadores. A ideia para um título tão polêmico surgiu durante a turnê em junho de 1989, num show em Santa Bárbara d’Oeste, quando um grupo de evangélicos distribuiu panfletos para fãs que se dirigiam ao local para assistir à apresentação dos dois roqueiros baianos. Os panfletos associavam Raul Seixas e Marcelo Nova ao diabo.

Musicalmente, o repertório de A Panela Do Diabo é calcado no rock’n’roll, country rock, rhythm and blues, rockabilly e baladas. A irreverência e sarcasmo que marcaram tanto a carreira de Raul Seixas como a de Marcelo Nova, e também, é claro, a do Camisa de Vênus, estão presentes nas letras de algumas faixas do álbum. Mas em outras, há um teor mais intimista, confessional, e até mesmo pessimista, que dizem um pouco da trajetória de vida dos dois.

A Panela Do Diabo começa em alto astral com uma versão a cappella de “Be Bop A Lulla”, sucesso de Gene Vincent. Na sequência, a divertida e autobiográfica “Rock’n’Roll”, que conta um pouco da vida de Raul Seixas e Marcelo Nova. A música faz referências ao início de carreira de Raul Seixas, em Salvador (quando se contorcia imitando Little Richard e apavorando o público) e a o Teatro Vila Velha, templo da bossa-nova na capital baiana, onde Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia e Tom Zé iniciaram suas carreiras sob a influência de João Gilberto (1931-2019). Há também referências ao começo da carreira de Marcelo Nova com o Camisa de Vênus, também na capital baiana, onde o nome da banda era vetado pelos meios de comunicação por acharem que era um “palavrão”. Raul e Marcelo fazem uma citação de “Roll Over Beethoven”, de Chuck Berry, e afirmam que seguirão fieis ao rock’n’roll até o fim de suas vidas.

Salvador, cidade natal de Raul Seixas e Marcelo Nova, e onde ambos
começaram suas carreiras artísticas.

O clima esfria um pouco com “Carpinteiro Do Universo”, uma balada country que trata da busca em ajudar os outros para estar bem consigo mesmo. No entanto, a busca incessante em ajudar o próximo pode beirar o egoísmo, segundo a canção: “O meu egoísmo, é tão egoísta / Que o auge do meu egoísmo é querer ajudar”.

“Quando Eu Morri” é uma canção ainda mais intimista que a anterior, e diz respeito ao passado de Marcelo Nova. Nela, Marcelo exorciza os seus demônios ao abordar o seu envolvimento com o ácido lisérgico (LSD). Em 1972, aos 21 anos de idade, Marcelo teve uma terrível bad trip que quase o levou à loucura. A notícia de que iria ser pai, o fez abandonar o consumo de drogas.

A faixa seguinte,“Banquete De Lixo”, é também autobiográfica e se refere a Raul Seixas. O banquete do título faz referência à experiência curiosa que Raul passou em Nova York, nos anos 1970, quando um mendigo vestido de palhaço lhe serviu comida. Ele ainda canta sobre as suas internações em clínicas de reabilitação. Na canção, Raul faz uma espécie de mea culpa com suas ex-mulheres. Os versos finais parecem uma despedida de Raul deste mundo.


Raul Seixas e Marcelo juntos em  turnê de cinquenta shows pelo Brasil. .


O lado B, na versão LP do álbum, começa com a irreverente “Pastor João E A Igreja Invisível”, uma crítica bem-humorada às igrejas que exploram a fé alheira sem o mínimo de escrúpulos: “ Para os pobres e desesperados / E todas as almas sem lar / Vendo barato a minha nova água benta / Três prestações, qualquer um pode pagar”. O refrão é simplesmente impagável realçando de maneira sarcástica que a picaretagem dos pastores desonestos não tem limites: “Pois eu transformo água em vinho / Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel / Pra mim não existe impossível / Pastor João e a igreja invisível”.

Em “Século XXI”, Raul Seixas e Marcelo Nova fazem uma reflexão sobre a frustração: “Há muitos anos você anda em círculos / Já não lembra de onde foi que partiu / Tantos desejos soprados pelo vento / Se espatifaram quando o vento sumiu”

“Nuit”, canção em que Raul faz a voz principal, acompanhado por belos vocais de apoio, foi inspirada numa antiga entidade egípcia que representa a deusa do céu e dosa astros. Era tida também como a deus que acolhia os mortos. Na letra, Raul parece flertar o tempo todo com a morte, como se estivesse se despedindo. Raul se autodeclara “o mistério do sol”. É uma canção emocionante, apesar da voz debilitada e desafinada de Raul Seixas por causa da doença.

Logo após uma canção tão profunda, seguem o rock’n’roll “Beste Seller” que parece discutir o controle midiático num Brasil recém-saído de uma ditadura, e balada em estilo bem cafona “Você Roubou Meu Vídeo Cassete”, talvez a faixa mais fraca do álbum.

Encerrando o álbum, “Câimbra No Pé”, a música do álbum que mais lembra o Camisa de Vênus pelos arranjos. A letra demonstra uma desilusão com o Brasil pós-ditadura: “Saiba esperto ou burro / Você vai morrer aqui / Isso é um perigo eu sei / Mas esse é um país perigoso / Se você vacilar neguinho chupa / Sangue do pescoço”.

A Panela do Diabo teve uma recepção razoável por parte da crítica que destacou positivamente a simplicidade dos arranjos e a qualidade das letras. Porém, apontaram problemas de desafinação vocal da dupla, neste caso, provavelmente motivada pela doença de Raul, que deixou sua voz bastante debilitada.

Mas o que ninguém imaginava, é que dois dias após o lançamento do álbum, Raul Seixas morre na manhã de 21 de agosto, em seu apartamento, em São Paulo. Embora Raul estivesse enfrentando uma doença difícil, que o deixou inchado e fragilizado fisicamente, o público não esperava essa morte tão repentina, e logo dois dias depois do lançamento de um novo disco. O corpo de Raul Seixas foi velado no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Depois foi transladado para Salvador, onde também foi velado e sepultado no cemitério Jardim da Saudade no dia 22 de agosto, na presença de familiares, amigos e centenas de fãs que cantaram as canções do “Maluco Beleza”.

Sepultamento de Raul Seixas atraiu milhares de fãs ao
cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. 

A morte de Raul Seixas gerou uma comoção no grande público, e isso contribuiu nas vendas do álbum A Panela do Diabo, que vendeu mais de 150 mil cópias, conquistando assim um Disco de Ouro. Marcelo foi contemplado com um Disco de Ouro, e o de Raul Seixas, foi entregue à sua família, pois quando foi contemplado, ele já havia falecido. “Rock ‘n’ Roll”, “Carpinteiro Do Universo”, “Quando Eu Morri” e “Pastor João E A Igreja Invisível” se tornaram as músicas mais conhecidas do álbum.

Embora não tenha a mesma magnitude de Krig-ha, Bandolo! (1973) ou Gita (1974), dois dos álbuns mais importantes de Raul Seixas, A Panela do Diabo teve o papel de pôr um ponto final com dignidade na carreira do roqueiro baiano, contando com uma boa produção e lançamento através de uma grande gravadora. Assim como as turnês ao lado de Marcelo Nova, o álbum recuperou o prestígio de Raul Seixas ainda em vida, evitando que o astro maior do rock brasileiro morresse no esquecimento, como ocorreu com Ronnie Cord (1943-1986) e Sérgio Murilo (1941-1992), dois dos pioneiros do rock no Brasil que alcançaram a fama, mas morreram esquecidos. Raul saia de cena, partia para algum outro mundo, enquanto que a sua obra aqui embaixo, passou a ser mais cultuada do quando era vivo. 

Faixas

Lado A
  1. “Be Bop A Lulla” (Vincent - Davis)
  2. “Rock ‘n’ Roll” (Marcelo Nova - Raul Seixas)
  3. “Carpinteiro Do Universo” (Raul Seixas - Marcelo Nova)
  4. “Quando Eu Morri” (Marcelo Nova)
  5. “Banquete De Lixo” (Marcelo Nova - Raul Seixas)

Lado B
  1. “Pastor João E A Igreja Invisível” (Raul Seixas - Marcelo Nova)
  2. “Século XXI” (Marcelo Nova - Raul Seixas)
  3. “Nuit” (Raul Seixas - Kika Seixas)
  4. “Best Seller” (Marcelo Nova - Raul Seixas)
  5. “Você Roubou Meu Vídeo Cassete” (Raul Seixas - Marcelo Nova)
  6. “Câimbra No Pé” (Raul Seixas - Marcelo Nova)


Raul Seixas (voz), Marcelo Nova (voz e guitarra)
Banda Envergadura Moral: Gustavo Mullem (guitarra elétrica), Johnny Chaves (teclados), Carlos Alberto Calazans (baixo elétrico) e Franklin Paolillo (bateria)

Músicos convidados:
André Cristovam (guitarra), Ricky Ferreira (guitarra e pedal steel),
Paulo Calazans (violão), Luiz Bueno de Carvalho (violão de aço),
Kris, Maria Eugênia e Fátima (vocais de apoio)



“Be Bop A Lulla” 



“Rock ‘n’ Roll” 



“Carpinteiro Do Universo”



“Quando Eu Morri” 



“Banquete De Lixo”



“Pastor João E A Igreja Invisível”



“Século XXI”



“Nuit” 



“Best Seller” 



“Você Roubou Meu Vídeo Cassete” 



“Câimbra No Pé”

Cassandra Jenkins – An Overview on Phenomenal Nature (2021)


 

A delicadeza de An Overview on Phenomenal Nature é transcendental, se a deixarmos entrar pelos nossos poros dentro seremos, garantidamente, pessoas melhores no fim da experiência.

Há quem use o reiki, há quem use uma religião. Há quem faça yoga, há quem corra maratonas. Há quem não saia da sua zona de conforto, há quem coleccione milhas no passaporte. Cada qual arranja a sua maneira de buscar integração no mundo em que vivemos, nenhuma estando, porventura, errada. Cassandra fá-lo através de contar vivências do dia a dia, dando-lhes uma roupagem de actividades maiores que a vida. Cada momento vivido, sejam encontros com estranhos, aulas de condução ou conversas de café, torna-se um monumento perante o qual só nos resta observar e admirar a beleza pela sua simplicidade. Assim dita a “religião cassandrista“: são os pequenos momentos que dão significado às nossas vidas aqui no planeta Terra. Oremos.

An Overview on Phenomenal Nature é o segundo longa duração de Cassandra Jenkins, e chega-nos após uma altura claramente de rotura na sua vida – Cassandra seria a responsável pela primeira parte na tão aguardada tour dos Purple Mountains, em 2019. Aquela que iria começar uns meros três dias após a morte de David Berman. Em “Ambiguous Norway” fala ao de leve em Berman com um simples “You’re gone, you’re everywhere”. Talvez para fugir ao choque dos momentos disruptivos, Cassandra se refugie nos mais mundanos e (aparentemente) incipientes.

Cada canção tem a sua própria história, o seu instante vivenciado, que nos é relatado com uma delicadeza irresistível. Há personagens em catadupa nas músicas, David, Warren, Grey, Darryl, Lola, Peri são algumas das que vão aparecendo por ali, sendo que só uma delas tem direito a uma canção só para si – Hailey Gates, o foco central de “Hailey”.

Em “New Bikini” a mensagem central é muito simples: “the water, it cures everything”. Ou, traduzindo para bom português, nada como um bom banho de água fria para aliviar o espírito. “Ramble”, sétima e última canção do disco (é curtinho, 31 minutos que voam) é puramente instrumental, de imersão total na Natureza, gravada no Central Park. Nem de propósito, uma espécie de oásis no meio da cidade que nunca dorme.

Deixei para o fim por ser, para mim, o auge do disco – “Hard Drive”. O início é qualquer coisa de extraordinário: a entrada que anuncia logo “these are real things that happened” avisa logo ao que vamos, e enquanto Cassandra descreve encontros vários com estranhos, o saxofone de Stuart Bogie ganha espaço, começa um entrelaçar hipnótico com a esplendorosa guitarra de Josh Kaufman e encharca as palavras de melancolia.

Este disco transportou-me para outro deste calibre – Kaputt (2011) de Destroyer , pela envolvência e subtileza com que se nos apresenta. Se bem me conheço, irá ficar a deambular por muitos e bons anos. Fica o alerta de potencial vício.


Destaque

CAPTAIN BEYOND - Texas - 1973

  Outro dia reclamaram que ando boicotando bandas americanas aqui no PRV. Para acabar com a polêmica posto aqui uma das melhores bandas das ...