segunda-feira, 2 de março de 2026

Stars (East West Records, 1991), Simply Red

 


O ano era 1976. Na cinzenta Manchester, coração industrial da Inglaterra, um garoto adolescente de cabelo flamejante e voz ardente chamado Mick Hucknall começou a testar o microfone contra a fúria do mundo. Nos tempos do punk, ele vivia o frenesi de guitarras ásperas nos Frantic Elevators — uma banda pequena, barulhenta e apaixonada. Em meio a fitas demo e lançamentos locais, os Elevators chegaram a um lampejo de reconhecimento com “Holding Back The Years”, mas isso só seria realmente algo transformador anos mais tarde. Algum tempo depois, quando o punk dava sinais de exaustão, Hucknall já sonhava com algo mais delicado, mais emotivo, emocional. 

Em 1985, após o fim dos Elevators, Mick Hucknall fundou o Simply Red — nome inspirado no seu cabelo ruivo e no vermelho do Manchester United, seu time do coração. A essência era soul music, mas passada pelo filtro europeu de quem cresceu ouvindo Otis Redding e Billie Holiday e, ao mesmo tempo, ia a pubs e se deixava envolver pelo calor das canecas de cerveja tradicionais, enquanto Margareth Thatcher desmontava os sindicatos. A formação inicial – Mick e um punhado de músicos de Manchester – foi montada às pressas, mas logo, com “Money's Too Tight (To Mention)”, um cover dos Valentine Brothers, a banda ganhou o primeiro sucesso real. O mundo conheceu aquela voz: dócil, elástica, ferida. O primeiro álbum, Picture Book, de 1985, lançou uma semente pop-soul que germinaria rápido. Mas foi uma outra faixa do álbum, a regravação de “Holding Back The Years” — agora como soul melancólico e sofisticado — que explodiu nas paradas americanas, fazendo de Hucknall um astro internacional quase instantâneo. 

Vieram então Men and Women (1987) e A New Flame (1989), este último contendo outro cover avassalador: “If You Don’t Know Me By Now”, recriação imaculada de Harold Melvin & the Blue Notes, que novamente levou o Simply Red ao topo das paradas. Mas algo inquietava Hucknall. Seus maiores hits eram reinterpretações. O mundo o via como um intérprete brilhante, mas ele queria ser reconhecido como compositor. Stars nasce dessa inquietação: provar que podia escrever canções memoráveis com sua própria caligrafia melódica, sem recorrer ao repertório alheio. 

Em 1990, já mundialmente famoso, Hucknall começou a compor de maneira quase silenciosa, em quartos de hotel vazios, com um walkman e um violão. Estava exausto. Sentia o peso da fama e a solidão das turnês longas. Frequentava clubes como The Haçienda, em Manchester, onde a música eletrônica apontava novos caminhos sonoros. Queria que o novo álbum tivesse batidas mais modernas, mas sem perder a alma. O Simply Red partiu para Paris em agosto de 1990 para gravar o quarto disco. Mas a cidade vivia sob tensão: bombas, sirenes, noticiários sobre a Guerra do Golfo. O estúdio era um bunker, abafado, carregado de angústia. As gravações empacaram. Hucknall confessaria mais tarde: “parecia que estávamos vivendo num estado de guerra”. Decidiram abandonar tudo e partir para algo oposto: mudaram-se para uma vila do século XVI perto de Veneza, na Itália, no Condulmer Studios, cercada de jardins e luz mediterrânea. Lá, a energia renasceu. 

Ian Kirkham, Gota Yashiki, Tim Kellett, Heitor T.P. e Fritz McIntyre.

Em Veneza, aconteceu a entrada definitiva de Gota Yashiki: contratado originalmente como programador, acabou se revelando também baterista. Quando Hucknall o ouviu, num fim de tarde, improvisando um groove acid-jazz no estúdio, percebeu que havia encontrado a pulsação que procurava. Gota trouxe à banda um frescor baseado em batidas quentes, próximas de Soul II Soul e do novo R&B europeu. Assim começaram a surgir canções que misturavam soul, funk, dance e elegância jazzística. 

Quando o disco toca do início ao fim, é como se cada faixa fosse uma janela diferente dessa constelação afetiva. “Something Got Me Started” abre os trabalhos como um convite dançante, com teclado saltitante, baixo quente e um groove de sax que introduz a nova fase: é soul com perfume de pista, mas com coração. Em seguida, “Stars” desce como uma declaração noturna de desejo e escapismo – Hucknall canta em falsete como quem se rende ao próprio reflexo, enquanto guitarras limpas e piano criam a sensação de abraço em câmera lenta. “Thrill Me” desacelera o pulso e mergulha num jazz-funk mais úmido, onde um sax atrevido aparece como lampejo de luxúria; pode parecer menos estruturada, mas traduz bem a busca por sedução e fuga. 

“Your Mirror” vem escura e orgulhosa, construída ao piano numa tensão quase como um sermão íntimo – é a faixa em que Hucknall mais usa a dureza de sua voz, falando de identidade e amor-próprio diante do espelho. Em contraste, “She’s Got It Bad” é solta, quase uma disco music em câmera lenta, cheia de espaço para os vocais respirarem, como se fosse gravada num salão vazio de noite com um globo espelhado a girar no teto. “For Your Babies” surge como momento de ternura pura: piano, violão e voz em tom de acolhimento – é a canção onde Hucknall deixa a armadura da estrela e canta como um pai que observa o filho brincar no tapete; delicada, melódica, quase uma canção de ninar adulta. 

“Model” desacelera ainda mais e flerta com o reggae em clima suave, quase preguiçoso, marcado por um balanço jamaicano discreto, e deixa a música flutuar como quem foge do estresse da cidade grande. Já “How Could I Fall” abre com piano e sax, melancólica e resignada, com Hucknall lamentando ter se apaixonado por alguém superficial – parece jazz de fim de noite num bar semivazio. Em seguida, “Freedom” traz de volta o peso do baixo e do groove, evocando o soul-funk mais dançante, ainda que a letra tenha um ar de desabafo político, inspirada na Europa pós-Muro de Berlim. O álbum se encerra com “Wonderland”, que soma a voz do tecladista Fritz McIntyre (1958-2021) à de Hucknall, criando um dueto suave, quase espiritual, onde tudo volta a desacelerar: é uma despedida que olha para o alto, como quem aceita a vida com um suspiro leve antes de desligar o abajur. 

Ian e Mick numa apresentação do Simply Red no programa Top Of The Pops,
na TV britânica, em 1991.

Quando o álbum chegou às lojas, em 30 de setembro de 1991, o impacto foi imediato. Stars estreou em 1º lugar na parada britânica, vendendo cerca de 150 mil cópias na primeira semana. Em poucas semanas, estava claro que o Simply Red tinha alcançado algo raro: um álbum composto inteiramente de canções autorais, moderno e elegante, com apelo popular gigantesco. Muitos críticos das revistas alternativas torceram o nariz — o NME, do Reino Unido, chamou o disco de “exercício em nada”. A crítica dos jornais britânicos foi bem mais generosa: “fácil de ouvir, mas não é easy listening”, escreveu o The Guardian. No Brasil, a revista Bizz foi dura: afirmou que o Simply Red não passava de um revival medíocre do soul/funk dos anos 1970 e que seu lugar devido era nas “CDteca de yuppies burros”. 

Mas o público abraçou o disco com fúria amorosa. O álbum foi uma avalanche comercial: cinco singles nas paradas (“Something Got Me Started”, “Stars”, “For Your Babies”, “Thrill Me” e “Your Mirror”), shows em estádios, mais de 1,5 milhão de pessoas na turnê. Stars foi o álbum mais vendido no Reino Unido em 1991 — e repetiu o feito em 1992, feito que não acontecia desde os tempos de Bridge Over Troubled Water de Simon & Garfunkel, no início dos anos 1970. O disco acumulou doze discos de platina só no Reino Unido, e vendeu mais de 9 milhões de cópias no mundo. Em 2019, ainda era o 14º álbum mais vendido da história da indústria fonográfica britânica. 

Curiosamente, ao mesmo tempo em que vendia milhões, Stars continuava gerando opiniões contraditórias. Em 1998, leitores da revista Melody Maker votaram nele como o segundo pior álbum de todos os tempos — uma provocação talvez movida por puro cinismo indie. Mas o tempo dissolveu qualquer polêmica: Stars permanece como a obra que consolidou Hucknall não só como intérprete, mas como autor de melodias memoráveis, capaz de combinar jazz, reggae, soul, pop e dance com naturalidade. 

Hucknall recebeu dois BRIT Awards, um World Music Award e um Ivor Novello de “Compositor do Ano”. A revista Rolling Stone chamou o álbum de “conjunto enxuto de originais, cantado de forma soberba, sem nostalgia artificial”. E a AllMusic, anos mais tarde, o definiria como o melhor disco deles desde a estreia: mais polido, mais pessoal, finalmente com uma assinatura própria. 

Talvez o grande triunfo de Stars tenha sido esse: mostrar que o pop britânico poderia dialogar com o soul americano sem imitação servil, e sim com voz própria. Hucknall, com sua cabeleira vermelha e sua obsessão pelo estrelato e pelos efeitos que a fama tem sobre a alma, conseguiu transformar um disco de soul-pop em manifesto emocional europeu. Muito mais que um conjunto de canções bonitas  e bem executadas, Stars é um documento de transição: de intérprete a autor, de banda a projeto artístico pessoal, de pop adulto a obra de relevância cultural. Há algo de astrológico no fato de tantas pessoas terem ouvido e se reconhecido no disco: era como se os dramas íntimos – amor, vaidade, cansaço, desejo – estivessem todos ali, embalados por um som moderno e elegante que dizia: “você também pode se perder nas estrelas”. 

Após tanto tempo desde o seu lançamento, ainda é fácil colocar Stars para tocar e sentir aquele misto de reverência e conforto. O disco atravessou o tempo com dignidade. Pode já não ser hype, mas continua vivo. E talvez aí esteja o segredo da verdadeira grandeza pop: não no susto, mas no brilho persistente. Stars escreveu o nome do Simply Red — e de Mick Hucknall — no firmamento. E é provável que, enquanto houver alguém olhando para o céu em busca de alguma resposta, esse disco continue ecoando como uma constelação sonora pessoal: familiar, emotiva, eterna.

 

Faixas

Todas as músicas foram escritas e compostas por Mick Hucknall, exceto onde está indicado.

  1. "Something Got Me Started" (Hucknall, Fritz McIntyre)
  2. "Stars"
  3. "Thrill Me" (Hucknall, McIntyre)
  4. "Your Mirror"
  5. "She's Got It Bad"
  6. "For Your Babies"
  7. "Model"
  8. "How Could I Fall"
  9. "Freedom"
  10. "Wonderland"

 

Simply Red:

Mick Hucknall – vocal principal, vocal de apoio

Fritz McIntyre – teclado, vocais adicionais em "Freedom e “Something Got Me Started” e "Wonderland"

Rowetta – vocal adicional em “Freedom”

Tim Kellett – teclados

Heitor TP – guitarras

Shaun Ward – baixo

Gota Yashiki – bateria, percussão, programação

Ian Kirkham – saxofones

 

 
"Something Got Me Started" 
 (videoclipe oficial) 
 
 
"Stars" (videoclipe oficial)
 
"Trill Me" (videoclipe oficial)

"Your Mirror"

"She's Got It Bad" 

 
"For Your Babies" (videoclipe oficial)

"Model"

"How Could I Fall"

"Freedom"

"Wonderland"


As 10 melhores músicas de todos os tempos do Cage the Elephant

 Enjaule o elefante

O Cage the Elephant se formou no Kentucky em 2006. Dois anos depois, mudaram-se para a Inglaterra pouco antes do lançamento de seu álbum de estreia homônimo. Graças a hits como "Ain't No Rest for the Wicked" e "Shake Me Down", logo se tornaram presença constante nas rádios de rock , algo que seus quatro álbuns seguintes (dois dos quais receberam disco de ouro e ganharam o Grammy de Melhor Álbum de Rock) não conseguiram mudar. Aqui, relembramos alguns de seus melhores momentos com nossa seleção das 10 melhores músicas do Cage the Elephant de todos os tempos.

10. Trouble

Segundo o Song Facts , "Trouble" foi inspirada por uma conversa que o vocalista Matt Shultz teve com um amigo próximo, que o fez refletir sobre "honestidade, adversidade, luta e coisas do tipo". "Nós dois nos mostramos muito honestos na conversa. E eu senti que havia vários momentos em que eu estava me contendo, ou meio que controlando a imagem que eu queria projetar de forma muito forte durante a conversa. Então, fiquei curioso para saber até que ponto eles estavam fazendo o mesmo", explicou. Lançada como o segundo single do álbum "Tell Me I'm Pretty" em abril de 2016, a música deu à banda seu sétimo hit número um na parada Billboard Alternative Songs dos EUA e, desde então, recebeu certificação de ouro.

9. Mess Around

"Mess Around" fala sobre uma garota que sabe exatamente o que quer e como conseguir. Quanto à melodia animada, Shultz se inspirou no Outkast , explicando: "Há alguns anos, vi o Outkast em sua turnê de festivais. A performance e o senso melódico de Andre 3000 me inspiraram. Eu me perguntava se haveria uma maneira de criar uma música alternativa com uma energia semelhante, combinando isso com o estilo de bandas como The Byrds ou Creedence Clearwater Revival ." Lançada como o primeiro single do álbum "Tell Me I'm Pretty", a música alcançou o primeiro lugar na parada de músicas alternativas da Billboard americana.

8. Back Against the Wall

Em março de 2010, o Cage the Elephant conquistou seu primeiro número um com "Back Against the Wall". Lançada como o quarto single do álbum de estreia homônimo da banda, de 2008, a música foi um sucesso estrondoso na imprensa musical, com a Clash Music descrevendo-a como uma "explosão estridente de rock 'n' roll sujo". Além de alcançar o topo da parada Billboard Alternative Songs, o single chegou ao 12º lugar na parada Billboard Rock Songs e ao 72º lugar na Canadian Hot 100.

7. Around My Head

Ver Matt Shultz desenterrando o cadáver recém-enterrado de uma mulher e arrastando-o por festas e restaurantes no videoclipe de "Around My Head" pode ter sido um pouco desconfortável, mas a música em si é um ótimo exemplo de rock alternativo, com riffs de guitarra inteligentes e um refrão contagiante. Lançada em 4 de maio de 2011 como o segundo single do segundo álbum da banda, "Thank You, Happy Birthday", alcançou a 27ª posição na parada Billboard Alternative Songs e a 36ª na parada Canadian Rock.

6. Aberdeen

Como disse um crítico do The Top Tens , o baixo de Daniel Tichenor, a guitarra de Lincoln Parish e os vocais de Matt Shultz em "Aberdeen" se combinam para criar algo magistral, um dos destaques do segundo álbum de estúdio da banda, "Thank You, Happy Birthday". Curiosidade: a música originalmente se chamava "Maybelline", mas como Shultz não conseguia tirar o nome da cidade da cabeça enquanto a banda ensaiava em Aberdeen, na Escócia, eles mudaram o título para "Aberdeen".

5. In One Ear

Em agosto de 2008, o Cage the Elephant conquistou seu segundo número um na parada Billboard Alternative Songs com "In One Ear". A música foi lançada inicialmente como o segundo single do álbum de estreia homônimo da banda, mas não gerou muito interesse na primeira vez. Alguns meses depois, a gravadora decidiu que merecia uma segunda chance e a relançou – considerando que alcançou o 24º lugar na parada Canada Rock, o 9º lugar na Escócia e o topo da parada Alternative Songs, provavelmente foi uma decisão acertada.

4. Cigarette Daydreams

Letras incrivelmente honestas se combinam com melodias hipnotizantes, refrões magníficos e ganchos cativantes na adorável e emocionalmente complexa "Cigarette Daydreams". Lançada como o terceiro single do álbum "Melophobia", tornou-se o segundo single número um da banda com o álbum e o quinto no geral, ao alcançar o topo da parada Billboard Alternative Songs em agosto de 2014.

3. Come a Little Closer

Com sua letra forte e emocionalmente crua e melodias envolventes, "Come a Little Closer" se destaca como uma das melhores faixas do terceiro álbum da banda, "Melophobia". Lançada como single em agosto de 2014, alcançou o topo da parada Billboard Alternative Songs, tornando-se o quarto hit número um da banda.

2. Shake Me Down

Embora tenha um refrão fácil de cantar junto, como muitas das melhores músicas da banda, a alegria superficial de "Shake Me Down" esconde uma canção de surpreendente profundidade, com letras cativantes que oscilam entre o depressivo e o otimista em apenas alguns versos. Lançada em novembro de 2010 como o primeiro single do álbum "Thank You, Happy Birthday", a música se tornou um sucesso de crítica e público, permanecendo por 6 semanas no Top 100 da parada de singles do Reino Unido e alcançando o topo das paradas Billboard Rock do Canadá e Hot Rock & Alternative Songs dos EUA. Também se tornou um dos maiores sucessos da banda na Billboard Hot 100, chegando ao 78º lugar.

1. Ain’t No Rest for the Wicked

"Ain't No Rest for the Wicked" foi a música que catapultou o Cage the Elephant para o estrelato. Lançada como single em CD em junho de 2008, tornou-se o primeiro sucesso da banda no Top 40 do Reino Unido, alcançando a 32ª posição. Quando foi relançada no ano seguinte nos EUA, provou ser igualmente bem-sucedida, chegando ao 6º lugar na parada Hot Rock & Alternative Songs e ao 83º lugar na Billboard Hot 100. Desde então, tornou-se uma das músicas mais populares e duradouras de seu catálogo.

Clandestino - Manu Chao

 


Em 1998, meu conhecimento de Manu Chao se limitava a algumas músicas de sua banda Mano Negra: a essencial Mala Vida”, que sempre tocava nos bares, e Hamburger Fields ”, talvez menos representativa de seu repertório, mas que me chamou a atenção pela mudança para o inglês, pela mensagem e pelos refrões cativantes. Ambas as músicas compartilhavam a energia e o apoio de uma grande banda, então, quando consegui um CD de Clandestino ”, seu primeiro álbum solo após o fim do Mano Negra , a primeira coisa que me impressionou foi a simplicidade e a ousadia daquele projeto, no qual a maioria das músicas havia sido gravada por ele em seu estúdio portátil, com seu violão e uma coleção diversificada de efeitos sonoros e jingles de rádio, incluindo trechos de um discurso do Comandante Marcos . Em segundo lugar, reforçando o primeiro ponto, estava o fato de que, com aquele minimalismo peculiar, ele havia conseguido produzir uma verdadeira obra-prima de mistura e fusão de estilos e idiomas.

Isso, e muito mais, é “Clandestino” , uma jornada sonora que explora diversos gêneros populares da América Latina, misturados com sons mais próximos do rock, do pop francês e até do techno, absorvidos e combinados durante suas viagens pelo mundo, e apresentados em um formato peculiar que lembra uma rádio pirata, com uma programação que começa em grande estilo com “Clandestino” , a música que dá título ao álbum, um hino de protesto social e apoio aos imigrantes, baseado em uma melodia simples e no ritmo de um violão.

É impossível não se comover com a força da letra, interpretada inteiramente em espanhol pela primeira vez, e a sensação de presenciar algo verdadeiramente significativo permanece intacta em "Desaparecido ", também em espanhol, mas com ritmo e dinamismo mais acentuados. Nesta faixa, a letra explora a metáfora da invisibilidade dos imigrantes, dos marginalizados e dos desfavorecidos perante a sociedade e o resto do mundo. Ambas as canções são os pontos fortes do álbum e as duas faixas mais radiofônicas de um disco que, paradoxalmente, soa como uma vasta estação de rádio, livre e sem amarras estilísticas.

Com "Bongo Bong", o álbum muda para o inglês, em meio a samples inusitados e uma mistura com a mesma base rítmica da bela "Je ne t'aime plus ", cantada em francês com Anouk em dueto no refrão. Em seguida, é hora de retornar ao comentário social com "Mentira ", sustentada por metais e uma requintada referência ao ritmo latino com a inclusão de um trecho vocal de "Llorona ". Quase sem pausa, uma breve linha cinematográfica dá lugar à intensa e rítmica "Lágrimas de Oro", desenvolvida a partir de transmissões de rádio e da narração de uma partida de futebol em português.

O tom torna-se mais calmo e melancólico em "Mama Call ", cantada em inglês, mas é apenas um breve alívio até "Luna y Sol ", que compartilha frases com "Mentira" e contém a frase que dá título ao álbum ( "esperando a última onda" ) e um trecho de um discurso do Comandante Marcos . A tristeza e o comentário social retornam na profunda "Por el suelo ", que compartilha a frase "esperando a última onda" com a faixa anterior, quase como se fosse um álbum conceitual que retorna de tempos em tempos à mesma referência ou tema central.

A jornada sonora continua rumo a Tijuana com uma versão anedótica e frenética de "Welcome to Tijuana", cujo tom festivo esconde uma certa amargura, mas contrasta com a tristeza e a resignação de "Día Luna, Día Pena". Depois dessas duas canções vem "Malegría", que para mim completa o trio de ases do álbum ao lado de "Clandestino" e "Desaparecido ", e que por acaso é a música mais "Mano Negra" do disco.

Após essa faixa explosiva e a rítmica "La vie à 2", cantada em francês, o álbum entra em uma reta final dominada por canções lentas e melancólicas como "Minha Galera", em galego, e  "La Despedida ", construída sobre o mesmo ritmo que se repete ao longo do disco. E com  "El viento ", um encerramento magistral que revisita o tema da imigração ( "O vento vem, o vento desce a estrada... A sorte vem, a sorte atravessa a fronteira..." ) e a "Cuándo llegaré", da abertura do álbum, que se transforma em nostalgia em "Cuándo volverá ", um excelente álbum chega ao fim.

Felizmente, Manu Chao voltou à estrada e repetiu a fórmula com um segundo álbum intitulado "Próxima Estación Esperanza" (Próxima Estação Esperança), no qual descobrimos que a rádio pirata se chamava "Radio Bemba", o mesmo nome da banda que o acompanhava ao vivo. As músicas apresentavam mais instrumentação e um tom menos sombrio, mas a essência do som, os jingles de rádio e os samples reapareceram em uma mixagem que, mais uma vez, foi brilhante. Mas essa é outra estação que ainda não alcançamos; por enquanto, ficaremos onde estamos, ouvindo repetidamente as aventuras sonoras e radiofônicas de "El Clandestino" (O Underground). 


Three Imaginary Boys - The Cure

 


"10:15 Saturday Night",  da banda britânica de pós-punk The Cure , foi o lado B do single "Killing an Arab"  e a faixa de abertura do seu álbum de estreia, "Three Imaginary Boys" (1979) . Devido ao seu apelo comercial na época, também foi lançada na França como single, tendo "Accuracy" como lado B. Desde o seu lançamento, tornou-se um clássico dos shows ao vivo da banda, liderados pelo icônico Robert Smith, autor da canção.

Robert Smith  escreveu  "10:15 Saturday Night"  quando tinha apenas dezesseis anos, na cozinha de casa, enquanto tomava uma cerveja com o pai, e foi justamente a demo dessa música que convenceu o produtor  Chris Parry  a assinar um contrato com o novo grupo na recém-lançada gravadora Fiction Records.

O single foi lançado em junho de 1979 e, apesar da boa recepção no Reino Unido, só alcançou popularidade nos Estados Unidos em 1980, com o lançamento de uma versão modificada do álbum  "Three Imaginary Boys". Olhando para trás, talvez não seja a melhor música de uma banda que conseguiu ser reconhecida como uma das maiores da história, mas  "10:15 Saturday Night"  foi em grande parte responsável por impulsionar o universo do The Cure naqueles primeiros anos sempre difíceis.


Bubu - El Viaje de Anabelas

Houve uma vez uma banda de rock progressivo na Argentina, e não era anunciada, não era um projeto de banda, não era um grupo de músicos amadores produzindo material espasmódico com influências diversas e altamente irregulares, mas sim uma banda de rock progressivo séria. Uma banda composta por acadêmicos que levavam as coisas a sério. Uma banda nascida da própria música, não de uma coleção fortuita de artistas reunidos ao acaso. Os primórdios do Bubu como banda, embora em seus primeiros anos tenha operado sob o nome Sion, remontam ao início de 1973; inicialmente liderada por Miguel Zabaleta, caracterizava-se por sua abordagem musical e teatral, cujo estilo se relacionava com a música sinfônica ou progressiva da época, e começaram a se apresentar publicamente sob o nome Sion. Estrearam no Teatro Del Globo em 1976, destacando-se por sua frescura, alegria e presença de palco. Começaram a gravar seu primeiro álbum após uma série de shows de sucesso, mas sem o vocalista Zabaleta, o que causou dificuldades desde o início. Estas foram superadas com a entrada de Petty Guelache. O trabalho conceitual, intitulado "Anabelas" e fortemente influenciado por King Crimson, foi concluído em 1978. Eles tiveram que esperar algum tempo para o seu lançamento. O álbum foi feito sem Miguel Zabaleta, embora, como Andreoli relata, ele tenha participado de duas sessões de gravação, mantendo assim seu espírito ligado ao grupo. Quando o álbum foi lançado, a banda praticamente havia desaparecido. Sua abordagem era bastante incomum: jovens disciplinados, estudiosos de sua arte, fazendo rock progressivo na Argentina. O desafio era ainda maior devido à sua presença de palco teatral.

O único álbum deles desse período consiste em três músicas; vamos nos concentrar na segunda, "El Viaje de Anabelas" (A Viagem de Anabelas), uma faixa de onze minutos que é eclética por si só, soando um pouco como Van der Graaf Generator por um momento antes de mudar para uma seção mais vanguardista, para depois retornar a um tema mais convencional. Estou bastante familiarizado com a música tradicional irlandesa, e "El Viaje" até tem algumas partes que me soam irlandesas. No meio da música, há um tema que parece ter sido escrito para uma banda de metais, e então eles explodem no que poderia ser o tema de um faroeste italiano. "El Viaje" começa com uma introdução relativamente lenta tocada no violão e violino, com saxofones indo e vindo enquanto o ritmo da bateria se torna cada vez mais insistente. Há então uma seção vocal antes que o ecletismo tome conta. Por volta dos nove minutos, há uma pausa, e um solo de violino plangente entra, seguido por um suave acompanhamento de violão. Aproximadamente um minuto depois, surge um coro, marcando o retorno dos instrumentos de sopro, palhetas e percussão para uma breve coda que se resolve em (o que parece ser) um acorde maior.


Last Train to London - Electric Light Orchestra

 

Último trem para Londres, ELO


     Em 1979, a Electric Light Orchestra lançou Discovery , um álbum que marcou uma mudança estilística na trajetória da banda. Após o sucesso de Out of the Blue (1977), Jeff Lynne decidiu explorar um território mais próximo do pop e da disco music, sem abandonar completamente a sofisticação sinfônica que havia definido a ELO . Discovery foi recebido com grande entusiasmo comercial, graças a hits como " Shine a Little Love"  e "  Don't Bring Me Down ", mas também com alguma controvérsia entre os fãs mais ligados ao rock progressivo devido à mudança no som da banda. Era um álbum mais acessível, mais rítmico, mais direto; no entanto, escondida em seus sulcos estava uma joia melancólica: " Lost Train to London ".

Lost Train to London não busca os holofotes; sua atmosfera, narrativa e produção a tornam uma peça única dentro do universo ELO : uma jornada noturna através da neblina, um lamento ferroviário que mescla nostalgia e mistério com grande precisão musical. A canção começa com um ritmo lento, quase espectral. A percussão simula o barulho de um trem à distância, enquanto uma linha de baixo profunda e envolvente marca o ritmo para uma jornada sem destino. O violão entra com acordes suaves, ea voz de Jeff Lynne, mais introspectiva e profunda do que o habitual, narra uma história de espera, de perda, de estações que não existem mais. Não há coros grandiosos ou arranjos orquestrais exuberantes: tudo é contido, como se a canção se desenrolasse em um vagão de trem solitário sob a chuva.

Musicalmente, a canção se baseia em uma estrutura simples. A progressão harmônica lembra os trabalhos mais introspectivos de George Harrison , com quem Lynne colaboraria anos depois no Traveling Wilburys . Há um uso sutil de teclados que simulam ecos de trem e um breve solo de guitarra elétrica, como um farol na neblina. A produção é minimalista; é uma canção que respira, que deixa espaço para o silêncio, que se move como um trem fantasma através das memórias. A letra  é deliberadamente ambígua. Não sabemos quem perdeu o trem, ou por quê, mas o peso dessa ausência é palpável. Um relógio parado, uma promessa quebrada, uma cidade adormecida. A canção não busca respostas, mas sim transmitir uma emoção: a de ter perdido algo irrecuperável. Há mil maneiras de interpretá-la: o  trem como símbolo do tempo, do amor, das oportunidades perdidas; uma reflexão sobre as mudanças estilísticas da banda, sobre caminhos não mais percorridos, sobre sons deixados para trás; Um cartão-postal melancólico... E é isso que torna essa música tão fascinante: cada um escolhe sua própria interpretação.


Destaque

Steve Hackett - Voyage of the Acolyte 1975

  Steve Hackett dispensa apresentações. Ele é, sem dúvida, um dos maiores guitarristas deste século. Ex-Genesis, ele é hoje uma força import...