sexta-feira, 8 de agosto de 2025
Recordando o single A - Oxalá / B - O Homem Das Mulheres dos Ferro & Fogo de 1984
CAPAS DE DISCOS - 1967 The Graduate. Soundtrack - Simon & Garfunkel
quinta-feira, 7 de agosto de 2025
Filho da Mãe – Mergulho (2016)

Num ano que se revelou tão exaustivo como o que foi 2016, Rui Carvalho, mais conhecido no mundo da música como Filho da Mãe, presenteou-nos com Mergulho, um disco subtil mas eficaz, que nos permite fechar os olhos e viajar para mundos mais agradáveis.
Com o ano chegado ao fim, olhamos para trás ensaiando uma recordação distante da inocência esperançosa com a qual aguardávamos o seu início. Foi um ano brutal, que deixou muitos frustrados, cansados, de olheiras a roçar nos lábios de ler notícias sobre notícias menos agradáveis que deixavam na boca o sabor amargo a um ano temível para o mundo, um mundo cada vez mais dividido e zangado, cada vez mais cruel e impiedoso, que nos deixou também mais pobres com os tantos nomes queridos que a morte ceifou.
Foi num ano temível como este, tão violento como ruidoso, que nos chega de mansinho, quase sem darmos por ele, o segundo registo a solo de Rui Carvalho, virtuoso guitarrista mais conhecido por Filho da Mãe. Seguindo-se a Cabeça (2013), Mergulho encanta e surpreende sem se despedir da fórmula bem calculada que nos fez apaixonar pela guitarra de Carvalho à primeira vez.
São doze as faixas, que escorregam umas nas outras como um rio desagua num mar silencioso, orientando-se por um fio condutor líquido e fácil de seguir: cada faixa se funde na outra, lembra a próxima, saboreando-se o disco não tanto como sobremesas separadas mas sim uma refeição que nos deixa o estômago satisfeito.
Mergulho é assim: um disco pequenino, discreto, sedutor, que facilmente passa ao lado dos ouvidos de quem só ouve quem eleva a voz: Rui Carvalho não tem de gritar, enquanto abre ao ouvinte as portas para uma sonoplastia delicada e colorida, tecida pelo virtuosismo dos seus dedos aplicados sobre as cordas – e é tudo o que é preciso. No entanto, seria fácil cair na ideia de que um disco imaginado dentro de uma guitarra poderia relevar-se uma dormência constante ou uma exposição de truques de circo que aborreceria tremendamente o ouvinte. Mas Rui Carvalho não precisa de truques, e a cada vez que estrangula as cordas da guitarra num acorde que nos faz erguer uma sobrancelha, não é em vão, construindo nos seus temas, curtos e concisos, cheirinhos de universos ocultos que só ele consegue fazer cantar num só instrumento.
Rui Carvalho é de uma inteligência rara num mundo em que há uma febre por lançar disco atrás de disco sem deixar o público mastigar um sem engolir o outro. A sua fórmula é simples, mas fácil de destruir: o quão fácil seria fartarmo-nos das suas galopadas melódicas ao longo do traste do instrumento se por ele fossemos perseguidos constantemente? Mas Filho da Mãe compreende a delicadeza da operação: tal como evita o truque, evita a demasia, o excesso. Apesar de ser o seu segundo esforço musical em 2016 (Tormenta, com a percussão de Ricardo Martins, saiu uns meses mais tarde), Mergulho é um degrau acima de Cabeça, de 2013, o capítulo seguinte, que deixou respirar durante três longos anos. Não é senão uma mesmice evoluída, canções-família, que tombam umas nas outras pouco importando a ordem, que cansaria facilmente. Mas não com Filho da Mãe a segurar na guitarra. Mergulho é uma construção refinada, sem pressas, sem euforias. Que sabe bem num ano tão eufórico que nem deu tempo para parar para respirar fundo. E mergulhar.
Cave Story – West (2016)

Quando se cresce numa cidade pequena, como Caldas da Rainha, onde não acontece absolutamente nada, só há duas alternativas: ou um tipo se acomoda à não existência cama-trabalho-sofá; ou um gajo reage, imergindo numa cultura indie de resistência, comendo EPs obscuros dos Parquet Courts e do Mac DeMarco logo ao pequeno-almoço. Para gáudio dos melómanos, os miúdos dos Cave Story escolheram a segunda via.
West, o seu álbum de estreia, é uma pérola arty, cuidadosamente não polida, meticulosamente desleixada. Ponham os Pavement e os Wire numa centrifugadora, uma leve pitada de Sonic Youth no final, e terão uma primeira aproximação ao seu maravilhoso som. Do punk, herdaram o compasso binário da bateria; do pós-punk, o culto do esparso e do dissonante. E, no entanto, são eles próprios: power trio da zona oeste, com guitarras sujas e displicentes em vez de piços das Caldas.
The west is the best. Os Cave Story podem odiar o classic rock, mas o velho Morrison tinha mesmo razão…
A Tribe Called Quest – We Got it From Here… Thank You 4 Your Service (2016)

O ano podia ter sido de Kendrick Lamar, a viver o momento da afirmação, do pontapé no mainstream, da digressão internacional sempre por casas cheias. Não foi. Do fundo baú, com ânsias de dar sinais de vida, de trocar o estatuto de velhas glórias, pelo de senadores no activo, primeiro saltaram os De La Soul. E o Mundo aplaudiu. Depois, a fechar o ano, a Tribe Called Quest voltaram aos originais. E subitamente 2016 passou de ano amargo – sim, ouvimos o Kendrick com os Maroon 5 – a ano de colheita memorável.
A luta foi dura. Se os De La Soul tiveram de recorrer a uma campanha de crowdfounding para lançar and the Anonymous Nobody, a Tribo teve de superar a dor do luto. We Got it From Here … Thank you 4 your service, ganhou o título e o tom na morte de Phife – fundador, falecido este ano, aos 45, com diabetes -, a fúria na América que elegeu Trump e o som numa brilhante mistura entre as marcas que registaram em 1990 (People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm) e a inesperada capacidade de as fazer soar a 2016.
Nascidos e criados entre o Jazz, as batidas afro e os samples do rock alternativo, mestres nas rimas contagiantes, à Tribo os anos custaram a passar. Em Lost Somebody despedem-se de Phife, em Melatonin avisam que foi o presente quem os obrigou a interromper a reforma, e garantem que o assunto é sério em We The People.
Com uma lista de colaboradores de luxo – Lamar, Kanye, Snoop, Jack White, Paak, Kweli e John, sim o Elton -, 26 anos depois da estreia e 18 passados do último álbum (The Love Movement), os Tribe Called Quest lançaram a discussão – estarão na sua melhor forma? O galardão para disco do ano roubaram.
Paul Simon – Stranger To Stranger (2016)

Aos 75 anos, Paul Simon ainda se sente capaz de dar mais um passo importante e decisivo na construção de uma obra que todos sabemos avaliar como ímpar. Stranger To Stranger é , de certo modo, um regresso ao passado, mas inclui ingredientes que apontam caminhos para um futuro que ainda terá muito para dar.
O homem nascido em Queens há muito que é king do folk rock norte americano. Já nos deu de tudo, e tudo o que nos deu foi do melhor. Com ou sem Garfunkel ao lado, a verdade é que Paul Simon foi garantindo o seu lugar de grande destaque na história da (boa) música anglo-saxónica, por isso é sempre com satisfação que ouvimos um qualquer novo trabalho de Paul Frederic Simon, o pequeno gigante que trouxe ao mundo clássicos como “Mrs. Robinson”, “Still Crazy After All These Years” ou “The Boy In The Bubble”. Mas os tempos são agora outros, e Paul Simon sabe que as consagrações passadas não garantem vitórias futuras, pelo que teve de se fazer ao caminho, e durante cerca de cinco anos andou a gravar Stranger To Stranger, disco relativamente curto (não chega a ter 40 minutos de duração), mas certeiro quanto baste para o colocarmos ao lado de Graceland ou The Rhythm Of The Saints, até porque retira deles, mas sobretudo do álbum de 1986, alguns dos predicados que imortalizaram esses dois tremendos trabalhos. Não se entenda, no entanto, que este seu mais recente disco anda ombro a ombro com as duas referidas obras primas, mas verdade seja dita que há já algum tempo que o pequeno génio não nos oferecia um longa duração tão bom.
O grande trunfo de Stranger To Stranger é a sua linguagem regionalista. Parece claro que as escolhas de certos instrumentos de percussão e de cordas voltam a ser decisivos na afirmação sonora do novo álbum de Paul Simon. Não esquecendo o hand-clapping de origem flamenca, claro, mas também o cajón (instrumento/ património da nação peruana) e o ektara, muito usado na música tradicional feita na Índia ou no Paquistão, por exemplo. Basta ouvir com atenção os segundos iniciais de “The Werewolf” para avaliarmos o território que por aqui se pisa. Esse novo som, digamos assim, junta-se ao modo falado / cantado tão típico Paul Simon e ao seu enredoso estilo melódico habitual. Depois, como tantas vezes acontece com os seus discos, as grandes canções parecem surgir a cada passo, e em Stranger To Stranger há um bom lote delas. Os maiores exemplos serão “Wristband”, a faixa que dá título ao álbum (imensa, redentora, em que o músico canta o sugestivo verso “It’s just a way of dealing with my joy” repetidamente), “Proof Of Love” e “Insomniac’s Lullaby”. Só “Street Angel” nos parece um pouco aquém das restantes 10 canções, duas das quais são mais vinhetas do que qualquer outra coisa (“The Clock” e “In The Garden of Edie”), embora ocupem um espaço importante de respiração, digamos assim, por entre alguma da turbulência rítmica e palavrosa que o álbum encerra.
Stranger To Stranger ganha by far aos anteriores So Beautiful or So What (2011), Surprise (2006) ou You’re The One (2000), os seus discos de originais deste século. Isto, convenhamos, quer já dizer alguma coisa. E sai vencedor, sobretudo, por se situar e cimentar nesse já conhecido espaço que medeia um passado de aventuras rítmicas e melódicas muito bem sucedido, e um caminho igualmente rítmico e melódico que acrescenta novos sabores do mundo ao mundo poético e musical de Paul Simon. Até porque os discos de Simon não são feitos apenas para serem ouvidos. Ler aquilo que escreve é também um trunfo inestimável. Por tudo isto, julgamos que Stranger To Stranger é um dos maiores álbuns de 2016!
Sensible Soccers – Villa Soledade (2016)
Villa Soledade é o segundo álbum de originais dos Sensible Soccers. É menos impactante que o anterior tomo, 8, porque na primeira todos caímos, mas à segunda já ninguém é enganado: falamos de uma das mais fundamentais bandas portuguesas do hoje, fazedores de canções abstratas, plenas de mundo, combinando géneros, tempos e melodias num todo já facilmente identificável – a banda não tem muitos anos mas é já única e dotada de plena identidade.
A passagem de quarteto para trio (Emanuel Botelho saiu após o primeiro álbum) não mudou a génese da obra, mas há mais espaços para o funk-digital, seja lá o que isso for.
Aqui falamos de música eletrónica feita não necessariamente para abanar a anca, mas que faz dançar o sistema nervoso: De onde vem esta música? Viagem é um termo recorrentemente usado para definir as canções dos Soccers. São canções regra geral longas, densas, que atravessam estados e velocidades, daí a pertinência da definição.
Em 2016 a viagem acabou na Villa Soledade, monumento pop e perfeito retrato de uma certa música portuguesa do tempo presente.
Osso Vaidoso – Miopia (2016)

Ao segundo capítulo, os Osso Vaidoso declaram guerra à pop com uma obra-prima suja e experimental.
Bergman fez sempre o mesmo filme; Buarque, sempre o mesmo disco. Se os perdoamos é apenas porque são Bergman e Buarque. A regra não deve ser, porém, esquecida: a arte como eterno devir. Ficar parado? Antes o poço da morte que tal sorte.
Talvez por isso admire tanto Ana Deus e Alexandre Soares: há décadas no ofício, sem nunca tomarem duas vezes banho no mesmo alguidar. Que têm os Três Tristes Tigres a ver com Ban ou GNR? Mesmo quando a dupla se manteve junta, na transição dos TTT para Osso Vaidoso, novamente se reinventaram, simplificando a linguagem e arrumando a electrónica na garagem. E agora, ao segundo álbum, tudo muda mais uma vez. Onde Animal, de 2011, era divertido, quase new wave, Miopia é violentamente anti-pop: denso, experimental e intimista. O porteiro tem ordens bem claras: barrar o acesso ao mais leve indício de fórmula ou cliché. Nem o formato-canção é autorizado a entrar.
A poesia do disco, mais filosófica e universal, puxa justamente para essa estética menos imediata. Ana Deus, cansada da espuma dos dias, decidiu mergulhar nos grandes temas da nossa condição: o amor, a vida, a guerra, a morte. Para o festim, convida poetas de diferentes épocas, desde o renascentista Sá de Miranda até ao contemporâneo Alberto Pimenta. Ao nos reconhecermos mesmo nos poemas mais antigos, percebemos que a natureza humana é surpreendentemente teimosa.
Numa das faixas, Ana Deus canta: “não estamos preparados para nada / certamente que não para viver”. Também Miopia é como a vida: inacabada e imperfeita, áspera e espessa, ora grito, ora sussurro.
Senhor Osso tem toda a razão para suas vaidades. Não é fanfarronice, é dom para a coisa.
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