domingo, 4 de fevereiro de 2024

Discografias Comentadas: King Diamond (Parte I)

 


 
O dinamarquês Kim Bendix Petersen nasceu em 14 de Junho de 1956 na cidade de Copenhagen. Até os 21 anos de idade, se dedicou inteiramente ao futebol, jogando pelo Hvidovre IF, da cidade de mesmo nome. Mas, depois, a paixão pela música falou mais alto, e ele integrou o Brainstorm (onde “adquiriu” seu nome artístico, King Diamond, e no qual atuava como guitarrista), o Black Rose (quando passou a ser apenas vocalista) e o Brats, que, após ter alguns de seus músicos (King entre eles) envolvidos com o projeto Danger Zone, daria origem ao Mercyful Fate. Após dois álbuns e um EP com o grupo, divergências musicais levaram o vocalista a montar um novo grupo, acompanhado pelos ex-colegas Michael Denner (guitarras) e Timi Hansen (baixo). Com a formação completa pelos suecos Mikkey Dee (baterista) e Andy LaRocque (guitarrista que se tornaria o “braço direito” do vocalista ao longo dos anos, sendo o único membro de sua banda a participar de todos os discos), escolheram dar o nome de seu vocalista para o novo conjunto, devido à fama que o mesmo já possuía.
Nascia assim a King Diamond Band, que estreou em 1985 com o single No Presents For Christmas, que trazia no lado B a canção “Charon”. Era o início da trajetória solo do Rei Diamante, a qual você acompanha a partir de agora nesta Discografia Comentada.
Fatal Portrait [1986]
O álbum de estreia da King Diamond Band é um daqueles discos fundamentais na coleção de quem gosta de Heavy Metal. Um de seus poucos álbuns que não são totalmente conceituais, possui cinco faixas que contam a história de Molly, uma garotinha cuja alma foi aprisionada em uma pintura por sua mãe ciumenta. A excelente “The Candle” (com sua longa e macabra introdução) abre o álbum, seguida pela clássica “The Jonah” (mais cadenciada), “The Portrait” (outra excelente composição, com uma linha de baixo matadora) e “Dressed in White” (que, apesar do excelente refrão, é a mais fraca das músicas relacionadas à história). O conto termina na faixa de encerramento do disco, “Haunted”, a mais melódica das cinco. No geral, King usa o estilo agudo de vocais mais frequentemente do que usava no Mercyful Fate durante estas músicas, até para tentar reproduzir o que seria a voz de Molly, já dando uma ideia de sua enorme capacidade de interpretação para os diversos personagens de suas histórias, algo que aprimoraria ainda mais nos álbuns seguintes. Nas canções que não tem relação com o conto, “Charon” (que trata da lenda de Caronte, responsável por levar as almas para o “outro lado” através do rio Estige – Styx em inglês) é a que mais lembra os tempos de Mercyful Fate, enquanto “Halloween” se tornou um clássico da carreira do Rei.  A agitada instrumental “Voices from the Past” (com interessantes partes de teclado) e a mais cadenciada “Lurking in the Dark” completam o track list, que, na reedição em CD, teve o acréscimo de “No Presents for Christmas” e “The Lake”, um outtake do álbum original. Clássico, mas ainda não era o ponto alto da carreira de King Diamond.

Abigail [1987] 

 
Um jovem casal (Jonathan La’Fey e Miriam Natias) se muda para uma velha mansão que Jonathan herdou. Ao chegarem ao local, são avisados por um grupo de Cavaleiros Negros para não ficarem na casa, ou algo muito ruim irá acontecer. Sem dar bola ao aviso, os dois se estabelecem, mas, durante a primeira noite na mansão, o rapaz descobre que ela é assombrada pelo fantasma de um antepassado seu, o Conde La’Fey. Este conta a Jonathan sobre um fato ocorrido há muito tempo, e que uma maldição irá atingir o casal caso o marido  não mate Miriam para impedir que todos morram! Terá ele coragem de matar a esposa para poupar a própria vida e a de outros? E quem eram os estranhos cavaleiros? Essa é a trama central de Abigail, o primeiro álbum totalmente conceitual da carreira de King Diamond, e onde ele começou sua colaboração com o produtor Roberto Falcao, que por anos trabalharia ao lado de King em suas gravações. Embora a sonoridade geral seja mais “leve” em relação aos dois primeiros registros do Mercyful Fate, o disco é puro heavy metal, tornando-se um dos clássicos do estilo ao longo dos anos e o favorito da carreira solo para muitos fãs. “The Family Ghost” é a música mais lembrada ao falarmos deste álbum, em muito por causa de seu vídeo de divulgação, mas deve-se destacar também as excelentes “A Mansion in Darkness” (bastante veloz), “The 7th Day of July 1777” (cuja intro acústica é só para enganar, pois a música é uma paulada!), “Black Horsemen” (uma das que mais lembra o antigo grupo de King) e a faixa título, que possui um ritmo “quebrado” e alguns toques orientais em sua melodia. “The Possession” é mais cadenciada que as outras, ao contrário da veloz “Arrival”. A intro “Funeral” lembra bastante o início de “The Candle”, do disco anterior, e a faixa “Omens” completa o track list. Em 1997, houve um relançamento com quatro faixas bônus: o B-side “Shrine”, que não entrou em Abigail por sua letra não ter relação com o resto da história, e os “Rough Mix” para outras três músicas do álbum, sendo que existe ainda uma edição de 2005, que vem com um DVD de bônus. Em 1990, foi lançado o álbum In Concert 1987: Abigail, que registra um dos shows da turnê de promoção, já com Mike Moon nas guitarras no lugar de Michael Denner, que deixou o grupo para poder se dedicar mais à família.
Andy LaRocque, Timi Hansen, King Diamond, Mikkey Dee e Michael Denner

Them [1988]

King (um personagem da história, não o vocalista), sua mãe e sua irmã  (Missy) recebem a avó de volta à sua casa, ela que havia ficado longe em “longas férias”, segundo o garoto (na verdade, ela estava internada em um asilo para doentes mentais após ter matado o avô das crianças, como sabemos em uma carta presente no encarte da versão original em vinil). O rapaz logo percebe que algo muito estranho ocorre no sótão onde sua avó dorme, e ela lhe explica que seres invisíveis (“eles”) dominam a casa, chamada Amon. Estranhos rituais são realizados pela avó, que, ao tentar ser impedida pela neta, acaba desencadeando uma verdadeira tragédia. A história de Them é uma das melhores que King Diamond já escreveu, assim como o disco, que marca e estreia de Pete Blakk na guitarra e de Hal Patino no baixo, substituindo Timi Hansen, que saiu do grupo por causa de sua namorada à época, e deixou King como o único membro com ligações ao Mercyful Fate presente no line up. Após a arrepiante intro “Out From the Asylum”, assim como ocorre em outros álbuns conceituais as faixas funcionam melhor no contexto da história, perdendo força quando escutadas em separado. Mas é impossível não destacar “Welcome Home” (um dos clássicos da carreira de King, e uma das melhores aberturas de música que ele já gravou, tendo recebido um clipe de divulgação), a variada “The Invisible Guests“, “Bye, Bye Missy” (com um refrão bem triste, apesar da velocidade da canção, e King abusando de sua capacidade de interpretação) e a pesada “Twilight Symphony” (com muitas variações). A melódica “Tea”, “A Broken Spell” (com uma interessante e inusitada parte acústica no meio), a instrumental “Them” (com base de violões e alguns efeitos assustadores), “The Accusation Chair” (cujo riff da primeira parte remete ao álbum Abigail) e a variada “Mother’s Getting Weaker” completam a história, que se encerra em “Coming Home”, vinheta que retoma o tema infantil ao piano presente em “Out From the Asylum”. A edição em CD tem como bônus versões instrumentais gravadas durante um ensaio para “The Invisible Guests” e “Bye, Bye Missy” (ambas com Timi Hansen no baixo e King e Andy nas guitarras) e a curta “Phone Call”, uma assustadora ligação da avó do personagem King (depois de morta) para seu netinho trancado no hospício. Com toda a razão, Them é o favorito da carreira de King Diamond para muitos de seus fãs, sendo um de seus discos mais clássicos.

 

The Dark Sides [1988] 

EP lançado em 88 com seis faixas, quase todas bastante raras à época. Estão presentes as duas músicas do primeiro single (“No Presents For Christmas” e “Charon”), o single para “Halloween” ( a faixa título e seu lado B, “The Lake“), “Shrine” (das sessões de Abigail, mas presente originalmente no single para “The Family Ghost”), e “Phone Call”, a única realmente inédita até então, sendo uma sobra das sessões de Them. A maquiagem de King presente na capa fez com que Gene Simmons, do Kiss, processasse o vocalista por achar que a mesma era muito parecida com a que o baixista usava, mas tudo foi resolvido em um acordo fora dos tribunais, quando King decidiu mudar a sua maquiagem dali para a frente. The Dark Sides é um item de colecionador, ainda mais que todas as suas faixas acabaram disponibilizadas depois como bônus das edições em CD.

Conspiracy [1989]

Na continuação da história contada em Them, temos King voltando à casa Amon depois de sair do asilo para doentes mentais onde foi internado após os fatos daquele álbum. Para ver de novo sua irmã Missy (à época já morta), o rapaz faz um acordo com “eles”, lhes devolvendo o poder sobre a casa. Mas o que ele não sabe é que seu médico e sua mãe (que se tornaram amantes) têm outros planos para o local, não se importando de matar King se isso for necessário para conseguirem o que desejam. Mas sera que “eles” irão permitir que estranhos tomem conta da casa que lhes pertence? E o que King pode fazer para impedir que isso ocorra? Musicalmente falando, a longa e variada “At the Graves” abre aquele que é, para mim, o melhor disco já registrado por King Diamond. “Sleepless Nights” ganhou clipe e é mais uma a virar clássica quando pensamos na banda, destacando-se no track list ao lado da citada faixa de abertura, “A Visit From the Dead” (que tem uma intro acústica muito bonita, em contraste com a velocidade da segunda parte), a cativante “‘Amon’ Belongs to ‘Them’” (que conta com um dos melhores refrões do álbum) e a veloz “Victimized”. Com muitas variações (assim como as outras faixas), “The Wedding Dream” (que efetivamente tem até a “marcha nupcial” em sua abertura) é outra faixa muito interessante, enquanto “Lies” é uma das mais pesadas da carreira solo de King. A instrumental “Something Weird” e “Let It Be Done” (que retoma o tema infantil ao piano presente em algumas faixas de Them, porém agora com uma sonoridade mais macabra) são apenas vinhetas que complementam a história, e o disco encerra com a intrigante instrumental “Cremation” (com seu riff repetitivo mas cativante), e um dos personagens prometendo voltar do túmulo para se vingar, deixando em aberto a possibilidade de uma terceira parte para a história, algo que ainda não ocorreu. A edição em CD tem como bônus mixagens alternativas para “At the Graves” e “Cremation” (esta com o subtítulo “Live Show Mix”). Ao contrário de Them, penso que as músicas aqui funcionam bem em separado, mas, quando ouvidas em conjunto, acompanhadas da história contada pelo vocalista, tornam-se insuperáveis! Este foi o último trabalho com o baterista Mikkey Dee, que deixou o grupo ainda antes das gravações, trabalhando aqui como músico contratado e indo juntar-se ao Motörhead pouco depois. Cabe citar que existem algumas cópias com a capa mostrando o personagem King jogando um caixão para fora da casa Amon (arte que o vocalista viria a recusar depois de pronta), as quais são muito procuradas por colecionadores mundo a fora.
A rara capa original de Conspiracy
 
 

 

 

The Eye [1990]
Neste álbum King Diamond conta duas histórias diferentes, baseadas em fatos reais acontecidos durante a época da Santa Inquisição, unindo-as através da fictícia história de um medalhão chamado “o Olho da Bruxa” (presente na capa), que pode transportar as pessoas que o usam pelo tempo, mas também mata a quem lhe olhar diretamente. O narrador acha o tal medalhão, e acaba voltando à época de Jeanne Dibasson, acusada de bruxaria pela Inquisição e julgada pelo próprio Nicholas de La Reymie, chefe da Chambre Ardente, o braço francês da instituição. Como era costume na época, Jeanne é queimada na fogueira, e, no local onde era morreu, duas garotas encontram o medalhão do “Olho”. Enquanto brigam para ver quem ficará com ele, uma das garotas olha em seu interior e morre, o que nos leva à história de Madeleine Bavent, que ocupa a última faixa do lado A e todo o lado B. Madeleine é um freira de dezoito anos que é seduzida pelo capelão de seu convento, Padre Pierre David, o qual também morre ao olhar o medalhão, que estava de posse da menina (seria ela a mesma que o encontrou nas cinzas da fogueira?). O novo capelão, Padre Mathurin Picard, não é uma pessoa tão religiosa assim, drogando as freiras e as obrigando a participar de rituais satânicos no convento. Todos os que participam dos rituais acabam sendo presos pela inquisição, e, segundo o encarte, morrendo na prisão. O álbum termina com o narrador voltando ao presente, agora sabedor do poder do medalhão. Único álbum a contar com a presença do baterista Snowy Shaw, que depois integraria o Mercyful Fate, musicalmente The Eye é o disco que menos me agrada nesta primeira fase, apesar da parte lírica ser uma das mais interessantes da carreira solo de King. Curioso é que foi o primeiro vinil com o vocal do Rei Diamante que comprei, há quase vinte anos (o qual ainda possuo). Os grandes destaques ficam com a faixa de abertura, “Eye of the Witch” (único single do álbum) e com a veloz “Burn“, músicas até hoje presentes nos set lists dos shows do grupo, mas podemos citar também a variada “The Curse” e “The Meetings” (a que mais lembra o estilo dos álbuns anteriores, como Abigail ou Conspiracy, e que possui um excelente riff inicial, além da forte presença do baixo) como faixas que merecem ser ouvidas. Os teclados (a cargo do produtor Roberto Falcao) possuem aqui uma participação bem maior do que em outros álbuns, não apenas criando climas ou efeitos para auxiliar na compreensão da história (como na mid-tempo “Father Picard”), mas também fazendo parte da melodia de canções como a balada “Two Little Girls” (bastante sinistra) ou a mais cadenciada “Behind These Walls”. King mais uma vez dá um show de interpretação ao longo do álbum, como nos diálogos entre Nicholas de La Reymie e Jeanne Dibasson em “The Trial (Chambre Ardente)” ou nos discursos de Father David em “Into the Convent”. “1642 Imprisonment” (com um excelente refrão) e a calma “Insanity” (levada apenas pelos violões em sua primeira parte) completam o track list. Se você quiser uma descrição mais completa sobre o disco, leia esta matéria aqui no blog.
Pete Blakk, Hal Patino, King Diamond, Snowy Shaw e Andy LaRocque
Desentendimentos com a gravadora Roadrunner, e as saídas de Pete Blakk e Hal Patino fizeram com que King Diamond fosse forçado a “dar um tempo” em sua carreira solo. Foi nessa época que Michael Denner entrou novamente em contato com o Rei para lhe mostrar as músicas que havia composto para o segundo disco de seu novo projeto, o Zoser Mez. Este encontro acabou levando à volta do Mercyful Fate, mas o vocalista não abandonaria sua carreira solo, como você confere daqui a quinze dias na segunda parte da Discografia Comentada de King Diamond!

Discografias Comentadas: King Diamond (Parte II)

 

Os desentendimentos com a gravadora Roadrunner forçaram a King Diamond Band a ficar parada por um tempo, e Andy LaRocque acabou se unindo ao Death para gravar o essencial Individual Thought Patterns em 1993. Com o retorno do Mercyful Fate, a carreira solo de King Diamond também foi retomada, e, devido à sua mudança para os Estados Unidos, o vocalista se uniu aos americanos Herb Simonsen (guitarra), Chris Estes (baixo) e Darrin Anthony (bateria) – também membros do Mindstorm – para, depois de resolver seus problemas legais com o antigo selo, trazer o grupo de volta à ativa cinco anos depois de The Eye!

Confira agora a segunda parte da Discografia Comentada de King Diamond!


The Spider’s Lullabye [1995]

Com uma banda quase totalmente revovada em relação à que gravou The Eye (sobrou apenas o velho parceiro Andy LaRocque), este é um dos poucos álbuns da discografia solo de King Diamond que não é totalmente conceitual. The Spider’s Lullabye (que, particularmente, considero um dos mais fracos de sua carreira) possui seis faixas que não têm relação liricamente, e outras quatro que contam a história de Harry, um sujeito que sofre de aracnofobia, e procura o estranho Dr. Eastmann em busca de uma cura para o seu medo.

Claro que as coisas não saem como ele queria, e o final acaba sendo trágico, como em quase todas as histórias contadas pelo Rei. Apesar da qualidade de canções como “From the Other Side” e “Eastmann’s Cure” (ambas com um riff veloz e refrão bastante melodioso), a longa “Room 17” (bastante variada) e “To the Morgue” (com um final bastante marcante), as demais canções não me atraem muito, talvez pela presença excessiva dos teclados (como em “The Poltergeist” ou “Moonlight“), ou apenas porque os riffs não caíram no meu gosto pessoal (como os de “Killer” e “Six Feet Under”).

A cadenciada “Dreams” (com um marcante refrão) ganha velocidade nos solos, e a faixa título, apesar de durar quase quatro minutos, a meu ver é apenas uma vinheta de introdução para a história de Harry, marcada por mudanças de tempo, uso excessivo dos teclados e vocalizações que não ficaram muito legais, especialmente no começo e no final. Não diria que é um álbum desprezível, mas com certeza está longe dos melhores registros de King Diamond. Cabe citar que a versão nacional original (lançada pela Castle Brasil) possuía como bônus uma entrevista com o vocalista, a qual é quase impossível de ser ouvida, pois colocaram no áudio, enquanto King fala, algumas passagens de músicas do álbum, as quais muitas vezes se sobrepõem à voz do entrevistado, fazendo com que não se entenda o que ele diz, em uma demonstração incrível de amadorismo, e que serve como um dos exemplos das falhas que levaram a gravadora à falência no país. Assim como outros álbuns, este foi remixado por Andy e relançado em 2009, com uma nova arte gráfica.


 The Graveyard [1996] 

Um sujeito inocente é acusado de violentar uma garotinha, e internado em um sanatório. Mentalmente perturbado devido ao “tratamento” recebido no local, ele consegue escapar e se refugia em um cemitério, enquanto planeja sua vingança contra o verdadeiro culpado. Mas, quando coloca seu plano em prática, as coisas acabam saindo um pouco diferentes do que ele queria. Outro álbum que não me atrai muito tanto na parte lírica quanto na musical, The Graveyard tem como destaques as faixas “Black Hill Sanitarium” (com um excelente refrão), a cadenciada “I’m Not a Stranger” e a pesada “Lucy Forever”.

As demais faixas meio que se equivalem, e, embora funcionem bem para o contexto da história (como a vinheta “Whispers”, que serve para mostrar o estado de insanidade da mente do narrador, assim como a angustiante “Up From the Grave”, ou a melódica “Daddy”, passando perfeitamente o sofrimento da garotinha Lucy), separadas não ficam entre as melhores composições da carreira do Rei Diamante.

A quase teatral “Digging Graves” (com seu ritmo macabro reforçado pelos efeitos de teclado) começa bem interessante, mas sua longa duração (sem muitas variações) acaba tornando-a cansativa, assim como “I Am”, cuja melodia tem como ponto forte os teclados (a cargo de King) e a interpretação vocal do cantor, que passa bem a ideia de ser um sujeito completamente demente, como é o estado mental do narrador.

A levada de bateria no começo de “Waiting” lembra a de “Welcome Home”, do álbum Them, e a pesada “Trick or Treat” tem algo em sua melodia que me lembra Judas Priest. A primeira parte de “Heads on the Wall” é bem lenta, com um refrão bem interessante, mas na segunda metade a música fica bastante veloz, tornando-se algo completamente diferente. A mid-tempo “Meet Me at Midnight” também possui um bom refrão, a faixa título é uma vinheta com efeitos assustadores e King dando um show de interpretação no papel do demente narrador da história, e a quase orquestral “Sleep Tight Little Baby” completa o track list, sem muito brilho.

Este é um dos álbuns mais bem sucedidos comercialmente na carreira de King Diamond, tendo atingido boas posições nas paradas e um número expressivo de vendas. Mas, como eu disse, não me convence! The Graveyard também foi remixado e relançado em 2009 com uma nova arte gráfica.

A formação de Voodoo: King Diamond,John Luke Hébert, Chris Estes, Herb Simonsen e Andy LaRocque


Voodoo [1998]

O casal Lafayette (com a esposa Sarah grávida) e o “vovô” se mudam para uma mansão na Louisiana para recomeçar a vida. Próximo ao local existe um cemitério vodu, e as cerimônias realizadas ali perturbam o casal. Quando este decide destruir o cemitério, seu mordomo, um membro do culto vodu, se une a outros seguidores para impedir que isto ocorra, claro que não de uma forma pacífica, e, mais uma vez, as coisas não saem da forma que todos esperavam.

Com os mesmos músicos que gravaram The Graveyard (à exceção da bateria, agora a cargo de John Luke Hébert), Voodoo é outro álbum onde as músicas funcionam bem no contexto da história, mas não possuem muita força isoladamente. A excelente faixa de abertura “‘LOA’ House” (cuja letra cita o álbum Abigail ao falar da gravidez de Sarah Lafayette, afirmando que desta vez a história será diferente, e este bebê sobreviverá), a agressiva e pesada “A Secret“, que possui um excelente riff, além de um interessante refrão (com destaque para o teclado), a complexa e variada “Sending of Dead” e “The Exorcist” (mais direta e com outro riff matador) poderiam ser apontadas como os destaques, mas não chegam nem perto dos clássicos da carreira de King.

Algumas faixas são guiadas pelo teclado, como “Life After Death”, “Sarah’s Night” e a vinheta “Unclean Spirits”, que narra a tentativa de exorcismo de Sarah. Apesar de alguns momentos de velocidade, “Cross of Baron Samedi” é a mais cadenciada do álbum, e “One Down Two to Go” mistura suaves partes acústicas com outras velozes e elétricas ao longo de seu arranjo. A vinheta “If They Only Knew” conta apenas com efeitos de teclados e a vocalização de King, que inclusive é bastante variada em “Salem”, que me lembra os tempos de Fatal Portrait.

A sonoridade dos tambores de vodu marca forte presença tanto na intro “Louisiana Darkness” (vinheta que tem sua melodia repetida na outro “Aftermath”) quanto na faixa título, que tem a presença de Dimebag Darrell, já falecido guitarrista do Pantera, no solo principal. A edição europeia possui uma faixa escondida após “Aftermath”, a qual é basicamente “Unclean Spirits” tocada de trás para frente. A história é bastante interessante, mas, musicalmente, este disco fica abaixo dos melhores momentos de King Diamond. Este foi outro álbum remixado e relançado em 2009.


House of God [2000] 

Um sujeito perdido em uma floresta francesa é salvo por um estranho lobo, e levado por ele a uma igreja um tanto “diferente”. Ao entrar, o lobo se transforma em uma belíssima mulher, e, após uma noite de amor, ela lhe revela ter sido amaldiçoada e forçada a tomar conta do local, sendo que, se não arrumar alguém para lhe substituir, irá morrer em breve. Por amor, o sujeito toma seu lugar, e passa a guardar a igreja, que esconde um terrível segredo: é o local onde está enterrado o corpo de Jesus Cristo, que teria escapado vivo da crucificação e ido para a França junto com Maria Madalena.

Tal descoberta trará trágicas mudanças na vida do protagonista da história! Parcialmente baseada em uma lenda local (a igreja da história existe realmente, embora não se tenha provas do que é guardado em suas catacumbas), este é, para mim, o melhor disco desde o retorno da banda após o álbum The Eye, sendo a minha faixa favorita a variada “The Trees Have Eyes”, com marcantes passagens de guitarra e um refrão que fica na cabeça após poucas audições.

No geral, as músicas são mais rápidas e diretas do que nos discos mais recentes, como ocorre em “Black Devil” (que possui um riff inicial matador), “Catacomb” (outra com um refrão marcante), “Just a Shadow” ou “The Pact”, embora “This Place Is Terrible” seja mais cadenciada, e “Follow the Wolf” alterne partes pesadas com outras lentas e suaves. A faixa título (outro destaque) é a mais melódica, com bastante destaque aos teclados em seu arranjo, e “Help!!!” conta com um riff marcante, que fica se repetindo, dando um toque de metal industrial à canção.

A suave instrumental “Peace of Mind” fecha o álbum, cujo track list é completado pelas vinhetas “Upon the Cross” (que tem na letra o mote do disco, ou seja, que Jesus não morreu na cruz), “Goodbye” (de melodia bastante tristonha) e “Passage to Hell”, que conta com alguns efeitos assustadores.

Um disco excelente, que marcou as estreias de Glen Drover nas guitarras (ao lado de Andy) e de David Harbour no baixo (John Luke Hébert se manteve na bateria), e iniciou uma espécie de “recuperação” para a carreira de King, pelo menos no meu modo de ver, sendo o primeiro de  uma sequência muito boa de lançamentos. Em 2009 este álbum também foi remixado e relançado.


Abigail II: The Revenge [2002]

A continuação da história contada no álbum Abigail acontece dezoito anos depois dos fatos relatados naquele disco. O bebê Abigail não foi morto pelos Black Horsemen, e cresceu para virar uma bela mulher, que retorna por acaso à mansão de sua família, onde encontra Jonathan La’Fey ainda vivo, embora tendo de usar uma cadeira de rodas e necessitando dos cuidados do mordomo Brandon Henry (personagem inspirado em um empregado de King), e Little One, o fantasma da natimorta Abigail do primeiro disco. 

Jonathan pensa que Abigail é Miriam, e acaba estuprando-a, fazendo com que a jovem prometa se vingar dele, ainda mais depois de descobrir o que aconteceu com a primeira Abigail. Mas, como sempre, as coisas não saem exatamente da maneira como ela planejou… Sem conseguir sequer se igualar à qualidade da primeira parte, Abigail II: The Revenge é mais um álbum onde as músicas funcionam bem no contexto da história, mas não se destacam muito separadamente.

As que mais chamam a atenção são aquelas mais rápidas, como “Mansion in Sorrow“, “The Wheelchair“, “Spirits” e “Miriam” (com um riff no início que me lembra o de “Black Devil”, do disco anterior, e diversas variações ao longo de sua duração). O álbum conta com vários efeitos sonoros em suas faixas para caracterizar os acontecimentos do conto elaborado por King, como o som da tempestade no início de “The Storm”, os vidros quebrados em “Broken Glass” (onde os teclados têm papel importante na melodia) ou o choro de Abigail ao final de “Slippery Stairs” e seus risos na curta “More Than Pain”.

King também usou a voz de uma garotinha chamada Alyssa Biesenberger (filha de um amigo do produtor do álbum), que interpreta Little One na música que leva seu nome (que mescla partes mais marcadas com outras bem velozes), na vinheta “Sorry Dear” e na marcada e quase teatral “Mommy“. A vinheta “Spare This Life” e a variada “The Crypt” completam o track list de um álbum que marcou a estreia do guitarrista Mike Wead (também do Mercyful Fate) e do baterista Matt Thompson, além do retorno de Hal Patino ao baixo (Andy LaRocque seguia firme na outra guitarra, em uma formação que seguiria junta nos próximos lançamentos), e que não chega a ser um equívoco, mas passou longe de se tornar um clássico, como a primeira parte conseguiu.

Livia Zita e King Diamond

The Puppet Master [2003]

Um sujeito vai assistir a um show de marionetes em Budapeste, na Hungria, e acaba conhecendo Victoria, uma mulher fascinante pela qual se apaixona. Mas ela some pouco depois, o que se transforma em um mistério para o rapaz. Um ano depois, ele volta ao mesmo local disposto a descobrir o que aconteceu com sua amada, mas o que irá descobrir é tão terrível que está além de qualquer um de seus pensamentos mais tenebrosos, além de mudar tragicamente sua vida para sempre.

Ao lado de House of God, este é um dos meus álbuns favoritos desta “segunda fase” da carreira de King Diamond. No geral mais melódico que os dois anteriores, conta com um uso maior dos teclados nos arranjos das faixas (e não apenas para “efeitos sonoros”, como ocorre em outros discos do cantor), com se comprova em “Blue Eyes”, na teatral “No More Me” (com sua melodia quase demente) e na excelente “Magic” (um dos destaques, ao lado da faixa título, da rápida “Blood to Walk” e da variada “Christmas“, que conta com trechos da tradicional canção natalina “The Little Drummer Boy”).

King conheceu a cantora Livia Zita durante uma entrevista que ele lhe deu quando ela trabalhava para a revista Metal Hammer da Hungria. Encantado por sua voz (e por sua beleza), o vocalista a convidou para participar do seu próximo disco, fazendo as vozes dos personagens femininos. A bela voz de Livia se destaca na citada “Magic”, em “Emerencia”, na balada “So Sad”  (uma das músicas mais tristes que King já compôs) e na cadenciada “Darkness” (uma das mais pesadas deste disco). Pouco tempo depois, os dois se casariam, estando juntos ainda hoje.

A vinheta “Midnight” e as velozes “The Ritual” e “Living Dead” (que encerra o álbum com uma triste melodia ao violão) completam o track list da versão regular, sendo que existe uma edição especial que vem com um DVD de bônus, mostrando apenas King Diamond em sua casa (completamente caracterizado, e sentado à uma mesa com diversos objetos ritualísticos), onde o cantor explica as faixas de seu novo trabalho à medida que vai contando a história que ouviremos no disco.

É bem interessante, mas pode ser cansativo para aqueles menos “fanáticos”, especialmente se eles não entenderem o idioma britânico, pois, pelo menos na edição nacional, não há nenhum tipo de legendas. A turnê de divulgação rendeu o duplo ao vivo Deadly Lullabyes em 2004, com foco nas duas partes de Abigail, porém sem esquecer outros momentos da carreira solo.


Give Me Your Soul…Please [2007]

As almas de uma garota e de seu irmão estão esperando seu destino final no além. Enquanto a dela está destinada para a luz, a dele irá para as trevas. A menina resolve então conseguir uma alma para substituir a do irmão, para que a do garoto possa ir com ela para a luz. Ela consegue ir até a casa onde King mora, e, após assombrá-lo, o músico usa de magia para entrar em contato com a aparição. A menina (retratada na sangrenta capa do álbum) pede que King lhe entregue sua alma, mas, ao verificar que a dele é ainda mais “suja” que a do irmão, desiste do cantor, e decide ir procurar em outra casa, supostamente, aquela na qual está a pessoa que ouve o disco.

O até agora mais recente lançamento da carreira solo de King Diamond é outro disco que não me agrada muito, quebrando a sequência de bons álbuns que o grupo vinha tendo desde House Of God. King inova mais uma vez, e, baseado na série 24 horas, compôs uma história que se desenvolve “em tempo real” ao longo do play, ou seja, os eventos vão acontecendo ao mesmo tempo em que você vai escutando as músicas, algo que funcionou muito bem em termos conceituais, mas não foi ajudado pelas composições, um tanto genéricas na carreira do vocalista, e que pouco lhe acrescentam após a audição.

Apesar da qualidade da veloz “Never Ending Hill” (que chegou a ser indicada ao Grammy de “Melhor Performance de Metal”, perdendo para “Final Six”, do Slayer), ou das interessantes melodias de “The Girl in the Bloody Dress” (com ênfase nos teclados), “Black of Night” (com King dando um show de interpretação, mais uma vez) e “The Cellar”, as outras músicas se perdem em riffs repetitivos e padrões já explorados em álbuns anteriores do vocalista.

Há canções mais rápidas como “Mirror Mirror” ou “The Floating Head“, e outras mais cadenciadas como “Cold as Ice” e “Is Anybody Here?” (uma das mais pesadas), mas não há aquele “candidato a clássico” que outros discos possuíam.

A participação de Livia Zita é menor do que em The Puppet Master, sendo mais notada apenas na vinheta “Pictures in Red”, nas citadas “Black of Night” e “The Girl in the Bloody Dress” e no começo da faixa título, que ganhou um vídeo de divulgação. A melodia maluca de “Shapes of Black” e a vinheta de abertura “The Dead” completam o track list, que se encerra com a semi-balada “Moving On”, com começo acústico e belos teclados em sua melodia, além do dueto de King e Livia, em uma canção que lembra “So Sad”, do disco anterior, porém não tão bonita, e que em sua parte intermediária ganha bastante velocidade e peso, voltando ao tema calmo inicial mais perto do final. Um álbum interessante, mas não muito mais que isso.

A formação mais recente: Andy LaRocque, Hal Patino, King Diamond,Matt Thompson e Mike Wead
 

Existem duas coletâneas do Rei no mercado: Nightmare in the Nineties, de 2001, apenas com músicas da década de 1990 (ou seja, de The Spider’s Lullabye a House of God) e The Best of King Diamond, de 2003, lançada pela gravadora Roadrunner e apenas com músicas da época de King no selo (ou seja, de Fatal Portrait a The Eye).

Há também o raro box Decade of Horror, em edição limitada a mil cópias e contendo quatro picture-discs de vinil. King também participou do projeto Probot em 2004, álbum capitaneado por Dave Grohl, do Foo Fighters (ex-membro do Nirvana) que reúne diversos vocalistas e instrumentistas em um dos melhores discos lançados naquela década (o Rei canta na música “Sweet Dreams”, ao lado de Grohl e Kim Thayil, do Soundgarden), e também atuou como convidado nos álbuns Necronemesis, do Usurper, e Nymphetamine, do Cradle Of Filth (apenas em sua versão digipack lançada em 2005).

Já Andy fez parte do IllWill (ao lado de Snowy Shaw e Sharlee D’Angelo) e do X-World/5, além de participar como convidado em diversos álbuns de bandas como Evergrey, Falconer e Witchery. Em 2001, foi lançado King Diamond & Black Rose 20 Years Ago (A Night of Rehearsal), que registra uma noite de ensaios do Rei Diamante ao lado de sua ex-banda Black Rose, registrado em fita K7 a 30 de setembro de 1980. O som é bem diferente do desenvolvido pelo Mercyful Fate ou por King em sua carreira solo, e vale a pena ser “descoberto” por seus fãs!

Em 2010, King passou por problemas cardíacos que o levaram a uma cirurgia, além de já estar sofrendo há algum tempo por sérios problemas na coluna. Tudo isso fez com que o cantor se afastasse dos palcos para recuperar plenamente sua saúde, mas, aos poucos, ele vai retomando sua rotina, tendo participado do show em comemoração aos trinta anos do Metallica em 2011, e feito uma aclamada apresentação no Sweden Rock Festival em 2012, além de alguns outros festivais europeus.

Um novo contrato para três discos com a Metal Blade foi assinado recentemente, e novos álbuns e turnês devem vir pela frente em breve. Que o Rei Diamante se recupere plenamente, e volte logo a nos encantar com suas macabras melodias de ninar! All hail the King! Long live the King!

Discografia Comentada: Volbeat


Discografia Comentada: Volbeat

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Quem confere a sonoridade contagiante e envolvente do Volbeat pela primeira vez não faz ideia de suas raízes extremas, do submundo do death metal dinamarquês, quando ainda eram conhecidos por Dominus. A morbidez e o extremismo deram lugar à descontração e inovação, o death metal deu lugar ao hard rock, e a promessa à realidade. Formado no ano de 2001, na cidade de Copenhague, e contando atualmente com o vocalista e guitarrista Michael Poulsen, o guitarrista Rob Caggiano, o baixista Anders Kjᴓlholm e o baterista John Larsen, vêm chamando muita atenção da crítica e do público mundo afora pelas suas apresentações energéticas e sua música inusitada, um refresco frente as fracas novidades do meio hard rock da atualidade. Sua relativa curta carreira conta com cinco discos de estúdios, que serão brevemente comentados abaixo, tudo para que a sua curiosidade pela banda aumente ainda mais.


volbeat-the-strengththe-soundthe-songs-20120122153718The Strength / The Sound / The Songs [2005]

A estreia tardia, gravada em pequeno estúdio e sob a supervisão de Jacob Hansen, produtor com longa experiência dentro do metal extremo, deu-se apenas em 2005, mas já apresentava um apanhado de boas composições e uma banda procurando sua identidade. O que fica evidente nos primeiros minutos de audição são os vocais de Michael Poulsen, um híbrido inusitado de Elvis Presley com James Hetfield, muito melódicos, versáteis e potentes. A sonoridade deste, como dos discos seguintes, transita entre o hard rock e o heavy metal de riffs pesados, mas ao mesmo tempo acessíveis. A característica sonoridade western e influência de rockabilly dos discos seguintes está pouco presente aqui, o que torna o disco menos variado e, por consequência, o mais homogêneo dos cinco já lançados. Porém, o vigor e o poder das músicas, perfeitas para grandes apresentações, se sobressai, caso de “Another Day, Another Way”, “Something Else for…” e seu refrão de clima emotivo, os riffs curtos e grossos de “Say Your Number”, a feliz sem ser brega “I Only Wanna be With You”, os semi thrash metal de “Fire Song (Danny & Lucy Revisited)” e “Alienized”, além de “Soulweeper”, uma das poucas com vestígios da sonoridade mais western dos próximos discos. Mesmo com qualidades, o disco esbarra em músicas que se repetem e, exatamente por isso, a duração do disco se torna demasiadamente longa: “Rebel Monster” é muito semelhante a “Something Else for…”, assim como outras músicas que poderiam ter ficado de fora pelo fator previsibilidade, caso de “Danny & Lucy (11pm)”, música curta, mas que tem um refrão melódico que não convence muito. É um disco divertido, alto astral e que, apesar de esbarrar em alguns momentos, se mostra um ótimo registro de estreia e que já prenunciava a busca pela qualidade nos vindouros lançamentos.


51faH0kJ+8LRock the Rebel/Metal the Devil [2007]

O segundo registro marca a primeira de poucas mudanças de formação na carreira do Volbeat, tendo Tomas Bredahl ocupado o posto de guitarrista solo no lugar de Frank Hellboss. Muito superior à sua estreia, Rock The Rebel/ Metal The Devil é o reflexo da sede da banda pela busca de seu lugar ao sol. Mostrando muita versatilidade nas estruturas musicais e nas composições, o disco apresenta uma bem vinda variedade de influências fundidas ao hard rock cheio de testosterona da estreia. Temos um country rock acelerado em “Sad Man’s Tongue”, “Mr. And Mrs. Ness” e seu tom levemente épico, as urgentes de “Devil or the Blue Cat’s Song” e “Radio Girl” – que fazem jus à alta rotação demoníaca ilustrada na capa –, o trabalho vocal peculiaríssimo de Michael Polsen em “A Moment Forever” e, no geral, músicas fortes e que exploram muito bem o uso dos riffs na criação de músicas melódicas e acessíveis a qualquer ouvinte casual de heavy metal. A curta duração do play, se comparada à estreia – 11 faixas – ajuda a melhor apreciação do trabalho, fazendo com que cada música tenha um impacto mais atenuante sobre o ouvinte, partindo da abertura western de “The Human Instrument” até o encerramento mais cadenciado em “Boa (JDM)”. Conciso em suas ideias e de execução precisa, Rock the Rebel/Metal de Devil cumpre sem sustos a prova de fogo do segundo disco com um ótimo apanhado de boas composições, perfeitas para qualquer tipo de ouvinte, desde o casual até o mais exigente.


volbeat_cover_guitar_20130206115236_194_700Guitar Gangsters & Cadillac Blood [2008]

Observando a ótima receptividade de seus primeiros lançamentos, a banda não se furta em entrar em estúdio e registrar seu terceiro disco, mantendo o ritmo intenso de gravações (pouco mais de um ano separa este disco do anterior). Guitar Gangsters & Cadillac Blood mostra-se, desde o princípio, como o mais bem resolvido e mais bem arranjado, tanto em termos de estruturas musicais quanto em equilíbrio de ideias, dos discos lançados até a data. Os riffs carregados e memoráveis, as melodias e a característica influência sulista marcam forte presença durante o transcorrer da audição, configurando este lançamento como o favorito deste que vos escreve. O disco transcorre de forma aveludada, com ideias inusitadas, caso de “Mary Ann’s Place” e um dueto entre Poulsen e a cantora Pernille Rosendahl, lembrando facilmente os duetos feitos por Johnny Cash e June Carter, a pop punk “Maybellene I Hofteholder” – que se encaixaria sem maiores sustos em um disco do Green Day –, e até um clima surf sacana no início de “Still Counting”. O disco possui também músicas mais tradicionais e diretas ao ponto, aqui representadas com muita categoria por “Light a Way” – onde Michael Poulsen mostra muita categoria interpretativa em uma belíssima balada –. A faixa título e “Wild Rover Of Hell”, por sua vez, vão fundo no thrash metal sem destoar do restante do conteúdo do disco. Terceiro disco, terceiro acerto consecutivo e, claro, mais um disco de audição obrigatória.


volbeat_cover_beyond_20130206115206_312_700Beyond Hell / Above Heaven [2010]

Beyond Hell / Above Heaven pode ser visto como um bom disco, mas com erros pungentes e que acabam puxando o resultado para baixo de forma notável. Antes de comentar sobre esses erros, atemo-nos aos pontos de destaque, e eles não são poucos. Logo de início o disco mostra seu cartão de visitas com uma ótima faixa de abertura, “The Mirror and the Green Reaper”, um hard rock padrão Volbeat com um refrão devidamente emotivo. Logo na sequência, a música mais conhecida e a mais festejada quando executada nos shows. “Heaven Nor Hell” talvez seja a síntese perfeita do que é o som dos dinamarqueses, ou seja: aquele hard rock simples, com influências musicais norte-americanas – com um solo de gaita muito bem encaixado – e um refrão marcante. “Fallen” sobressai-se em sua levada emotiva na medida certa, enquanto “16 Dollars” é um country-metal em essência. Como falei anteriormente, o disco possui alguns deslizes notáveis, e são justamente nas faixas que mais chamam a atenção do ouvinte. Uma delas é “Evelyn”, faixa que conta com a parceria de Mark “Barney” Greenway, do Napalm Death, dividindo os vocais com Poulsen. Excessiva e soando completamente deslocada do disco devido a sua estrutura demasiadamente pesada, é um dos pontos negativos, seguida muito de perto por “7 Shots”, que começa promissora, com trechos de guitarra levemente inspirados em Thin Lizzy, mas que definitivamente não precisava dos vocais de Mille Petrozza, do Kreator. “Who They Are” e “A Better Believer”, desta vez sem participações especiais, soam como reciclagens de ideias utilizadas nos discos passados, não causando tanto impacto. Apesar dos deslizes, o disco mantém o nível de qualidade de seus discos anteriores, muito devido às ótimas composições que disfarçam os deslizem do disco.


volbeat_ogsl_1500x15_20130215140958_139_700Outlaw Gentleman and Shady Ladies [2013]

Lançado em abril de 2013, Outlaw Gentleman and Shady Ladies é a consagração comercial e o reconhecimento definitivo frente a críticos, assim como seu melhor desempenho nas paradas de sucesso – rendeu oito singles, o 1º lugar nas paradas de sucesso de vários países e uma nomeação ao Grammy na categoria Best Metal Performance –. O disco marca a última mudança de formação da banda até o momento. Rob Caggiano, antes no Anthrax, assume a guitarra solo no lugar de Thomas Bredahl. No tocante à musicalidade, não houve nenhuma mudança significativa. As mesmas composições fortes, com um ótimo apelo pop e influências sulistas permanecem, porém, desta vez, mais diretas ao ponto e sem participações especiais que descaracterizassem a pegada típica do grupo. Uma pequena introdução dá as boas-vindas ao disco, que logo mostra suas armas com “Pearl Hart”, ótima faixa conduzida sabiamente em cima de andamentos simples e um refrão de assimilação imediata. “The Nameless One” mantém a pegada mais hard rock, enquanto “Dead But Rising” abusa do peso dos riffs em uma ótima faixa cadenciada. “Cape Of Our Hero” é uma bela composição melódica, enquanto “My Body” e “The Sinner Is Your” assumem um caráter mais pop punk, apenas pincelado nos discos anteriores. ”Room 24” não poderia deixar de ser comentada. Contando com a participação ilustre de King Diamond – e uma de poucas composições contendo sua voz em anos –, todo o falatório feito é justificado pela sua qualidade. Com um riff sabbhático introdutório, ótima levada de guitarras e os inconfundíveis vocais do Rei Diamante, é uma faixa de clima bizarro e que figura facilmente dentre os clássicos de ambos os artistas participantes – não por menos, foi a faixa que conferiu a primeira indicação ao Grammy dos dinamarqueses –. Outlaw Gentleman and Shady Ladies é mais um acerto dentro de uma discografia praticamente irretocável. Audição não apenas recomendada, mas obrigatória.


Destaque

Hamburger Lady - Throbbing Gristle

  Hamburger Lady Throbbing Gristle      Desta vez, vamos nos concentrar em um grupo transgressor, considerado pioneiro e inventor da música ...