domingo, 4 de fevereiro de 2024

90125: quando o Yes reinventou o seu som para a década de 1980

 


Meu primeiro contato com o Yes se deu através de uma música presente em 90125. E não, não estou falando do hit “Owner of a Lonely Heart”, mas sim de outra canção. “Leave It” fez parte do álbum oficial da primeira edição do Rock in Rio, lançado em dezembro de 1984, poucos dias antes do início do festival. Ela está no tracklist ao lado de outras músicas que marcaram muito a minha adolescência, como “Private Idaho” do The B-52’s, “Head Over Heels” das Go-Gos, “New York, New York” de Nina Hagen e “Rock of Ages” do Def Leppard, além da canção tema do festival, de autoria de Eduardo Sousa Neto, com os versos inesquecíveis “todos numa direção, uma só voz, uma canção, todos num só coração ...”.

Lançado em novembro de 1983, 90125 é o décimo primeiro disco do Yes e marcou um recomeço para a banda. Um dos grandes nomes do rock progressivo, o quinteto inglês brilhou intensamente durante os anos 1970 em álbuns magníficos como Fragile (1971) e Close to the Edge (1972), mas também foi vítima dos excessos do gênero e apresentou um certo esgotamento criativo em discos medianos como Tormato (1978) e Drama (1980). O década de 1980 era um desafio para a banda, com o rock deixando de lado as composições intrincadas e os arranjos grandiosos do prog e explorando sons mais diretos, influência do punk e da new wave.

A banda se separou após Drama, e a ideia do baixista Chris Squire e do baterista Alan White era seguir por uma direção mais pop e acessível. A dupla então começou a trabalhar com o guitarrista e produtor Trevor Rabin e se reconectou com o tecladista original do grupo, Tony Kaye, que havia saído do Yes em 1971. O vocalista Jon Anderson, fora do grupo desde o racha ocorrido no início de 1981, aceitou o convite para retornar. Essa nova banda se chamaria Cinema, porém a gravadora ficou animada com o que ouviu e convenceu os músicos a retornarem como Yes, pois o trabalho teria muito mais impacto dessa forma.

Uma curiosidade a respeito de 90125 é que o curioso título faz referência ao número de catálogo do álbum nos arquivos da gravadora Atlantic, e as edições da época saíram com o cat number igual ao título. A minha edição em CD, que é um relançamento brasileiro de 2009, traz o número de catálogo M790125-2.


O disco cumpriu com sucesso o seu objetivo, atualizando a música do Yes para a nova década e fazendo a banda soar renovada sem perder o seu apelo. As faixas apresentam o raro equilíbrio entre acessibilidade e técnica, soando amigáveis para um público não habituado ao passado progressivo do quinteto, e fazem isso sem assustar os devotos já convertidos. A audição de forma retrospectiva, com o distanciamento de quase quarenta anos em relação ao lançamento, revela ainda outros predicados, como o envelhecimento saudável da sonoridade e dos timbres, o que, no geral, é uma exceção quando revisitamos álbuns lançados por bandas clássicas durante a década de 1980.

90125 abre com um dos maiores – senão o maior – sucesso comercial do Yes, “Owner of a Lonely Heart”. Dona de um riff contagiante, a canção entrega um groove irresistível e performances primorosas de todos os músicos. Lançada como primeiro single, segue sendo o seu grande cartão de visitas do disco. “Hold On” vem a seguir e é uma composição grandiosa, com linhas vocais sensacionais e um performance fortíssima de Jon Anderson, além de grande presença da guitarra de Trevor Rabin. “It Can Happen” inicia com um som semelhante a uma cítara, e se desenvolve com harmonias vocais excelentes. “Changes” talvez seja o melhor exemplo de equilíbrio entre o “velho” e o “novo” Yes, uma composição com andamento intrincado e instrumental complexo, feita sob medida para tocar o coração dos fãs e para mostrar que, apesar de sua nova abordagem musical, o Yes não havia deixado totalmente de lado o seu background prog.

“Cinema” é uma rápida instrumental com pouco mais de dois minutos que acaba funcionando como introdução para “Leave It”, canção espetacular com arranjos vocais inspiradíssimos, uma verdadeira aula de harmonia e composição. “Our Song” é outro dos grandes momentos do álbum, com uma dose maior de peso e um refrão cativante, além da habitual classe instrumental. “City of Love” entrega um andamento mais marcado, com Anderson conduzindo as melodias com seu vocal, concluindo tudo em um refrão amplificado pelo teclado de Tony Kaye, que imprime um tempero épico à faixa, além da performance inspirada de Rabin na guitarra. O álbum fecha com “Hearts”, sua canção mais longa, com mais de sete minutos. A melodia principal desta faixa remete à música japonesa, e mais uma vez temos arranjos vocais incríveis.

90125 chegou ao quinto lugar do Billboard 200 e vendeu mais de 3 milhões de cópias somente nos Estados Unidos, o que fez do álbum o maior sucesso comercial do grupo não só no mercado norte-americano, mas também em todo o mundo. Um exemplo de que, quando uma banda é formada por músicos de grande talento e com um mesmo objetivo, eles podem explorar qualquer sonoridade sem perder a qualidade sempre presente em seu trabalho.





Madonna e o pós-11 de setembro no conceitual American Life

 


Em 11 de setembro de 2001, as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, foram atingidas por dois aviões de passageiros e desabaram logo em seguida, matando milhares de pessoas em um atentado transmitido ao vivo para todo o mundo. A reação do governo norte-americano foi proporcional à perda chocante de quase três mil pessoas no ataque, com iniciativas que foram, compreensivelmente, apoiadas pela maioria da população do país, mergulhada em um clima de desolação e paranoia e tentando encontrar maneiras de se recuperar do profundo impacto que o atentado teve na sociedade do país. Entre essas ações estava a escalada do confronto com Saddam Hussein, então presidente do Iraque. George W. Bush, presidente dos Estados Unidos na época, ordenou um ataque ao país do Oriente Médio em 20 de março de 2003, dando início à Guerra do Iraque treze anos após o seu pai, o ex-presidente americano George Bush, começar a Guerra do Golfo no início de agosto de 1990.

O que isso tem a ver com Madonna? Não só a cantora, mas uma parcela considerável dos norte-americanos, começou a questionar o american way of life, o sonho americano e a cultura do país, onde as armas e a indústria da guerra sempre possuíram um papel de destaque. Esses questionamentos foram transformados em música e geraram American Life, seu nono álbum, trabalho que é fruto direto da atmosfera pós-11 de setembro na sociedade americana e na vida da própria artista. Ninguém passou incólume aos ataques, e Madonna não foi uma exceção.

Liricamente, as letras de American Life trazem críticas ao materialismo, à obsessão pelo sucesso, ao individualismo, ao armamentismo e ao modo de vida norte-americano, o que, vindo de quem cantou “Material Girl” duas décadas antes, não deixa de ser irônico. O disco é apontado como um trabalho conceitual devido ao conteúdo de suas letras e a todo o conceito visual que o acompanhou, com Madonna posando na capa como uma guerrilheira pronta para o confronto, em uma imagem inspirada na clássica fotografia intitulada Guerrillero Heroico, a mais conhecida de Che Guevara, revolucionário e guerrilheiro argentino que foi um dos líderes da Revolução Cubana ao lado de Fidel Castro.

Musicalmente, o que se ouve nas onze faixas de American Life é um aprofundamento no experimentalismo eletrônico apresentado no trabalho anterior, Music (2000), disco que deu início à parceria de Madonna com o DJ e produtor francês Mirwais Ahmadzaï, o grande responsável pela sonoridade única desses dois discos. Se em Music a colaboração criativa entre ambos gerou um hit planetário com “Music”, em American Life o que ouvimos é algo ainda mais único e singular, poucas vezes apresentado por uma artista pop da magnitude de Madonna. É tudo muito inovador e diferente, com arranjos, andamentos e sons que grande parte dos fãs da artista não estavam acostumados a ouvir.

Basta juntar todos os elementos dessa equação – letras críticas, imagem provocadora, sonoridade diferente – e aplicar esses ingredientes ao clima dos EUA na época para perceber, sem muito esforço, que o álbum tinha tudo para não ser muito bem recebido. E realmente não foi. American Life foi lançado em 21 de abril de 2003, um mês após o início da Guerra do Iraque, e, ainda que não tenha alterado nada de seu conteúdo lírico e estético, Madonna achou por bem não lançar a ideia original do clipe da música-título, optando por uma versão bem mais suave da ideia original.


Dirigido pelo sueco Jonas Åkerlund, o mesmo do vídeo de “Music”, o clipe de “American Life” só foi divulgado recentemente e traz Madonna criticando a cultura da imagem e a indústria da guerra em um roteiro que apresenta modelos desfilando com roupas inspiradas em trajes militares e, à medida que o desfile vai se desenvolvendo, começam a ganhar a companhia de imagens reais de guerra, além de atores infantis com traços e roupas árabes, que são devidamente intimidados pelos “soldados” que estão na passarela, para delírio do público. O êxtase da audiência do desfile, repleta de sósias de nomes famosos, chega ao auge quanto a própria Madonna invade a passarela em um carro militar, ataca os paparazzi com um canhão de água e é seguida por uma chuva de membros decapitados dos soldados que estão na guerra, o que leva o público à loucura. Uma crítica claríssima e muito bem feita, mas que acabou sendo deixada de lado na época em uma decisão que, vista em retrospectiva, se revelou acertada. Basta ver o que aconteceu com a carreira do trio country Dixie Chicks, cujas integrantes deram declarações fortes criticando Bush e tiveram a sua carreira profundamente afetada ao serem incluídas em uma lista negra de desafetos do governo, o que fez com que suas músicas fossem boicotadas nas rádios, recebessem críticas de outros músicos e personalidades e, inclusive, ameaças de morte. O impacto foi tão profundo que o trio teve que mudar de nome e hoje se apresenta com The Chicks. Madonna não queria correr o mesmo risco.

Com a produção dividida entre a cantora e Mirwais, American Life é um álbum que ganhou ainda mais força com o tempo. O que soava estranho em 2003 hoje é o seu maior trunfo, com canções que parecem ter acabado de sair do estúdio. Os timbres não envelheceram, os arranjos mantém o seu frescor e unem-se de forma precisa com o domínio da melodia, característica onipresente na obra de Madonna. E, ainda que o rap no final da faixa que batiza o disco tenha sido duramente criticado na época do lançamento, ele seguiu a mesma abordagem ostentação que era comum no período. Mirwais é um artista no estúdio, construindo batidas cativantes e adornando-as com “barulhinhos” fora do habitual, que ao serem unidos com instrumentos acústicos – o que é uma constante no álbum – constroem uma alquimia sonora incrível e que pode ser ouvida em faixas como “Hollywood” e “Love Profusion”.

Os destaques de American Life são muitos, começando com a música que dá nome ao disco. Uma das grandes canções da carreira da Madonna, “American Life” já mostra a abordagem folktrônica que alguns jornalistas notaram no disco, com a presença de violões ao lado de batidas eletrônicas. Essa mesma característica é percebida em “Hollywood”, cuja sequência de notas acústicas da introdução foi ligada automaticamente ao Red Hot Chili Peppers, mas que se destaca, na verdade, pelas inspiradas melodias vocais de Madonna, que são extremo bom gosto, com uma interpretação que parece propositalmente contida – a exceção se dá na parte final, onde a Rainha do Pop arrisca outro rap. A letra de “Hollywood” critica a ganância que permeia Hollywood, lar do cinema bilionário e onde a imagem e atitude importam mais do que qualquer coisa.


A guitarra de Monte Pittman, ex-Prong e integrante da banda de Madonna desde 2000, introduz e conduz “I’m So Stupid”, que ficou marcada pelo uso de efeitos eletrônicos que deixaram a vocal extremamente metalizado em um pequeno trecho na parte inicial da música. Mas, tirando esse detalhe, a faixa se desenvolve de forma ascendente com boas melodias, até explodir no refrão, onde Madonna solta a voz. A balada “Love Profusion” é uma das músicas mais fortes de American Life, e não por acaso foi lançada como single e ganhou um belo clipe. A letra cita a frase “I’ve got you under my skin”, citando a composição de Cole Porter de 1936, imortalizada na voz de Frank Sinatra. “Nobody Knows Me” vem a seguir e é uma das mais fortes do álbum, com uma letra confessional e uma batida absolutamente contagiante, com a canção crescendo de forma soberba no refrão. Os vocais também possuem efeitos eletrônicos, porém bem menos intensos do que o trecho de “I’m So Stupid”.

A balada “Nothing Fails” é um dos momentos mais contemplativos do disco, com direito a um coral gospel que encorpa sua parte final. “Intervention” mantém a atmosfera reflexiva e “X-Static Process” vai na mesma linha, essa última sendo uma das mais belas canções da discografia de Madonna, com lindos vocais e harmonias sobre um dedilhado acústico. De arrepiar! Ela e “Nothing Fails” são parcerias com Stuart Price, músico e produtor inglês que foi o diretor da Drowned World Tour, de 2001, e que teria papel central no sucessor de American Life, o ótimo Confessions on a Dance Floor (2005).

A autobiográfica “Mother and Father” fala da relação da cantora com seus pais. A mãe morreu em 1963, de câncer, quando Madonna tinha apenas 5 anos de idade, e o pai foi fundamental na sua formação musical, matriculando-a ainda criança em aulas de piano clássico e balé. Apesar do conteúdo lírico, “Mother and Father” fica em segundo plano em relação às demais faixas do tracklist.


Lançada antes do álbum como canção tema do filme 007 – Um Novo Dia para Morrer (2002), onde ela faz uma rápida participação, “Die Another Day” é um dos exemplos mais instrutivos da abordagem musical de Mirwais, com o uso de violinos conduzindo a canção de forma minimalista, onde a linha vocal grudenta de Madonna ganha amplitude com as batidas eletrônicas. Música sensacional, uma aula prática de como usar os recursos de estúdio e que também chamou atenção devido ao clipe, que traz a artista em coreografias de luta e cenas de tortura que chocaram os mais sensíveis.

“Easy Ride”, parceria com o guitarrista Monte Pittman, fecha o álbum de maneira bem emocional e é mais uma das pérolas escondidas em seus álbuns e que acabam sendo esquecidas pelos ouvintes ocasionais. Linda canção, com uma interpretação vocal sensacional de Madonna explorando os timbres mais graves e profundos de sua voz.

American Life não teve o impacto que deveria devido a todo o contexto que cercou o álbum na época do seu lançamento. Mesmo assim, vendeu mais de 6 milhões de cópias em todo o mundo e chegou ao primeiro lugar da Billboard, além de liderar a parada em diversos países. Musicalmente é um trabalho que revela-se ainda refrescante e cativante, enquanto o discurso de suas letras mostrou-se profético, como ficou claro com a eleição de Donald Trump em 2016.

Um álbum corajoso, inovador e revolucionário de uma das maiores artistas da história da música pop, que nunca teve medo de criticar o que achava que deveria ser criticado e fez isso mais uma vez em American Life.



David Coverdale e o brilho negligenciado de Into the Light


Após Slip of the Tongue (1989), David Coverdale anunciou uma pausa nas atividades do Whitesnake. O vocalista estava cansado e queria um tempo para colocar a cabeça no lugar antes de decidir quais seriam seus próximos passos. O período coincidiu com o divórcio de Tawny Kitaen, a musa que aparece nos clipes de “Is This Love”, “Here I Go Again” e “Still of the Night”, com quem David casou em 1989. Cada um dos músicos partiu por caminhos diferentes, incluindo o próprio Coverdale, que retornou apenas em 1993 com um álbum em parceria com Jimmy Page.

Mas David realmente queria dar um tempo durante os anos 1990. Seu próximo trabalho sairia apenas em 1997 com o título de Restless Heart, e a ideia original era de que fosse um álbum solo, porém a gravadora conseguiu colocar um Whitesnake em letras garrafais na capa. As novas edições, inclusive, já nem trazem o nome da David Coverdale na capa, com o disco se transformando, definitivamente, em um álbum do Whitesnake. Essa fase rendeu também o acústico Starkers in Tokyo, onde o vocalista apresenta versões acústicas de clássicos da banda ao lado do guitarrista Adrian Vandenberg, que tocou no aclamado Whitesnake (1987) e também em Slip of the Tongue e Restless Heart.

O último capítulo da tentativa de Coverdale em se descolar do Whitesnake foi Into the Light, lançado no final de setembro de 2000. Na prática, trata-se do seu terceiro álbum solo, fazendo companhia a White Snake (1977) e Northwinds (1978). Into the Light é um disco predominantemente baladeiro, com canções que, mesmo explorando esta abordagem, não escorregam para algo meloso demais, explorando influências como blues e soul que as deixam mais equilibradas e com um tom mais reflexivo e menos romântico. Coverdale se cercou de um timaço de músicos, incluindo nomes como o guitarrista Earl Slick (David Bowie, John Lennon), o baixista Marco Mendoza (Thin Lizzy, Journey e mais tarde integrante do próprio Whitesnake), Tony Franklin (David Gilmour, The Firm, Kate Bush) e o baterista Denny Carmassi (Montrose, Stevie Nicks, Sammy Hagar). O resultado foi um álbum com uma sonoridade bem característica, e que difere do que ouvimos nos discos do Whitesnake, sejam os trabalhos da fase chapéu-e-bigode ou os discos da era glam metal.

Into the Light traz doze canções, a grande maioria composta por David Coverdale ou em parceria com Slick, com direito a uma dobradinha com Vandenberg na faixa-título. Há momentos muito bons como “River Song”, a zeppeliana “She Give Me”, a linda “Love is Blind” e a poderosa “Don’t Lie to Me” ao lado de canções realmente ótimas como “Slave”, “Cry for Love” e belíssima música que batiza o disco.

Apesar de não ter sido um sucesso na época, Into the Light envelheceu maravilhosamente bem e é um álbum que teve suas qualidades acentuadas com o tempo, com uma performance vocal excelente de Coverdale, instrumental impecável e canções muito fortes, que mesmo esquecidas pelo artista e pelo próprio Whitesnake possuem força para cativar novos fãs e impressionar aqueles que, por ventura, ainda não colocaram os ouvidos nesse disco. 



Duas décadas depois, Megahertz ressurge com força total em Burning Like Hell


Na estrada há quase quarenta anos, a banda piauiense Megahertz lançou em 2022 o seu segundo álbum, Burning Like Hell, exatas duas décadas após soltar seu disco de estreia, Pyramidal Power (2002). O CD saiu pela Mog Records e Orange Produções, e foi disponibilizado em um belo digipack com encarte de doze páginas trazendo todas as letras. A produção é do guitarrista Mike Soares, com capa de Rafael Tavares e Romano Rocha. Pra fechar a introdução, a banda é formada por Nixxon (vocal), Kasbafy (guitarra), Mike Soares (guitarra), Marcelo Briba (baixo) e Iado Dayvison (bateria).

Burning Like Hell vem com doze faixas e a sonoridade da banda traz influências de nomes lendários do thrash metal como Exodus e Testament, e até algo que lembra, nas canções mais diretas, o cultuado Hirax. Traduzindo, é thrash construído com uma chuva de riffs, vocais rasgados e andamentos contagiantes, tudo muito bem feito e que agradará em cheio quem é fã do estilo. Algumas passagens flertam com o metal mais extremo, notadamente o refrão da música título, onde Nixxon arrisca um vocal gutural, e em “Hostage to Violence”. 

O grande destaque vai para o trabalho de guitarra, que explora a abordagem tradicional do gênero sem soar repetitivo, o que é sempre uma conquista em um gênero como o thrash metal. O resultado final é um álbum super coeso, com um tracklist extremamente nivelado e que fica mais forte a cada audição, revelando destaques a cada novo play. 

Por mais que o Megahertz tenha demorado vinte anos para conseguir gravar o seu segundo disco, e isso diz mais sobre a realidade das bandas brasileiras do que algo sobre o quinteto em si, Burning Like Hell vale demais a audição e é indicadíssimo pra todo fã de um thrash metal com sonoridade mais tradicional.



Why Do We Suffer? traz o Deep Memories explorando as profundezas do seu som

 


Como é bom ser surpreendido. Amo a sensação de colocar pra tocar um CD de uma banda que não conheço, e logo nos primeiros acordes perceber que estou ouvindo algo especial. E tive essa sensação ao escutar Why Do We Suffer?, segundo álbum do Deep Memories. A banda é formado pelo vocalista e multi-instrumentista Douglas Martins, responsável por tudo que ouvimos no álbum, inclusive as composições e a produção. Musicalmente, o som é uma união entre doom, gothic e prog, com alguns elementos de death metal vindos principalmente do vocal gutural. Esse é o segundo disco do Deep Memories e sucede Rebuilding the Future (2018).

Douglas não é novo no cenário. Ele criou o Deep Memories em 2016, após sair do Desdominus, banda de death/black de Americana na ativa até hoje, e onde permaneceu entre 1997 e 2005 como vocalista e guitarrista. As influências adquiridas nesse período estão presentes no seu som atual, que se mostra muito maduro e competente.

Com ótima produção, Why Do We Suffer? entrega uma sonoridade emotiva, onde o uso constante de vocais limpos compondo harmonias com o timbre gutural imprime uma característica bastante singular. Instrumentalmente, o álbum é irretocável. O trabalho de guitarra conduz as canções com melodias e riffs poderosos, enquanto a bateria é responsável por uma percussão eficaz e sólida. É impressionante ouvir canções como a “Enslaved by Reciprocity Obligation” (que abre o CD), “Get Away From Poison” (com uma bela mudança de dinâmica na parte final), “Uncontrolled Cells Multiplication” e a espetacular “Prerogatives of Exceptions” e perceber que elas são frutos de um único músico, que literalmente fez todo o trabalho sozinho.

O talento de Douglas Martins é muito fora da curva, e, ao contrário de algumas one man bands onde a solidão criativa muitas vezes conduz para uma música repetitiva, autoindulgente e sem autocontrole justamente pela ausência de uma troca com outras visões criativas, o Deep Memories consegue transmitir uma atmosfera de banda, com as múltiplas capacidades de Martins trabalhando juntas.

Why Do We Suffer? é um álbum excepcional feito por um artista completo, e a minha única crítica em relação a ele é o fato de ter conhecido o Deep Memories somente agora. Não cometa o mesmo erro que cometi e ouça já esse disco!


Godhound, o stoner denso e espesso que vem do Rio Grande do Norte

 


O Brasil é continental e possui aficionados por rock em todas as suas regiões. Veja esse exemplo: eu, aqui no sul do país, estou ouvindo o álbum de estreia do Godhound, quarteto natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte. A distância geográfica é eliminada por um rock super pesado e que aproxima apreciadores do estilo tão distantes entre si.

Refueled é o primeiro disco do grupo formado por Kael Freire (vocal e baixo), Victor Freire (guitarra e vocal), Vitor Assmann (guitarra) e Lazaro Fabricio (bateria). O álbum apresenta oito faixas e traz a participação de Jimmy London, do Matanza, em “Deathmask Trucker”. A linda arte da capa foi criada por Wildner Lima e a produção ficou a cargo de Kael e Victor. A sonoridade é um stoner com letras em inglês, calcado em bons riffs e vocais bem agressivos, algo na linha entre o Orange Goblin, o High on Fire e o Red Fang.

O peso do material é acentuado pela produção, que a princípio soa meio abafada, mas na verdade prioriza e intensifica os tons mais graves dos instrumentos, o que faz com que o som seja denso e espesso, como convém ao estilo. O trabalho de composição é muito bem feito e mostra uma maturidade surpreendente para um primeiro álbum, pois as composições têm tudo no lugar certo e não soam imaturas como se poderia esperar do primeiro trabalho de uma banda. A participação de Jimmy London pouco agrega ao material, e, pelos contatos do agora apresentador do Multishow, deve ser muito mais produtiva para promover a banda, já que não fez nenhuma diferença artística.

Destaques para a cadenciada “Gravestone”, a influência de Motörhead em “Dieser Burner”, o belo riff de “Warriors”, a energética “Open Letter” e o encerramento com a paulada “Takeover”, que traz bonitas harmonias de guitarra.

O álbum foi lançado de forma independente em CD digipack, com encarte de doze páginas com todas as letras.

Uma bela estreia de uma banda que demonstra potencial para entregar álbuns ainda melhores nos próximos anos.



O KoRn pode não ser para todos os ouvidos, mas essa compilação é

 


Principal nome do chamado nu metal, o KoRn sempre despertou sentimentos antagônicos. Os fãs reverenciam os novos caminhos que o grupo sempre buscou com a sua música, enquanto quem não simpatiza com o som da banda os classifica como repetitivos, monótonos, sem graça e outros adjetivos elogiosos. Neste sentido, a coletânea Greatest Hits Vol. 1 é uma boa pedida. Ouvindo-a de cabo a rabo fica evidente que o KoRn, ainda que tenha dado algumas bolas fora em sua carreira, acertou em vários momentos.

O disco abre com a melodiosa "Word Up!", música para cima que destoa da maioria das músicas (para não dizer de todas) que o grupo gravou em sua carreira. Com um ar festivo que lembra um pouco a Los Angeles dos anos 1980, avisa logo o ouvinte que, por mais que ele ouça guitarras pesadas durante o CD, é bom ele manter os ouvidos e a cabeça abertos para o que está por vir. Uma versão para "Another Brick In The Wall" do Pink Floyd dá sequência ao álbum. O andamento marcado, aliado aos vocais agressivos de Jonathan Davis, atualiza um dos maiores hinos do rock para uma nova geração de ouvintes. Ainda que pareça desnecessária, é uma releitura interessante, executada com competência pela banda.

As experiências com outros estilos, notoriamente com o rap, estão presentes em "Y'all Want A Single", e nesta música especialmente fica claro que, por mais que a riqueza e o conceito central da música do KoRn estejam na mistura de novos elementos com o metal e o hard rock, em alguns momentos é preciso aparar algumas arestas. Em "Y'all Want A Single" essa colagem de estilos não funciona, e a canção soa desconexa e estranha aos ouvidos. Já "Right Now", destoa completamente de "Y'all Want A Single". Nela vemos que, quando o KoRn acerta a mão, o resultado é arrebatador. Independente do gosto pessoal de cada um, é inegável o poder de "Right Now", com um andamento baseado no baixo funkeado e um refrão agressivo, quase gutural. Um ótimo cartão de visitas para quem não conhece a banda.

Outros momentos altos de Greatest Hits Vol. 1 são as músicas "Did My Time" (um dos maiores hits do grupo), a atmosférica "Alone I Break", a pesada "Here To Stay", "Somebody Someone" e "Falling Away From Me". O Korn experimental marca presença em faixas como "Freak On A Leash", com todos aqueles elementos apontados por seus críticos na hora de falar mal do som da banda. A música do grupo realmente não é de fácil assimilação para quem está acostumado a ouvir as abordagens mais tradicionais do rock e do metal, e soa estranha aos ouvidos menos avisados. O baixo sempre na cara e os andamentos marcados funcionam na maioria das vezes, e dão uma característica única ao som. Já os vocais rapeados de Jonathan Davis, quando surgem, passam longe do agradável, e puxam o som do grupo para baixo. Isso fica bem claro na já citada "Freak On A Leash" e na chatíssima "Twist".

Como as músicas vão sendo apresentadas em ordem cronológica inversa no CD, chegando ao seu final entramos em contato com um KoRn dos primeiros anos, que soa bem mais cru. A união de influências que gerou "Right Now", talvez a melhor música e o melhor exemplo do som do KoRn, ainda estava sendo testada em músicas como "A.D.I.D.A.S." e "Blind".


Sem dúvida o grupo ouviu muito o álbum Angel Dust, lançado pelo Faith No More em 1992, já que é claríssima a influência da banda de Mike Patton no som do KoRn até hoje. As mais claras, como o baixo funkeado, e as não tão óbvias assim, como o desejo de subverter a estrutura padrão das canções, saindo da fórmula verso-ponte-refrão. A escolha pelos caminhos mais difíceis gera estranheza e uma certa má vontade em qualquer ouvinte, porque a música do grupo, principalmente no início de carreira, não é, na maioria das vezes, agradável de se ouvir. Mas a experiência na estrada fez bem à banda, e a pretensão que era palpável nos primeiros álbuns se transformou em um estilo próprio.

Há quem goste, e há quem não suporte ouvir, como acontece com qualquer banda, mas a audição deste Greatest Hits Vol. 1 nos leva à conclusão inegável de que o KoRn, dentro de seus erros e acertos, construiu uma carreira de respeito e, mais do que isso, uma sonoridade que influenciou gerações, dentro e fora do metal. Despindo-se dos pré-conceitos, ficam claras as qualidades da banda, e só não percebe isso quem constrói a sua opinião baseado em uma visão focada no conservadorismo e na desconfiança a qualquer coisa que soe como novo. E, convenhamos, ter uma opinião baseada nestes dois conceitos vivendo na realidade em que vivemos é, no mínimo, um contrassenso.

Greatest Hits Vol. 1 foi lançada em outubro de 2004 e é a primeira compilação da carreira da banda norte-americana. Em 2006 sairia Chopped, Screwed, Live and Unglued, material com 2 CDs e 1 DVD que acompanhou uma edição especial do álbum See You on the Other Side (2005) e traz remixes das canções do disco e versões ao vivo para clássicos do quinteto. No entanto, como cartão de visitas ou como o único item do KoRn em uma coleção, Greatest Hits Vol. 1 ainda é a melhor pedida, principalmente na versão especial limitada que vem com um DVD com um show gravado no lendário CBGB, em Nova York, e que foi lançada inclusive no Brasil pela Epic/Immortal Records.

O som do KoRn pode não ser para todos os ouvidos ou para todas as coleções. Mas essa coletânea é muito indicada para quem quer construir um acervo que cobre todos os caminhos que o metal trilhou em todas as suas décadas de existência e evolução.




The Group - The Feed-Back (1970)

 


Anteriormente conhecido como "Gruppo Improvvisazione Nuova Consonanza" O Grupo é um conjunto de Roma formado por bons músicos dos quais Ennio Morricone se destaca. Sua produção musical é um excelente jazz-rock no bom mainstream dos "Dedalus", "Perigeo" e outras bandas italianas. Este álbum, chamado "The Feed-back", é muitas vezes descrito por engano como um clássico da música italiana de vanguarda. só porque tem algumas semelhanças com a música cósmica de produção alemã, mas é realmente um álbum de jazz muito bom com algumas nuances eletrônicas.

O Grupo contou com: Franco Evangelisti (teclados, percussões), Mario Bertoncini (piano, percussões), Ennio Morricone (trompete), John Heineman (trombone, piano, violoncelo), Walter Branchi (contrabaixo), Egisto Macchi (percussões), e mais alguns colaboradores em vários álbuns e concertos




Armando Piazza - Suan (1972) & Naus (1973)

 


Muito poucas pessoas provavelmente conheciam esse álbum até alguns anos atrás, pois eles não foram notificados na época. Armando Piazza era um cantor e compositor de Nápoles e lançou esses álbuns com títulos curiosos pelo selo local BBB (que também lançou o álbum Showmen 2), vendendo-os sozinho em shows e em revistas.

Os álbuns continham baladas ácidas e psicológicas, todas cantadas em inglês e baseadas principalmente no violão, mas às vezes com bom uso de instrumentos elétricos, também se destacam pela ajuda do músico americano Shawn Phillips (que morou em Nápoles por alguns anos) em guitarra e baixo. Uma bem-vinda reedição de Akarma reúne os dois álbuns em um único CD.

Ambos os álbuns são raros de encontrar, especialmente o primeiro, e provavelmente foram lançados em quantidade muito pequena pela pequena gravadora BBB. Os álbuns foram mal distribuídos nas lojas e vendidos de forma privada pela Piazza através da Ciao 2001 e outras revistas. Uma estranha adição diz respeito à versão em fita cassete de Suàn (cat.no. NL PP 22), lançada com duas capas diferentes e que contém che omite a faixa I met a woman. A segunda edição é creditada a Shawn Phillips e Armando Piazza, e provavelmente foi publicada mais tarde, quando Phillips era bem conhecido na Itália.


A capa de Suan existe em duas versões, a primeira com encarte de 4 páginas com fundo branco, a outra (aparentemente a mais rara) com letra em tipo branco sobre fundo preto em encarte frente e verso. A versão posterior também tem um diferencial na capa externa, onde o logotipo do "bigode" e o número de catálogo (que ficam na frente na versão com interior branco) estão aqui na contracapa.Suàn foi reeditado em vinil para pela primeira vez em 2008 pela gravadora grega Missing Vinyl (cat.no.MV002), numa bela prensagem limitada reproduzindo fielmente a capa original e incluindo o livreto da letra (com fundo branco).

O segundo álbum Naus (com o subtítulo Ars mensuralis) teve capa de single laminada. O número de catálogo tanto na capa quanto no rótulo é BSLB 0011, mas na matriz é BSBL 0011. O difícil sistema de numeração adotado pelo BBB em seus discos até os confundiu!


PAULO DE CARVALHO ESTÁ DE REGRESSO ÀS EDIÇÕES COM O ÁLBUM “2020”

 

Paulo de Carvalho está de regresso às edições com o álbum “2020”. Este é o primeiro lançamento de canções originais desde 2012 e será certamente mais um marco na sua reconhecida carreira, que ultrapassa os 60 anos. A par deste lançamento, Paulo de Carvalho estará em digressão pelo país.

2020” é um trabalho profundamente pessoal e emotivo que nasceu durante a pandemia, onde a distância física imposta é superada pela intimidade das mensagens de voz. Composto por 12 faixas, todas da autoria de Paulo de Carvalho, o álbum conta também com vários convidados: Ivan Lins, Selma Uamusse e Yola Semedo em “Terra Mãe”, Carlos Mendes em “Rapazes do Meu Tempo”, Boss AC em “Tempo Voa”, Orlanda Guiland em “Mãe África”, Luiz Caracol em “O que se Leva”, Duarte Coxo em “O Cantador”, Tó Cruz em Flor e Midas em “Maria”.

Com uma carreira repleta de sucessos legitimamente inscritos no cancioneiro Português, Paulo de Carvalho é um dos mais importantes e relevantes cantores e autores da sua geração. A ele pertencem sucessos como “Flor Sem Tempo”, “Nini Dos Meus 15 Anos”, “Mãe Negra”, “Lisboa Menina e Moça”, “Os Meninos De Huambo” e “E Depois Do Adeus”, canção com a qual venceu o Festival da Canção em 1974 e que foi a primeira senha da Revolução do 25 de Abril, que completa 50 anos.

2020” foi composto por Paulo de Carvalho (à excepção de Cacilheiro), com arranjos de Fernando Abrantes e Paulo de Carvalho e produção, mistura e masterização de Fernando Abrantes.

 

Destaque

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