1 - Lenço e vento Zé Pedro - Raimundo Prates 2 - Paulista quatrocentão Clemente - Adolfo 3 - Beija-flor Perboyre Sampaio - Adauto Santos 4 - Cantoria Raimundo Prates - Adauto Santos - J. Corsini 5 - Vide vida marvada Rolando Boldrin 6 - Ora viva São Gonçalo Paulo Vanzolini 7 - Pião de rodeio Adauto Santos - Índio Vago 8 - Velho macho Nonô Basílio 9 - Santo Reis passou na sua casa Miltinho Rodrigues - Lourival dos Santos 10 - Pingo d'água Raul Torres - João Pacífico
*************************************
Adauto Santos (1940-1999) foi violonista, violeiro, compositor e cantor brasileiro, obteve destaque ao trazer a música caipira para o seu repertório, misturando com a MPB. Esse LP traz o espírito do título, Adauto canta diversos autores do cancioneiro caipira, inclusive com as incongruências das letras da época como na identificação com os assassinos e escravocratas bandeirantes em "Paulistano quatrocentrão" e na citação acrítica do comportamento do pai em "Velho macho". Segue o registro da competência de Adauto Santos com a sua viola.
Brandon Flowers é e será sempre conhecido por ser o vocalista dos Killers, que há mais de 10 anos surgiram em cena com Hot Fuss, que prometeu uma banda para cruzar, com qualidade e entusiasmo, o rock, o pop e uma linguagem electrónica. Todos envelhecemos, eles também, e os Killers não voltaram a soar tão frescos.
Flowers lança agora The Desired Effect, o seu segundo disco a solo, depois de Flamingo, de 2010. As coordenadas são as mesmas, partilhando naturalmente muito do ADN da sua própria banda.
Normalmente, o que esperamos quando ouvimos o álbum a solo do vocalista de uma banda de sucesso? Existirão muitos motivos, mas um dos mais naturais será o artista em causa buscar uma mensagem mais pessoal, mais íntima, e eventualmente com algumas diferenças da sua banda de origem.
Temos, de facto, alguns dos elementos desse fenómeno neste disco. O tom é menos abstracto e mais confessional do que com os Killers, com Flowers cantando sempre na primeira pessoa, procurando envolver o ouvinte no seu percurso, narrado ao longo de 10 temas. O problema – sim, aqui começam os problemas – é que Flowers conta histórias estereotipadas, sem nunca nos conseguir convencer de que está de facto a falar de si próprio. Temos narrativas de deixar tudo para trás e partir em estradas poeirentas à descoberta da América, histórias de trabalhadores humildes que tudo o que querem é ganhar o salário da bomba de gasolina para suportar a família (ou levar a garota gira da vilória ao cinema, na sexta-feira à noite). Temos histórias de amor, várias, de descoberta pessoal, também. O problema é que Brandon Flowers nunca é genuíno. São raros os pedaços de poesia (leia-se, das letras) que conseguimos acreditar serem realmente sentidas, e não apenas decalcadas de um qualquer filme de um qualquer rebelde sem causa. Das duas uma: ou Flowers é assim mesmo, unidimensional e básico, e está a ser honesto; ou, a versão para a qual mais nos inclinamos, está apenas a adoptar uma pose gasta que lhe parece ser cool mas que redunda num enorme cliché.
Musicalmente, temos rock e pop, com algumas baladas e uma produção altamente cuidada e alimentada a electrónica de ponta. A matriz de partida é o ‘storytelling’ de Bruce Springsteen, uma influência assumida pelos Killers e claramente reconhecível em “Between Me And You” e em “Dreams Come True”, que abre este The Desired Effect. Visto por aí, o disco não começa mal. O problema é que os melhores temas de Flowers são aqueles nos quais soa ao boss. O resto é um pop electrónico sempre com uma razoavelmente boa ideia de canção por trás, mas recorrendo a sintetizadores, efeitos e malabarismos que provam que o rapaz voltou a cair de amores pela terrível década musical dos anos 80. Pior do que isso, consegue em “Lonely Town” cometer o pecado capital em qualquer artista que queira ter o mínimo de credibilidade: cantar com um descarado e foleiríssimo auto-tune.
The Desired Effect é um disco estranho. Se o efeito desejado foi um mergulho descomplexado na pop dos anos 80, com um disco de canções facilmente memorizáveis e trauteáveis, então conseguiu-o. Se o objectivo era fazer o tal disco pessoal, falhou redondamente. É impossível fazer algo real debaixo de tanta popalhice e artifício sintetizado e plástico (olá, Duran Duran). Nem Las Vegas é New Jersey nem Flowers é ou virá a ser Springsteen.
Em suma, recomendado para os fãs de Killers com saudades de malhas bem comerciais a roçar o rock (ou o pop) FM, para ouvir sem complexos.
Quanto aos restantes, este The Desired Effect dificilmente terá qualquer relevância.
Aviso à navegação – serei totalmente tendencioso na análise que será feita de seguida. Os Yo La Tengo só entraram na minha vida corria o ano de 2007, mas rapidamente e com uma aparente tranquilidade foram-se instalando e conquistando, à boa moda de uns exércitos de uma qualquer cor do Risco que começa pela Oceania (para quem não sabe, é perfeitamente óbvio que o segredo do jogo é a Oceania) e vai por aí fora até atingir o objectivo final – a conquista do mundo. Estas conquistas, consubstanciadas pela descoberta gradual de toda a sua discografia anterior tem sido um deleite para a minha pobre alma e continua. Ao ponto de não ter quaisquer dúvidas em estrear os magníficos cadeirões no seu concerto pós lançamento do anterior Fade. Introdução feita, avancemos para Stuff Like That There.
Delicioso álbum. Repetição de uma fórmula já testada pela banda há 25 anos atrás em Fakebook, constituído por um misto de novas músicas, com covers de outras bandas e novas versões de músicas próprias, consegue mesmo com este pressuposto soar a um álbum da banda única que são os Yo La Tengo. Começando pelo óbvio – a versão de “Friday, I’m In Love”, pela qual a banda tem sido colocada em causa pelo aproximar ao mainstream – não há como criticar algo tão simples e saboroso. “Somebody’s In Love”, descoberta no meio de centenas de músicas de Sun Ra é uma pérola. Depois há as covers de músicas próprias. Neste campeonato, temos também uma disparidade notória; se em “All Your Secrets” (Popular Songs) e em “The Ballad Of Red Buckets” (Electr-O-Pura) a variação é interessante mas pouco convincente, já em “Deeper Into Movies” (I Can Hear The Heart Beating As One) é como se uma música totalmente nova tivesse sido construída. Por fim, as novas músicas, apenas duas mas ambas claramente “yolatenguianas” versão Fade. Eu sinto falta de riffs insanos da guitarra de Kaplan ou de um baixo repetitivo de James McNew, mas tenho bom remédio, deixo Stuff Like That There chegar ao fim e é inevitável pegar num outro qualquer álbum e depois outro e depois outro e a vontade fica saciada. “For a while, at least”.
Versões de bandas tão diversas com Sun Ra, Hank Williams, The Parliaments, os Lovin Spoonful, para além dos já em cima citados The Cure mostra a riqueza de influências que os Yo La Tengo incorporam na sua própria palete musical, e que, por sorte, vêm partilhando connosco nos últimos 30 anos. Como não os amar inquestionavelmente?
Os GNR sempre foram, de certo modo, uma banda à parte no que toca ao pop português. Neste campeonato, a sua longevidade rebenta com todos, e ao longo de três décadas de carreira, já passaram por tudo: sucesso estrondoso, rasgo criativo, facilitismo, silêncio. Do tempo em que, memoravelmente, foram a primeira banda nacional a esgotar um estádio, até à digressão actual pelo interior do país e por palcos mais pequenos, a banda do Porto é parte intrínseca da nossa cultura colectiva. Quer o país queira ou não saber disso.
A atenção mediática não tem andado muito em cima dos GNR nos últimos anos, excepção feita ao extraordinário e raríssimo provocador que é Rui Reininho e as suas incursões alegadamente alcoolizadas em programas de talentos na televisão. E se, durante algum tempo, esse descuido se podia entender, este ano as coisas são diferentes. Caixa Negra, último disco de originais editado já em 2015, marca o regresso dos GNR à boa forma. E, se isto não se reflecte necessariamente em airplay e vendas, artisticamente não deixa de ser um triunfo que merece atenção. E atenção, que não se quer assustar ninguém: o triunfo artístico não significa dificuldade. Os GNR são, sempre foram e sempre serão uma banda pop de primeira água. Simplesmente, neste Caixa Negra, fazem-no a lembrar os melhores momentos de discos mais antigos como Mosquito (1998) ou Popless (2000).
O disco que nos traz aqui agora é Afectivamente, nome dado ao disco ao vivo dos GNR, o primeiro em 25 anos (o que é obra, num conjunto que já bem podia ter espremido esse filão). Este registo documenta o concerto dado a 22 de Maio no belíssimo Theatro Circo, de Braga, assente num tom mais “acústico” (leia-se mais íntimo e com arranjos diferentes) do que o habitual para os GNR. O espectáculo é um misto de temas (quatro) do disco mais recente – que funcionam de forma óptima em palco – e dos inevitáveis hits (que os portuenses têm, lembre-se, para dar e vender).
E se o termo “acústico” nos fez tremer, temendo uma daquelas xaropadas que estava na moda há 20 anos atrás, o resultado não tem nada a ver com isso. Os GNR nunca foram necessariamente barulhentos, pelo que, aqui, o que temos é menos volume mas mais definição no som. Baixo, guitarra, violino, bateria, voz e acordeão; basta isto e o ambiente do Theatro Circo para nos dar um disco ao vivo que mostra que, havendo quem saiba o que está a fazer, gravar desta forma não tem de ser um bicho de sete cabeças. Bom som, quente e íntimo apesar de o público ser audível. Reininho, o homem que teima em achar que ser artista é ser livre e até libertário (e bem), é naturalmente um dos vocalistas mais facilmente reconhecíveis da música portuguesa, e em 2015 está a cantar melhor do que nunca; com segurança e sem perder a expressividade.
Em termos de repertório, é tudo de aproveitar em 18 temas, quase todos pela pena do multi-instrumentista Toli César Machado (que juntamente com Reininho e Jorge Romão são a espinha dorsal dos GNR há uma data de anos). Destacamos o bom arranque com “Caixa Negra”, as novas versões de “Bellevue” ou “Vídeo Maria”, a recente e lindíssima balada “Dançar SOS” ou as inevitáveis “Pronúncia do Norte” (emocionante), “Efectivamente” ou “Dunas”, que continua a nunca falhar e a demonstrar ser uma das mais perfeitas músicas pop alguma vez feitas em Portugal.
O disco não está nas lojas nem nos spotifys desta vida, é distribuído gratuitamente com a edição deste mês de Setembro da revista Blitz, que entre algumas edições menos interessantes nos trouxe discos memoráveis de Rodrigo Leão ou Capitão Fausto (ao vivo), e volta aqui a acertar em cheio. Não sabemos se, tal como aconteceu com A Vida Secreta Das Máquinas, à edição com a Blitz se seguirá uma edição física do CD. Mas seria bom que tal acontecesse. Porque, de facto, não abundam os discos de GNR ao vivo e porque este “Afectivamente” é uma óptima fotografia de parte da carreira do grupo e de onde ele está em 2015. E está num bom lugar.
Seja como for, isto não tem nada que saber. A Blitz custa 3,90 euros. Não é difícil fazer as contas e perceber que, nem que fosse só pelo CD, valeria bem a pena a compra.
Em primeiro lugar, um pedido de desculpas. Music In Exile foi editado em Fevereiro e de imediato chamou a nossa atenção, mas os discos vão-se atropelando e este, injustamente, foi ficando sempre “para amanhã”. O que é uma pena, que tentamos corrigir agora.
A raiz dos Songhoy Blues está no norte do Mali, esse viveiro de talentos musicais. Em 2012, a instabilidade no norte do país, com o controlo deste por grupos de radicais islâmicos, fez com que muitos jovens fugissem da sua terra, rumando à capital, Bamako. Os novos donos do extremo norte do país tinham um particular desprezo por músicos, sobretudo jovens, e havia mesmo risco de vida se estes fossem apanhados em transgressão. A ironia é que, no meio da tentativa de silenciar a música dos jovens malianos, os extremistas empurraram-nos primeiro para a capital, que serviu de trampolim para o exterior, o mundo inteiro.
O grupo reuniu-se em Bamako, tocando inicialmente para a comunidade de refugiados que, como eles, viera fugida. O repertório era o de sempre, o familiar, o que lembrava a casa: os inevitáveis Tinariwen e Ali Farka Touré, entre muitos outros exemplos. A fama dos quatro rapazes – Garba Touré, Omar Touré, Aliou Touré (sem qualquer relação de parentesco, Touré é como o Silva lá do sítio) e Nathaniel Dembélé – foi crescendo, e acabaram por chamar a atenção do produtor que revelou ao mundo uma jóia africana chamada Amadou & Mariam. Este estava em busca de grupos locais que pudessem integrar o Africa Express – iniciativa liderada por Damon Albarn que pretende provocar o intercâmbio e a mistura entre músicos africanos e ingleses – e os Songhoy Blues surgiram no topo da lista. Sem disco gravado, mas com uma fama a crescer e uma vitalidade evidente em cada concerto (estiveram há poucos meses em Sines) foram uma escolha que agradou de imediato. Daí ao convite para gravar um disco, este Music In Exile, foi um passo. A reacção foi imediata, e os quatro rapazes pobres do norte do Mali passam agora a vida a correr mundo, partilhando com este a sua música.
E a música que temos são os tradicionais desert blues, naturalmente, com grande destaque para o trabalho de guitarra eléctrica imparável, que mais do que tudo o resto dá o swing irresistível desta banda. O seu som não é puro, está contaminado por influências rock & roll e de blues norte-americanos. No entanto, não temos aqui um conjunto de “nativos” tentando imitar o som dos seus heróis, através de covers ou aproximações. Não, as influências são indirectas, e o que temos é o calor de África, as palavras em língua local que falam de esperança e de resistência.
Num momento em que não param de surgir, felizmente, reedições de décadas ignoradas de música eléctrica africana, parece haver tanto manancial de boas coisas para descobrir que há alguma tendência para não olhar para o que, em países como o Mali, se faz no hoje, no agora. Os Songhoy Blues, com a sua história e música inspiradoras, mostram-nos que vale a pena estar atento. Como sempre, muita coisa boa se continua a fazer por África. Quando os nossos endurecidos ouvidos de europeus o captam (e será sempre menos de 1% do que interessaria), é importante não o deixar escapar, e celebrar essa alegria. Music in Exile é uma boa porta por onde começar.
Em 2014, Mac Demarco trouxe-nos o festejado Salad Days, que conquistou um notório terceiro lugar no top de discos do ano da redacção Altamont. Mas o canadiano atómico é um rapaz irrequieto, e não conseguiu esperar mais para nos presentear com mais um tomo da sua idiossincrática história. Este outro disco é chamado, apropriadamente, Another One, embora o nome tenha mais a ver com a temática geral. Este é o exercício de Demarco a fazer o seu disco de amor, ou o seu disco de apaixonado. Na verdade, o trabalho tem sido referido com um mini-álbum, nome algo estranho mas que ajuda a descrever um disco de 23 minutos, oito músicas.
Se Mac brinca desta feita ao amor – como brinca com tantas outras coisas – musicalmente a praia é a mesma. Aliás, se Salad Days era gostosa dolência que não primava necessariamente pela variedade estilística, este novo disco é ainda mais assim. Para tanto contribui o típico ambiente musical que é marca registada de Demarco: som narcótico e super-relaxado, aquela guitarra barata com som quase patenteado, soando sempre “molhada” e sempre ligeiramente desafinada e um milisegundo atrás do ritmo certo.
Como habitualmente, o canadiano gravou tudo sozinho, no seu quarto na sua casa nova (que ele, aliás, nos convida a visitar, dando a morada certa e tudo, na última música). A bateria é relaxada, como habitualmente, a voz certa e serena, sempre no mesmo tom, o baixo só aguenta a estrutura e nada mais, o simples sintetizador salienta com ar primitivo alguns ambientes e a guitarra, enfim, é aquilo que nos leva a reconhecer este artista poucos segundos depois das primeiras notas.
As músicas estão lá, na verdade. Debaixo da capa militantemente lo-fi do seu trabalho, Demarco é um óptimo escritor de canções. No entanto, o seu som de marca, com a qual ele banha tudo o que faz, é também a sua prisão, deixando-o, em alguns momentos, algo previsível.
O rapaz é, claro está, um reconhecido espalha-brasas. Desde dar concertos de cuecas, tirar e partilhar fotos suas na sanita, passando pelas foleirotas capas dos seus discos (esta é mais uma) ou pelos vídeos que parecem estar sempre a gozar consigo próprio. Kevin Parker, o senhor Tame Impala, recordou recentemente a saída de Coachella, na carrinha de digressão da comitiva Demarco, com este à janela a acenar um vibrador gigante na direcção dos seus fãs. Isto para dizer que dá um pouco a sensação de que Mac Demarco vive num esforço empenhado de sabotar-se, de não se levar demasiado a sério, de não querer nunca ficar demasiado grande. A verdade é que, com o talento que tem, ficamos sempre com a vontade de o ver fazer ainda melhor, mas para isso é preciso que ele o queira, que ele deseje levar a sua arte ao próximo nível.
Para já, Demarco quer apenas tocar música e palhaçar. Por mais que desejássemos vislumbrar se ele seria capaz de nos dar um disco de uma geração, não nos podemos queixar. Mac Demarco, o palhaço da turma musical indie desta década, continua a dar-nos boas músicas e bons álbuns. E a ser feliz assim. Tudo certo, portanto.
Talvez muita gente não saiba quem é esta menina que faz as delícias de quase toda a crítica da especialidade há já algum tempo. Talvez poucos saibam dos seus quatro álbuns publicados, todos eles dignos da maior atenção. Talvez sejam ainda menos aqueles que a conhecem desde o princípio, e a seguem como se ela fosse a next big thing das cantautoras da atualidade. Talvez, talvez. Mas na verdade, os mais atentos sabem bem dos seus predicados, conhecem os seus trabalhos, inclusivamente este último e fresquíssimo Have You In My Wilderness. Falo-vos de Julia Holter, o mais recente caso sério para os que adoram nomes como os de Kate Bush, Laurie Aderson, Joanna Newson, entre alguns outros. Acabado de sair, Have You In My Wilderness tem sido louvado de forma bem categórica, tendo obtido cotação máxima na revista Mojo, por exemplo, o que não é coisa de somenos. Esta nova menina bonita da música americana tem, como já se percebeu, disco novo, e é bem bom. Não será de admirar que venha a constar no lote dos melhores álbuns do ano em muitas publicações nacionais e internacionais, lá para finais de dezembro. Até é bem provável que aconteça o mesmo aqui no Altamont. Talvez, talvez.
Talvez o encantamento comece logo pela voz. É lustrosa e límpida ao mesmo tempo. Parece uma criança que nos canta delicadamente aos ouvidos, embora sabedora e consciente do seu próprio fascínio. Para mais, é ainda dotada de uma certa inocência (bem estudada) que lhe fica a matar. Ao ouvir repetidas vezes o fantástico tema de abertura do disco em apreço (“Feel You”, a mais pop de todas as composições do álbum), e depois de ponderar sobre os predicados que lhe atribuí, vejo-a como uma espécie de Lolita das mais recentes vozes femininas. É misteriosa, densa, erotizante, tanto quanto uma voz e meia dúzia de canções o podem ser. “How Long” e “Lucette Stranded On The Island” mostram bem o lado mais negro da luminosidade de Julia Holter. Parecem velinhas a tremer ao sabor da brisa que vai passando, frágeis e ternas, de uma beleza cativante, distendida, crescente, que vai tomando conta de nós… Ainda bem que o outono chegou, para melhor saborearmos este punhado de temas. “Sea Calls Me Home” é outra pérola, e ao chegarmos a meio de Have You In My Wilderness elas são já tantas… Como se não bastasse, o saxofone que se ouve no tema é arrebatador e de extremo bom gosto. Caminhamos até “Night Song” e temos a certeza de estarmos perante uma evidência: este é um disco adulto que parece segredar-nos coisas importantes. Coisas como a efemeridade da beleza, a procura da luz, a elegância das sombras. Vistas assim, talvez todas as dez canções do disco façam (ainda) mais sentido. Talvez, talvez.
Compositora, teclista e intérprete, Julia Holter revela-nos, neste seu Have You In My Wilderness, uma particular visão da sua arte. As suas perceções soturnas, as suas estranhas histórias (é ouvir com atenção aquilo que Julia Holter nos canta para se perceber melhor o que pretendo afirmar), a neblina sonora que se liberta a cada nova canção, tudo isso me afeta quase até às lágrimas. É tão raro prender-me assim, tão intimamente a um disco, que o perigo de catarses destruidoras pode espreitar a cada momento. Nesse sentido, este é um disco perigoso. Deliciosamente perigoso, porque nos provoca, porque nos inquieta, porque joga connosco um jogo incómodo de jogar. Pobre da arte que não for capaz de inquietar aquele a quem, mesmo sem o procurar, se destina!
Percebe-se haver neste mais recente trabalho de Julia Holter (como também acontece com os anteriores, aliás) um seguro controle composicional, paredes meias entre a vertente clássica e algum experimentalismo. Mas são as camadas de fumo, de névoa, as vozes como marés que vão e vêm, os sons estendidos como lençóis esvoaçantes, que marcam indelevelmente este Have You In My Wilderness. Talvez esteja a um pequeno passo da perfeição, ou até mesmo um passo à frente dela, mas isso pouco ou nada importa por agora.
Por vezes é necessário não ter ponta de vergonha, e avançar irresponsavelmente para aquilo que nos apetece fazer. É exatamente isso que me leva a escrever o texto que estão a ler. As razões são várias, e lá chegaremos sem grande tardança. No entanto, mais importante do que isso, há o facto de querer experimentar fazê-lo, correr o risco da escrita sobre um disco cujo género nunca me cativou, embora a audição repetida do mesmo me tenha feito pasmar perante a sua beleza, ao mesmo tempo que fui corando de vergonha ao pensar que terei de admitir o que mais à frente se lerá. Resta-me um consolo, maior do que outros que também existem, mas que deixarei à margem destas linhas: a proverbialidade de nunca dizer nunca é um ensinamento que não podemos desprezar. É simples e é verdadeiro. Intemporal, assim as circunstâncias se conjuguem ao ponto de o tornar verificável. Tudo isto, toda esta introdução já longa e árida (ninguém perceberá o que quero dizer, certamente, até ao ponto em que estou) deve-se ao facto de ter em mãos o novo disco de Rufus Wainwright. É uma ópera. Chama-se Prima Donna, e há dias que me rendo aos seus encantos.
Corria o ano de 2009 quando fui à ópera pela primeira vez. De pé atrás, uma vez que nunca havia conseguido a proeza de ter ouvido um disco do género do princípio até ao fim, lá fui até ao São Carlos para assistir a La Bohème, a ópera proletária de Giacomo Puccini. Gostei muito do que vi, mas continuei incapaz de ouvir essa, ou qualquer outra obra do mesmo estilo, em disco. Um ano depois, nova e enriquecedora experiência, dessa vez bem fora de portas. Assisti a O Barbeiro de Sevilha na magnífica ópera de Hamburgo. Mas, na verdade, não evoluí um milímetro em relação ao convívio com o género, até que, cinco anos passados, dou por mim a ouvir Prima Donna com um sorriso rasgado nos lábios e um brilho nos olhos difícil de explicar. Mais ainda, em novembro tudo farei para estar presente no Grande Auditório da Gulbenkian para ouvir e ver a ópera criada por Rufus Wainwright. No entanto, pouco ou nada sei sobre esse estilo encenado, acompanhado de música e canto. Nada mesmo. Falta-me a mais simples base de conhecimento, e por isso iniciei este texto dando ênfase ao descaramento que toma posse de mim neste momento e me faz avançar, linha após linha, na esperança de que o julgamento de quem me vier a ler não seja cruel. Mas, se o for, será certamente merecido.
Há algum tempo atrás, Rufus disse que escrever canções pop foi uma longa preparação para escrever, mais tarde, uma ópera. Esse talvez seja um dos pontos que me fez aderir tão prontamente ao disco em causa. Não que haja nele alguma aproximação às suas anteriores canções e álbuns. Mas talvez exista (estou crente que existe) um romantismo melodioso que muitas vezes encontramos nos seus discos, o que injeta em Prima Donna uma delicadeza apreciável. O que ouço, assim sendo, não me incomoda, antes me conforta. As vozes são etéreas, as harmonias também. Tudo parece tão simples (os entendidos poderão, eventualmente, dizer primário, mas eu sou leigo, repito, e isso é um bem inestimável neste contexto), tão poderoso, tão tocante, tão bittersweet… Depois, a língua francesa faz o resto.
O libreto conta uma história sem grandes ornatos ou enfeites, embora algo truculenta. No fundo, o que se destaca é a decadência da figura de uma artista, os fantasmas que povoam a sua vida e a iminência de voltar a uma ribalta que já foi sua, a realidade dura, e o sonho que se julga redentor. Janis Kelly é Régine Saint Laurent, soprano, à roda da qual tudo gira. Dividida em 38 cenas (o CD é duplo), Prima Donna não me parece ser uma ópera em bicos de pés, pronta a mostrar o génio do seu autor. Não é ímpia para com os ouvidos pouco treinados, como os meus. É doce, até. Para além de tudo isto, trata-se do novo disco de Rufus Wainwright, compositor e intérprete de que tanto gosto, que já nos deu obras maravilhosas como Poses, WantOne, Want Two ou Release The Stars.
Eu, que sempre acreditei nunca vir a gostar verdadeiramente de um disco de ópera, afirmando-o publicamente repetidas vezes, tenho agora esta pedra no sapato. Mas, aqui para nós, nunca um desconforto me soube intimamente tão bem.
Lucifer’s Friend é o autointitulado álbum de estreia da banda alemã homônima. A banda Stonewall, do vocalista John Lawton, separou-se durante uma turnê na Alemanha Ocidental em 1969. Enquanto o grupo voltava para casa, na Grã-Bretanha, Lawton decidiu ficar na Alemanha por um tempo. Naquele país, Lawton conheceu Peter Hesslein (guitarra), Dieter Horns (baixo), Peter Hecht (teclados) e Joachim Reitenbach (bateria), todos membros de uma banda chamada The German Bonds. Os cinco se uniram para gravar um álbum com o nome da banda, então Asterix, em 1970, logo depois mudando seu nome para Lucifer’s Friend.
Os primeiros álbuns do grupo foram lançados pelo seloVertigo Records na Europa, mas nos Estados Unidos, foram lançados por uma série de pequenas gravadoras independentes (Billingsgate, Janus, Passport), muitas vezes um ano ou mais após seu lançamento original na Europa. Assim, apesar do airplay em alguns mercados e de um culto de seguidores, os discos do conjunto eram difíceis de se encontrar, e o sucesso comercial lhes escapava.
Lucifer’s FriendCompacto de “de the Sky”
A banda finalmente assinou um contrato com a Elektra Records em 1977: lançou três discos com um som pop mais comercial, mas a essa altura o interesse pelo grupo havia diminuído; esses álbuns tiveram ainda menos sucesso do que os anteriores. O Lucifer’s Friend ficou conhecido por mudar de estilos musicais e de influências a cada álbum. A estreia autointitulada, de 1970, contém letras sombrias e um estilo despojado de guitarra e órgão, soando semelhante a nomes como Deep Purple, Uriah Heep, Led Zeppelin e Black Sabbath. O álbum foi gravado nos estúdios TonStudio Maschen e Windrose-Dumont Time Studios, ambos na Alemanha, com produção de Herbert Hildebrandt e coprodução da própria banda. A arte da capa, bastante sombria (para a época), foi obra do Juligan Studio. Algumas prensagens originais vinham em um belíssimo LP Gatefold.
Com uma força e um peso impressionantes, “Ride the Sky” possui um riff principal matador e John Lawton arrasando nos vocais. Que música!!! “Everybody’s Clown” possui uma pegada que lembra o Deep Purple da Mark II, com os teclados e a guitarra bem proeminentes, sendo um Hard vigoroso. “Keep Goin’” tem um ritmo cadenciado, alternando momentos de calmaria com outros de intensidade absurda, com os teclados dominantes! “Toxic Shadows” oscila em termos de sonoridades, com uma pegada jazz em algumas passagens, mostrando uma influência prog e uma atuação impecável de Lawton nos vocais.
Gatefold original de Lucifer’s Friend
Em “Free Baby”, os teclados são bem proeminentes e toques de rock espacial são muito presentes. “Baby You’re a Liar” é curta, direta, indo certeira ao ponto, com um grande trabalho do órgão e das guitarras. Que porrada! “In the Time of Job When Mammon Was a Yippie” traz uma pegada mais pesada e mais direta, na qual a potência das guitarras é fundamental. A faixa-título encerra o trabalho de forma poderosa, unindo Hard e Prog, com exuberância instrumental e vocais matadores de Lawton.
Este disco de estreia do grupo alemão se trata de um item essencial e praticamente obrigatório para os amantes dos primórdios do Hard Rock e do Heavy Metal. As guitarras cortantes de Peter Hesslein em associação aos teclados de Peter Hecht trazem à memória, bandas como o Deep Purple e o Uriah Heep praticamente de modo imediato. Toda esta massa sonora é recheada pela atuação vocal soberba do grande John Lawton, um vocalista muito competente e bastante talentoso, mas muitas vezes esquecido e subestimado.
Edição quadrafônica de Lucifer’s Friend
Este álbum é um retrato fiel do talento de Lawton. “Everybody’s Clown”, “ Toxic Shadows” e a faixa-título mesclam o Heavy Rock com arranjos complexos, dando uma amostra da sonoridade mais intrincada que o grupo exploraria no futuro. “Keep Goin’” é uma porrada, bem como a excelente “Baby You’re a Liar”. Mas a favorita é mesmo a impactante “Ride a Sky”, uma canção com o poder metálico de grupos como o Black Sabbath e a voz impressionante de Lawton.Apesar de sua inegável qualidade, a estreia do Lucifer’s Friend não fez nenhum barulho em termo das principais paradas de sucesso, a britânica e a norte-americana. A ótima “Ride the Sky” foi lançada como single, mas obteve os mesmos resultados do disco. Atualmente, o trabalho é reconhecido como uma peça influente no desenvolvimento do Heavy Metal e é um item muito procurado por fãs dos primórdios do Heavy Metal e Hard Rock, como afirmei acima. Críticas contemporâneas enaltecem o trabalho. O segundo álbum do grupo, Where the Groupies Killed the Blues, foi lançado em 1972.
Contra-capa do vinil britânico
Faixas: 1. Ride the Sky 2. Everybody’s Clown 3. Keep Goin’ 4. Toxic Shadows 5. Free Baby 6. Baby You’re a Liar 7. In the Time of Job When Mammon Was a Yippie 8. Lucifer’s Friend
Depois de dois compactos e um EP lançados entre 2017 e 2020, o quarteto gaúcho de pós-punkThe Completers, formado por Felipe Vicente (vocal, guitarra e sintetizador), Jonas Dalacorte (guitarra), Lucas Richter (baixo) e Guilherme Chiarelli Gonçalves (bateria e pads), finalmente chega ao seu full lenght de estreia. Lançado em março deste ano pelo selo Yeah You! (nas versões CD, vinil – numa bela edição na cor vermelha – e K7, além de disponível nas hoje obrigatórias plataformas digitais), o disco, autointitulado, foi gravado entre janeiro de 2023 e agosto de 2024 (à exceção das baterias, gravadas ainda em 2019), com produção da própria banda, tendo a mixagem sido feita pelo guitarrista Jonas Dalacorte e a masterização ficado a cargo do estadunidense Carl Saff, que já trabalhou com nomes como Sonic Youth, Mudhoney e Fu Manchu.
Nos pouco menos de quarenta minutos do álbum, o grupo apresenta várias das características típicas do pós-punk, como baterias secas (por vezes, soando quase como um instrumento eletrônico), linhas de baixo graves (que, muitas vezes, “guiam’ as músicas, tomando a frente dos outros instrumentos), e guitarras mais preocupadas em criar “climas” para as canções do que em executar linhas e riffs mais impactantes (além de quase não haver solos do instrumento ao longo das composições). Os vocais não são tão graves quanto os de outros expoentes do estilo (e, certamente, menos derivativos do timbre adotado por Ian Curtis, do Joy Division, quanto aqueles usados em alguns lançamentos anteriores da banda), e as composições do quarteto geralmente fogem daquela linha “arrastada e depressiva” tradicional do pós-punk, incorporando algumas passagens mais velozes e “agitadas” do que o normalmente encontrado na “cartilha” do estilo, lembrando em muito algo feito em certas canções do já citado Joy Division, ou as composições do início da carreira do The Cure (sendo Wire e The Sound outras bandas citadas como influências pelo pessoal do grupo). As letras são mais pessoais e introspectivas, como mostram versos como “Nada resta dentro de mim/E, no final, nunca conseguimos o que merecemos”, “Há uma cicatriz em meu coração/E sou o único que consegue senti-la”, “Por todas as noites que passei sozinho/E os momentos em que percebi que não tinha ninguém além de mim”, “As memórias de nós dois estão desaparecendo/E as imagens das risadas e dos choros já não existem mais” ou “Eu não pertenço a esta estrada que percorro”, algo que, novamente, lembra os textos de Ian Curtis e do Joy Division.
The Completers: Felipe Vicente, Lucas Richter, Guilherme Chiarelli Gonçalves e Jonas Dalacorte
Das dez faixas do registro, duas já haviam aparecido nos lançamentos anteriores (as “rápidas” “End”, que abre os trabalhos do disco, e já havia sido lado A do compacto de 2020, e “Silence”, faixa título do compacto de 2017), as quais são destaques dentre o track list da estreia do The Completers, ao lado da longa “Hypnosis” (com mais de sete minutos quase todos instrumentais, e que, para mim, apresenta os melhores trabalhos de guitarra do álbum), da mais lenta “Bag Of Bones” (que apresenta um vocal um pouco mais grave que as demais composições do álbum) e de “Innocent Boy”, uma composição mais “marcada”, que vai construindo um angustiante clima em “crescendo” que, infelizmente, não chega a “explodir” como promete fazer ao longo de seus pouco mais de dois minutos e meio. “Past Year”, outra faixa mais rápida que o usual no mandamento do pós-punk, foi escolhida como primeira faixa de trabalho do álbum, ganhando inclusive um vídeo clipe, dirigido pelo cineasta Theo Tajes.
A mais cadenciada “Please Me” tem um violão como destaque ao longo de sua duração, enquanto o uso dos teclados e sintetizadores, ao contrário do que ocorreu nas composições do EP Unspoken Signals, acabou bastante restrito neste álbum de estreia, sendo utilizado mais para criar “climas” em algumas poucas faixas, e alcançando um destaque maior apenas na marcada “Symptôma”, em partes da citada “Hypnosis” e mais ao final da faixa de encerramento, “Mirage”, que, com quase seis minutos, é a única (ao lado de “Hypnosis”) a ultrapassar os cinco minutos, sendo que apenas a citada “End” e a lenta “Chemicals” (que lembra algo dos primeiros registros do Cure com Simon Gallup na formação) passam dos quatro minutos, com as demais ficando entre os dois minutos e meio e uma duração pouco maior que os três minutos.
Contracapa da versão em vinil de The Completers
The Completers é uma bela estreia para o grupo porto-alegrense, que completou dez anos de existência neste 2025, e vem a somar bastante em um estilo musical que já não anda mais tão em alta no país quanto em décadas passadas, mas que ainda insiste em permanecer ativo e atuante, ainda que muitas vezes em bandas sem tanta divulgação e mais voltadas ao underground. Que um segundo registro completo não demore tanto quanto o primeiro, e que a carreira do quarteto ainda traga mais melodias para iluminar (ou escurecer de vez) as almas dos fãs do pós-punk pelo país. Aguardemos!
Track List:
1. End 2. Past Year 3. Symptôma 4. Chemicals 5. Hypnosis 6. Please Me 7. Silence 8. Bag Of Bones 9. Innocent Boy 10. Mirage